Luiz Alfredo Malucelli, o Malú, foi o paranaense dos “sete instrumentos”

malu - Luiz Alfredo Malucelli - festa da rádio rock - maio de 2004 (7)  malú foto ok - foto de josé wille 5

 

.

.

.

.

.

.

.

.

.

Jogador de futebol, repórter esportivo, jornalista, publicitário, cronista, escritor, cozinheiro, diretor comercial, empresário… As múltiplas facetas de Luiz Alfredo Malucelli, o Malú, fazem parte da história do desenvolvimento dos meios de comunicação no Paraná. Aficcionado por culinária, Malucelli redigiu por anos a “Coluna do Malu”, com a qual ganhou a fama de ser um dos grandes  gourmets do Paraná. Esta entrevista foi gravada em abril de 1998 para o projeto Memória Paranaense original, da Rádio CBN e Inepar.  Ele morreu aos 80 anos em 2014.

 

 

José Wille – Começamos contando a história da família Malucelli, uma das maiores famílias italianas do Paraná, e que se estabeleceu em Morretes.

 

Luiz Alfredo Malucelli – Exato. O Giovanni e a Margarita Malucelli vieram da Itália, em 1877, e se estabeleceram em Morretes, inicialmente com agricultura, plantação de banana. Mais tarde, compraram um engenho de cachaça e, depois, uma usina de açúcar, que já foi vendida.

 

José Wille – E até hoje tem a festa da família Malucelli.

 

Luiz Alfredo Malucelli – Nós temos a Fundação Giovanni Malucelli, que se reúne anualmente. Foram restaurados os casarões onde a maioria dos Malucelli nasceu e todo ano tem uma festa para comemorar a vinda ao Brasil.

 

José Wille – Como foi o caminho de Morretes a Curitiba?

 

Luiz Alfredo Malucelli – O primeiro grupo que saiu de Morretes foi para Palmeira e, lá, comprou uma serraria. Outro ramo da família foi para Fernando Espinheiro. O meu grupo, o do João Malucelli, que era um dos filhos, também comprou uma serraria entre Palmeira e São João do Triunfo, e depois veio para Curitiba. O Malucelli da Visconde, que é deste mesmo ramo, veio depois da Segunda Grande Guerra. Em seguida, foram se espalhando pelo Brasil… Hoje, a família está entranhada por aí.

 

José Wille – O senhor veio para Curitiba e a primeira atividade aqui foi a de jogador de futebol?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Sim. Vim para Curitiba em torno de 1940, depois de passar por essa serraria perto de São João do Triunfo. Por volta de 1947, fui jogador de futebol no juvenil do Clube Coritiba, no qual joguei até 1950. Fui campeão em 1949/1950. Depois, por insistência de um tio meu, atleticano doente, fui jogar no Atlético como aspirante. Em 1953, joguei um ano no profissional do Britânia e depois desisti de jogar futebol.

 

José Wille – Naquela época não havia tanto brilho em cima da carreira de jogador?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Existia. Curitiba era uma cidade pequena naquela época, mas nós tínhamos grandes jogadores, como Fedato, Jackson, Cirino… Eram conhecidos, ganhavam presentes,… Jogador de futebol já era idolatrado.

 

José Wille – Mas não dava para viver do salário de jogador de futebol na época?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Não dava. Alguns ganhavam, mas era apenas para se manter.

 

José Wille – Sobre as partidas de futebol em Curitiba. Já havia essa paixão na cidade ou isso cresceu mais tarde?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Eu acredito que sim, porque, naquele tempo, os campos eram pequenos. Depois, houve o advento do estádio Dorival de Brito, do próprio Joaquim Américo… O Coritiba, que já tinha um campo razoável, construiu o Belfort Duarte. Todos enchiam, os estádios viviam lotados…

 

José Wille – E o acompanhamento da imprensa?

 

Luiz Alfredo Malucelli – O rádio sempre foi atuante no futebol e os jornais davam uma relativa cobertura. Inclusive, tínhamos um jornal especializado, o “Paraná Esportivo”. E a “Gazeta do Povo” também teve, por um tempo, um jornal esportivo. Mas, quanto às rádios, não havia tantas como hoje, mas eram atuantes, participavam e transmitiam programas esportivos, tinham um bom nível, inclusive com bons cronistas esportivos.

 

José Wille – No final da década de 40 e começo da década de 50, as rádios iam aos campos e faziam o acompanhamento dos jogos?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Acompanhavam muito sofridamente, pois a comunicação por telefone era precária. Em Curitiba, ainda era razoável, mas no interior, às vezes, a cidade só tinha a possibilidade de uma emissora transmitir o jogo por telefone que era precaríssima!

 

José Wille – O senhor falou do seu temperamento, que era explosivo. Isso foi decisivo para deixar o futebol?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Eu acredito que só um pouquinho, porque eu não era muito apaixonado por jogar futebol. Mas, principalmente, deixei o futebol em função de uma ordem de meu pai, para ir trabalhar na usina de açúcar que a família tinha em Morretes, pois o meu tio tinha falecido. Aí, virei plantador de cana.

 

José Wille – Seu pai não via sentido em ser jogador de futebol?

 

Luiz Alfredo Malucelli – O meu pai era daqueles imigrantes – quase todos os imigrantes eram semianalfabetos – que queriam filhos doutores. Eles não queriam saber o que você queria, o que você desejava, eles impunham.  Então, acabei indo para Morretes trabalhar na usina de açúcar, cuidando da parte de produção de cana.

 

José Wille – O senhor não falou do seu temperamento. O senhor era explosivo como jogador de futebol?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Sim. Era rabugento. Eu só fui expulso uma vez, mas não gostava de perder. Então, eu acho que não tinha muito gênio para…

 

José Wille – … Aceitar a derrota?

 

Luiz Alfredo Malucelli – É. Não gostava muito de perder.

 

José Wille – E, depois, retornando a Curitiba, houve a passagem de jogador de futebol para repórter esportivo?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Antes de ir para Morretes, já participava em transmissões como repórter da rádio Guairacá, na PRB2. Mas consolidei a profissão quando voltei, em torno de 1956/1957, pois comecei a trabalhar na rádio Colombo, já como profissional.

 

José Wille – E tinha uma boa compreensão de futebol, que ajudava como repórter…

 

Luiz Alfredo Malucelli – É, a gente vai aprendendo… Eu nunca tive facilidade para ser um locutor, eu era um repórter. Comecei a trabalhar na “Gazeta do Povo” e era esforçado, procurando saber das coisas, estar bem informado, conhecer bem o pessoal. Desta forma, fui contratado para a rádio e passei a viver praticamente disso.

 

José Wille – O rádio era muito importante na década de 50, quando não existia ainda a televisão aqui. Como era a cobertura do futebol dentro das poucas emissoras curitibanas?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Antes de vir a televisão, o rádio era importantíssimo, como é até hoje, porque ele entra em todas as camadas sociais. O rádio era importantíssimo, era influente programas como a “Revista Matinal”, de Arthur de Souza, era o jornal nacional da época; tinha também “A Hora do Angelus”, do Dalegrave e do Lourival Portella Natel, que apresentavam o programa e depois davam autógrafos quando iam às igrejas, missas… Eram todos estimadíssimos em Curitiba.

 

José Wille – O senhor era um repórter de campo no rádio e, no final da década de 50, o rádio era muito precário tecnicamente. Como era essa mobilidade, essa possibilidade de correr e conversar com os jogadores?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Não havia esses microfones sem fio que existem hoje. Os equipamentos eram aquelas maletonas, que precisava ser um atleta para carregar. Era realmente precário, mas era atuante e tinha um bom nível profissional.

 

José Wille – E, na sua passagem pela “Gazeta do Povo”, fazendo a crônica esportiva na década de 60?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Entrei na “Gazeta do Povo” antes da compra pelo dr. Francisco Cunha Pereira. O jornal era mal aparelhado, estava com dificuldades inclusive. Mas, como eu gostava de jornal e, até hoje, sou fissurado em jornal, um leitor assíduo, tomei gosto. O diretor de esporte era João Elísio Vieira da Costa e eu fiquei sendo o editor. Até modificamos a paginação da “Gazeta do Povo”, imitando o “Jornal do Brasil”. O Armando Nogueira era o grande cronista na época. Eu o admirava muito, mas nunca aprendi a escrever como ele… Prossegui a carreira no rádio, no jornal e na televisão.

 

José Wille – Com a chegada da televisão, em 1960, o senhor foi para o Canal 6, TV Paraná, que chegava pelas associadas. Nesta época, a televisão ainda não transmitia jogo de futebol?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Não, porque não tinha videotape, que veio bem mais tarde.

 

José Wille – Transmissão a distância não se fazia?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Depois, se me lembro exatamente, a televisão começou a transmitir os jogos na Copa de 1962, no Chile. Eles traziam de avião o cinescópio e passavam a filmagem, mas era muito difícil.

 

José Wille – Eram cenas curtas de filmes?

 

Luiz Alfredo Malucelli – No local, a gente eventualmente usava filmes, porque eram muito caros. E filmavam e tinham que revelar, era muito complicado… O programa era quase todo só falado.

 

José Wille –Em que momento a televisão se consolidou como veículo importante comercialmente no Paraná?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Nós tínhamos apenas o Canal 12, que era bem precário, e a Tupi logo trouxe um equipamento mais sofisticado, com uma programação variada, inclusive fazendo teatro, shows com grandes artistas… Então, ela teve uma influência muito grande, que virou totalmente o mercado publicitário do rádio para a televisão, inclusive roubando clientes de jornais.

.

livro malú - luiz alfredo malucelli - malu

Livro de Malú redigido por Gilberto Fontoura.

.

 

José Wille – E o rádio começou a enfrentar com a perda de boa parte da verba publicitária?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Exatamente. O rádio tinha radioteatro, como a PRB2, uma emissora que competia em nível nacional, com suas ondas curtas. Mas houve, então, uma decadência no setor.

 

José Wille – Na década de 60, o senhor passou praticamente dez anos acumulando rádio, televisão e jornal na área esportiva, fazendo a cobertura para os três veículos aqui no Paraná?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Perfeito. E ainda era funcionário público, redator do Departamento de Imprensa do estado, cargo ao qual eu renunciei, pedi demissão depois de alguns anos.

 

José Wille – Como foi a passagem para a área executiva de publicidade? O senhor assumiu, em 1967, a gerência comercial da rádio Guairacá.

 

Luiz Alfredo Malucelli – Exato. Eu era o editor de esporte do “Estado do Paraná” e da “Tribuna” e o dr. Paulo Pimentel, na época governador do estado e dono do jornal, comprou a rádio Guairacá, e o cargo ficou um tempo vago, pois era uma rádio que não tinha muita audiência.

 

José Wille – Ela tinha sido uma grande rádio, mas estava decadente nesta época?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Estava praticamente abandonada… Aí, eu me interessei, porque ganharia um salário maior do que eu ganhava como editor de dois jornais e ainda tinha gratificação e comissão. Então, resolvi correr o risco, comecei e deu certo. Tive auxílio de companheiros, como Euclides Cardoso, que cuidou da parte artística da rádio. A rádio se equipou, o dr. Paulo Pimentel comprou um equipamento melhor e nós tivemos êxito na função. E, em 1969, eu acumulei uma função dentro do departamento comercial da TV Iguaçu.

 

José Wille – Era um momento de maior adversidade para o rádio.

 

Luiz Alfredo Malucelli – Sim. Era difícil, difícil como é até hoje. Mas, sem falsa modéstia, eu trabalhava muito… Nós tínhamos um apetite muito grande para vencer e trabalhamos bastante. Como a rádio também era do governador, o pessoal do estado também ajudava por exemplo, o sr. Moraes, que era diretor comercial do estado, e o João Féder, que era também procurador do governador na época, cuidava do jornal. Assim, tivemos alguma facilidade para executar a tarefa com muito sucesso.

 

José Wille – O senhor foi para o Canal 12, que, justamente naquela época, perdia a Globo, que passou para o grupo Paulo Pimentel. Como ficava manter uma televisão que perdeu a programação de uma rede em crescimento, no começo da década de 70?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Eu entrei na TV Paranaense como gerente comercial em março de 1970. A programação de grande repercussão, na época, era a da Record, que estava na TV Iguaçu, e a Globo, que estava começando a aparecer no ibope Rio-São Paulo, era da TV Paranaense, Canal 12. Logo em seguida, em 1971, a programação da Globo, já líder de audiência, passou para o Canal 4, a TV Iguaçu, e a TV Paranaense pegou a programação da Record. Nós enfrentamos dificuldades, mas, para felicidade nossa, o dr. Francisco, dono recente do Canal 12, comprou para  a emissora um equipamento totalmente novo e a cores, que era pioneiro em Curitiba e no Paraná. Em seguida, ele alugou o castelo do Moisés Lupion, no Batel, e a TV teve um período de prosperidade, porque montou uma programação diferenciada, oferecendo uma alternativa de programação, com filmes e futebol. Desta forma, subsistimos até 1976, quando a programação da Globo voltou para a TV Paranaense, em abril desse ano, num desentendimento do dr. Paulo Pimentel com o regime militar e com os governantes daqui na época.

.

malueesposax

Malú com a esposa em 2005.

.

 

José Wille – Foram seis anos numa fase em que as emissoras começavam a ganhar programação de rede. De que forma o Canal 12 buscou conquistar espaço?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Além dessa programação de filmes, que era bem interessante, bem atrativa, e do futebol e do jornalismo, procuramos algum tipo de programação que envolvesse a comunidade. Fizemos vários projetos que tiveram êxito até minha saída da televisão, em fevereiro de 1990.

 

José Wille – Uma curiosidade é que a televisão começava sua programação à noite. O Canal 12 teve a iniciativa de trazer essa programação para mais cedo, já na hora do almoço, com a transmissão do jornal.

 

Luiz Alfredo Malucelli – Naquela época, as emissoras só funcionavam praticamente no fim da tarde para a noite. Então, o Canal 12 começou a operar com um programa esportivo e, em seguida, com um programa jornalístico. E ganhou assim um novo espaço dentro do horário comercial, com um tipo de programação diferente. O Luiz Geraldo Mazza era o editor e comentarista também, porque ele sempre acompanhou e gostava de futebol. E os apresentadores eram o Carlos Marassi e o Almir Feijó. Então, era um programa de alto nível. Dava-se continuidade com um programa jornalístico e, depois, à tarde, continuava a programação de filmes e outras atrações, programas infantis etc.

 

José Wille – Na falta de uma produção local maior, fazia-se alguma coisa parecida com o rádio na televisão?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Sim. Não havia muito recurso no início. Mas a compra pelo dr. Francisco, os investimentos e a mudança  para o castelo fizeram a emissora crescer tremendamente e ter sucesso, apesar de não ter ainda a programação da Globo.

 

José Wille – O trabalho da direção comercial, de atração do cliente, de relações públicas, a proximidade com o cliente… Como o senhor desenvolveu isso? Essa tarefa foi um dos destaques da sua atuação.

 

Luiz Alfredo Malucelli – Nós tínhamos um grupo que, em princípio, se reunia no sábado. Nós nos encontrávamos na emissora, tomávamos aperitivos, depois íamos almoçar, geralmente feijoada. Depois, passamos a fazer essa reunião na sexta-feira e começamos a cozinhar, quando passamos para o castelo.

 

José Wille – O senhor sempre gostou de culinária também?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Eu já gostava de cozinhar e fiz uma macarronada para aquele grupo de seis, dez pessoas, que se reunia na sexta-feira. Aí, passei a fazê-la toda semana, ainda mais no castelo, que tinha um local próprio ao lado da piscina, e comecei então a convidar os publicitários e os clientes do Canal 12. Aquilo virou o “Clube do Copinho”.

 

José Wille – …Que era na antiga piscina do Moisés Lupion, nos fundos do castelo.

 

Luiz Alfredo Malucelli – Era lá, ao lado da piscina, onde hoje é a cantina do Canal 12. Começamos a brincar lá com a turma, que foi vítima de experiências, porque nós fazíamos variados pratos e alguns amigos iam cozinhar. Aquilo virou uma tradição e o Clube do Copinho ficou famoso, até 1980.

 

José Wille – De que forma essa aproximação funcionava, pois as vendas têm o aspecto técnico do anunciante mas têm também a aproximação.

 

Luiz Alfredo Malucelli – Você ganha a confiança do anunciante, pois ele sabe que você também cuida do interesse dele. Porque quebra o gelo, ele passa a olhar nos olhos, acredita em você, quer o seu conselho. Uma vez, o dono de uma imobiliária queria anunciar vinte vezes na novela das 20 horas, pois tinha vinte apartamentos ali na Emiliano Perneta. Eu lhe disse que ia jogar dinheiro fora, bastava anunciar três vezes, porque, depois que você autoriza, não pode cancelar o espaço de televisão é etéreo, não recupera, não é mercadoria física, que se pode trocar ou receber de volta. E não deu outra: com dois anúncios, ele vendeu o prédio que tinha. Então, com isso, a gente ganhou a confiança do anunciante, porque ele passou a conhecer a emissora por dentro, conhecer de perto as pessoas com quem estava lidando… Com isso, você quebra o gelo.

 

José Wille – Como funcionavam as atividades comunitárias e as campanhas, para fazer essa aproximação, não só com o anunciante, mas também com a comunidade?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Com a formação de redes, os programas de auditório ficaram muito caros para as emissoras e sem ter aquela qualidade de uma emissora matriz, como era o caso da Globo e, hoje, do SBT e de outras, pois elas diluem o custo com 20, 30, 50, 60 emissoras. Então, passou-se a integrar uma rede e a programação local inexistia, com exceção de alguns horários de jornalismo. Começamos a usar espaços comerciais, fazendo vinhetas com assuntos locais, como nós fizemos, no Canal 12, com grande sucesso, o “Curitiba Capital do Natal”, que se realiza todos os anos e se engrandeceu com a entrada do Bamerindus, com o coral de Natal no Palácio Avenida, e com Rafael Greca também, quando fez o Auto de Natal na praça Santos Andrade. Hoje, Curitiba tem uma atração especial no fim do ano com essa programação. Nós fizemos, também, “O Semeador”, para divulgar o pequeno empresário que não tinha condições de anunciar na televisão. Fazíamos uma série de entrevistas com esse pessoal graciosamente, não pagavam nada, quem pagava era o patrocinador. Fizemos também, e de que muito me orgulho, em 1986/1987, o “Meu Paraná”, em que mostramos as estâncias hidrominerais, cascatas e saltos do Paraná, o Guartelá, um cânion até então desconhecido, que nós mostramos na época do Álvaro Dias, em um projeto que apresentei para o secretário de Turismo.Tendo boa vontade e um pouco de criatividade, existe a possibilidade de você se integrar com a comunidade, fazer projetos que têm interesse para a sociedade.

.

.

91 Minutos na Rádio Rock em 2003

 

Malú (  esquerda ) fazia parte da equipe e trazia receitas no extinto programa “96 Minutos” da Rádio Rock em 2003.

.

.

José Wille – O senhor acha que isso complementa e cria uma identidade local, pois as emissoras em rede hoje tendem a se afastar da comunidade local?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Exatamente. Acho que existe um espaço, mas precisa se criar coisa boa, criar ideias boas. Não adianta fazer, botar lá uma imagem sem razão de ser. Nós criamos coisas que despertavam o interesse da comunidade.

 

José Wille – O senhor contava sobre aquele período quando o Canal 12 ficou seis anos sem a programação da Rede Globo. Em 1976, quando Pimentel teve problemas com Ney Braga, no  governo militar, novamente houve o retorno da programação da Globo para a TV Paranaense. Como foi este retorno de uma rede já consolidada, que trazia a audiência de uma forma mais segura?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Para a televisão, foi muito bom, porque a gente passou a ter outro tipo de cliente, e como a Globo, para os clientes nacionais, ela mesmo faz a venda, então o crescimento da TV Paranaense foi espantoso. Isto facilitou muito mais a vida do pessoal do comercial, pois foi um salto gigantesco em termos de faturamento. Claro que ela passou a operar com uma nova tabela, com alguns clientes, mas procuramos manter todos os contratos, honramos os que nós tínhamos na casa e, a partir do término, estes contratos foram renegociados e nós continuamos com uma ocupação quase plena nos nossos espaços comerciais.

 

José Wille – O senhor respondeu pelo espaço comercial de uma emissora que era afiliada a uma rede que praticamente não tinha concorrência por 14 anos. Como isso pode se refletir dentro de uma equipe de vendas? Por exemplo, não se cria comodismo pela facilidade de ter um produto que o anunciante está procurando e que não tem concorrência?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Não, até pelo contrário, porque, a partir de 1980, com a associação que o dr. Francisco fez com o dr. Roberto Marinho, a equipe foi aumentada e nós tivemos uma nova visão do mercado, com um treinamento orientado pela Globo. Nossa participação no mercado foi maior ainda, porque nós passamos a agir de outra maneira. Tínhamos uma equipe pequena antes da sociedade com a Globo e, a partir de 1980, tivemos 10 anos de um treinamento intensivo de vendas, de conhecer o que era a Globo e a nova sistemática de venda. Aumentamos a capacidade de vendas, pois procuramos nos especializar em uma venda mais técnica – antes era mais emocional. Dessa forma, a emissora teve um crescimento extraordinário.

 

José Wille – Muitas vezes, o anunciante confunde a questão editorial com o valor que ele paga como anunciante. Como administrar essas situações?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Na Globo, não há esta mistura. O jornalismo da Globo é independente. O que acontece é que, às vezes, pode se transformar uma inauguração em uma notícia. Por exemplo, nesses dias foi inaugurado o Extra em Curitiba. Então, por que não perguntar ao sr. Abílio Diniz porque ele está vindo para cá? Deve existir a sensibilidade do jornalista de transformar uma notícia que seria “comercial” em um fato jornalístico, já que o Extra fez um investimento de 21 milhões de reais, que vai dar emprego para 900 ou 1000 pessoas. É um empreendimento interessante, é uma noticia.

 

José Wille – É buscar na notícia econômica o interesse comunitário.

 

Luiz Alfredo Malucelli – Claro! Informar para o público o que está havendo, que está se inaugurando um supermercado com funcionamento 24 horas… Então, acho que cabe aos jornalistas a sensibilidade para transformar uma notícia que hipoteticamente seria somente de interesse comercial do dono da loja, em uma notícia de interesse para a comunidade.

 

José Wille – No quadro geral da televisão do Paraná, o que dificultava a competição das outras emissoras nas décadas de 70 e 80. A dificuldade de se criar alternativas para fazer frente a uma grande rede e se buscar alternativas comunitárias, outras saídas para a programação?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Exatamente. Eu acho que as emissoras têm que pensar nisso. Temos hoje a Globo que domina, com uma audiência massacrante; temos o SBT, que cresceu muito, até com a contratação de alguns elementos da Globo; e com a compra pelo bispo Macedo da Record, ela começou a incomodar, mas acredito que seja negócio meio passageiro, pois o Ratinho realmente tem carisma, é muito comentado, muito badalado, mas, como emissora, como rede, como matriz de rede, eu sinceramente tenho as minhas dúvidas… Se eles continuarem investindo numa programação alternativa ou continuarem vendendo o peixe deles, que é a religião, esse fanatismo religioso, eu não acredito no sucesso dela. Acredito mais numa emissora como a do Sílvio Santos, que realmente investiu e está investindo em uma programação para competir.

 

José Wille – O que acontece nos Estados Unidos com várias grandes redes, cada uma com uma parcela pequena de audiência é para isso que o Brasil também ruma, com a segmentação da televisão, com a TV a cabo?

 

Luiz Alfredo Malucelli – A televisão a cabo segmentou, mas é aquela história… Só vão subsistir as emissoras a cabo que têm uma programação que ofereça opções. A Rádio CBN, por exemplo, ganhou um nicho em Curitiba importantíssimo, porque ela está fazendo um jornalismo competente. Mas a emissora que ficar só no esporte, só no jornalismo ou só na religião, quem sabe… Tem muita gente que é religiosa e gosta de programas religiosos, por exemplo. Mas, se houver competência, acredito que cada emissora vai ter o seu nicho. É o caso dos jornais: em Curitiba, é um espanto como existe um grande número de jornais de bairro, especializados. Então, se segmentar-se sem competência, não vai ter futuro. Não sei quantas emissoras de TV a cabo caberiam em uma cidade com um milhão e quatrocentas mil pessoas como Curitiba.

.
malu - Luiz Alfredo Malucelli - festa da rádio rock - maio de 2004 (7)  malú foto ok - foto de josé wille 5

.

 

José Wille – Uma emissora eclética, que tenta pegar uma faixa muito grande de público, ficaria inviável no futuro, já que a tecnologia possibilita muitos canais e a segmentação divide a televisão por interesses, por áreas específicas de cada público?

 

Luiz Alfredo Malucelli – É muito difícil, porque a Globo, por exemplo, já está muito adiantada. Foi uma emissora que se equipou e se equipa seguidamente, brigando constantemente pela qualidade, não só de sua produção como também no seu aspecto técnico. Se as outras emissoras, principalmente o SBT, que é uma emissora mais preocupada em continuar brigando pelo seu segundo lugar, vão se manter, devem lembrar que a segmentação não vai dar uma grande audiência. A emissora a cabo tem os seus clientes, mas também não existe para ela um grande mercado comercial, porque, às vezes, a emissora tem um programa de grande audiência, vários programas, no caso das novelas, mas tem o limite do mercado publicitário, do qual depende para poder subsistir. A Globo tem programa infantil, esportivo, programa para a mulher, jornalismo, filmes… Então, ela separa, segmenta a sua atuação como emissora de atração e programação de interesse comercial, delimitando o espaço onde existe a capacidade do mercado em anunciar.

 

José Wille – Hoje, há uma excessiva popularização, uma tendência das emissoras de televisão, das redes, buscando atrações apelativas, até mesmo brigas familiares… Os meios de comunicação vão continuar lutando pela audiência e apelando para essa linha de programação?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Pelo que me consta, nos Estados Unidos e na Europa, são programas de grande audiência. Eu tenho ouvido, na Boca Maldita, que tem gente que gosta de ver aquele programa de murro, que é real, sem luvas… Aquilo é uma barbaridade, uma selvageria, mas tem gente que gosta. O Ratinho, por exemplo: o Mazza comentou que ele era uma figura carismática e eu me dei ao trabalho de assistir ao seu programa. Realmente, ele é interessantíssimo como apresentador e não tem tanta baixaria. Dizem que há programas piores em baixaria, que levam casais para se esbofetear na frente das câmeras.

 

José Wille – O senhor acha que a tendência é a manutenção dos programas populares e a continuidade da segmentação por interesses específicos de público?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Não há dúvida, não há dúvida! Essa baixaria que os programas desse tipo fazem, com casais fazendo confidências na frente das câmeras, briga de sogra com genro, isso tem gente que gosta, há gosto para tudo… Agora, as grandes emissoras, que vão ganhar dinheiro, fazem uma programação mais séria, com mais qualidade, de nível.

 

José Wille – O senhor falou dos 20 anos em que dirigiu a área comercial do Canal 12, da TV Globo, aqui no Paraná, com aquele crescimento todo. Após 1990, depois de 20 anos de trabalho, com essa consolidação toda, o senhor deixou a emissora. Por quê?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Eu estava estressado, eu saturei. Fiz um acordo amistoso com o dr. Francisco e fui trabalhar no Paraná Banco, onde estou até hoje.

 

José Wille – Continua na área comercial, mas de outra forma, mais leve?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Hoje, eu tenho a felicidade de não ter patrão, de não ser empregado.

 

José Wille – Hoje publica sua coluna na “Gazeta do Povo”, que traz os fatos curiosos da história do Paraná, da comunicação, da política. Isso vai render um livro?

 

Luiz Alfredo Malucelli – A ideia é publicar. Eu não gosto de jogar baralho, não vou desde 1967 a jogo de futebol, gosto de fazer comida, de comer e de bater papo. Sempre fui um ouvinte de histórias e gosto muito de contá-las também. Já no tempo em que escrevia esporte na “Tribuna”, eu sempre contava algumas histórias. Era uma coluna séria, mas, de vez em quando, eu contava uma coisa jocosa. Então, a partir do momento em que comecei a escrever uma coluna na “Gazeta do Povo”, tenho uma fonte enorme de histórias, mas vou atrás de mais. Sempre que descubro algum contador de história, procuro agendar uma entrevista, vou conversar com ele e tomo nota. Recebo, também, muitos telefonemas e faxes e vou à Boca Maldita pelo menos três vezes por semana, porque ali é uma fruteira.

 

José Wille – O senhor acha que irá render um livro sobre os bastidores do Paraná?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Eu acho. Até já tenho histórias colecionadas e textos armazenados para uns dois livros.

 

José Wille – Na política, há alguma que dê para contar?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Bom… Lá na Boca, tem o senhor João Batista de Moraes, que foi diretor do “Estado do Paraná” há muito tempo, que é um gozador e tem 80 e poucos anos hoje. Esses dias ele me contava sobre o Manoel Ribas, que foi interventor do Paraná de 1932 até 1945. Ele tinha o apelido de Maneco Facão, porque foi diretor de uma cooperativa no Rio Grande do Sul, que foi um sucesso, e Getúlio Vargas o nomeou como interventor do Paraná. E ele era um pouco rude e chegou aqui demitindo gente, mudou a política e ganhou o apelido de Maneco Facão. Numa manhã, o chefe de polícia na época, Fernando Flores, viu que ele estava com os olhos inchados e disse “o senhor está com conjuntivite”… E chegou o Gaspar Veloso, secretário de Educação, e Manoel Ribas disse: “estou com conjuntivite nos olhos”, ao que respondeu o Gaspar “Ribas, conjuntivite nos olhos é pleonasmo”. E Manoel Ribas respondeu, rudemente, “eu não sei se é pleonasmo ou conjuntivite, mas estou com os meus olhos fuzilados”.

 

José Wille – E quanto à comunicação? Surgem também algumas histórias do rádio e da TV?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Do rádio, tem fabulosas! Eu já contei várias, inclusive do nosso amigo Marcos Batista. No dia em que ele viu a notícia do vestibular, entrou correndo no estúdio, escorregou bem antes da mesa, bateu no cenário e o derrubou. Acabou com o programa que era apresentado pelo Mario Bittencourt! Há outra muito boa, com o Fritz Basfeld, que é um professor de comunicação e foi um dos pioneiros da TV e do rádio. Ele apresentava um programa tipo disk jockey no Canal 12, ali na Emiliano Perneta, e um cara ligou “Fritz, você sabe que você tem cara de…” e disse um palavrão e isso no ar, era ao vivo! Ele ficou encabulado, ficou vermelhão e não reconheceu a voz. E, no dia seguinte, o mesmo cara ligou e repetiu a mesma coisa e acabaram com o programa dele. Era o Maurício Fruet, o maior aprontador que existe… O Mauricio é terrível! Ele dedica a vida para preparar um trote para alguém.

 

José Wille – O livro sai?

 

Luiz Alfredo Malucelli – Pois é, a ideia é lançá-lo em breve.

 

 

 

Clique aqui para encontrar outras publicações desta coluna.

Contato com José Wille