A história do Paraná foi a missão de vida de Cecília Westphalen

cecília westphalen jovem

Cecília Westphalen foi a criadora do curso de mestrado em História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), um dos mais bem conceituados do Brasil , no final dos anos 60.

Entre 1958 e 1959, cursou pós-graduação na Faculdade de Filosofia da Universidade de Colônia, Alemanha, e na 6ª Sessão da École Pratique des Hautes Études, em Paris, especializando-se em História Moderna e História Contemporânea. A historiadora e escritora possui mais de 200 trabalhos publicados no Brasil.

Esta entrevista foi gravada em dezembro de 1997.

Clique aqui para conferir outras postagens desta coluna.

livro cecília westphalen

José Wille – A senhora nasceu em 1927, na cidade da Lapa…

Professora Cecília – Eu me chamo Cecília Maria Westphalen. O meu bisavô, Eugênio Westphalen, nascido em Berlim, era filho de um burgomestre, Dr. Felipe Fernando Westphalen, e migrou para o Brasil em 1824. Ficou dois anos em Salvador, na Bahia, depois veio para o Rio de Janeiro e, segundo a tradição da família, pretendia dirigir-se para o Rio Grande do Sul, onde começavam a chegar imigrantes alemães. Todavia, ao chegar à Lapa, se encantou por aquela paisagem – quem não se encantaria? Ainda hoje, a gente se encanta – e ficou por lá pelo resto dos seus dias. Ele morreu em 1893, teve muitos filhos e alguns foram para o Rio Grande do Sul. No Rio Grande do Sul, existe até uma cidade que se chama Frederico Westphalen, que era saído da Lapa. O meu pai, que era farmacêutico na Lapa, filho do primeiro farmacêutico diplomado no Paraná, que foi Olympio Westphalen, saiu da Lapa por várias razões, principalmente em virtude da Revolução de 1930. Ele trabalhou, primeiro, na construção da estrada de Curitiba a Joinville, com a tropa do Exército; depois, foi ser farmacêutico na Vila de Fernandes Pinheiro e, mais tarde, em Irati. Nesta época, eu frequentei o final do ensino primário até a terceira série do ginásio. Em 1944, viemos de mudança para Curitiba, onde me diplomei no ginásio e fiz a Escola Normal.

José Wille – O interesse pela História, onde surgiu?

Professora Cecília – Eu lia muito, principalmente nos tempos de Fernandes Pinheiro, pois não havia escola para mim lá. Tudo que caía em minhas mãos, eu lia. Em Irati, me recordo que o primeiro livro mais pesado, mais massudo que li foi a História Universal – foi o primeiro livro que comprei de História, pois sempre tive esta grande curiosidade. Agora, por que eu me encaminhei para a História? Fui alertada pelo meu irmão Olympio Luiz Westphalen, que se formou antes de mim, lá no ginásio de Irati, e que veio para Curitiba fazer o curso de Geografia e História na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Eu nem sabia da existência desse curso e passei a me interessar pelo assunto. Quando já estava em Curitiba e conclui a Escola Normal, várias colegas minhas e grandes amigas que eu tenho até hoje foram fazer o Curso de História e Geografia. Eu pretendia fazer Direito, mas acabei indo fazer o curso de História. E posso contar uma anedota sobre o professor Brasil Pinheiro Machado, que perdemos recentemente. Fui fazer em terceira chamada, pois, naquele tempo, não havia tantos candidatos e sobravam vagas. Então, quem quisesse entrar fazia a segunda, terceira e quarta chamadas. Fiz exame, estava me saindo muito bem no exame oral e ele me perguntou “Dona Cecília, como era o nome da mãe de D. João de Avis?” e eu levei um susto, porque eu não sabia. Sabia tudo, menos aquilo! Aí, olhei para ele e disse “Professor, eu não sei!” e ele me respondeu “Então, ganhou 10, porque, se soubesse, tirava zero. Quem quer saber o nome da mãe de D. João de Avis? Que interesse tem isso, não é?”. E eu ganhei 10 no exame oral de História do Brasil.

José Wille – Era uma época difícil, com Segunda Guerra Mundial. Houve dificuldade financeira para sua família, mas teve quem lhe ajudasse a prosseguir nos estudos. Como foi?

Professora Cecília – Era uma época muito difícil. Inclusive meu pai, nesse tempo, teve que se tornar viajante, vendedor de produtos farmacêuticos. Ele era farmacêutico, mas não podia ter uma farmácia. Eu me formei na Escola Normal, em 1946, e comecei a trabalhar. Fui nomeada professora-substituta do ensino primário, no dia 3 de outubro, mesmo antes de me formar, em dezembro, graças a Deus. Então, quando entrei na Faculdade de Filosofia, eu podia pagar meus estudos. Eu queria fazer Direito, mas Direito era muito mais caro. E havia um cidadão em Curitiba, de origem israelita, que emprestava dinheiro, o seu André – confesso que não me recordo o sobrenome dele, nós o chamávamos de Andrezinho – que me emprestou dinheiro para fazer a matrícula e pagar a anuidade durante os 5 anos de faculdade. Quando terminei a faculdade, fui levar à casa dele o convite. E, para surpresa minha, dali a alguns dias, chegou o Andrezinho lá em casa – e eu já não devia mais nada a ele. Como eu não estava, minha mãe o recebeu. Ele deixou uma caixa e foi a única vez na minha vida que eu ganhei o (perfume) Chanel Número 5.

José Wille – E acabou sendo importante, como incentivo, esse auxílio para os seus estudos.

Professora Cecília – Claro! E acabou sendo importante, sobretudo para a minha compreensão de que o ensino pago, mesmo com dificuldade, não mata ninguém.

José Wille – A sua história se confunde com a história da Universidade do Paraná, que é considerada a mais antiga do Brasil. A senhora passou praticamente 50 anos de sua vida trabalhando dentro da universidade, acompanhando parte da história da instituição, no momento em que houve a reestruturação e a federalização.

Professora Cecília – Certa feita, já escrevi e repito hoje: a Universidade do Paraná foi e é a criação mais importante dos paranaenses. A universidade forneceu para a civilização paranaense, para a cultura paranaense, para o desenvolvimento do Paraná, os quadros superiores de que o estado necessitava. E não só o Paraná; muita gente veio de outros estados, até mesmo longínquos. Eu mesma tive alunos do Pará, do Amazonas, do Piauí, para não falar de São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul. A Universidade Federal do Paraná constitui a mais legítima contribuição que os paranaenses criaram, mantiveram e mantêm. E, oxalá, meu Deus, continuem a manter!

José Wille – Que condições existiam em 1912 para que o Paraná tivesse a criação de sua universidade?

Professora Cecília – O Victor Ferreira do Amaral, que foi o criador da universidade, quando ia aos líderes políticos do Paraná – e ele era um deles nessa ocasião – dizia-lhes que vissem o exército de paranaenses que desejavam elevar o seu nível educacional, mas que não tinham condições para estudar em São Paulo, estudar no Rio, em Recife. Também era um momento em que a conjuntura era propícia, não somente pela legislação de ensino, que permitia a criação de estabelecimentos de ensino superior, mas porque a conjuntura também era favorável, pois havia, primeiro, o interesse e o apoio do governo do estado e, segundo, a ansiedade dos paranaenses pela afirmação da sua identidade. Acho que foi muito importante, para os paranaenses, a criação da universidade, inclusive em face dos problemas dos contestados – não somente o contestado em relação à Santa Catarina, mas também em relação a São Paulo.

José Wille – Politicamente, para a formação de lideranças e a afirmação do estado, era fundamental, naquele momento, a criação da universidade.

Professora Cecília – Exatamente.

José Wille – Por que a universidade tem esse título – a mais antiga do Brasil?

Professora Cecília – Tenho ensinado tanto, mas não me canso de ensinar. É meu dever, como historiadora, como universitária paranaense. O ensino superior no Brasil foi muito tempestuoso. Não preciso fazer a história do ensino superior desde as negativas da metrópole em autorizar a presença do ensino superior, embora em muitos conventos, em muitos mosteiros, em muitos colégios, houvesse um ensino de nível superior, mas universidade, não. Embora houvesse ensino superior desde a criação dos cursos jurídicos no Brasil, desde as tentativas todas de outros cursos, como o de Medicina e o de Farmácia – meu avô mesmo, falei disso há pouco, foi o primeiro farmacêutico formado na Faculdade de Farmácia do Rio de Janeiro. Embora houvesse todos esses percalços na conjuntura do início do século, a legislação permitia a criação livre de cursos superiores e até mesmo de universidades. Aí, reuniram-se os paranaenses, um grupo aqui, um grupo ali, e criaram, instalaram e colocaram em funcionamento a Universidade Federal do Paraná, que nunca mais deixou de funcionar, até hoje. Não vamos falar naquelas tentativas do Amazonas, da própria São Bento, de São Paulo, não é? A nossa universidade pode não ter sido, no papel, a primeira a ser criada, mas foi, no papel, a primeira criada, instalada e em permanente funcionamento. A Universidade Federal do Paraná é a mais antiga do Brasil.

José Wille – Mesmo nos períodos em que houve a divisão e, mais tarde, a reestruturação, sempre se manteve funcionando?

Professora Cecília – A universidade apresenta três primeiros grandes momentos. O primeiro foi este, o da criação. Depois, em face da lei, ela teve que ser desmembrada em faculdades isoladas para que seus cursos pudessem ser reconhecidos, mas nunca a universidade retirou do seu frontão “Universidade do Paraná”. E o dr. Victor Ferreira do Amaral  continuou a ser o diretor de todos as faculdades isoladas, pois não houve sequer desmembramento administrativo. E me recordo, pois isso me foi dito por ele mesmo, que o próprio professor Pedro Calmon, que tinha ligações com familiares em Curitiba, apiedava-se muito dos paranaenses, pois passava na Praça Santos Andrade e via lá a Universidade do Paraná, e não existia a Universidade do Paraná. Assim, quando da redemocratização do país, em 1946, foi política do governo federal a criação de universidades. E Pedro Calmon foi, justamente, o encarregado de realizar esta política e foi um dos batalhadores da restauração. Então, não criamos a universidade em 1946, restauramos a universidade que já existia. Depois, em final de 1950, ela foi federalizada. São os três grandes momentos da história da universidade: a criação, a restauração e a federalização. Acrescento um quarto grande momento, a meu ver, para a história da universidade, que é a conjuntura da criação, instalação e funcionamento dos cursos de pós-graduação, que deu nova vida, novo alento e, sobretudo, desenvolveu mais intensamente a pesquisa científica na universidade.

José Wille – No final da década de 40, a senhora estava ingressando na universidade e, mais tarde, veio a dar aulas na própria universidade. Havia muito idealismo do professor da universidade, apesar das dificuldades?

Professora Cecília – Também já escrevi isso uma vez. Éramos pobres, mas éramos felizes. Na Universidade do Paraná da época anterior à federalização, havia poucos recursos. Para dar o meu exemplo, eu lecionava na cadeira de História Moderna e Contemporânea. Como ramificação dessa cadeira, eu lecionava Civilização Contemporânea no Curso de Jornalismo. Em virtude de impedimentos, por cargos administrativos do diretor, eu lecionava também História Antiga e Medieval. Por falta de professores de Didática, eu lecionava esta disciplina também, mas só recebia por História Moderna e Contemporânea. Eu tinha uma carga horária de 30 a 33 horas de aula por semana e recebia por apenas 6. Ninguém achava ruim e muitos outros faziam o mesmo.

José Wille – A senhora chegou, mais tarde, a dirigir o setor de Ciências Humanas, participou do Conselho Estadual de Educação, passou por cargos administrativos no estado e na própria universidade. Foi uma perda para a sua produção como pesquisadora, ou foi possível conciliar estas funções?

Professora Cecília – Eu fui chefe do Departamento de História, fui coordenadora de Curso de Pós-Graduação em História, fui coordenadora dos Cursos de Pós-Graduação da Universidade, fui presidente do Conselho de Ensino e Pesquisa da Universidade, fui do Conselho de Contas da Universidade e fui diretora do Setor de Ciências Humanas, Letras e Arte. Enfim, exerci uma gama de atividades administrativas na universidade. É claro que esse exercício me fez diminuir o ritmo da pesquisa, mas não paralisá-lo. Continuei dando minhas aulas normais e continuei a realizar minhas pesquisas, tanto que hoje, já aposentada há algum tempo, ainda tenho muito material coletado. Os meus colegas caçoam, dizendo “A senhora vai lá, no seu baú, e acha coisas, não é?”. Mas, claro, trabalhei muito na coleta de material e, nessa época em que eu não podia escrever, não podia refletir, porque estava aplicada em atividades administrativas, o material ficou lá, coletado. Eu agora estou aproveitando essa fase.

José Wille – A senhora tem pesquisas sobre várias etapas da História do Paraná. Vamos começar pelo Porto de Paranaguá.

Professora Cecília – Tenho trabalhado com o Porto de Paranaguá desde 1960 e não considero ainda pronto o trabalho. Já publiquei muita coisa, diversos trabalhos, dezenas de trabalhos sobre o movimento de mercadorias, ou seja, de importações, exportações, entradas e saídas de navios através do Porto de Paranaguá. Pesquisei muito também sobre a procura do ouro no século XVII, que foi o que motivou a presença destes luso-paulistas aqui no nosso litoral, dando início ao seu povoamento. Pesquisei muito sobre as plantações de mandiocas, as plantações de arroz no litoral, todas essas mercadorias que alimentavam o comércio, até que se chegou ao grande momento, já no século XIX, das exportações de erva-mate. Foi somente depois de todos aqueles movimentos, tanto no Prata como no Brasil, que houve a abertura de nossos portos, quando a erva-mate passa a ser exportada. E pesquisei bastante também sobre as relações e os porquês: porque Paranaguá e porque não Antonina, toda essa rivalidade que, durante o século XIX, houve entre esses dois portos. E, finalmente, levei meus estudos até a década de 1930. Estou revisando o trabalho final, neste momento, sobre a História do Porto de Paranaguá. Penso que vai dar um volume de umas 600 a 800 páginas, com muitos mapas e, principalmente, com muitos leques de curvas, mostrando toda a oscilação conjuntural desse comércio, tanto no que diz respeito aos navios como às mercadorias.

José Wille – Outros estudos realizados pela senhora, falam das diversas fases da História Econômica do Paraná.

Professora Cecília – Certo, certo… Estou demorando tanto em realizar este trabalho… Em uma ocasião, eu era aluna de Fernand Braudel, e era minha colega, no seminário dele, uma historiadora francesa, que estudou e estuda ainda hoje a produção de ouro que os espanhóis retiraram da América, principalmente do Peru. E o professor Braudel brincou com ela “Mas você está com esse trabalho pronto! Por que não solta, não divulga esse trabalho?”. E ela respondeu “Porque tenho ciúmes, não quero que ninguém veja”. Então, acho que estou ficando meio assim também. Quando vou reler o trabalho de Paranaguá, eu digo “Mas falta ainda isso, falta ainda aquilo, eu ainda posso fazer isso…”. Já disse que o iniciei em 1960; hoje, estamos em 1998; então, são 38 anos… De mais de 40 anos ele não pode passar! Para as festas do Centenário do Ano 2000, certamente ele estará pronto.

José Wille – Como a senhora resumiria cada uma destas fases econômicas pelas quais o Paraná passou?

Professora Cecília – O Paraná – há pouco, publiquei “O Barão dos Campos Gerais e o Comércio de Tropas” – no século XVI, foi tomado pelo desejo dos luso-paulistas de encontrar, em Paranaguá e em Curitiba, o ouro. Mas o ouro era pouco e logo se acabou. E durante o final do século XVII e século XVIII, as nossas populações, ou seja, as do litoral, as de Paranaguá e as do Planalto de Curitiba, levavam uma vida muito pobre. Paranaguá pôde sobreviver graças à produção da farinha de mandioca, que passou a exportar para a Colônia do Sacramento e para o Rio de Janeiro, Salvador, Pernambuco – o que Frederico Moreau chama de interciclos. Entrou o ciclo do ouro e, para nós, o ciclo do tropeirismo, das tropas, a partir de 1730, particularmente por causa da abertura da Estrada do Viamão, quando puderam ser introduzidas as tropas de mulas, vindas do Rio Grande para as feiras de Sorocaba, e também por causa do estabelecimento de fazendas de criação de gado, nos Campos Gerais. Aí, tivemos a produção e a extração de gado vacum, para exportação para São Paulo e Minas Gerais, e o comércio das tropas muares, vindas do Rio Grande do Sul, para o fornecimento desses mercados – Minas Gerais, por exemplo – que estavam tomados pela produção aurífera. Mais tarde, já no século XIX, foram tomados pela produção do café. Com a ampliação do comércio de tropas, os Campos Gerais deixaram, pouco a pouco, de serem produtores de gado vacum para a exportação. E as grandes fazendas existentes foram divididas em invernadas para o descanso e preparação destas tropas para o comércio de Sorocaba. E lembrei agora: há um mito na história do Paraná, que eu atribuo ao Saint-Hilaire, que fez um comentário mais ou menos assim “Nunca vi gente tão branca como em Curitiba”. Existiu regime escravo no Paraná, houve a marcante presença de escravos na economia, na população e na sociedade paranaenses do século XVIII e XIX. Claro que não tivemos uma escravaria com os percentuais do Maranhão, 88%, nem da Bahia, mas tivemos, de forma muito expressiva, a presença de escravos e, sobretudo, dos seus descendentes. Quando tomamos conjugadamente pretos e mulatos, estas proporções são grandes, são superiores, às vezes, a 40%. E isto é muito bem visto, por exemplo, na população do litoral. Na população do Planalto Curitibano, é menor essa proporção, mas nos Campos Gerais, embora a economia fosse da pecuária, é grande a presença de escravos e seus descendentes. Terminei, recentemente, um trabalho sobre o título “Afinal, existiu ou não regime escravo no Paraná?”, em que procuro mostrar essa presença, no litoral do Paraná, no Planalto Curitibano, nos Campos Gerais, bem como na economia e na sociedade. E teço até algumas considerações jocosas porque, após estudos de Octávio Ianni, de Altiva Pilatti Balhana, de Márcia Graf, de Carlos Roberto Antunes dos Santos, que estão publicados, não é possível desconhecê-los e, mais ainda, não é possível a qualquer erudito desconhecer as fontes. No Paraná, em vários dos seus municípios, nos cartórios e nas igrejas, existe documentação sobre escravos. Se formos aos arquivos em São Paulo e Rio de Janeiro, está lá, copiosamente, a documentação sobre a presença de escravos. Então, os escravos não vieram aqui gozar as delícias das praias paranaenses, nem vieram gozar aqui do Paraíso Terrestre, como disse Saint-Hilaire, não vieram somente para tocar na Banda do Capitão, lá de Morretes, que visitava periodicamente Paranaguá com sua banda de escravos. Enfim, são fontes, são dados, são presenças que não podemos ignorar.

José Wille – Professora, a chegada dos imigrantes, em 1870, de que forma influenciou  a sociedade paranaense da época?

Professora Cecília – A entrada de imigrantes no Paraná insere-se na política geral do Império Brasileiro – política, aliás, dupla. Havia a necessidade de braços para a lavoura de exportação, mas havia também a necessidade de introdução de braços livres para as lavouras de abastecimento ou subsistência. A política nacional foi muito tímida, não quero dizer dúbia, mas não consistente. O Paraná, ao contrário, teve muita consistência em sua política imigratória. A instalação da Província do Paraná é do final de 1853. Até lá, tínhamos apenas poucos imigrantes, como alemães na Colônia do Rio Negro, a Colônia do Superagui e a Colônia Tereza. No final da década de 1840 para 1850, houve um movimento importante de reimigração de alemães que tinham vindo para a Colônia Dona Francisca, em Santa Catarina, e que se transferiram, espontaneamente, para o Planalto Curitibano, por uma razão simples: o clima de Curitiba era mais ameno do que o clima do litoral catarinense. Estes alemães, principalmente, estabeleceram-se nos arredores de Curitiba – que tinha já os fóruns de cidade desde 1842, mas era uma pequena vila. Eles se estabeleceram em chácaras – existe cartografia a respeito, mostrando a sua localização – e começaram a produzir alimentos para venda aos moradores da cidade de Curitiba. Mas foi particularmente a partir da década de 1870 que se deu, não só em relação ao Paraná, mas em relação ao Brasil também, a grande imigração, ou seja, a imigração mais numerosa. No nosso caso, entraram mais ou menos, se não me falha a memória, de 1870 a 1920, cerca de cem mil imigrantes. Isto significou, praticamente, a duplicação, não só de Curitiba, mas do Paraná em geral. Esses imigrantes, principalmente poloneses, que eram os mais numerosos, ucranianos, alemães, italianos, franceses e outros de variadas nacionalidades se colocaram, segundo a política, em núcleos coloniais, situados nos arredores dos centros urbanos, primeiramente. E, sobretudo, nos arredores de Curitiba e, mais tarde, também de outros núcleos urbanos, como Ponta Grossa. Esses núcleos coloniais, no caso de Curitiba, são sobejamente conhecidos. A gente fala em colônias e vem logo o nome de Santa Felicidade, de italianos; Abranches, de poloneses; Colônia Argelina, de franceses; e assim por diante. Eles tiveram uma importância muito grande para o abastecimento da população destes núcleos, destas vilas, destas cidades. Alguns imigrantes, todavia – sobretudo os alemães, que foram os primeiros a se alojar em chácaras – foram localizar-se nos núcleos urbanos com ofícios artesanais. Foram ser ferreiros, foram lidar com metais, seleiros, lidar com couro e mesmo açougueiros. Enfim, eles ocuparam todos aqueles setores não tradicionais da economia. O tradicional era o setor da erva-mate e da madeira, que começava. Foi mais fácil entrar no setor da madeira do que no setor da erva-mate.

José Wille – Professora, a senhora acha que essa crença sobre a timidez paranaense originou-se da presença do imigrante?

Professora Cecília – Nunca me preocupei em estudar a timidez paranaense. Eu talvez não chame de timidez, eu chamaria mais de cautela. O paranaense é muito cauteloso. Numa ocasião, vi alguém – não me recordo quem, isso foi na minha infância – dizendo que o paranaense, sobretudo em relação à família, é muito cauteloso, ou seja, ele não abre as portas de sua casa ao primeiro aceno, mas, quando ele abre, é para sempre. De outro lado, ouvi também que o paranaense, esse homem paranaense que não existe mais hoje, não é que fosse tímido, ele era assim muito perscrutador, quer dizer, ele sonda muito, ele olha muito. Por quê? Porque o Paraná, desde os tempos pré-cabralinos, foi uma zona de passagem. Muita gente passava por aqui: índios que iam do litoral para o interior, do interior para o litoral, que iam de Santa Catarina para o Paraguai, do Paraguai para São Paulo, espanhóis e portugueses que faziam o mesmo e, mais recentemente, revolucionários que teriam feito o mesmo – também já escrevi isso. O que, afinal, precipitou o anseio de quase meio século dos paranaenses de emancipação da comarca? Foi o receio de que se unissem os revolucionários Farrapos e os revolucionários Liberais de 1842. Então, foi o momento de o governo imperial atender às reivindicações do Paraná. Mas nem por isso eles deixaram de passar. Veio a Revolução de 1894, veio a de 1924, veio a de 1930. Estão sempre passando por aqui e os paranaenses têm que ter cautela. Acho que é isso.

José Wille – Professora, outra trabalho da senhora foi a pesquisa sobre a ocupação do território do Paraná.

Professora Cecília – A ocupação do território do Paraná moderno. Eu já era professora universitária quando, ao tempo do governador Munhoz da Rocha, houve todo aquele trabalho para o apaziguamento dos posseiros de Porecatu. E era também professora universitária quando da revolta dos posseiros do Sudoeste, em 1957. Em 1965, fui convidada para montar uma equipe para um estudo dos movimentos sociais e das estruturas sociais, para apresentação no Congresso Internacional de História de 1970. Então, principalmente eu, a professora Altiva e o professor Brasil, a partir de 1966, começamos a estudar esses movimentos, que, do ponto de vista historiográfico, eram um filão riquíssimo e, do ponto de vista político e social, eram uma tristeza. Mas, como historiadores, tínhamos ali um farto material. E para estudar esses movimentos, tínhamos que sair dos métodos convencionais da História. Era preciso fazer História de campo, ir a campo para a coleta do material. Então, nos anos de 1966 e 1967, viajamos todo o Sudoeste, ainda nos tempos heroicos, ou seja, de espera, de espreita – enfim, de armadilhas. Era a mesma coisa que estar mexendo em uma casa de marimbondos, mas tivemos também apoio. Fomos com uma caminhonete do governo do estado, com um chofer também do governo do estado, e visitamos e entrevistamos participantes destas revoltas do Sudoeste, que eram as que mais nos encantaram. Assim, nasceu o trabalho “Nota Prévia ao Estudo da Ocupação do Território do Paraná Moderno”. Está publicado no Boletim Número 7 do Departamento de História. E surgiu o trabalho para o Congresso de 1970, que foi em Moscou. Não tivemos condições de ir a Moscou, porque era uma viagem muito cara, mas o nosso trabalho foi muito bem recebido pela comissão organizadora do congresso e foi apresentado e publicado na íntegra. Esse trabalho foi muito importante para nós, porque gerou outros trabalhos – por exemplo, tenho um livro com os mapas dos primórdios da ocupação dessa região de Itaipu, abrangendo não só o Oeste, mas também o Sudoeste, com as primeiras concessões de terra, com o retalhamento das terras.

José Wille – A senhora procurou demonstrar como foi, na história do Paraná, a chegada dos gaúchos, a chegada dos mineiros e dos paulistas?

Professora Cecília – Tudo, tudo como se deu. Os mineiros, os paulistas lá ao Norte, a Revolta de Porecatu, que foi uma aplicação prática do Partido Comunista do Brasil, na época. Eles próprios se arrependeram de haver realizado esta luta armada e desistiram da luta camponesa. E dos gaúchos descendentes de italianos e alemães no Sudoeste, por causa daquela orgia que foi a concessão de terras nessa região. Havia 2, 3, 4 senhores da terra, empilhados: o proprietário legítimo, o ocupante, o posseiro, o jagunço e aquilo tudo. E isso levou para a violência, a desordem agrária, luta armada mesmo. Enfim, esse trabalho foi muito importante. Temos condições de fazer essa avaliação hoje, porque não só gerou trabalhos nossos, mas de outros pesquisadores que partiram daquela “Nota Prévia”, publicada no Brasil, e do trabalho de Moscou, que foi publicado na França. Atraiu não só estudos de professores paranaenses, mas de outros professores brasileiros e até mesmo de professores estrangeiros, que vieram estudar o episódio – sobretudo dos estrangeiros, que leram o trabalho na Europa e vieram diretamente a Curitiba para conversar conosco.

José Wille –  A ocupação que a senhora relata deu diferentes faces às diversas regiões do Paraná – as ocupadas pelos gaúchos, catarinenses,  mineiros e  paulistas?

Professora Cecília – Nós falamos em três grandes regiões do Paraná: o Paraná tradicional, o Norte do Paraná, Oeste e Sudoeste do Paraná. Por falar nisso, há uma tese de doutorado de um professor da Universidade de Sofia, no Japão, que fez um trabalho com base nos títulos de eleitor do Tribunal Regional Eleitoral, desde o início do século XX até 1975, e ele mostra com muita clareza que existe uma quarta região do Paraná, que não conhecíamos, que é a região que fica no Centro, o ponto de encontro de todas essas colonizações.

José Wille – Concluindo, essas diferentes fases e  povos, dificultam a definição do que seja exatamente a população paranaense, hoje tão diversa?

Professora Cecília – Não penso que dificulte. O que dificultava, até bem pouco tempo, era a falta de comunicação, pois, no fundo, todas essas populações, tanto a nossa do Paraná tradicional como as outras, as demais, elas todas têm um substrato, que é o mesmo de toda a população brasileira. O que havia até há pouco tempo era uma falta de comunicação entre o Norte do estado com o centro político do Paraná, entre o Oeste e o Sudoeste com o centro político do Paraná. Esses problemas, hoje em dia, estão praticamente superados. Às vezes, assomam esses movimentos como “O Sul é Meu País” e tal, mas são de forasteiros que vêm com promessas enganosas. Na verdade, o que eles querem é fazer-se politicamente em regiões novas e acenam enganosamente para as populações. Não acredito mais em separatismo do Paraná!