O aroma da laranjeira

Foto: Mérula - Estúdio de Ilustração e Editora
Foto: Mérula - Estúdio de Ilustração e Editora

Há mais ou menos uns três anos, partilhei de um churrasco na Fazenda Palmeira, berço da Família Baptista, com seu proprietário Eloi Cherobim.

Estávamos sentados em um banco perto de uma das portas, de onde se via alguns pinheiros e na distância, lá embaixo, a cidade.  Em tempos idos seus moradores puderam acompanhar o crescimento da velha Palmeira, ainda mocinha.

Mas voltando à fazenda…

No meio de um espaço verde, ainda de pé  com as marcas do tempo, arqueada, com aspecto de grande senilidade, estava ali uma laranjeira que, segundo o Eloi, fora plantada há mais de cento e cinquenta anos. Única, solitária. Trazia-lhe grandes lembranças, pois namorava a Iracema em um banco postado aos seus pés.

Com o olhar distante, perdido no tempo e na laranjeira,  contou-me algumas histórias da sua juventude e que três ou quatro vezes por mês, vinha até ali para namorar.

Saía a cavalo do Pinheiral, interior do município, distante uns vinte quilômetros da fazenda. Para voltar, mais vinte. Podia estar frio, chovendo, inverno ou verão, ele encilhava o bragado e vinha na marcha batida e por vezes trotada, para encontrar sua amada.

Quando escurecia, aquele cavaleiro solitário retornava, tendo como companhia as estrelas, a lua e o piar de alguns pássaros de hábitos noturnos… Dormir na casa da namorada? Nem pensar. Naquele tempo? De jeito nenhum… Era mais fácil a laranjeira produzir pêssegos …

A solitária frutífera fora testemunha do namoro, do noivado e do seu casamento.

Tudo aconteceu ao seu redor. Testemunha da sua história.

A festança do casório? Claro, ali mesmo, onde a laranjeira serviu de altar. Depois, um lugar especial aos nubentes que esta mesma árvore ofertou-lhes: a sombra! Presente da laranjeira, que sempre esteve presente na vida dos dois.

Por certo, a companheira laranjeira perfumou suas almas e floriu suas vidas por muitas primaveras…

Na nossa conversa, o Eloi desabafou… “Sabe João Marcos, não consigo mais olhar a laranjeira. Retrocedo ao passado, lembro muito da Iracema”… Vi duas lágrimas verterem dos seus olhos.. e antes que ele as enxugasse, molhei meus dedos nelas, fui até a laranjeira e carinhosamente passei em seu tronco. Foi um momento de rara emoção. De longe, o sorriso fraterno do Eloi, agradeceu meu gesto. Não falamos mais nada. Nem precisava…

 

PS.: Dia destes voltei à fazenda com um grupo de amigos, a convite do Carlito para outro churrasco… Fotografei a árvore… O Eloi não está mais entre nós..

Por onde andei, senti o aroma da flor da laranjeira… Precisa falar alguma coisa? Acho que não…

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