José Cadilhe de Oliveira e a memória do Carnaval de Curitiba

josé cadilhe ok

 

 

Uma das pessoas mais populares de Curitiba, José Cadilhe de Oliveira foi a própria memória do Carnaval da cidade. Advogado por formação e goleiro de futebol por paixão, Cadilhe fundou a “Embaixadores da Alegria”, a primeira escola de samba a se estruturar legalmente em Curitiba. Cadilhe morreu em setembro de 2006, aos 83 anos. E esta entrevista foi gravada em dezembro de 1998.

.
Clique aqui para encontrar outras postagens desta coluna no Paraná Portal.
Clique aqui para encontrar o site de José Wille

.

 

José Wille – Você é conhecido como um entusiasta do samba, do Carnaval e do futebol em Curitiba.

 

José Cadilhe – Realmente, a minha vida, durante todo esse tempo – desde a meninice, a adolescência e agora já na terceira idade – foi sempre pautada por esse triunvirato: samba, Carnaval e futebol. E eu sempre brinco que seriam uma espécie de três mosqueteiros da minha vida – Athos, Portos e Aramis e a advocacia seria o D’Artagnan.

 

José Wille – Que garantia o ganha-pão.

 

José Cadilhe – Que garantia, inclusive, que eu pudesse ter esse lazer através das atividades carnavalescas, do futebol e do samba.

 

José Wille – O senhor nasceu em 1922, em Ponta Grossa…

 

José Cadilhe – Em Ponta Grossa. Oito de novembro de 1922. Eu completei 76 anos agora, bem recentemente.

 

José Wille – Seu pai era jornalista em Curitiba e foi morar e trabalhar em Ponta Grossa?

 

José Cadilhe – Papai casou lá em Ponta Grossa, mas mamãe também era curitibana. Meu pai foi jornalista da antiga, porque, naquele tempo, não existiam as escolas de jornalismo. Vinham de berço os grandes nomes do jornalismo de então. Papai trabalhou durante muito tempo como correspondente. Como ele tinha um português maravilhoso, trabalhou em grandes firmas de Ponta Grossa e também no “Diário dos Campos”. Não fez do jornalismo uma profissão, mas foi sempre um adendo de suas atividades no comércio e na indústria, porque ele também trabalhou muito com erva-mate.

 

José Wille – E o senhor seguiu o caminho do pai, trabalhando no mesmo jornal?

 

José Cadilhe – Eu trabalhei depois no “Diário dos Campos”, mas não fui contemporâneo de papai. Eu era garoto quando meu pai trabalhava. Depois, já na minha adolescência, eu comecei a fazer esportes no “Diário dos Campos” e também na Rádio Clube Pontagrossense, a J2.

 

José Wille – Isso na década de 40…

 

José Cadilhe – Da década de 40 em diante. Eu comecei escrevendo sobre esporte e também fazia a coluna social. Não essa social de hoje, da vida de casais e da sociedade de um modo geral. Eu fazia os aniversários, escrevia as notas de aniversários ou de alguma data que era festiva para a cidade. Comecei com 16 anos por aí.

 

José Wille – E a cidade de Ponta Grossa tinha também uma das primeiras rádios do Paraná, na qual o senhor trabalhou.

 

José Cadilhe – Na rádio, eu trabalhei muito tempo. E nós tínhamos, aqui em Curitiba, na década de 40, a B2, que é bem antiga e, se não me falha a memória, funcionava desde 1930. Quando a Pontagrossense foi ao ar em Curitiba, existiam apenas a Guairacá, a B2 e uma ou outra, mas não me recordo. Eu sei que a de Ponta Grossa era uma das três ou quatro primeiras do estado.

 

José Wille – E o seu assunto era futebol?

 

José Cadilhe – Sim, o futebol. Mas lá, em uma cidade do interior, a gente era pau para toda obra. Eu cansei de transmitir bailes, festividades, até enterro… Tinha figurão lá que morria e a gente ia fazer a cobertura do evento. E também apresentei muito programa no Cine-Teatro Renascença. Tive, assim, uma mocidade bem agitada, mas no bom sentido. Porque, antigamente, por incrível que pareça, a escola era risonha e franca.

 

José Wille – O senhor não só transmitia futebol como também jogava como goleiro.

 

José Cadilhe – Joguei no Guarani de Ponta Grossa. Não cheguei ao estrelato, mas era titular no infantil, no juvenil e, depois, no aspirante também. No primeiro quadro de adultos, não havia profissionalismo. Fiz algumas temporadas. O Ateneu Housmann, titular do Guarani, foi convocado para a Seleção Brasileira Universitária e foi para o Rio de Janeiro. E, na mesma época, o outro goleiro foi convocado para o Exército e foi para a Europa. Como só restou eu, o terceiro goleiro, fiz quase meio campeonato no time principal do Guarani – bem garoto e com estatura baixa, mas dei conta. Depois, o Guarani pegou outros goleiros. Foi buscar o Lass, o Rato, que era o apelido dele, em Olinda. Depois, o que estava na Itália retornou e o Ateneu veio para Curitiba e desistiu de jogar futebol. E assim foi a minha vida de garotão.

.

josé cadilhe ok

.

Foto do filme “Foi num Carnaval” da “Rodando Filmes”.

.

José Wille – Em 1945, o senhor veio para Curitiba cursar Direito na universidade…

 

José Cadilhe – Em 1944, eu cheguei aqui um pouco antes do Natal. Fiz as inscrições para os vestibulares e, no dia 5 de janeiro de 1945, vim em definitivo para Curitiba.

 

José Wille – E a universidade, como era?

 

José Cadilhe – A universidade era bem diferente dessa de hoje. Naquele época, não se admitia um aluno que frequentasse o curso se não estivesse de gravata, de terno. Professor, então, nem se fala! Só faltava pôr uma beca ou traje a rigor. Era um respeito… E nós, da turma de Rui Barbosa, nos formamos em 1949, no dia 5 de novembro, pois era a data do centenário de Rui Barbosa. Nós sempre brincávamos que a última turma decente de advogados era a nossa. Formaram-se 34 advogados apenas. No ano seguinte, eram 180 ou mais. E não existiam outras faculdades. Depois, veio a Faculdade Curitiba – quando estávamos no quinto ano parece-me que ela foi criada. Hoje, proliferam-se as faculdades em tudo que é canto.

 

José Wille – O senhor gostava muito de futebol. E na década de 40, Curitiba já tinha vários times.

 

José Cadilhe – Tinha o Juventus, o Palestra Itália, o Britânia, o Água Verde, o Primavera… Quer dizer, era uma série de clubes que foi desaparecendo ou então extinguindo o setor de futebol, que eram os casos do Primavera e do Juventus. O que fizeram certo, porque o futebol nosso, desde aquele tempo, resume-se ao Trio de Ferro, como era denominado o Atlético, Coritiba e Ferroviário – hoje Paraná Clube. Mas, eventualmente, dava um campeão de Maringá, de Londrina, de Ponta Grossa. Até nesse de Ponta Grossa eu tenho parte, porque o Coritiba ganhou no campo, mas escalou o jogador Agapito, um paraguaio. Ele era da seleção do Paraguai e foi registrado em uma liga do interior, primeiro em Foz do Iguaçu, depois em Guarapuava. Foi transferido para cá como se fosse atleta primário, como se não tivesse nenhum registro de quando era profissional do Sol da América, na capital do Paraguai, Asunción. Aí eu fui constituído advogado do Operário e perdi a ação no tribunal local. Recorri ao tribunal da CBD, atual CBF, e ganhei a causa. Então, o Operário foi realmente campeão no tapetão. E há um fato interessante com que brinco até hoje: o Operário nunca me pagou os honorários. Nós tínhamos acertado 500 cruzeiros, mas eles não me pagaram. Um dia, fui a Ponta Grossa e fui entrevistado na PR J2 pelo locutor local. Ele me perguntou se já recebera. E disse “Não, não recebi nada. Infelizmente o presidente Singer disse que iria me pagar e não me pagou.” Aí entrou no estúdio o Padre Carlos, que era vice-presidente do Operário, e disse “Você tem que levar em consideração a dificuldade. Eu vou mandar fazer uma placa de bronze grande e colocar no estádio dizendo ‘O Operário Ferroviário Esporte Clube é eternamente grato ao José Cadilhe de Oliveira, Zezo’” – que era meu apelido. Perguntei para o padre, isso no ar ainda, quanto iria custar a placa. “Ah, um dinheirão”. “Então, o senhor me dá o dinheirão e pode pôr a giz lá no sanitário do Operário esses dizeres”. Foi um estouro na rádio, extraordinário!

 

José Wille – O fato é que o senhor garantiu para o Operário o campeonato, desclassificando o Coritiba.

 

José Cadilhe – E mais ainda: na sequência do tempo, eu – atleticano roxo – fui por 40 anos advogado do Coritiba Football Club. Fui maravilhosamente bem tratado pela diretoria do Coxa.

 

José Wille – Nenhum conflito de consciência?

 

José Cadilhe – Apenas uma vez. Eu estava na Tribuna de Honra do Coritiba em um Atletiba como advogado do Coritiba. O Atlético fez um gol e eu pulei. Eu, sozinho! Também nunca mais fui assistir lá aos jogos, porque achei que era uma desconsideração com o clube. E até fiz uma brincadeira: a Câmara de Curitiba me deu o título de Cidadão Honorário de Curitiba e o Coritiba Football Club me deu o título de Cidadão Honorário Coritibano, do time.

 

José Wille – Como era o futebol na década de 40? O curitibano ia aos estádios, que eram precários na época?

 

José Cadilhe – Era uma coisa extraordinária! As assistências que lotavam os estádios em clássicos entre o Trio de Ferro e mesmo com outras equipes eram vultosas. Era enorme o número de torcedores, porque não tinha essa regalia de hoje, de televisão, essa simultaneidade – o homem chega à Lua e, no mesmo instante, você está vendo aqui; o Pelé fazia um gol no México e, antes de a bola bater na rede, já estávamos gritando aqui, essa simultaneidade da coisa. Naquele tempo, era tudo mais romântico, com jogadores extraordinários. E tem gente que diz que aqueles atletas, no futebol de hoje, não seriam os mesmos. Seriam, porque futebol, sabendo jogar, joga-se em qualquer time. O futebol de hoje é extraordinariamente mais valorizado no preparo físico e nas táticas. O futebol de antigamente era tão extraordinário que você sabia o time do seu coração e sabia a escala dos adversários. Porque não existiam essas variações, 5-2-2, 4-3-4… Naquele tempo, era goleiro, dois beques, três na linha média e cinco atacantes, com um centro-avante jogando no meio das alas. Tinha o center half, ou centro-médio, que jogava no centro do meio-campo. Então, era fácil. Hoje em dia, você não sabe escalar, porque são várias formações, o que virou quase uma barafunda. Mas o futebol era de qualidade técnica excepcional. Tivemos jogadores maravilhosos!

 

José Wille – Jogador ganhava bem na década de 40?

 

José Cadilhe – No meu caso, não. Eu era quase, como se diz, filhinho-de-papai. Graças a Deus, papai tinha uma condição relativamente boa, pois os jogadores profissionais não eram tão notados quanto são hoje. Os jogadores ganhavam, além daquelas “luvazinhas”, empregos. No Atlético, houve um tempo em que colocaram 15 ou 20 jogadores no estado. O Ferroviário colocava na Rede. O Coritiba arranjava com os empresários, os grandes empresários de Curitiba, os alemães. Há um caso que ocorreu quando o Jandinho foi transferido do Ferroviário para o Coritiba: a Rede, em represália, o transferiu para Marcelino Ramos, onde o vento faz a volta, na divisa com o Rio Grande do Sul. Mas o futebol era romântico, era extraordinário, com bares na cidade! Em Ponta Grossa, um bar era do Operário, outro do Guarani. Aqui, um bar era do Coritiba e outro, do Atlético, não havia mistura. Hoje em dia, você sai nas noites e tem atletas de todos os clubes em altas festanças da vida boêmia da cidade.

 

José Wille – O Anfrísio Siqueira conta sobre as críticas que ele recebeu, porque teria contratado muita gente em 1950 no governo do estado para garantir o time do Atlético.

 

José Cadilhe – Eu posso dizer que eram grandes amigos meus. Ali entrou Jackson, o falecido agora recentemente Ubirajara, o Viana… A maioria dos grandes atletas foi contratada para o estado através do Anfrísio. Era um figurão e até hoje é o grande presidente da Boca. Realmente, ele influenciava. E, naquele tempo, os concursos públicos não tinham aquela obrigatoriedade que têm hoje. Era pistolão, falando português bem claro, e quem mandava no governo fazia e refazia.

 

José Wille – E era uma espécie de salário indireto – o jogador jogava no clube e trabalhava no governo?

 

José Cadilhe – Mas recebia do clube também. Os clubes tinham muitos sócios e as rendas e arrecadações eram divididas um pouco com os atletas. Não havia esses grandes salários e grandes “luvas”. Por exemplo, havia atletas que se registravam por um aparelho de rádio. Uma vez, o Isaac, o centro-médio do Palestra Itália, de saudosa memória, só  renovaria com o Palestra Itália se dessem uma coleção completa de balas Zequinha para ele. É verdade! Ele disse que, para completar a coleção, faltavam duas figurinhas do Zequinha. E o Palestra foi atrás do Sobania, fabricante das balas, e conseguiu a coleção. Só assim ele se registrou no time. Em Ponta Grossa, o Quilasso, para se registrar pelo Guarani, exigiu um rádio que pegasse as estações do Brasil, porque o dele só pegava Ponta Grossa e Curitiba!

 

José Wille – A ambição do jogador era bem diferente naquela época então?

 

José Cadilhe – Era até romântico. Era uma coisa suave, alegre, você tinha prazer. Quando você vestia a camisa de um clube, a vestia realmente, não só a colocava pensando em cifrão.

 

José Wille – Dizem que ser goleiro não é nada fácil, porque jogador vira ídolo, mas goleiro aparece só quando falha. É isso mesmo, já que o senhor foi goleiro?

 

José Cadilhe – Goleiro é uma posição muito ingrata. Parafraseando o que eles diziam dos hunos lá do Átila: “onde os hunos passavam, morria até a grama”. E a posição do goleiro é tão maldita que onde ele joga não tem grama.  Porque, na região embaixo das traves, a grama realmente é escassa. Você joga 89 minutos e meio defendendo tudo e, no último segundo, você falha. É um frangueiro! É realmente uma posição muito ingrata, porque os outros que perdem drible, perdem gol a toda hora, não são tão apupados e tão cobrados depois. Se você é goleiro e deixar passar o “franguinho”, fica marcado.

 

José Wille – O senhor diz que, na década de 40, havia preconceito contra alguns jogadores, como no Coritiba, por exemplo.

 

José Cadilhe – Não era só no Coritiba, não. Era no Brasil inteiro! O Fluminense, para contratar o Orozimbo, o primeiro negro que jogou no time, foi um escândalo internacional. Aqui, o Coritiba, quando contratou os primeiros, que foram o Bananeiro e o Janguinho, que se tornaram expoentes do futebol, também criou celeumas lá dentro, a ponto de se retirarem alguns conselheiros. O Atlético também não tinha… No Juventus, então, era difícil. O Ferroviário, na época, não teve essa situação. Mas, no início, foi difícil o preconceito, porque, se você for bem sério, bem correto, esse maldito preconceito perdura até hoje. Não é só no esporte, não. A gente diz que o Brasil não é um país preconceituoso, mas ele existe, infelizmente.

 

José Wille – Como isto foi mudando? Como foi, por exemplo, para o Coritiba começar a ter abertura?

 

José Cadilhe – Esses atletas que quebraram a tradição eram grandes jogadores. E começaram a ajudar os brancos remanescentes de cada equipe a ganhar títulos. Os brancos viram que, se os negros não jogavam, o time decaía. Então, por serem excepcionais atletas, foi mudando a situação. A raça negra, no mundo todo, tem um domínio extraordinário no setor de atletismo, de basquete, de vôlei, de futebol. A própria seleção brasileira é composta de noventa e tantos por cento de morenos, mulatos ou escurinhos. Quer dizer, eles foram crescendo. O que a raça negra precisa é se conscientizar de que deve crescer tão bem nos demais setores de atividade quanto cresce nos esportes.

 

José Wille – E a administração, a cartolagem no futebol? O senhor também teve participação na presidência da Federação. Como, nas décadas de 40 e 50, administrava-se o futebol?

 

José Cadilhe – A cartolagem existiu sempre. O termo “cartola” não é moderno, não. Já vem de tempos. Porque cartola é aquele chapéu usado só pelos grã-finos e potentados. E o paredo – assim se chamava e depois virou “cartola” – existiu desde que o futebol foi implantado aqui pelo Charles, o inglês que trouxe a primeira bola para cá. Desde aquele tempo, aqui em Curitiba, você ser diretor ou presidente do Atlético, Coritiba, Paraná, do Jockey Clube e da Federação Paranaense de futebol era equiparado a um secretário de estado, pois tinha o mesmo prestígio. Aí você vê que a cartolagem sempre existiu, infelizmente. Só que hoje é mais malandra. Antigamente, o “cartola” sempre brilhava, mas era um pouco mais puro. Fazia as suas mudanças de regra para que seu clube ganhasse, mas tinha muito mais decoro, muito mais cuidado. Hoje em dia, há até representação nas câmaras federais. Eles são medíocres como dirigentes e, entretanto, eternizam-se, porque manobram.

 

José Wille – Os bastidores do futebol sempre foram assim? As decisões de verdade não se davam lá no campo, mas nos bastidores ou no tapetão?

 

José Cadilhe – Os bastidores sempre tiveram ponto marcante não só no futebol, mas em todos os esportes. Até no turfe, que alguns dizem que não é nem esporte. Os bastidores de qualquer atividade são uma vida paralela daquela que aparece para o povo. Fundamentalmente, existe essa situação em qualquer atividade esportiva.

 

José Wille – O senhor conta que não procurou criar um patrimônio pessoal, pois acabava gastando muito ajudando o futebol ou o Carnaval?

 

José Cadilhe – É uma verdade absoluta. Todos os meus amigos sabem que eu cuidei do mundo e não cuidei de mim. Graças a Deus, não tenho passado e nem passarei necessidades maiores. Eu passei a advogar desde o tempo que era acadêmico de Direito. Naquele tempo, tinha uma inscrição na Ordem de solicitador acadêmico. E eu comecei como solicitador acadêmico dois ou três anos antes de me formar. Já advogava quando me formei em 1949, junto com o falecido doutor João de Barros Filho. Então, você vai moldando a sua vida, como eu moldei a minha em quase 50 anos de atividade, e não obtive para mim um rendimento maior.

 

José Wille – Terminando o curso de Direito, no finalzinho da década de 40, o senhor se candidatou uma vez a vereador e acabou perdendo. Por quê?

 

José Cadilhe – Perdi. Aconteceu o seguinte: foi a primeira eleição, no finalzinho da década de 40, com cédulas ainda. Eu era candidato pela UDN, se não me falha a memória. E o falecido Amâncio Moro, que era o prefeito, me deu uma mão para que eu fosse vereador. Acontece que em um bairro, o Capão da Imbuia, me pediram uma torneira pública. No orçamento da época, dava em torno de 97 cruzeiros. Eu não tinha! Eu ganhava as cédulas de propaganda de todo mundo. Eu saía com o carro do dr. Neves Bogado, jogando cédula pela janela e um bando de guris juntava tudo e me devolvia no final da outra praça para eu jogar as cédulas novamente. Eu ia e voltava diversas vezes. Quando o Capão da Imbuia me pediu a torneira, falei com o Amâncio para colocá-la. E ele disse “Esses abaixo-assinados são todos frios. Nós vamos gastar e eles não te elegem, eles não vão votar em você”. Apesar de ser um bem público, ele não quis. Mas me ajudou em outras coisas – pôs lâmpadas em umas quadras lá. Eu sei que perdi a eleição por menos de 29 ou 31 votos.

 

José Wille – Essa torneira foi decisiva?

 

José Cadilhe – Eu tinha um abaixo-assinado com quase trezentos nomes. Eu perdi por 30 votos, fiquei na quarta suplência e com pouca diferença. O que ficou na primeira suplência ficou por 3 votos! E tive muito mais votos anulados do que a diferença que precisava. Se eu tivesse colocado a torneira pública, teria sido vereador! E daí, se gostasse da coisa, talvez até hoje continuaria sendo.

 

José Wille – Teria feito uma outra carreira, não é?

 

José Cadilhe – Uma outra carreira, exatamente!

 

José Wille – A falta que fez uma torneira…

 

José Cadilhe – Uma torneira… Deixou de jorrar água para mim. Ou jorrar votos.

 

José Wille – O Carnaval foi seu interesse em grande parte da vida. Na década de 40, quando o senhor chegou aqui, como era o Carnaval de Curitiba?

 

José Cadilhe – O Carnaval de Curitiba antecedeu minha vinda para cá. Desde 1925 – que é de quando temos as primeiras notícias – existia um bloco famoso, o Kananga do Japão, que chegava a sair com quase 300 componentes. Aquilo era bloco mesmo, como o próprio nome já diz, e eles saíam fantasiados de orientais. O Kananga abriu o caminho. O Carnaval era extraordinário em Curitiba! Os bailes carnavalescos dos clubes em Curitiba eram considerados os mais chiques do Brasil. E tinha aqui o famoso corso, o desfile dos carros alegóricos e dos carros comuns. Como os carros antigos eram conversíveis, toda e qualquer capota dos carros arriava e as famílias colocavam lenços bonitos, lenços grandes, toalhas, e as famílias iam em cima. O corso dava toda a volta na praça Osório, seguia pela Rua XV até a praça Santos Andrade e voltava. Não parava um minuto e não tinha espaço. Não sei calcular, mas tinha carro lá que era uma barbaridade. Jogavam tanto confete e serpentina que as autoridades tinham que parar o desfile para retirá-los, porque os carros não podiam rodar na Rua XV.

 

José Wille – A cidade era pequena, mas a participação era muito grande então?

 

José Cadilhe – Extraordinária! Por quê? Porque não eram oficializados os festejos. Depois que se oficializaram os festejos, com muita regra, impôs-se que Curitiba também teria que ter escolas de samba. E escola de samba precisa ter amor e preponderância da raça negra, que é a que mexe com tudo, principalmente em samba, em música e em esporte. Nós tínhamos, naquela época, uma coisa muito bonita. Mas o corso deteriorou-se, porque, primeiro, os carros conversíveis começaram a desaparecer; segundo, proibiram o uso de lança-perfume, que era o dopping da época. Proibiram os mascarados, que lá no Rio chamavam de clowns – palhaços em inglês. Começaram a ter que pedir licença para desfilar, ter que pedir licença para sair com menores, ter que pedir não sei mais o quê… Oficializaram de tal modo o Carnaval em Curitiba, como em todo o Brasil, que ele se tornou quase que uma parada em vez de um desfile propriamente dito. Então, você tem que ter cuidado com a coreografia, cuidado com isso, cuidado com aquilo. Não pode deixar que um atravesse o samba, e tudo aquilo fica muito ridículo. No tempo de bloco, era livre. Você ou cantava música conhecida ou fazia a música do seu bloco. Os Embaixadores da Alegria nós fundamos em 1948, com o nome de Cevadinhas do Amor.

 

José Wille – O senhor foi o fundador?

 

José Cadilhe – Sou o fundador. Fui presidente e sou o presidente até hoje.

 

José Wille – E foi a que mais durou?

 

José Cadilhe – Até hoje! Ininterruptamente, é a mais antiga de todas. A Colorado era um pouco mais velha do que a Embaixadores, mas ela ficou fora de alguns carnavais.

 

José Wille – A dependência de verbas oficiais, de participação de prefeituras – o senhor acha que foi outro problema?

 

José Cadilhe – É um ponto nevrálgico. Se você tirar esta verba, não sobrevivem aqui em Curitiba mais do que três escolas das que existem hoje, porque elas não têm condições de, sozinhas, fazer a manutenção de uma escola de samba para desfilar uma ou duas vezes no Carnaval.

 

José Wille – O senhor falou na composição étnica da cidade. É outro problema? É por isso, talvez, que o Carnaval de Curitiba tenha tantas dificuldades?

 

José Cadilhe – Sim. Porque aqui nós somos descendentes de poloneses, alemães, ucranianos… Você vê o Carnaval de Nice, na França, que é uma coisa maravilhosa, mas é um Carnaval quase estático. Só não é estático porque no desfile eles se movimentam. Mas não tem essa malemolência, essa ginga do Carnaval brasileiro. Nossa etnia aqui em Curitiba era muito germânica, eslava, europeia, ao contrário da raça negra, que já tem o dom da dança e do esporte. Se a preponderância fosse maior aqui em Curitiba, talvez o Carnaval tivesse um incremento maior.

 

José Wille – Dá para ter idéia da época quando começou a decair o Carnaval de rua em Curitiba?

 

José Cadilhe – Quando começaram a oficializá-lo. Quando começaram a fazer os concursos obrigatórios. Quando começaram a exigir do bloco isso, aquilo e aquilo.

 

José Wille – Em que época?

 

José Cadilhe – A prefeitura pagou e exigiu! A época foi, talvez, o final da década de 40… Nas primeiras vezes em que nós saímos com a Embaixadores, em 1948, como Cevadinhas do Amor, nós recebíamos algum dinheiro: a primeira vez foi da Brahma; depois, Antárctica. Recebemos de uma série de empresas…

 

José Wille – E saíram fantasiados de garrafas?

 

José Cadilhe – Foi a primeira fantasia nossa. E o nome Embaixadores da Alegria decorreu de que, quando entramos no Curitibano, ainda como Cevadinhas do Amor, que era o nome do bloco, nós animávamos o baile. Eles diziam “chegaram os embaixadores da alegria!”. Aí, em uma reunião, depois de dois ou três anos, dei a sugestão de que fôssemos os Embaixadores da Alegria. E muita gente achava que o nome era muito comprido, mas eu disse que Embaixadores da Alegria iria empolgar mais. Vencemos o pleito e virou Embaixadores da Alegria.

 

José Wille – Quais são as escolas que mais marcaram na história do Carnaval?

 

José Cadilhe – Além da Embaixadores, é lógico, a Não Agite foi extraordinária. A Oásis da Alegria, que era da turma da Base Aérea de Curitiba, foi excelente. Teve a Dom Pedro, que era filiada à sociedade de mesmo nome. A Mocidade Azul, a Bola Preta e a Sapolândia… Tivemos também a Verga Mas Não Quebra, cujo presidente era uma coisa extraordinária, o Chocolate. Ele vivia absolutamente etílico. Ele fez uma das coisas mais extraordinárias que eu já vi, até hoje, em Carnaval. Foi no ano em que o prefeito, o meu querido amigo Saul Raiz, não deu verba para o Carnaval, pois a prefeitura não estava em boa situação. E o Chocolate disse para todos nós “vão ver o que eu vou fazer com o prefeito”. E veio ele com a escola, que inclusive tinha um erro no estandarte – estava escrito “Verga Mais Não Quebra”, sendo que “mais” é advérbio de quantidade. Chegou em frente à prefeitura, parou, silenciou a bateria e disse para o prefeito “Veja o que o senhor fez para mim! O senhor não deu a verba e eu tinha prometido para a minha mãezinha que eu ia comprar uma geladeira com essa verba. Com que cara eu vou ver a minha mãe lá em casa?”. Quer dizer, ele pegava o dinheiro e não punha na escola. Punha pouca coisa, mas ele era folclórico.

 

José Wille – Cada escola tinha um reduto. O de vocês era o bar do Stuart?

 

José Cadilhe – Realmente, o reduto nosso era lá. Nós começamos como Cevadinhas do Amor na sociedade Seminário. Depois, quando passamos a Embaixadores, nos mudamos para o Thalia e lá ficamos doze ou treze anos. Mas o reduto, que era a nossa sede, como você diz, era o Stuart. Temos até programada uma reunião no Stuart nesse ano, com a velha-guarda – todos nós com a camisa da Embaixadores.

 

José Wille – Nos bares acontecia, muitas vezes, o ensaio informal durante o ano todo?

 

José Cadilhe – Ah, sim! Você punha meia dúzia de cervejas e duas ou três caipirinhas e ensaiava até as 4 da manhã! Nós quebramos uma tradição, pois a maioria dos bares não deixava fazer cantoria. O Stuart foi o primeiro bar em Curitiba que colocou cadeiras e mesas na calçada, o que, aliás, consegui como advogado. Deu tão certo que, depois, o Stuart quis manter as mesas na calçada, mas não deixaram. Fui o advogado do Bar Mignon, que fez o requerimento para conseguir isto também, e obtivemos a licença. E, hoje, bares com mesas na calçada há muitos.

 

José Wille – Os clubes, nessa fase mais conservadora da cidade, entre 1940 e 1950, não aceitavam a presença das escolas?

 

José Cadilhe – Não. Nós quebramos uma tradição no Clube Curitibano, no Thalia, no Círculo Militar, que não deixavam entrar blocos ou escolas de samba. Quando nós entramos no Curitibano pela primeira vez, com o presidente Jofre Cabral e Silva, foi um escândalo! Teve gente que queria até sair. No fim, tornava-se mais difícil sair da sociedade do que entrar, por causa das escolas. Nós entrávamos no Círculo, no Curitibano e no Thalia e eles diziam “vocês dão três voltas no salão e depois saem. Não pode ficar ninguém!”. Nós dávamos três voltas e diziam “dá mais três” e assim ia. O Atlético dava baile na Baixada. Quando chegamos lá, eles disseram que teria uma mesa com sanduíches, cerveja e guaraná depois das três voltas no salão. Depois das voltas, nos deram outra mesa, que tinha até whisky!

 

José Wille – E o preconceito racial também existia no Carnaval, na entrada dos clubes?

 

José Cadilhe – É o ponto nevrálgico em que a gente não gosta realmente de tocar, mas acontecia. Para os primeiros negros que colocamos na Embaixadores, para que pudessem entrar nos clubes, fazíamos fantasias de palhaço, pintando o rosto inteiro dessas pessoas. Até nesse ponto, felizmente, não foi muito prolongado o preconceito, mas existiu.

 

José Wille – É mais recente a presença da sensualidade nas fantasias e na música? Não existia isto no Carnaval antigo?

 

José Cadilhe – O Carnaval era uma festa familiar. Os clubes faziam a comissão de censura. Você chegava lá com a família e passava por uma salinha onde estavam os censores para ver se a sua fantasia estava de acordo ou não estava. Mas isso também foi caindo. Essa licenciosidade, essa volúpia toda de sexo e tudo mais, isso nunca existiu.

 

José Wille – O Carnaval nos clubes, na década de 80 principalmente, foi acabando em Curitiba e se transferindo para o litoral.

 

José Cadilhe – É uma verdade. Com as melhorias que nossas praias obtiveram, com clubes náuticos e aquelas coisas todas, com as estradas e sua infraestrutura melhorando, e também por causa das praias vizinhas em Santa Catarina, o curitibano começou a fugir. Hoje em dia, de todos os clubes de Curitiba, não há 10% que façam baile de Carnaval. Entre os maiores, praticamente um ou dois.

 

José Wille – Também o samba foi uma grande paixão sua – cantando ou compondo. O samba tinha dificuldade de entrar aqui no Sul do país?

 

José Cadilhe – Eu acho que não há essa dificuldade. É mais propaganda dos inimigos cordiais que a gente tem, porque o samba é uma música que toca muito no fundo de cada pessoa. Porque o samba tem uma série de gêneros: o samba lento, o samba canção, o sambinha… O samba, em princípio, parecia que estava fadado até a desaparecer. Mas onde existe um bom sambista, um bom conjunto de samba, ele brilha em qualquer canto que você for, pois tem público para isso. Quando trazemos para Curitiba grandes artistas da música popular brasileira, é um sucesso extraordinário. Curitiba tem campo de sobra para o samba. Só que essa parafernália existente na mídia de rádio, de televisão e da imprensa hoje impinge para a gente aquilo que eles querem vender. Antigamente, para fazer sucesso, o cantor tinha que ter voz e cantar. O samba, a valsa, a marchinha, para fazer sucesso, tinha que ter conteúdo. Hoje em dia, não sendo mudo, já pode ser cantor de rádio. Sabendo gingar com os bumbuns, qualquer mocinha pode ser cantora de rádio. Antigamente, você tinha que ter voz e postura diante de uma câmera, diante de um microfone, diante de um palco. Hoje, não. Se você fizer um tremelique meio diferente, já é alçado à glória.

 

José Wille – Falando mais da vida curitibana nessas fases que o senhor acompanhou tão bem, de 1940 até 1960: quais eram os pontos de encontro, os bares, da cidade?

 

José Cadilhe – Curitiba foi uma beleza em matéria de bar. O Stuart sempre foi o carro-chefe dos bares. Mas não se podem esquecer do Cometa e do Bar Paraná, que era um misto de bar e restaurante maravilhoso. Nós tivemos o Buraco do Tatu, famosíssimo – era tão pequeno que, quando entrava freguês, saía o dono; quando entrava o dono, saía o freguês. Mas era frequentado pela melhor sociedade de Curitiba. Era uma coisa extraordinária! E fora os mais antigos, o famoso Bar do Olímpio, que tinha o melhor pastel de Curitiba. Tínhamos o Esplanada, outro extraordinário bar da época. Tem até hoje aquele ali na Água Verde – que agora me falha a memória – Bar do Homero…?

 

José Wille – O Bar do Hermes…?

 

José Cadilhe – O Bar do Hermes, exatamente! Setenta e seis anos pesam um pouquinho… Então, o bar sempre foi um lugar meio sacrossanto para a boêmia. E do bar, parafraseando “lar, doce lar”, a boêmia fez “bar, doce bar”. E é no bar que a gente conversa e que você, em uma letra de samba, interpretado muito bem pelos cantores populares do Brasil, cantando sambinha, tem a melhor maneira de se conversar. Você, numa roda de samba… Mas tem que saber cantar, porque o cantor de bar com voz estridente, com a parafernália moderninha de hoje, não! O verdadeiro cantor de bar é aquele que faz o acompanhamento baixinho, que faz com que se escute e se perceba o samba.

 

José Wille – E a Rua XV como ponto de encontro, quando eram poucas as opções…

 

José Cadilhe – A Rua XV era tudo! Nem se chamava ainda Rua das Flores, era realmente Rua XV. Mas aqueles passeios da mocidade… As famílias saíam à noite para ver vitrines. Hoje em dia, se sair à noite para ver vitrine, você fica pelado na rua, do chefe à criança de colo. Você passeava e via, por exemplo, as entradas e saídas de cinema. E proliferavam, nessa época, cinemas na Rua XV. Era uma coisa maravilhosa ver os rapazes postados para ver a entrada ou a saída do cinema! Na saída, tinha mais gente, principalmente nas sessões mais cedo. Então, ficava todo mundo ali aguardando. Havia também todos esses bares e cafés e, mesmo com o trânsito de carros, era uma boa vida noturna. Depois, com o advento do Calçadão, modificou-se um pouco. Hoje, até é perigoso, se não tiver um policiamento por perto. E é tão bonita a avenida. Agora, eles vão revitalizá-la, vão fazer mais umas modificações…

 

José Wille – O cinema era fundamental, antes da televisão. Era o grande ponto de lazer.

 

José Cadilhe – Você tinha o Cine Palácio, o Odeon, o o Ópera, o Avenida… Uma série de cinemas, que tinha uma assistência na primeira e na segunda sessão. Alguns não tinham duas sessões, mas passavam duas, três fitas. Começavam às oito horas e iam até quase meia-noite. Os cinemas eram a diversão. O rádio também era incipiente, a potência ainda era fraca e só começou a melhorar quando vieram as ondas curtas. Você pegava as rádios de Buenos Aires em ondas curtas, uma coisa extraordinária! A rádio Tupi e a rádio Nacional começaram também em ondas curtas. A partir daí, o rádio começou a centralizar melhor a atenção.

 

José Wille – E o rádio, em Curitiba, crescia também…

 

José Cadilhe – O rádio em Curitiba cresceu… Houve época em que era um dos principais do país. Tinha a B2, a Guairacá, que eram rádios que comandavam programas de auditório maravilhosos. Eram rádios que efetivamente tinham vida própria, com artistas locais. Hoje em dia, tanto nas televisões quanto nas rádios, você dificilmente vê um programa local.

 

José Wille – Em 1960, quando chegou o Canal 12 e, logo a seguir, o canal 6, o curitibano não acreditava que a televisão fosse dar certo em Curitiba. Por quê?

 

José Cadilhe – O Nagib Chede mesmo dizia que o pessoal achava que Curitiba não estava preparada para receber a televisão. Que eles estavam se metendo em uma aventura e iriam dar com os burros n’água. Mas, infelizmente para os pessimistas e felizmente para nós, deu certo.

 

José Wille – As mudanças no centro de Curitiba, quando Jaime Lerner foi prefeito, no começo da década de 70, fechando a Rua XV para fazer o Calçadão… O senhor foi advogado dos comerciantes contra a prefeitura.

 

José Cadilhe – Quando falaram que iam fechar a rua com o Calçadão, nós éramos advogados de 3 firmas que se localizavam entre a Marechal Floriano e a Monsenhor Celso. Impetramos o mandado de segurança contra o ato da prefeitura de fechar a Rua XV e fazer o Calçadão. Obtivemos, inclusive, a liminar, mas aconteceu que a prefeitura, de madrugada, arrebentou a rua com tratores, estourando todo o antigo calçamento. Quando os oficiais de justiça foram intimar a prefeitura, ela já tinha feito o estrago maior. Então, começou-se a brigar, porque o juiz queria que fosse recomposta a rua como estava e, daí, foram se fazendo acertos, a ponto de se chegar a abater impostos, como se faz até hoje – os arregos corretos, arregos no bom sentido. O comércio dizia que, com o fechamento do trânsito e do fluxo de veículos, iriam cair de 60% a 70% as vendas. E os catastróficos achavam que iriam falir no dia seguinte. Mas prevaleceu o bom senso e, hoje, uma das coisas bonitas de Curitiba é essa que é uma das primeiras ruas de pedestres do país.

 

José Wille – O Passeio Público também já foi um grande ponto de encontro social da cidade.

 

José Cadilhe – Mas era do alto mundo grã-fino de Curitiba passar as tardes no Passeio Público, ir lá andar de barco – naquele tempo, era barco e não pedalinho. As famílias iam lá e havia retretas que eram com bandas, tinha o coreto… Então, o Passeio Público estava no auge e era um dos pontos de referência da alta sociedade de Curitiba.

 

José Wille – Corrida de cavalo também era outra opção curitibana?

 

José Cadilhe – O Prado Velho, lá na região do Guabirotuba, fez cada tarde de turfistas maravilhosa! O Grande Prêmio Paraná, por exemplo, era um dos grandes prêmios do turfe brasileiro. Depois, quando mudou para o moderno, onde se encontra hoje, causou um impacto favorável, pois Curitiba realmente se tornou adulta no sentido do turfe.

 

José Wille – O senhor mora perto da Boca Maldita, no centro da cidade, está sempre presente ali e é tido como uma das figuras mais marcantes da cidade.

 

José Cadilhe – É bondade sua, mas a verdade é que o samba, o Carnaval e o futebol popularizam uma pessoa. E o meu gênio ajuda. Eu tenho um gênio alegre. Eu sempre brinco que alegro até guardamento, enterro, porque eu nasci para ser alegre. Eu nasci para ajudar e não para ser ajudado. Então, dentro dessas minhas características, eu vou levando uma vida que, se tenho inimigos, precisam apresentá-los a mim. Há alguns invejosos…

 

José Wille – Mas inimigos declarados, não?

 

José Cadilhe – Não! Até se tenho, seria interessante que me apresentassem, porque, quem sabe, eu conquisto como amigo!

 

José Wille – O senhor ganhou todos os títulos do Paraná, da prefeitura de Curitiba, da Câmara Municipal…

 

José Cadilhe – Eu tenho todos os títulos de Curitiba – Cidadão Honorário de Curitiba, Vulto Emérito de Curitiba, fui tema de Carnaval, fui enredo de escola de samba, fui Bicho do Paraná, tem quase 100 troféus esportivos, de todos os esportes, e treze torneios com meu nome. Eu disse em uma cerimônia da Câmara que eu era um homem feliz, porque havia recebido flores na vertical. Quer dizer, vivo e não na horizontal. Esse foi o meu padrão de vida.

 

José Wille – E, para finalizar, o senhor disse que, na década de 80, houve a grande transformação, quando aquela velha Curitiba foi morrendo e outra cidade foi surgindo. Como o senhor acha que isso vai prosseguir?

 

José Cadilhe – Existe muita coisa boa no modernismo, mas não se pode esquecer o passado. Curitiba, até há bem pouco tempo, tinha um ranço de cidade pequena, mas um ranço bom. Não coisa velha, estragada. Curitiba ainda era provinciana, as famílias se visitavam, você podia ir passear na Rua XV, ver vitrine, ia para os parques… Mas essa modificação, lamentavelmente, é mundial, não é coisa só nossa, de Curitiba. A transformação veio para ficar e para cada vez mais transformar. Mais uns cinco ou seis anos, não sei mais o que será. Porque, na verdade, hoje em dia, o progresso chegou com tanta força que somos prisioneiros de nós mesmos e quem tem mais liberdade são os facínoras. Nós, as famílias, somos prisioneiros até da nossa própria casa, onde chegamos a pôr grades e toda uma parafernália e, assim mesmo, somos assaltados.