Cão-guia!

Foto: Maria Teresa Bonatti
Foto: Maria Teresa Bonatti

Sempre vamos colhendo histórias que a vida vai nos contando. A que passo a narrar agora é deveras interessante, emocionante, linda e exemplar!

Na verdade eu sempre tive muita curiosidade e admiração pelos cães-guias!  Um trabalho que a natureza prova e assina embaixo que o cão é o melhor amigo do homem, mesmo! Daí o porquê do conceito de fidelidade, quando se diz “fidelidade canina!”.

Nossa vizinha de porta e também colega de profissão, a médica veterinária Maria Teresa Bonatti, sócia proprietária do Laboratório de Análises Clínicas Biovet, localizado na 4ª Avenida em Balneário Camboriú-SC, chamou- me a atenção por andar sempre com um belo cão de nome Bolt, da raça Labrador Retrivier, pelagem preta, porte grande, com 5 meses de idade…

O Bolt usava um colete de cor verde. Chegando mais perto pude ler que nele estava escrito “Cão Guia em Treinamento”.

Não me contive e perguntei se a colega podia me contar algo sobre o cão-guia, pois sempre tive curiosidade de saber! Gentilmente, contou-me que em Balneário Camboriú fica a Escola de Cães-Guias Helen Keller, que é um centro de formação e treinamento de cães-guias. A escola conta com uma estrutura física, material e de recursos humanos para atender a sua finalidade que é a formação dos sociabilizadores e treinadores dos cães-guias (caoguia.org.br).

São pessoas voluntárias, não remuneradas que doam seu tempo dando um enorme exemplo de amor ao próximo e ao cão.

Ao meu ver, o gesto desses voluntários são “córneas transplantadas” que contribuírão para que o deficiente visual enxergue através dos cães por eles sociabilizados e treinados.

Eles sociabilizam o filhote mostrando o mundo a eles, fazendo-o passar por diversas situações do dia a dia, levando-o ao trabalho, passeio em shoppings, supermercados, restaurantes, igrejas, etc. introduzindo o cão à sociedade da melhor maneira possível para que após 13 meses, o cão agora sociabilizado, esteja pronto para seguir para a outra fase que é o “treinamento específico”, que é quando o cão retorna à escola para receber o treinamento por treinadores experientes, contratados com uma duração média de 8 meses.

Este treinamento ensina o cão a auxiliar o deficiente visual nas diversas atividades de rotina da vida, como andar de ônibus, atravessar as ruas, entrar em estabelecimentos, desviar de objetos, buracos, pisos irregulares, etc.

Todos os cães em sociabilização são mantidos pela escola com vacinas, rações, castração, visitas ao veterinário, brinquedos, caixa de transporte, cobertor e outras necessidades que o cão possa ter ao decorrer da sociabilização.

Me chamou a atenção que desde filhote os cães reconhecem sua responsabilidade perante à sociedade e aprendem com o sociabilizador, a diferenciar o horário de trabalho com o horário de recreação. Quando estão sendo sociabilizados ou treinados, os cães obrigatoriamente em lugares públicos, devem usar o colete de identificação de “cão-guia”. Com este colete e com a carteirinha de identificação, o cão está autorizado a entrar em qualquer estabelecimento amparado pela Lei nº 11.126 de 27 de junho de 2005.

Ao tirar o colete ele se torna um cão comum sem os direitos diferenciados. Quando o cão está com o colete ele deve saber que está em horário de trabalho. E ele sabe. Neste período o cão não brinca, não aceita petiscos, não faz as necessidades fisiológicas e sobretudo fica atento com tudo o que ocorre ao seu redor e nas imediações. Sua dedicação é 100% ao deficiente visual. Um atendimento ímpar, perfeito!

Quando o deficiente chega ao seu local de trabalho ou de lazer, o cão fica deitado ao seu lado até que termine o expediente. Ao contrário do que muitos pensam, o cão não está fazendo sacrifício algum, não está sendo judiado. Este perfil comportamental está em sua genética, na linhagem dos seus ancestrais, no seu DNA. Ele está cumprindo o seu papel laboral prazerosamente, sem sacrifício algum.

Quando você vir um cão-guia com o colete, não o agrade, não assobie, não chame a sua atenção com qualquer gesto de carinho. Ele não está brincando, ele está trabalhando!

A socializadora Maria Teresa conta que a cumplicidade e o elo com o cão são muito intensos, e é muito doído na hora da entrega, da despedida, quando o cão é devolvido à entidade para receber o treinamento propriamente dito, pois não é nada fácil se desapegar do animal, que por longos 13 meses foi sua companhia inseparável. Mas esta barreira do desapego fica mais leve, por saber que o cão será a visão do cego e que pelo trabalho, amor e dedicação deste socializador, o cão  trará mais segurança ao deficiente visual e uma melhor qualidade de vida, podendo até viajar acompanhado somente do seu cão-guia. Fiquei surpreso também ao saber que o cão transfere imediatamente todo o amor, que até então era pela sociabilizadora, ao deficiente, como se fossem velhos conhecidos. Incrível, não?

Disse ainda a jovem veterinária, que mais pessoas deveriam ser sociabilizadoras, pois trazem muita alegria e felicidade para si e para o cego. E conclui dizendo com a boca salgada pelas lágrimas, mas com uma doçura no coração que realmente vale muito a pena! Um dia destes, eu caminhava pela orla com a Sonia, minha mulher, quando avistamos a Maria Teresa com o Bolt andando pela calçada oposta. Exclamei: “Ali vai um anjo de duas pernas e um anjo de quatro patas!”.

Crônicas recomendadas: A profissão mais importante ; Fidelidade canina

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