Espiando a Tarde

Foto: Joseli Gross Costa
Foto: Joseli Gross Costa

A crônica de hoje é uma homenagem a Palmeira, minha cidade natal que completa seus 198 anos nesta sexta

 

Estou aqui, sozinho, espiando pela janela a chuva que agora cai. Frio de inverno em dia de primavera. Tarde preguiçosa, bucólica, nostálgica. Volto aos tempos da infância feliz, que parece ter sido ontem…

Minha imaginação revolve meus neurônios e dou um pulo no passado… Sinto o aroma do café que vinha da cozinha, passado pela mãe num coador de pano no fogão a lenha, é claro.  Escuto o pai chegando da fábrica, através do ronco do motor da Buick, solavancando ao entrar na garagem. Escuto também o repicar dos sinos da Matriz, a sirene da fábrica e o apito da Maria Fumaça, o trem da três que passava pontualmente às seis horas.

Meus irmãos mais novos na algazarra cotidiana para a obrigação do banho vespertino, que acontecia às vezes na base do solavanco, igual ao da Buick… eu por ser o mais velho, ia primeiro, para não precisar limpar o banheiro…

A chuva, tamborilando no telhado, escorre pela parede da churrasqueira e lava o pó acumulado pela estiagem, parecendo escrever pelas paredes com uma caligrafia igual a do alfabeto hebraico. Muito enigmático. Deveras interessante…

As plantas sedentas parecem agradecer a água que lava suas folhas e mata a sede das suas raízes… parecem estar felizes por inteiro. E estão.

Neste silêncio, dá para escutar a grama crescer. Força de expressão. Mas se ficar bem quietinho, dá mesmo…

O sabiá solitário trina seus últimos solfejos despedindo-se da tarde e saudando a noite que está quase chegando…

Escuto também o cantar de uma corruíra. Não a vejo, mas admiro a sinfonia afinada do seu cântico mavioso…

Alguns pardais também festejam a chuva e se despedem do dia. Cantam muito mal, mas cantam… Transferem suas alegrias como podem… deveríamos ser assim também…De qualquer maneira, de qualquer jeito, externar nossas alegrias, agradecimentos, reconhecimentos, enfim, tudo o que vem de dentro da gente. Do nosso interior, da nossa essência.

Ao longe, ontem se via o campo, agora,  só casas e telhados. A cidade cresceu. Sinal de progresso, de evolução, de ascendência social. Muito bem! Muito bom!

De repente, meus pensamentos se volatilizam… Recordei-me que há muitos anos, a Rádio Ipiranga (ZYP7) transmitia no final da tarde “A hora do lar cristão”, e  que no momento do Ângelus, o Sr. Oscar Teixeira mandava seu recado através da Ave Maria!

Era uma hora de reflexão e oração. Todos com o terço na mão… Orai irmãos!

A tarde está se indo… Sem o cheiro do café, sem o barulho da Buick, sem minha mãe e meus irmãos que não estão aqui. Meu pai em outra dimensão. Quanta saudade. As lembranças doem no coração, mas a alma agradece por estes momentos.

A tarde se foi… e eu também.

Boa noite!

 

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