Leopoldo Scherner foi um dos criadores da PUC do Paraná

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Leopoldo Scherner dividiu sua vida entre a poesia e a vida acadêmica. Com a poesia ganhou uma cadeira na Academia Paranaense de Letras. E como professor participou da criação da Universidade Católica do Paraná. E da Assembleia Legislativa do Paraná, ganhou o título de Cidadão Benemérito, em 1997. Ele faleceu em 2011.

Esta entrevista foi  gravada em julho de 1998.

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Contato com José Wille

 

José Wille – O senhor nasceu em São José dos Pinhais, em 1919. Seus pais eram filhos de imigrantes?

 

Leopoldo Scherner – Sim, meu pai era filho de alemães e minha mãe, filha de italianos do norte da Itália, da região de Trento, mais precisamente da Fiera de Primiero, e da aldeia que se chama Mezzano. Esses imigrantes, exatamente há 120 anos, foram para a colônia que se chamou Novo Tirol, e depois minha mãe veio para São José dos Pinhais. Meu pai, de Santa Catarina, também veio para São José dos Pinhais. Ali, se encontraram e se casaram.

 

José Wille – Como foi sua infância em São José dos Pinhais, na década de 20?

 

Leopoldo Scherner – Foi lindo! São José dos Pinhais era uma vila muito tranquila, muito pacífica. Eu me lembro, por exemplo, que se jantava muito cedo, e às 6 horas da tarde, antes do sol se pôr, as crianças brincavam em frente de casa e, quando anoitecia, entrávamos e, praticamente, sei lá se às 7 ou 8 horas, já íamos para a cama. Era tudo muito tranquilo.

 

José Wille – Era uma infância mais livre, com a possibilidade de estar na rua, no campo…

 

Leopoldo Scherner – De soltar papagaio, de brincar no campo etc. Morávamos não exatamente no centro, onde hoje está a pracinha da Igreja, mas ali perto. Então, em frente à nossa casa, ainda havia campo, poucas casas e havia a possibilidade de as crianças terem uma vida muito livre. E ia-se para a escola também  – importante comentar. Eu e todos os meus irmãos estudávamos no Colégio das Irmãs da Divina Providência. Estudávamos em dois turnos – veja como era a escola primária naquele tempo – íamos de manhã e voltávamos para almoçar em casa e depois voltávamos para a escola até as 4 horas ou 5 horas. Foi uma época em que as coisas eram levadas muito a sério. O estudo era levado a sério.

 

José Wille – Também Curitiba, na década de 20, era uma cidade muito tranquila.

 

Leopoldo Scherner – Bem pequena. De São José para cá, as conduções eram raras. Curitiba era uma cidade muito pequena, muito pacífica e muito tranquila.

 

José Wille –Existia já um ônibus que fazia a ligação?

 

Leopoldo Scherner – Sim, sim! No meu tempo de criança, havia uma linha de ônibus que saía de manhã e voltava à tarde. Isso, lá pelos anos 20, ainda era assim. Depois, naturalmente, a coisa se desenvolveu, é claro.

 

José Wille – Como era o cotidiano em Curitiba, a imagem da cidade?

 

Leopoldo Scherner – Morando em São José dos Pinhais, raramente a gente vinha para Curitiba. Mas tenho uma lembrança muito interessante da minha infância. Eu devia ter 8 ou 9 anos e meu pai era empreiteiro do Estado. Não era engenheiro, mas era construtor de pontes. E tenho essa recordação: toda vez que passo na antiga Secretaria da Fazenda, que agora está sendo, por sinal, restaurada e que pertence à Secretaria da Cultura, lembro muito bem que eu, em criança, às vezes, vinha ali com meu pai. E para mim é uma lembrança muito gostosa. Toda vez que lembro, digo sempre às minhas filhas: “Olha, eu, em criança, passei algumas vezes por aqui com meu pai”.

 

José Wille – E a ida para ao seminário na cidade de Rio Negro?

 

Leopoldo Scherner – Um frade esteve em São José dos Pinhais, me viu na igreja – minha família era muitíssimo católica – e me convidou. Daí, surgiu esse interesse. Meus pais acharam que seria possível eu ir para lá, e lá fui eu. Quer dizer, eu não sei se a vocação surgiu daí. Essas coisas eu não sei explicar como vão surgindo. Lá em Rio Negro, eu fiquei e fiz o correspondente ao ginásio.

 

José Wille – Neste seminário em Rio Negro, nas décadas de 20 e 30, como era o rigor interno?

 

Leopoldo Scherner – Totalmente fechado. Contato com as pessoas de fora era muito raro – só quando todo o grupo saísse, naturalmente. Visitas, que eu lembre, nunca foram proibidas. E mesmo as férias a gente passava no próprio colégio. Chamava-se Colégio Seráfico São Luiz de Toroza. Os padres eram franciscanos e a maioria deles tinha vindo da Alemanha. Portanto, era uma formação bastante rigorosa – e, com certeza, ainda é bastante, digamos assim, europeia. Evidentemente, eles tinham preocupação com a adaptação, com os costumes e com a cultura brasileira. Como eu disse, as visitas eram livres e, evidentemente, eram por parte das pessoas da família. Tínhamos raríssimas férias em casa.

 

José Wille – Como foi a sua desistência da carreira religiosa, por volta dos 20 anos?

 

Leopoldo Scherner – Eu achei que não era minha vocação. Escrevi para casa, falei com os superiores e deixei o seminário.

 

José Wille – O que levou o senhor até o Rio de Janeiro, onde concluiu seus estudos e cursou Filosofia?

 

Leopoldo Scherner – Nessas alturas, eu já estava no Rio de Janeiro, em Petrópolis. Entrei para o Colégio Pedro II, que, naquele tempo, era o Grande Colégio Pedro II. Eu tenho lembranças de alguns professores famosos e autores de livros conhecidos. Por exemplo, Antenor Nascentes foi meu primeiro professor, um grande filólogo, autor de dicionário; Cecil Thiré, que era professor de matemática; Mello e Souza, que tinha o pseudônimo de Malba Tahan, cujos livros ainda estão por aí, relatando, contando histórias sobre assuntos matemáticos e que ainda hoje são muito interessantes. O Colégio Pedro II era um colégio muitíssimo especial, só havia o internato e o externato. Por sinal, havia um problema, porque ficava em uma rua por onde passava bonde e havia muito ruído, mas era um colégio de grande destaque. O professor do Pedro II era um professor de grande conhecimento, pois havia um grande rigor para ser professor. Manuel Bandeira, por exemplo, foi professor do Pedro II durante algum tempo.

 

José Wille – E por lá, também, o senhor cursou a Faculdade de Filosofia, na década de 40.

 

Leopoldo Scherner – No Rio de Janeiro, fiz na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil – esse era o nome que tinha – a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que tinha sido fundada há não muito tempo e era uma instituição, naturalmente, oficial. Eles, nessa ocasião, convidaram pessoas já bastante conhecidas, bastante respeitáveis e consideradas no mundo das letras, no mundo das ciências etc. Tive a grande sorte, foi muita felicidade minha, de estar no Rio de Janeiro, de entrar para a faculdade exatamente nesta época, porque lá eu tive professores como Manuel Bandeira. E eu sou o único paranaense – e tenho grande orgulho disso – que, em nível de ensino superior, foi aluno de Manuel Bandeira.

 

José Wille – O senhor retornou em 1950 para Curitiba. Qual era a situação aqui?

 

Leopoldo Scherner – No Rio de Janeiro, casei e voltei para cá. Nessa época, o professor era uma pessoa respeitabilíssima. Para começar, eram homens realmente estudiosos, eram grandes intelectuais. Estou me referindo, nesse momento, a professores de nível médio. Havia, por exemplo, o Nilo Brandão, pai do ex-reitor da PUC; havia Algacir Mader, um grande matemático; havia também, em português, Rosário Mansur Guérios. Eram autores de livros adotados em todo o Brasil, respeitados, de sorte que o nível todo dos colégios era muito elevado.

 

José Wille – O rigor para a contratação e formação de um professor era maior?

 

Leopoldo Scherner – Muito maior! Eu vim formado – só dou como exemplo o meu caso – e, depois de algum tempo, abriu concurso e lá fui eu me inscrever. Mas eu não seria nomeado se não tivesse o diploma registrado e se não tivesse o registro de professor. Era uma exigência, condição para ser nomeado. Se eu não tivesse conhecimento dentro do próprio Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, e não tivesse conseguido com mais facilidade e com maior rapidez esses registros, eu não poderia lecionar naquela época. Hoje, vejo que alunos de terceiro ano lecionam no segundo, alunos de primeiro ano de segundo grau estão lecionando no primeiro grau. A exigência na época era muitíssimo maior, rigorosamente por parte da lei. E hoje a coisa está tão degenerada que a situação é essa: praticamente qualquer um está lecionando.

 

José Wille – No Paraná houve uma regressão no nível de ensino?

 

Leopoldo Scherner – Realmente! Eu acho que foi resultado, digamos assim, da massificação. Talvez uma das razões tenha sido essa. Na época, havia somente ensino de segundo grau – clássico ou científico – no Instituto de Educação e no Colégio Estadual do Paraná, cuja construção se deu durante o governo Manoel Ribas – esse homem que por muitos é não dito ignorante, mas de pouco conhecimento literário. E ele construiu inteligentemente este colégio, o maior colégio da América do Sul. Então, havia o Colégio Estadual do Paraná e havia o Instituto de Educação, só esses dois estabelecimentos de nível médio.

 

José Wille – O senhor era professor dos dois?

 

Leopoldo Scherner – Era professor dos dois. Fiz concurso para duas disciplinas: Latim e Português. O curso que eu fiz no Rio de Janeiro foi de letras neolatinas e, portanto, me facultou dar essas duas disciplinas. Então, optei por esses dois colégios, o Colégio Estadual do Paraná e o Instituto de Educação. Só que, com a evolução do ensino, passei, na realidade, a dar só Língua Portuguesa, pois veio o momento em que o ensino de latim foi extinto, o que foi muitíssimo lamentável.

 

José Wille – O senhor acha que foi um erro?

 

Leopoldo Scherner – Foi um erro gravíssimo! Vejam vocês que, por exemplo, num país como a Alemanha, de língua do tronco germânico, onde o latim não tem essa importância que tem para nós, que somos do tronco latino, eles estudam latim rigorosamente já desde o primeiro grau. E nós o deixamos e ele faz muitíssima falta. Porque, lá pelas tantas, a pessoa vai querer saber a razão das coisas. Posso dar um macete e dizer que nessa e nessa circunstância você escreve com s, escreve com z etc. Tudo bem, mas chega uma hora em que a pessoa vai dizer “por que eu escrevo com z? E por que escrevo com s?” e assim por diante. É o latim, de modo geral. O latim e o grego vão nos dar a razão dessa grafia. Então, à medida que a exigência vai se acentuando e as pessoas vão exigindo mais, com a falta do latim, o ensino ficou bastante pequeno. Faz falta em todas as áreas. Na medicina, por exemplo, todos os termos novos são procurados no latim e no grego. Eu tenho um testemunho muito interessante: em certa ocasião, um professor europeu esteve na USP trabalhando com alunos de matemática. Lá pelas tantas esse professor achou que esses alunos eram fracos em matemática e disse “O que faltou para vocês foi ter estudado latim”.  Eles perguntaram “O que o latim tem a ver com a matemática? São duas disciplinas, dois campos bem diferentes.” – “O latim teria estruturado a cabeça de vocês, no sentido de desenvolver melhor os estudos matemáticos”. Então, o latim teria influência até no desenvolvimento das pessoas que se dedicam à matemática.

 

José Wille – E quanto aos salários dos professores? O senhor afirma que, na década de 50, o professor podia viver bem.

 

Leopoldo Scherner – Muitíssimo bem! Lembro bem que, na época do governador Lupion – e presto esta homenagem a ele – as aulas obrigatórias para se fazer jus ao padrão eram em número de doze semanais. E o governador achou que doze aulas semanais para um professor era um exagero e reduziu a dez. E o ordenado do professor, se minha memória não está me enganando, era muito próximo do ordenado de desembargador. Ou desembargador ganhava pouco ou professor ganhava muito, mas eu suponho que o professor ganhava muito bem, porque não havia, como há hoje, este movimento que estão fazendo os professores de nível superior, reivindicando melhoria salarial. O professor, pelo padrão, era obrigado a dar dez aulas por semana. Eu, no meu caso, dava vinte aulas, o que corresponde a um turno. Se eu quisesse, poderia trabalhar apenas pela manhã ou à tarde. Mas, além dessas aulas, o professor poderia dar o que se chamavam de aulas suplementares e, naturalmente, recebia também por essas aulas.

 

José Wille – No segundo grau, existia o clássico e o científico. Eram duas opções, dependendo da área de interesse do estudante.

 

Leopoldo Scherner – Exatamente. Então, o clássico e o científico, dependendo da tendência ou interesse do aluno, eram direcionados nesse sentido. No clássico, havia uma dedicação maior para o campo da literatura, para o campo de ciências humanas; no científico, para as ciências. Já havia ali uma certa especialização, preparando o aluno em função da sua futura universidade, porém não esquecendo que o ensino de segundo grau tem uma finalidade em si.  Ele não está ali preparando o aluno especificamente para ingressar na universidade, como muito mal fazem hoje os cursinhos, que preparam exclusivamente para o ingresso na universidade. A nossa preocupação é de formar um indivíduo em todo o sentido, integralmente, e não objetivar determinado fim, de tal sorte que o aluno se prepara para entrar na universidade e aprende apenas macetes, que depois vai esquecer e realmente até faz questão de esquecer – porque não interessa mais, porque já está na universidade. É uma falha muito grande.

 

José Wille – O senhor era professor das duas principais escolas de Curitiba de segundo grau, o Instituto de Educação e o Colégio Estadual do Paraná – que era uma evolução do Ginásio Paranaense. Como era a rotina das escolas?

 

Leopoldo Scherner – Sem dúvida, a escola era mais tranquila. Sem dúvida, os alunos eram mais disciplinados. Naturalmente, entendo que hoje o aluno seja mais irrequieto. O aluno vive hoje num contexto muito diferente. Então, como tudo era mais tranquilo, mais simples, em decorrência de todo esse contexto, o próprio aluno também era mais tranquilo. Sempre achei que os alunos eram estudiosos. É claro que sempre houve aquele que não estudava… Também não quero ser um saudosista, imaginando que naquela época era tudo bom, mas o fato é que se vivia incontestavelmente mais tranquilo, com maior sossego. Foi uma época muitíssimo boa. Foi uma época bastante gostosa, de vida muito tranquila, muito boa, tanto aqui como no Rio de Janeiro, de onde eu vim.

 

José Wille – Até o Rio, que, na década de 40, era a capital do país, era uma cidade tranquila?

 

Leopoldo Scherner – Mas muito, muito tranquila! Não se falava em assalto, isso não existia. Havia ali o batedor de carteira, mas os crimes, os crimes sensacionais que hoje nós temos, os crimes terríveis que hoje acontecem diariamente, não existiam, simplesmente. É claro que sempre houve crime. A palavra sequestro, absolutamente! Drogas também, a não ser que se considere que o álcool também é uma droga. Isso havia… Mas essa droga generalizada que está aí, além do álcool, não existia, não se conhecia. É claro que já se ouvia falar de cocaína, mas nunca soube de ninguém que usasse isso. Simplesmente, não havia. Foi uma fase muitíssimo tranquila, muitíssimo boa.

 

José Wille – Na década de 50, o senhor já tinha formação em Filosofia, mas aqui, na Universidade do Paraná, cursou Direito. Nessa época o aluno e o professor andavam de paletó e gravata?

 

Leopoldo Scherner – Sim. Eu ainda peguei essa época em que os alunos vinham rigorosamente de paletó e gravata. Simplesmente não se conhecia outra coisa, não existia. Ninguém imaginou que pudesse, por exemplo, entrar na sala de aula sem paletó ou, sei lá, de blusão ou qualquer coisa assim, ou sem gravata. Simplesmente não existia, isso era qualquer coisa que não existia. Então, no meu tempo, fiz esses dois cursos dessa maneira. Não significa, já nessa época, que os cursos fossem aquela excelência. Trago grande recordação de excelência da universidade que frequentei no Rio de Janeiro, a diferença entre essa universidade e o curso de Direito que fiz aqui. No curso de Direito, alguns professores já eram muito fracos – e depois de formado, eu também tenho esta informação a dar. Eu passei a fazer parte de banca para ingresso na faculdade de Direito e tive muita oportunidade de observar que os exames de ingresso na universidade não eram muito sérios. Nesse aspecto, hoje está bem melhor. A prova objetiva que se pratica hoje para ingresso na universidade, esses concursos vestibulares, como nós chamamos, parecem-me que são mais honestos. Embora o ideal não seja o da prova de múltipla escolha, de certa forma ainda seleciona ao menos, de maneira honesta, os candidatos para o ingresso na universidade.

 

José Wille – No curso de Direito, na década de 50, a politização do estudante já começava a surgir?

 

Leopoldo Scherner – Lembro que, no Rio de Janeiro, apareceram os primeiros líderes estudantis, na década de 40 e 50. Aqui, na época de 50, também começaram a aparecer os primeiros, sem grande importância ainda. Lembro que, por exemplo, o Richa, isso já entrando na década de 60, era um político que saía da Faculdade de Odontologia da Federal e ia fazer as suas campanhazinhas ali próximo, na esquina seguinte da Faculdade de Filosofia. Lembro dele como líder estudantil começando assim. Aí, as coisas já começaram a ferver.

 

José Wille – E como o senhor, que foi um dos fundadores, começou a dar aulas na faculdade que viria a ser a Universidade Católica?

 

Leopoldo Scherner – Foi na época em que uma das minhas filhas, que nasceu prematuramente, estava na incubadora. O Irmão Albano, que sempre foi aquele baluarte da universidade e que ainda hoje está lá, muitíssimo respeitado, Osvaldo Arns, que era amigo meu, e o Liguaru Espírito Santo, também um grande líder católico, daqueles idealistas que fundaram a Universidade Católica, foram à minha casa especialmente me convidar para assumir a cadeira de literatura portuguesa, porque a cadeira estava sem quem ministrasse essas aulas. Naturalmente, fiquei muito lisonjeado. Eu tinha tido boas aulas de literatura portuguesa, fui muito feliz com relação ao corpo docente no meu tempo de Faculdade de Filosofia, no Rio de Janeiro. Então, considerava-me com boa formação nessa área e, portanto, tinha coragem para assumir a cadeira. É claro que esse convite veio quando eu ainda não tinha muita experiência, apesar de já lecionar no Colégio Estadual do Paraná e no Instituto de Educação do Paraná. Como eu trazia uma formação bastante séria do curso de letras neolatinas, isso me encorajou bastante. Aceitei as aulas e foi assim que ingressei na faculdade. O interessante, a meu ver, era o fato de que três dirigentes da faculdade iam à casa de alguém para convidá-lo a dar  aulas. Hoje, a situação do professor mudou de tal maneira que dificilmente se encontra alguém para ministrar determinadas aulas.

 

José Wille – Como surgiu o interesse pela literatura portuguesa e pela cultura de Portugal?

 

Leopoldo Scherner – Você falou em Portugal, falou da cultura de Portugal. Evidentemente, surgiu de maneira espontânea, acho que de maneira até natural, porque eu, às voltas com a literatura portuguesa, que implica muito estudo da cultura e da história portuguesas, adquiri uma ligação bastante grande com Portugal. Tanto assim que durante uma época, anualmente, eu ia a Portugal para fazer cursos. Houve um estreitamento meu com o Consulado de Portugal, evidentemente, e, por conta do governo de lá, eu ia anualmente fazer curso em Portugal, com tudo pago. E veio daí esse interesse, esse amor. Às vezes, ficava até um pouco engraçado. Os portugueses mesmo riem, porque tenho um amor muito grande à terra e à cultura deles, com um nome alemão! “O que tem a ver essa sua ascendência com Portugal?”. Que eu saiba, nada. Mas o fato de eu andar às voltas com a literatura, com a cultura, com a história da literatura e de Portugal, me leva a ter esse interesse. Tanto assim que, no ano passado, nós – digo nós porque trabalhei muitíssimo nessa questão – tornamos gêmeas, cidades-irmãs, São José dos Pinhais e Montemor-O-Velho.

 

José Wille – Com esse interesse pela língua portuguesa, o senhor elaborou um estudo também sobre a evolução em diferentes pontos da língua. Por exemplo, em Macau, há a mesma língua, mas há evoluções diferentes.

 

Leopoldo Scherner – Sim, sim, sim! Tive oportunidade de, em abril desse ano, ter estado em Macau. Lá se realizou o Oitavo Encontro das Universidades de Língua Portuguesa. Existe, portanto, uma entidade que congrega as universidades de língua portuguesa. E como Macau, em dezembro do próximo ano, vai passar definitivamente para a China, então ocorreu a ideia de fazer este encontro lá. Eu levei para lá um trabalho que acho interessante: estudei determinado documento original, provavelmente do século XIII, do qual existe apenas uma cópia do século XV, mil quatrocentos e qualquer coisa, que está na Biblioteca Nacional de Viena. Então, manuseando este documento, verifico termos que estão nesse documento – como, aliás, muitíssimos documentos da Idade Média atestam – comprovando que a linguagem do nosso matuto, do nosso homem do interior, é uma linguagem que se manteve viva, não se alterou, manteve-se tal qual os portugueses a trouxeram quando descobriram o Brasil. E que esses termos do nosso matuto, do nosso caipira, que por muitos são considerados errados  – “é língua de matuto, essa língua não serve, é língua errada!”  –  no entanto, são corretos, pois já estão ali documentados. Por exemplo, “avoar” em vez de voar – e isto está lá documentado. É claro que eu conheço outras construções e outro vocabulário ainda antigo, mas que não está especificamente neste documento. Por exemplo, também “pranta” em vez de planta, “sembrante” em vez de semblante, e por aí vou desenvolvendo. É claro que faço esse trabalho de maneira científica, dando os nomes próprios à evolução. Eu trabalho nesse sentido.

 

José Wille – O que parece uma deturpação do português pode ser, na verdade, a preservação de uma língua medieval, que se falava em Portugal?

 

Leopoldo Scherner – Exatamente! Então, não é deturpação, como você disse muito bem, mas é uma língua, um vocabulário, uma língua que se manteve sem alteração, sem sofrer outras influências e que, portanto, não evoluiu e não se alterou. E isso se explica, principalmente, pelo isolamento em que viveram essas populações e que, portanto, não sofreram influências externas. Voltando a Macau, infelizmente, lá hoje praticamente não se fala mais a língua portuguesa, fala-se a língua chinesa – o mandarim. Porque os portugueses tiveram Macau apenas como um ponto de apoio para o comércio com a própria China e com o Japão, e a língua portuguesa, no decorrer dos tempos, ficou esquecida.  Ela foi sendo dominada pela língua chinesa. Hoje, 1,6% apenas de pessoas falam a língua portuguesa em Macau. E quando Macau definitivamente voltar ou for incorporada à China, a língua portuguesa será apenas uma segunda língua. Haverá duas línguas, a língua chinesa como língua oficial e também uma segunda língua, que é a língua portuguesa, também oficial, apenas como uma homenagem aos portugueses que estiveram e ainda estão lá.

 

José Wille – Falando sobre a língua portuguesa, sobre a pronúncia da língua e o  sotaque: nós temos um sotaque curitibano característico.

Isso vai desaparecer com a comunicação de massa?

 

Leopoldo Scherner – Acho que já quase desapareceu. Mas, há 40 ou 50 anos, a pronúncia do curitibano ainda era muito na base do “leitE”, “contentE” etc. Hoje, raramente se houve quem fale dessa maneira. São muitos poucos. Os meios de comunicação, o rádio, a televisão, o fato de ser muito fácil viajar de lá para cá, de certa forma uniformizaram a língua. Isso vem desde quando os locutores de rádio, muitos deles gaúchos, por exemplo, procuravam uma pronúncia que não fosse rigorosamente a carioca, não fosse de jeito nenhum a nordestina, também não devia ser a do gaúcho, mas uma língua média, para não sofrer, digamos assim, crítica ou riso, nem daqui nem de lá.

 

José Wille – O senhor, quando foi para o Rio de Janeiro, com esse sotaque paranaense forte, sentiu algum problema?

 

Leopoldo Scherner – Eu, graças a Deus, tenho um ouvido bom. E quem tem ouvido bom se adapta às diversas pronúncias. Espontaneamente, confesso que me inclinei bastante para o modo de falar dos cariocas para não chamar muito a atenção. Por outro lado, espontaneamente, depois de 12 anos de Rio de Janeiro, quer queiram quer não queiram, as pessoas vão adquirindo o modo de falar de lá. Minha mulher, que era carioca, eu achava, por exemplo, que ela falava muito carioquês. Mas quando voltava para lá, eles já achavam que ela falava muito ao modo paranaense também.

 

José Wille – Qual é a explicação que o senhor tem para esse sotaque, essa forma de falar tradicional  do curitibano?

 

Leopoldo Scherner – Não sei bem, mas acho que aí existem diversas influências. A meu ver, isso é resultado dessa miscelânea de imigrantes que por aqui vieram, misturado com algum regionalismo também de Portugal. Há ainda o fato de termos vivido durante muito tempo nesse nosso estado mais ou menos fechados, com influências diversas, e fomos adquirindo naturalmente a nossa própria pronúncia.

 

José Wille – Sobre a sua área especificamente, que é literatura portuguesa: o senhor acha que é pouco ensinada essa disciplina no Brasil?

 

Leopoldo Scherner – Infelizmente, está esquecida a importância da literatura portuguesa no Brasil. Hoje, alguns autores portugueses ainda são lidos no Brasil – menciono, por exemplo, José Saramago, um autor atual, muitíssimo respeitável; naturalmente nomes como Fernando Pessoa e, evidentemente, Camões. Acho literalmente uma pena, eu acho lamentável que a literatura portuguesa esteja sendo esquecida. É claro que, nos cursos de letras, ministra-se essa disciplina, mas, pela importância, pelo valor de que nossa origem está em Portugal, deveria se dar bem maior importância à literatura portuguesa. Não entendo que um brasileiro tenha feito um curso de nível superior e nunca tenha ouvido, em sua vida, falar sobre Camões, ou nunca ter lido alguma coisa dele. Na minha cabeça, isso não entra, parece impossível, porque ele tem que conhecer Camões! Outro nome que está bastante divulgado, e até me orgulho de tê-lo trazido para cá, é o Fernando Pessoa, porque, quando eu comecei a lecionar, ninguém o conhecia. Hoje, naturalmente, é bastante conhecido, muita gente o cita, mas, com certeza, poucos leram Fernando Pessoa ou não entenderam Fernando Pessoa como ele merece. E para a própria satisfação de quem lê, seria interessante que com mais frequência a sua leitura fosse feita. Acho que até o segundo grau deveria ser ministrada literatura portuguesa. Até faço um apelo às autoridades: que introduzam a literatura portuguesa, ao menos alguns autores, porque ali está a origem da nossa língua. E que, inclusive, entrem no vestibular, para provocar o interesse na leitura de autores portugueses.

 

José Wille – O senhor acompanha o vestibular da PUC há tanto tempo e sempre alerta sobre isso: o jovem está muito distante da leitura.

 

Leopoldo Scherner – Infelizmente, todo o contexto de hoje leva a se ler muito pouco. Tenho experiência de pessoas ligadas a mim que ficam dia e noite na frente da televisão ou da internet. A televisão tem uma coisa, ela informa. A internet está informando. Mas estão pouco formando. Quanto tempo há para refletir? Quanto tempo há para criticar? Quanto tempo há para debater? Pouco tempo sobra. Então, acho que a leitura, infelizmente, está decadente. Pouco se lê e, às vezes, leem-se autores de pouco valor. A língua anda muito depreciada, com termos estrangeiros desnecessários invadindo a nossa língua. Não quero ser um purista que não aceita que um termo em inglês ou de outra língua qualquer entre no uso normal da língua portuguesa. Mas muitos termos desnecessários se introduzem na língua sem razão, deturpando e destruindo uma língua que tem as suas possibilidades de sutileza e que devem ser devidamente aproveitadas. O intelectual, a pessoa evoluída, tem necessidade de não escrever bonito, mas de se expressar de maneira que realmente, de modo mais aproximado possível, seja expresso o seu pensamento.

 

José Wille – E o ensino do vestibular? O senhor é um crítico do ensino que se faz hoje para o vestibular.

 

Leopoldo Scherner – Eu vejo assim. Infelizmente, os chamados cursinhos preparam exclusivamente com macetes. Olha o termo: eles preparam com macetes para a pessoa passar no vestibular. Esquecem que o ensino traz consigo formação. A nossa obrigação, como professores, é de ensinar, mas também é muitíssimo de formar. Como o cursinho ensina macetes, ensina pura e simples memorização, com prejuízo daquilo que é tão importante ou mais importante, que é a formação. O aluno passa porque acertou, porque memorizou, porque pôs a cruzinha no lugar certo e acha que pode esquecer aquilo, porque já não faz mais falta a ele, porque ele foi preparado exclusivamente para poder ingressar na universidade.

 

José Wille – O senhor foi um dos fundadores da Universidade Católica. Como foi o crescimento, chegando ao que é hoje, inclusive com o campus que o senhor levou para sua cidade, São José dos Pinhais?

 

Leopoldo Scherner – A formação, a constituição como universidade do que é hoje a Universidade Católica deve-se à aglutinação de diversas faculdades católicas já existentes. Então, já existia a Faculdade de Medicina Católica, existia a Faculdade de Direito Católica, existia a Faculdade de Serviço Social Católica e diversas entidades católicas, que se reuniram em uma só entidade, constituída na forma da muitíssimo importante filosofia católica. Daí, surgiu a Universidade Católica, que depois passou a ser pontifícia. Essas pontifícias, muitas vezes, são um mal-entendido. Os alunos perguntam “Mas é pontifícia porque manda dinheiro para Roma?” ou “Vem dinheiro de Roma para cá?”. Não tem nada a ver, não vai dinheiro daqui para lá, nem dinheiro de lá para cá. O que existe é o reconhecimento da Santa Sé do valor da seriedade da universidade, para qual, então, concede o título de pontifícia. É isso que acontece, é isso que ocorre. Lá pela tantas, a universidade foi levada para São José e eu tive o privilégio de ser o primeiro diretor neste segundo campus, onde passaram a funcionar os cursos de Direito, Administração, Ciências Econômicas, Ciências Contábeis e Pedagogia, em princípio. Isto tudo dentro de um centro. Hoje, já tem um segundo centro, onde existem os cursos de Ciências Agrárias e Ambientais. A universidade foi levada para São José dos Pinhais em 1991 e, portanto, em 7 anos, já tem mais ou menos 3.000 alunos e está funcionando muitíssimo bem.

 

José Wille – Entre sala de aula, pró-reitor da PUC, diretor do campus de São José e outros cargos, o senhor tem quase 50 anos dedicados à PUC.

 

Leopoldo Scherner – Quase 50 anos! Lá estou eu, atuando como professor e atuando em direção. Inclusive, fui pró-reitor na gestão passada. No momento, sou assessor do reitor. Atuo dentro do possível na formação destes jovens – e confesso que com muito amor, com muito interesse. Realmente, fico feliz quando vejo meus alunos aparecendo inclusive na televisão. Eu participei desde o começo do curso de Comunicação Social, trabalhei com a Língua Portuguesa sempre, sempre, sempre, sem falhar, até a hora em que foi o momento de ir para São José. E aí se tornou difícil trabalhar em sala de aula. Uma das coisas que me traz mais felicidade é quando vejo que um aluno está realizado. Entro numa redação de jornal e lá tem alunos; entro numa televisão e lá tem alunos; vejo na tela de televisão meus alunos. Fico feliz com isso.

 

José Wille – E o seu trabalho, como autor de obras poéticas? O senhor tem várias obras publicadas.

 

Leopoldo Scherner – Eu me considero um poeta. E poeta tem um pouco de profeta. Poeta e profeta são duas coisas ligadas. Poeta é aquele que diz e não diz. Porque o trabalho poético, o trabalho de arte, é sempre um trabalho simbólico, metafórico, não é?  Digo que posso poeticamente falar sobre uma mesa e, no fim e no fundo, talvez, nem mencionar mesa e, no entanto, estou falando sobre a mesa, porque soa de uma maneira metafórica. Então, é sempre dizendo alguma coisa para dizer outra. Eu tenho alguns livros de poesia, mas alguma coisa também de caráter menos poético. Por exemplo, eu tenho um trabalho sobre Camões, que foi escrito em 1980, por ocasião do Centenário de Camões. E fiz questão de dizer que eu mesmo nem tinha capacidade para isso, mas queria falar sobre Camões de tal maneira que o mostrasse ainda atualizado, ainda vivo, um Camões que fosse apreciado pelas pessoas que não fossem especializadas. Então, é assim que eu faço esses meus trabalhos, que se poderiam chamar de científicos, mas não sei bem se científicos são. Mas lá vou eu dentro de uma linha que considero atual ou atualizada, mas, sempre que possível, com recursos mais antigos. Reconheço que sempre existe uma influência da literatura portuguesa, da literatura mais antiga, até medieval, nos meus trabalhos, mas procuro dizer o que acho que devo dizer, a verdade que eu reconheço ser verdade. É assim que eu trabalho. Muitos alunos que leram as minhas coisas perguntam “O que o senhor entende por isso? De repente, o senhor diz uma coisa; de repente, diz outra. Como vai ser essa coisa?”. É poético! A poesia, se ela é verdadeira, deve refletir a média do pensamento das pessoas. Enquanto umas gostam de uma coisa, outras gostam de outra. Ela é a-racional, não é irracional. Por isso, ela pode parecer contraditória. E é sendo contraditória que ela há de ser poética.

 

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