A morte que mudou a história política do Paraná

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O senador Souza Naves era considerado o futuro governador do Paraná, em 1959. Mas menos de um ano antes da eleição, morreu do coração, após um discurso em Curitiba. Foi o que abriu espaço para Ney Braga se eleger governador em 1960. Leia trecho da entrevista do ex-deputado federal, Léo de Almeida Neves, na coleção de livros, Memória Paranaense.

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Relato de Léo de Almeida Neves:

– O Souza Naves era presidente do PTB no Paraná. Era mineiro, funcionário do antigo IAPC (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários) e trabalhou na “Gazeta do Povo”. E eu também era da “Gazeta do Povo”. Ele era um homem muito atilado, muito inteligente e bom político, e eu me liguei muito a ele. Em 1951, o Bento Munhoz da Rocha Neto era o governador do Paraná, eleito no governo de Getúlio. Ele criou a Secretaria do Trabalho, escolhendo Souza Naves para ser seu primeiro secretário. Então, o Souza Naves me convidou para participar do gabinete. Tinha 19 anos e já estava atuando na parte social, cuidava dos menores abandonados – que, na época, eram poucos – e de assistência pessoal para a miséria – na época, muito menor. A gente se aproximou bastante do Souza Naves, que, depois, ocupou outros cargos, como presidente do IPASE, presidente da Caixa Econômica Federal e, depois, no governo de Kubitschek, diretor da CREAI – Carteira de Crédito Agrícola Industrial do Banco do Brasil 

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José Wille – Por que o senhor acredita que a morte do senador Souza Naves mudou a história política do Paraná? 

Léo de Almeida Neves – Porque, em função do bom trabalho de Souza Naves em todos esses cargos, ele também era um cidadão que percorria todo o Paraná, participava da problemática de todos os municípios, o que fortaleceu seu prestígio. Era um homem muito forte politicamente. Em 1958, ele se candidatou a senador e teve uma votação estrondosa, uma vitória retumbante! Teve mais que o dobro dos votos dos adversários, que eram um candidato do PSD e outro da UDN. Ele era tido como imbatível para o governo. Assumiu o Senado e foi autor da chamada Lei do Café-Geada. O Norte do Paraná tinha sofrido uma geada devastadora, em 1953 a 1955. Os efeitos ainda se prolongavam e o pessoal estava endividado. Então, o Souza Naves fez uma lei dando prorrogação de prazo, que foi aprovada. O Paraná era muito forte na agricultura, sendo o café a maior riqueza do estado. Ele era um político muito inteligente e se aproximou do Jânio Quadros, que era governador de São Paulo e vinha fazendo uma carreira política meteórica. Ele foi eleito vereador, prefeito de São Paulo, governador de São Paulo, isso tudo em menos de 6 anos. Naquela época, não tinha reeleição, que nunca foi da tradição política brasileira. Então, o Jânio ia sair do governo de São Paulo, em 1959, e a eleição para a presidência da República era somente em 1960. Ele iria ficar no vazio, sem mandato. Então, o Souza Naves convidou-o para ser candidato a deputado federal pelo PTB do Paraná. O Jânio aceitou, desde que não houvesse restrições de ordem jurídica. Então, nós mesmos do PTB – eu era secretário-geral na época – providenciamos que outro partido fizesse o recurso contra o registro da candidatura do Jânio. O Tribunal Regional Eleitoral respeitou a candidatura. Houve um recurso contra a decisão do TRE, que foi para o Tribunal Superior Eleitoral, no Rio de Janeiro, e transitou em julgado. E Jânio veio, então, a ser candidato a deputado federal pelo PTB do Paraná e foi o mais votado do estado. Na mesma eleição, em 1958, na sucessão de Ney Braga na prefeitura de Curitiba, nós elegemos o general Iberê de Matos para prefeito. Fui inclusive secretário particular dele na prefeitura, quando assumiu. Então, em 1958, foram três grandes vitórias: derrotamos o Ney Braga em Curitiba, elegendo o general Iberê; elegemos o deputado federal mais votado do Paraná, na pessoa do Jânio Quadros, que conseguiu ser governador de São Paulo e deputado ao mesmo tempo, sem deixar o mandato; e elegemos o Souza Naves e uma grande bancada de deputados estaduais e federais. 

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Sede do Clube Morgenau de Curitiba, onde Souza Naves morreu em um almoço em 1959.

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José Wille – Souza Naves poderia ser o candidato eleito em 1960, mas a morte dele abriu espaço para Ney Braga. 

Léo de Almeida Neves – Seria eleito em 1960! Acontece que ele recebeu uma homenagem no Clube Morgenau, em Curitiba, e, após discursar, teve um infarto fulminante, morrendo no dia 12 de dezembro de 1959. Com isso, abriu-se um claro, por que o Ney Braga, que saiu da prefeitura e foi deputado federal – o único do PDC, estava colocando o nome dele como candidato a governador mais para fortalecer o partido, para marcar a existência do PDC no Paraná. Com a morte repentina do Souza Naves, o PTB demorou a escolher o candidato que o substituiria. Surgiram dois nomes: o suplente do Souza Naves, que era o Nelson Maculan, presidente da Associação Rural de Londrina, e o deputado estadual Amaury de Oliveira e Silva, que era um líder da bancada do PTB na Assembleia. A convenção foi somente em maio, havendo um interregno entre a morte do Souza Naves e a escolha do candidato. Nesse ínterim, o Ney Braga navegou nas águas do PTB, onde tinha muitos amigos, pois frequentou os diretórios trabalhistas. E houve mais uma circunstância muito importante nisso aí: como mencionei, o Jânio Quadros tinha sido eleito deputado federal pelo PTB do Paraná, mas não saiu candidato pelo PTB. O PTB apoiou, junto com o Partido Social Democrata, o marechal Teixeira Lott. Jânio saiu candidato pela UDN, pelo PDC e por outras figuras, mas tinha vínculos com os trabalhistas do Paraná, pois fora o deputado federal mais votado no estado. E o Ney – digamos assim – também navegou nas águas do Jânio Quadros. 

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José Wille – Foi quando criou-se o slogan “Jânio e Ney”, como se eles fossem do mesmo partido? 

Léo de Almeida Neves – Exatamente. Toda campanha no Paraná se fez pelo pessoal do Ney, na base do Jânio e Ney. O Jânio tinha uma popularidade muito grande, inclusive tinha vivido no Paraná e estudado no Internato Paranaense. 

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José Wille – Mas Jânio não apoiava Ney… 

Léo de Almeida Neves – Jânio não apoiava ninguém, porque, como ele era deputado federal pelo PTB do Paraná, não queria desgostar os trabalhistas do estado. E, muito esperto também, não apoiava ninguém, mas aceitava o apoio de todo mundo. E quem aproveitou, quem fez a “dobradinha para valer”, foi o Jânio. Enquanto o PTB ficava numa posição de apoiar o Teixeira Lott, uma boa parte apoiou esta candidatura, inclusive eu. Mas alguns outros apoiaram o Jânio. Foi por aí que brilhou a estrela política do Ney Braga.

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Resumo da carreira política de Souza Naves:

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Nascido em Uberada (MG,1), de origem humilde, Abilon de Souza Naves (1905-1959) foi o primeiro senador eleito pelo PTB no Paraná. Antes, havia ocupado cargos como diretor da Caixa Econômica Federal, presidente do Ipase (instituto de previdência do Estado,1), secretário do Trabalho e Assistência Social e diretor da Carteira de Crédito Agrícola e Industrial do Banco do Brasil.

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Relato histórico do ex-deputado federal, Léo de Almeida Neves

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