Ele era assim…

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Conheci por mais de 35 anos aquele homem, que dentro da sua simplicidade de ser ajudava as pessoas a acharem o norte da suas vidas, como o ponteiro da bússola acha o norte magnético.

Sábios conselhos, seus gestos e ações estavam incrustados em sua personalidade, como as raízes pivotantes das grandes árvores estão fixadas no solo.

Hábitos madrugadores impulsionavam seus dias laborais na empresa e no período noturno se envolvia com a educação.

Autodidata, empunhava a bandeira do saber, transmitia conhecimentos dos livros na sala de aula e exemplos vivenciais através dos seus gestos e atitudes.

Como diretor da Escola Técnica de Comércio, tinha um jeito especial de matricular os jovens que não queriam estudar. Até hoje não vi nada igual. Dava-se o direito de ir em suas casas com um grande caderno debaixo dos braços e depois de muita conversa, saía com a matrícula feita e os documentos pessoais dos alunos os quais eram devolvidos somente após o primeiro mês de aula do ano letivo.

Soube de vários casos de ir buscar os “rebeldes” em casa, em bares ou na praça e levá-los até a escola. Depois das aulas, fazia a entrega a domicílio. Criava um constrangimento nos passageiros e em suas famílias, mas a partir da terceira ou quarta vez, eles tomavam seus rumos à escola sem a ajuda do professor. Era a técnica do vai ou vai…

Dentre muitos casos, o que mais me chamou a atenção foi o de uma prova de final de período, em que um aluno por estar hospitalizado iria perder o ano. Pois o abnegado homem, levou o professor até o leito hospitalar e a prova verbal foi realizada ali mesmo, na companhia do médico e de uma enfermeira  que espantados nunca tinham visto nada igual dentro das suas profissões. Prova feita. Resultado:  aprovado! Salva de palmas do doutor e da enfermeira. Alegria geral! Dois dias depois, o aluno paciente ou o paciente aluno, teve alta. Missão cumprida!

Até hoje por onde vou, colho depoimentos e histórias como a última que ouvi dias destes, na eleição do Jóquei Clube em Curitiba. Numa roda de amigos, falava um eminente jurista: “Devo o que sou a um grande homem de uma pequena cidade do interior… este homem me fez estudar e tomar gosto pela vida”. Contou algumas histórias que eu já conhecia. Visivelmente, fui tomado pela emoção. Ele notou. E olhando para mim com certo espanto me perguntou “Você o conhecia?”… “Sim”, respondi… “este homem do qual você está falando conheci muito bem… ele era o meu pai.”

Crônicas recomendadas: Cão-guia! ; O carancho!

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