Mário Vendramel era conhecido como o “Chacrinha do Paraná”

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Mário Vendramel foi locutor de rádio, ator de radionovelas e precursor dos programas de auditório no rádio paranaense. Mais tarde, por longo tempo, o Programa Mario Vendramel esteve no ar na TV Paranaense Canal 12, e TV Iguaçu – Canal 4.  Pelas semelhanças, ficou conhecido como o “Chacrinha do Paraná”.  Ele morreu no ano 2000, dois anos depois de gravar esta entrevista.

 

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José Wille – Você é do interior de São Paulo, nascido em 1932. Seu pai trabalhava com o quê?

 

Mário Vendramel – Meu pai trabalhava com comércio. Tinha bar, tinha mercearia, tinha máquinas de benefício de arroz, moinho de fubá. Trabalhava com uma semi-indústria, mas a maior parte mesmo era comércio.

 

José Wille – E ele viu no Norte do Paraná uma oportunidade melhor?

 

Mário Vendramel – Era aquela euforia, aquele negócio que o Norte do Paraná era a nova Canaã, o novo paraíso terrestre e que jorrava dinheiro. Dinheiro corria água abaixo, pela enxurrada, e era só pegar. E isso era tudo papo-furado, porque a luta era igual.

 

José Wille – Vocês começaram em Apucarana. E o Norte do Paraná ainda era muito precário. O que você recorda de tudo isso?

 

Mário Vendramel – Apucarana tinha toco na rua. De carro, não dava para passar. Você tinha que andar a pé nos primórdios, em 1947 ou 1948. Tudo casa de madeira. Era difícil casa de material.

 

José Wille – Como foi que o rádio apareceu na sua vida, lá no interior do estado?

 

Mário Vendramel – Surgiu a Rádio Difusora Apucarana ZYB8 e eu tive oportunidade de trabalhar lá, pois, desde criança, gostava muito de som. E veio a chance de ser sonoplasta. Sonoplasta, não – era controller de som. Fui convidado a participar da rádio. Passei algum tempo trabalhando e, depois, veio a oportunidade de ir até a cabine, porque não tinha locutor. Fui lá, me meti a locutor e acabei ficando. Isso em 1948, em Apucarana.

 

José Wille – Como era o rádio nesta época? Era também o correio das pessoas que não tinham comunicação nos sítios?

 

Mário Vendramel – Era dessa forma. Os programas sertanejos eram os preferidos, os que davam maiores audiências. O povão gostava, porque a maioria do povo era todo humilde. Gostava do gênero sertanejo e a rádio servia como passaporte, como intermediária de recados, de gente que vinha de São Paulo, até mesmo do interior do Paraná e Santa Catarina, porque o Norte do Paraná virou uma região cosmopolita. Era gente de tudo quanto é lugar do mundo. Era impressionante aquilo lá!  E eu tive a chance de trabalhar na rádio de Apucarana; entrei na ZYB8 – até hoje não esqueço o prefixo dela! Eu gostava de transmitir futebol, mas era simplesmente um amador. Eu tinha um gravadorzinho daqueles de fio.

 

José Wille – Antes da fita magnética?

 

Mário Vendramel – Antes da fita! Tinha um fio, assim de aço, e gravava muito bem. Eu subia no telhado da minha casa, que era vizinha ao campo de futebol, e lá de cima ficava transmitindo o jogo todo, gravava e, depois, a turma ia ouvir e eles gostavam. Porque, naquela época, qualquer coisa valia!

 

José Wille – O que principalmente tinha na programação do rádio do interior na época? Você trabalhou em Arapongas, Apucarana e, depois, Londrina.

 

Mário Vendramel – Já tinha programa de auditório, principalmente o sertanejo, aos sábados à tarde. No domingo de manhã, havia programas infantis, ao vivo também, com as crianças cantando, com o acompanhamento de um violão, mesmo porque não tinha muitos recursos. Mas, ali mesmo, a gente via que tinha gente fadada ao sucesso, criança mesmo, em uma região afastada de toda a civilização, praticamente.

 

José Wille – E o noticiário lido dos jornais?

 

Mário Vendramel – Ah, sim, o noticiário dos jornais, ou então captado da Rádio Nacional do Rio e batido a máquina e depois lido. O “Repórter Esso” – lembra dele? – servia como referência para ser reproduzido.

 

José Wille – Como foi a sua ida para Londrina, para uma rádio maior?

 

Mário Vendramel – Em 1950, quando perdemos aquela bendita Copa do Mundo, tinha um alto-falante na praça Rui Barbosa, que reproduzia as coisas principais que aconteciam no mundo. Aquele jogo que o Brasil perdeu foi retransmitido pelo alto-falante e foi uma coisa terrível. E o povão na praça, triste, coisa de louco, todo mundo chorando. Todos olhando para o alto-falante e não tinha mais o que se ver e nem o que se falar.

 

José Wille – A chegada do rádio em um local assim distante, no interior, o que significava para as pessoas?

 

Mário Vendramel – O pessoal ficava abismado. Quem trabalhava na rádio era endeusado – “Nossa Senhora, ele trabalha na rádio, ele é radialista!”. Radialista tinha um nome. Radialista, até o tempo da televisão, era o que estava em maior evidência. Aí, fui para a Rádio Londrina, como sonoplasta. E lá tive a oportunidade de melhorar e de apresentar, inclusive, artistas que vinham de fora, porque os maiores nomes nacionais e internacionais vinham para Londrina, o ponto de referência. Londrina era a megalópole do Paraná, que recebia os artistas, porque ninguém falava em Curitiba, por incrível que pareça. Hoje, a gente vê Curitiba e sabe que o bairro do Portão é praticamente do tamanho de Londrina. Mas, naquela, época eles pensavam que Londrina era a capital do Paraná.

 

José Wille – A movimentação econômica da época do desbravamento do Norte do Paraná se concentrava em Londrina?

 

Mário Vendramel – Toda em Londrina, até 1951, quando houve aquela geada e deixou gente chupando sorvete na testa, tomando sopa com garfo, porque a geada acabou com o cafezal. E tinha gente lá que eu conheci – por exemplo, um professor amigo meu, que deu um Cadillac para cada filho. Só Cadillac, aqueles carrões importados, e teve que abrir mão de tudo, porque a geada queimou todo o cafezal. Acabou com muita gente!

 

José Wille – Que imagem você tem de Londrina do começo da década de 50?

 

Mário Vendramel – Londrina sempre foi uma cidade bonita, não como Curitiba, porque igual a Curitiba não existe. Mas era uma cidade muito bonita, cidade querida, cidade de gente que trabalha. Devo muito a Londrina, porque muita coisa aprendi lá.

 

José Wille – Como foi o convite para vir a Curitiba, em 1951?

 

Mário Vendramel – Um amigo meu, Nestor de Castro Bauer, arrendou a rádio Arapongas e me convidou para transmitir futebol lá. Aí, houve uns problemas, porque ele também acabou arrendando a Rádio Difusora de Apucarana. Como a situação estava precária por causa justamente desse problema de geada, ele teve que vir embora para Curitiba. E me disse “Mário, eu vou te levar para Curitiba. Vou te levar para a B2 e te apresentar para um amigo meu. E tenho certeza de que você vai trabalhar na maior estação do Paraná, que é a B2. Vou te apresentar para o homem que é um dos primeiros locutores do Brasil”. Acho que é o segundo locutor do Brasil. O primeiro era da rádio Roquete Pinto, que era o próprio Roquete Pinto; depois, o Jacinto Cunha, finado, pai do atual vereador Mário Celso Cunha. Vim e, graças a Deus, dei sorte. Naquela época, havia aqueles textos gostosos de se ler… Posso falar?

 

José Wille – Sim, vamos relembrar.

 

Mário Vendramel – “O que há com seu bebê com esse calor atroz? Passe nele talco Ross.” Aliás, um dia, um locutor cometeu uma gafe e disse “O que há com seu bebê nesse calor atrás? Passe nele talco Ross”! Hoje, isso não tem problema, mas, naquela época, o negócio pegava mal para burro. Aqueles textos do Melhoral, da pasta dental Philips… Gostosos de se ler. A maior vontade dos locutores da rádio era justamente ler os textos da Sidney Ross, essas propagandas.

 

José Wille – Os comerciais nem eram gravados, eram lidos ao vivo pelos locutores?

 

Mário Vendramel – Era tudo ao vivo, a programação toda era ao vivo. Naquela época, havia grandes produtores, verdadeiros monstros sagrados do rádio – Paulo de Avelar, Arion Junior. O Paulo de Avelar foi um verdadeiro mestre do rádio, era fantástico! Ele transmitia futebol, produzia programas. Era muito bom, animava os programas. E também o Heitor Guimarães, Itané Carneiro Leão e Ubiratã Lustosa – que é um monstro sagrado do rádio e da televisão também. Na minha época, houve muita gente que se destacou e que hoje está também na televisão. Porque o rádio revelou muita gente para a televisão.

 

José Wille – O que era a cidade de Curitiba e que impressão você teve quando chegou aqui em 1951?

 

Mário Vendramel – Graças a Deus, cheguei em uma tarde de maio, pela Real Força Aérea. Cheguei aqui em uma tarde ensolarada de maio e estava um veranico sensacional. Então, vi Curitiba em cores! Vim do Norte do Paraná – você sabe como é – a terra marrom é boa, mas é escura. Cheguei aqui, numa Curitiba clara e bonita! O prédio maior era o edifício Garcez, que tinha quatro andares! E a população era de 180 mil habitantes. Então, Curitiba era um negócio fantástico e conviver com o pessoal daquela época era maravilhoso! Depois, Curitiba foi crescendo, chegou a ser a cidade que mais crescia no mundo, certa época, e quem declarou isso foi um  governador de São Paulo.

 

José Wille – Como era a programação e no que você foi trabalhar naquela fase?

 

Mário Vendramel – Vim para a B2 com um entusiasmo total! Era a rádio que eu queria, pois tinha tudo. Tinha orquestra, tudo que você possa imaginar: violinos, oboés, violoncelo, tinha tudo… A orquestra que meu querido e inesquecível maestro Athaide Zeike comandava.

 

José Wille – E essa orquestra ajudava nos programas de auditório?

 

Mário Vendramel – Acompanhava tudo o que fosse necessário. Tinha um conjunto de ritmos do Gebran, do Waltel Branco e do Wilson Branco, que, se não me engano, tocava bateria e faleceu há pouco tempo. Era um conjunto de ritmos que também acompanhava qualquer coisa. O pianista Gebran, famoso, o que tocava de piano! E tinha gente no trompete. Enfim, era um conjunto de ritmos. Isso em 1951, quando vim para cá. Tinha também o regional do Janguito do Rosário, muito bom também. Tínhamos um programa de auditório no sábado à tarde, que era justamente criado pelo Paulo de Avelar. Era um programa fantástico, que revelou Luis Silva, um dos grandes intérpretes da música popular brasileira, e outros grandes valores. E, mais tarde, Roy Caetano, esse menino que foi revelado no programa de calouros que eu apresentava. O Artur de Souza, o deputado que comandava a Revista Matinal, tinha um programa de calouros às quartas-feiras à noite. Então, a B2 tinha tudo que você possa imaginar em matéria de programa. Tinha o programa Sérgio Fraga, no domingo de noite, no qual eu fazia o padre no “Casamento Atrás da Porta”, que era uma brincadeira de auditório. Chamavam uma moça do auditório, ela ficava de costas e iria escolher um noivo, que seria apontado no auditório por um dos elementos da produção do programa. Ela escolhia, ele vinha para o palco e ali fazia aquela festa toda de casamento: “Beija ou não beija? Dança, dança!”. Aí, começavam a dançar e a se abraçar e a se corresponder. E se casassem verdadeiramente, um patrocinador de Curitiba dava uma máquina de costura. E muitos casamentos aconteceram!

 

José Wille – A moça conversava com o possível interessado, sem vê-lo?

 

Mário Vendramel – Ela ficava de costas e escolhia sem vê-lo. Depois, viesse quem viesse, ela tinha que aceitar. Aceitava o escolhido e assim mantinha um diálogo, começavam a dançar, beijar, conversar – tipo esses que o Sílvio Santos faz hoje no programa dele. Alguns resultaram em casamento mesmo! Se você fizer uma pesquisa, vai achar pelo menos dois ou três casais que conseguiram casar naquela época se conhecendo no programa do Sérgio Fraga.

 

José Wille – O que representava para a cidade o programa de auditório? Era um ponto de encontro, um local para conhecer os artistas de fora, que estavam na cidade?

 

Mário Vendramel – Gente famosa, gente importante ia para o auditório, inclusive para concorrer aos brindes do programa. A pessoa que estava em período de estudos, estava morando sozinha na Casa do Estudante, ia lá para ganhar um pacote de café. E gente famosa. Tem juiz de direito que mora aqui em Curitiba que era assíduo frequentador dos programas de auditório da B2.

 

José Wille – Você gostava principalmente dos programas de auditório no rádio?

 

Mário Vendramel – Sim, eu gostava, e como! Lancei um programa às quintas-feiras à tarde, chamado “Expresso das Quintas”. Chegamos a parar o trânsito na Barão do Rio Branco, ali onde era a B2, com os Demônios da Garoa cantando “Trem das Onze” e eu tive que levá-los à sacada do prédio para cantar para o povo que ficou na rua e não pôde entrar no auditório. O lançamento de “Trem das Onze” foi nesse meu programa. E que, por sinal, apresentou outros grandes valores da música brasileira.

 

José Wille – Naquela época o rádio era realmente o referencial da cidade, onde se sabia das coisas e onde se reuniam as pessoas para ver os shows.

 

Mário Vendramel – É, realmente… Era onde a gente trazia os grandes nomes, como Dalva de Oliveira, Anjos do Inferno, Gregório Barrios, Carlos Gallardo, Nelson Gonçalves… Toda aquela gente famosa de antigamente era apresentada nesses programas.

 

José Wille – E a sua participação como radioator? Você era galã de novela no rádio?

 

Mário Vendramel – (risos) É, era galã. Eu e o Sinval Martins. Ele trabalhava em uma novela e eu trabalhava em outra, e assim ia, revezando o galã. As novelas eram de  Nara Navarro, a famosa escritora de novelas de São Paulo. As novelas já vinham prontas de lá e era só mimeografar e ensaiar. O grande diretor do radioteatro, que ensinou a gente a fazer novelas, foi o Ivo Ferro, já falecido. Esse era outro gênio do rádio!

 

José Wille – A apresentação não podia ter erro. Não era uma novela gravada…

 

Mário Vendramel – Eram ao vivo, direto, todas elas. Você tinha que ensaiar e chegar ali e caprichar. E não falhar… O Ivo ensaiava rigorosamente. Maurício Távora aprendeu a fazer teatro com a gente. José Basso, que é outro nome de expressão, também. Todos passaram por lá, como o Roberto Bianchini, a Odelair Rodrigues… O próprio Ary Fontoura participava das novelas.

 

José Wille – Qual era a relação do ouvinte que acompanhava a radionovela com esses atores?

 

Mário Vendramel – Barbaridade! Naquela época é que se tinha fã a granel! As meninas não deixavam a gente em paz, até mesmo por telefone. Acabava a novela, tinha que correr para o telefone atender as fãs. E elas pediam para interpretar aquele trecho da novela, e assim por diante. Era impressionante a audiência que tinham as novelas!

 

José Wille – E havia fotografia autografada para distribuir.

 

Mário Vendramel – A calçados Vogue patrocinava as fotografias. O meu amigo Leônidas, o dono da loja, gostava muito do rádio e da turma das novelas e patrocinava as fotografias. E tem gente que as guarda até hoje e, de quando em vez, as traz para que eu veja as fotografias do tempo em que a gente trabalhava na rádio.

 

José Wille – Você era muito namorador na época de galã?

 

Mário Vendramel – Ah, era! Era namorador!

 

José Wille – Os conjuntos locais tinham o seu espaço?

 

Mário Vendramel – Sim, eles tinham o seu espaço. Por exemplo, a orquestra de que falei, na B2, era igual à orquestra do Osmar Milani, do Sílvio Santos. Era uma orquestra muito boa. E os conjuntos que a rádio tinha eram conjuntos excelentes! Os conjuntos eram espalhados, não eram agrupados. Então, quando eles resolviam fazer alguma coisa, juntavam-se e faziam.

 

José Wille – As principais emissoras, além da Clube Paranaense, quais eram?

 

Mário Vendramel – Eram a rádio Guairacá e a rádio Marumby. Depois, veio a rádio Tingui e a Emissora Paranaense.

 

José Wille – Era possível viver de rádio naquela época?

 

Mário Vendramel – Era. A gente ganhava pouco, mas dava para viver melhor do que hoje. Naquela época, tudo era barato, era melhor, tudo mais em conta. Eu ganhava mil e quinhentos cruzeiros, e pagava mil e duzentos de pensão. O hotel era na Comendador Araújo. Como eu abria a emissora às 6 horas da manhã, tinha que atravessar a Praça Osório para ir até a B2. E quem vinha do Norte não estava acostumado com o frio. Eu sofria igual botina de cego, sério! Então, eu pagava a pensão e sobravam 300 cruzeiros. A gente fazia alguma coisinha para ganhar por fora, mas dava para viver.

 

José Wille – Era preciso também fazer um trabalho como contato comercial, vender os próprios programas e conseguir patrocínio?

 

Mário Vendramel – Claro! Era aí que havia a possibilidade de a gente poder ganhar um extrazinho! Mas era muito difícil, porque o pessoal dificilmente dava patrocínio. A maioria do patrocínio vinha de fora.

 

José Wille – As grandes rádios de fora chegavam a tirar  audiência, ou o rádio local é que tinha a maior força?

 

Mário Vendramel – Não! A rádio local sempre teve a maior força, mas a Rádio Nacional tinha uma penetração fantástica. Era igual à Globo agora. A Clube levava vantagem, porque o som aqui era muito melhor. Então, a rádio local, realmente, tinha a preferência do ouvinte. E o ouvinte gostava muito de prestigiar o nosso rádio.

 

José Wille – No final da década de 50, quando começou a se falar da chegada da televisão, você se interessou?

 

Mário Vendramel – Fiquei na rádio, mas tinha interesse realmente em ir para a televisão. Tinha muito receio, muito medo de fazer uma imagem muito ruim. Tinha até complexo sobre isso, sabe… Até que me pegaram na marra e me levaram.

 

José Wille – Você conseguia ser galã no rádio, mas achava que não teria uma boa imagem para a televisão?

 

Mário Vendramel – Sim. Na televisão, eu iria ser bandido (risos)! Mas o pessoal da rádio disse que eu era simpático e tudo ia dar certo. E, graças a Deus, deu certo mesmo. E o pessoal gostou de mim na televisão.

 

José Wille – Mas você esperou bastante para começar na televisão – quase 10 anos depois que ela chegou.

 

Mário Vendramel – Depois que ela chegou, sim. Eu estava ligado à televisão, mas através da minha agência de propaganda.

 

José Wille – Mas televisão mesmo, apresentando programas, só mais tarde?

 

Mário Vendramel – Só mais tarde, em 1970, 1971, entrei na televisão para fazer programas.

 

José Wille – Isso o preocupava muito – o problema da sua imagem, de achar que não daria certo?

 

Mário Vendramel – Ah, preocupava! Fugi um monte de vezes! Inclusive, uma vez, o Paulo Goulart e a Nicete Bruno faziam um programa sobre felicidade no Canal 6. E o Paulo teve que viajar ou coisa parecida e os produtores do programa me convidaram para substituir o Paulo. E eu não fui, achei que ia estragar a imagem do Paulo Goulart, porque ele fazia o papel tão bem, era um excelente ator.

 

José Wille – A televisão esvaziou o rádio logo no começo ou o rádio continuou sobrevivendo?

 

Mário Vendramel – Esvaziou em partes. Quem podia comprar uma televisão não deixava de assistir. Pouca gente tinha televisão, então o rádio ainda era a preferência nacional, como é até hoje. É uma grande preferência. O rádio não caiu, não! O rádio continua sendo o favorito, pois é o imediatismo que ajuda o rádio. Aconteceu, o rádio chegou lá e deu a notícia. E a televisão, até se mexer, não é fácil.

 

José Wille – Qual era a sua atividade na agência de publicidade, na década de 60?

 

Mário Vendramel – Montei a agência de publicidade e era o diretor. Então, eu tinha os elementos: desenhista, contato, mídia… Enfim, tinha um elenco inteiro de uma agência de publicidade. E atendia os melhores clientes na época, como Mercadorama, Santos Irmãos, Sifra, Codepar… Sei que eram 10 clientes naquela época, clientes à beça!

 

José Wille – Em 1970, você criou seu próprio programa na televisão. Como era esse programa?

 

Mário Vendramel – Era um programa a la Bolinha, a la Chacrinha, a la Silvio Santos – um programa de calouros, com as meninas dançando. Só que, naquela época, as meninas tinham vergonha de dançar e foi uma dificuldade enorme para poder montar o elenco de garotas. Mas também, depois que montei o elenco, até hoje tenho as garotas mais lindas de Curitiba no meu show.

 

José Wille – Era Maxi Show o nome do seu programa?

 

Mário Vendramel – Maxi Show Mário Vendramel. Depois, passou, a pedido do Mário Celso Cunha, o produtor, a ser programa Mário Vendramel somente.

 

José Wille – Como era o programa?

 

Mário Vendramel – O programa procurava revelar talentos, como destacou Isadora Ribeiro, como destacou o Ratinho, como destacou este que é revelação, o Roy Caetano, um excelente cantor, esse menino que já é sucesso no exterior. Eu só lamento que ele não tenha estourado. Tinha uma música muito maliciosa, a Julieta, e é do Roy essa música, que começou como calouro no meu programa.

 

José Wille – O Ratinho foi você quem trouxe para Curitiba?

 

Mário Vendramel – O Ratinho, eu o pegava em Jandaia do Sul para nos acompanhar nas excursões que fazíamos para o Festival de Valores Novos por todas as cidades do Paraná. Aliás, eu tenho um disco LP, com gravações de gente de todo o Paraná. Depois que eu passei para o Canal 4, como a TV Tibagi tinha uma penetração enorme no interior do Paraná, eu ia fazer os festivais lá e achei o Ratinho em Jandaia do Sul, que passou a acompanhar todas as caravanas do nosso show. Há passagens engraçadíssimas do Ratinho. Mas essas passagens precisavam que meu filho, o Itamar, viesse aqui contá-las, porque já não tenho mais condições, inclusive de expressão, para poder imitar as coisas que o Ratinho fazia. Ele era fantástico! Cada vez que dizia que iria passar para pegar o Ratinho, a turma já falava “Oba!”, porque ele fazia todo mundo rir o tempo todo. Era impressionante!

 

José Wille – Você percebeu esse talento na época e deu a primeira oportunidade a ele para vir a Curitiba?

 

Mário Vendramel – Inclusive veio um empresário de São Paulo, pois, naquela época, o Vanderlei Cardoso tinha deixado Os Trapalhões. E eu falei para ele “Olha, eu tenho um elemento aqui que, se você levar, não tenha dúvida, ele vai substituir o Vanderlei Cardoso e vai fazer sombra para aqueles caras lá, o Didi, o Dedé e o Mussum”. Está fazendo sombra hoje, e naquela época já iria fazer. Mas o rapaz foi e não deu mais sinal de vida. Então, não deu para fazer esse contato dele com o Ratinho. Mas eu garanto que, se o Ratinho estivesse hoje nos Trapalhões, seria uma das estrelas.

 

José Wille – Na Emiliano Perneta, na antiga sede do Canal 12, ainda havia espaço para fazer um programa de auditório. Mas, depois que se mudou para o Castelinho do Batel, você improvisou e levou o programa para a frente do Castelo.

 

Mário Vendramel – No começo, era ao ar livre, mas chegamos a fazer o programa dentro do Castelo. Depois, construíram na Visconde de Guarapuava, atrás do Castelo, embaixo da torre, aquele auditório em forma de arquibancada, tipo arena de circo, e passamos a fazer os programas todos ali. Fizemos, por vários meses, o programa ali. Outras emissoras também tinham programas locais. O próprio Canal 12 tinha programas locais, assim como o Canal 4. Só que os espaços foram sendo tomados pelas grandes redes e ficamos sem espaço – essa é a verdade. Aliás, nesse período, surgiu uma lei do Magalhães Pinto, que obrigava as emissoras de televisão a ter pelo menos um terço de programação ao vivo, local e regional. Mas o negócio foi engavetado, porque os donos das grandes redes não tinham interesse nessa programação.

 

José Wille –  Mais tarde, na metade dos anos 1980, você chegou a ser procurado, porque a lei estava para ser aprovada e seria aberto o espaço local, o que acabou não acontecendo.

 

Mário Vendramel – De novo, porque eu teria que voltar para o Canal 12, mas, nesse período, estava no Canal 4 e passei para o Canal 6, para a Rede OM.

 

José Wille – Do Canal 12 você teve que sair em 1977, quando a TV passou a integrar a Globo e veio a programação toda nacional. Não havia mais espaço para programa local.

 

Mário Vendramel – A Globo passou do 4 para o Canal 12. Inclusive, eu estava, em um domingo pela manhã, com a Perla e com mais três ou quatro artistas de renome, esperando para entrar no ar e encerrar o programa com essas atrações. Aí, veio uma ordem da Globo, dizendo que haveria uma regata em Botafogo e que eles iriam utilizar o espaço para transmiti-la. Tive que dispensar todos! Fiquei muito chateado e disse “Vou para o Canal 4!”

 

José Wille – E foi para o Canal 4 com mais 10 anos de programa,

 

Mário Vendramel – Isso! E lá fui muito bem-tratado esse tempo todo pelo dr. Paulo Pimentel. Naquela época, o diretor era o Cândido Manoel Martins de Oliveira, que foi Secretário de Segurança. Fiz a minha programação no domingo à noite, brigando com o Fantástico. E consegui muita audiência nesse horário.

 

José Wille – Mesmo no Canal 4, com o passar do tempo, o espaço acabou se fechando, porque cresceu a programação nacional do SBT.

 

Mário Vendramel – Exatamente! O programa era no sábado à tarde e eles queriam me empurrar para sexta-feira à tarde. Não aceitei, saí e fui para a Rede OM, que me deu espaço no sábado à tarde. E fiquei lá mais uns cinco, seis anos.

 

José Wille – Até que a Rede OM também se transformasse em uma rede nacional, com geração em Curitiba, em 1990.

 

Mário Vendramel – É que vieram uns cobras do Rio e de São Paulo, que eles contrataram. Até o Guga veio contratado pela Rede OM. Acabaram contratando até o Galvão Bueno, que encontrei no corredor da televisão lá.

 

José Wille – E você sentiu que acabava, mais uma vez, o seu espaço?

 

Mário Vendramel – Sim. Acabava o espaço para todos os locais. Acho que eles só engoliram a Linda Saparolli porque ela tinha 30 anos de televisão e eles não podiam mandá-la embora. De lá para cá, senti que ninguém tem mais vez fora do eixo Rio-São Paulo. Inclusive os programas criados fora do eixo Rio-São Paulo passam a ser editados lá. Então, não são nem editados fora deste eixo. O único programa que apareceu é esse do Agnaldo Rayol, que não é programa local, é programa que vem de São Paulo, já montado pelo Agnaldo Rayol. Chega aqui e só usa a Rede CNT para pô-lo no ar. Mas elementos locais são poucos os que se apresentam. Realmente, é difícil…

 

José Wille – Você foi o último que sobrou dessa fase, que segurou por mais mais tempo?

 

Mário Vendramel – As pessoas têm me pedido para voltar e até tive chance de voltar. Mas, infelizmente, a saúde não dá mais o pique para você fazer um programa de televisão, de montar, criar, produzir, vender e se responsabilizar por um monte de coisas que – Nossa Senhora! – não há ser humano que aguente.

 

José Wille – É triste pelas pessoas que acabavam sendo projetadas como artistas, através desses programas locais…

 

Mário Vendramel – Sim, sim, exatamente! Acho que a gente estava dando murro em ponta de faca. E eu acho que não tem mais condições, a não ser que os próprios produtores de televisão assumam o compromisso de produzir o programa e você fizer como o Silvio Santos faz. Ele chega lá, vai para a cabine dele, se maquia, se arruma… Ele chega ali e está tudo mastigado, está tudo prontinho. É só chegar e apresentar o programa e nada mais. Assim, até eu mantenho aquele sorriso eternamente. Com a burra cheia de dinheiro, até eu. Mas tem que ter retaguarda. Sem isso não adianta.

 

José Wille – E, no seu caso, era necessário acumular tudo – toda a produção, conseguir o espaço, vender, produzir.

 

Mário Vendramel – Enfrentar tudo quanto é obstáculo que você imagina, que você enfrenta em um programa de televisão. Todo mundo pensa que é facílimo chegar e olhar e meter o pau também. E como gostam de sentar o pau nas coisas que a gente faz!  Agora, para ver como é produzido, aí é que está. Ninguém conhece, ninguém sabe o quanto é difícil.

 

José Wille – Terminada sua fase na televisão, você continuou com os shows itinerantes pelo interior do Paraná. Como funcionavam?

 

Mário Vendramel – E continuo ainda. Promoções de prefeituras, aniversários de cidades, eventos. O último show que fiz foi no parque Castelo Branco. Apesar de sofrer as intempéries de determinadas coisas, porque tinha um rodeio de não sei das quantas, com aqueles locutores que acho a maior aberração da natureza, com aquele jeito “Olha aí, peão…” E o cara entrou apresentando o show deles no meio do nosso. E o nosso show era a Deisy Cavalcante que estava se apresentando com as meninas. Só que tinha que ter um pouco de educação e esperar terminar o show, que já estava no fim. Entraram no meio do show, dizendo “Olha, vamos apresentar uma coisa aqui que é melhor que aquela ali. Nosso show é de rodeio e vocês querem o quê?”. Esse tipo de pergunta que eles usam para desmoralizar e deixar a gente em desvantagem. Uns idiotas daqueles, uns caras ignorantes, chegam e acham que são os donos da bola, só porque estão atrás desse tal de rodeio. Eu acho maravilhosos os rodeios, só que um tem que respeitar o direito do outro.

 

José Wille – Nas cidades do interior ainda há espaço para a apresentação dos shows?

 

Mário Vendramel – Cidades do interior, promoções… Também fazemos show de caráter beneficente. Temos um show beneficente já no dia 18 de dezembro, contrato fechado com a creche do bosque. Fizemos no ano passado com as crianças e foi aquele show! Tenho o Palhaço Piri, que é um monumento em matéria de comunicação. Ele esteve lá, fantasiado de Papai Noel, e foi um sucesso bárbaro! Fomos convidados novamente e a empresa Geladinho Americano vai patrocinar o show, inclusive.

 

José Wille – Você fala do caso dos artistas do Sul, que teriam uma dificuldade maior, porque não existe mais a TV local. Eles têm que buscar agora o Rio e São Paulo. E haveria uma facilidade maior, no mercado nacional, para quem é do Norte do país?

 

Mário Vendramel – Baiano chegou a São Paulo e ao Rio e, no dia seguinte, já está gravando. Chega hoje e amanhã já está gravando CD, já está indo ao programa do Ratinho. Esse Falcão – pelo amor de Deus! – está com programa na Bandeirantes nacional. Em rede nacional, com tudo! Mas os do Sul são alijados completamente, porque não tem nenhum bandido aqui do Sul que esteja nas TVs do Rio e de São Paulo. Então, o pessoal diz “Vamos trazer”. Não estou falando de mim, pelo amor de Deus, mas você sabe… E tem valores aqui, tanto que esse Celso Portiolli foi levado do Paraná para o programa do Sílvio Santos. E não é só ele. Há outros elementos fantásticos por aqui que mereciam uma oportunidade. Você vê o Ratinho, eles o levaram – vieram aqui, o descobriram e hoje é a maior revelação nacional na televisão.  Os homens da televisão do Sul deveriam abrir espaço para a programação local. Eles tinham que colocar isso na cabeça, esses donos de televisão. Não vou citar nome nenhum, porque não é necessário. Mas, vejam bem, quantos valores nós temos aqui no Sul? E os do Norte chegam e tem vez em tudo quanto é lugar. Os do Sul não têm vez em lugar nenhum, ninguém dá chance de nada. Tem que se transformar em um Ratinho para poder ir lá e dar o seu recado. Por que isso? Porque os donos de emissora daqui da região não abrem o espaço para programação local. Tem que abrir o espaço, para dar chance de as pessoas mostrarem o talento que têm. E têm tanto talento aí que – puxa vida! – dava de dez em muita gente que aparece na televisão lá!

 

José Wille – O fato de o seu espaço ter terminado seguidamente em 3 veículos, com os problemas da programação nacional, e os seus problemas de saúde: você  vê alguma relação?

 

Mário Vendramel – Ah, não tem dúvida! Cada vez que falo isso, fico doente. A minha diabetes é proveniente do sistema nervoso. Já tive labirintite e esse problema da visão, também. E, além disso, há outras coisas sobre pessoas, mas não vou revelar nada aqui. Tem muita coisa para contar… E, um dia, vou contar tudo em um livro. Ou, talvez, em uma entrevista como essa eu abra o jogo e fale tudo o que tenho que falar.

 

José Wille – Você deixa um saldo grande, de muita gente que hoje é famosa, que começou junto com você, a quem você deu a primeira oportunidade?

 

Mário Vendramel – Ah, sim, não só artisticamente, mas na política. Elementos que começaram no meu programa, como Neivo Beraldin, Carlos Simões, Mário Celso… Um monte de gente, o próprio Algaci Túlio, todas essas pessoas passaram pelo programa Mário Vendramel. E outros elementos de que não vou falar, porque não lembro. Acho que o meu programa, se continuasse, revelaria muito mais gente para o cenário nacional. Pode acreditar nisso, porque tem gente à beça por aí que tem carência de uma oportunidade. E, sem querer enaltecer muito, tenho no meu elenco umas garotas que dão de dez em muitas que você vê na televisão. Graças a Deus, aonde chegam, elas agradam, fazem bonito, o pessoal gosta, o pessoal adora e é isso que eu faço. Em Curitiba, hoje, lamento que não tenha um programa ao vivo, porque temos mais de 100 conjuntos de rock, de rock pauleira e de metaleiros. Temos também grupos de pagode muito bons, músicos excelentes… Mas eles precisam de oportunidades! Esse Roy é um menino que se queixa da falta de um programa para mostrar o que tem, o que ele sabe, seu potencial.