A história do professor René Dotti

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Conheça a história do menino de família simples, gago na infância, que se transformou em um grande orador. Também se revelou como uma das maiores inteligências do Paraná, e um  jurista de renome nacional, em mais de 50 anos de carreira. Professor da UFPR, René Ariel Dotti também foi secretário da Cultura do Paraná e crítico de literatura e teatro. Teve grande atuação na luta pela redemocratização do Brasil, e na defesa dos perseguidos pela repressão. E seus livros lhe deram uma cadeira na Academia Paranaense de Letras. Esta entrevista foi gravada em agosto de 1998 dentro do Projeto Memória Paranaense original, apoiado pela CBN Curitiba e Inepar.

 

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Contato com José Wille

 

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José Wille – O senhor nasceu em 1934, no bairro Ahú de Baixo, em Curitiba. Vamos começar contando a história dos seus pais…

 

René Dotti – Eu digo, com orgulho, que nasci a 200 metros de onde o Papa, em 1980, rezou a missa, quando ele veio pela primeira vez ao Brasil, onde é o Centro Cívico atualmente. Um bairro de italianos e poloneses, onde desfrutei a convivência tão afetuosa de meus pais já falecidos. Gabriel Dotti, meu pai, era pintor de casas, mas pintor artesanal – uma pintura que não era das tintas lisas das paredes, mas uma pintura em que havia flores e cenários transpostos para o interior das casas. Era um trabalho artístico também. Minha mãe era costureira, mas também de fino estilo. Eu e minha irmã, mais moça que eu, desfrutávamos da convivência entre os italianos e poloneses do Ahú de Baixo: uma das primeiras professoras, minha tia Natália, o grupo escolar Prieto Martinez, tudo aquilo formava uma atmosfera muito densa para nós todos, porque era distanciado do centro da cidade. O Ahú de Baixo, embora fisica e geograficamente ficasse a apenas 3 quilômetros da Catedral, era distanciado, porque não tínhamos meios de comunicação e meios de transporte. Havia somente o bonde no Juvevê e o ônibus. Mas era uma dificuldade, portanto, que permitia um tipo de cultura local. Uma convivência local, sem a influência da cidade e oriunda, sem dúvida nenhuma, da civilização e da experiência europeia. Havia muito dessa experiência nos costumes. O futebol do Operário do Ahú de Baixo foi campeão, inclusive, com muito mérito anos depois. A época do centenário e os preparativos para o centenário… Desde a minha juventude, eu via com muito entusiasmo, com deslumbramento, a migração, que inclusive ocorria do interior do Brasil, do Nordeste e Norte do Brasil, para o Ahú de Baixo. O Ahú de Baixo se transformou nos anos 50 basicamente.

 

José Wille – E o senhor acompanhou essa mudança do seu bairro: a construção do Centro Cívico, do Palácio do Governo.

 

René Dotti – Acompanhei inclusive com aquele deslumbramento da infância e da juventude. Testemunhei a modificação dos costumes, dos hábitos. A influência da própria linguagem e do acento do Nordeste. E o espírito, o sentimento paranista, que se multiplicava, à medida que crescia o Centro Cívico, à medida que as pedras iam formando a imagem do futuro Centro Cívico. E a comunidade também acompanhava tudo aquilo, porque era uma construção que gerava empregos, para o bairro e para fora do bairro também. Em suma, uma transformação em todos os níveis: econômico, político e cultural. E posso lhe dizer: em um ambiente de tranquilidade social. Não havia problemas de violência, não havia problemas de insegurança social que pudessem ser determinados por comportamentos agressivos. Não! Eram tão episódicos os comportamentos agressivos que eles se tornavam uma fonte de noticiário muito intenso, pois não eram comuns.

 

José Wille – Mas havia crítica ao governo de Bento Munhoz, de muita gente que considerava aquela uma obra faraônica, no começo da década de 50.

 

René Dotti – Ele estava muito correto, porque o Paraná e, especialmente, Curitiba não tinham um local determinado para a existência de órgãos públicos de grande representação da comunidade, como o seu Poder Judiciário, a sua Casa Parlamentar, o Executivo. Aquelas críticas se multiplicavam, à medida que interesses políticos procuravam descaracterizar a natureza daquela obra que persistiu ao longo dos anos. O que existe de construído no Centro Cívico tem importância até hoje. O Poder Judiciário, por exemplo, tem dificuldades muito grandes para pagar os prédios alugados, porque o Centro Cívico, infelizmente, não pôde atender às demandas dos anos 80 e seguintes. Mas aquele espírito pioneiro de Bento Munhoz da Rocha quanto a isso, da visão do Centro Cívico, ao lado, evidentemente, de uma demonstração de sensibilidade profunda com a história e a política do nosso estado, fizeram com que ele marcasse muito bem o seu governo. Para a minha geração não só, mas tenho a certeza que para as gerações do futuro.

 

José Wille – Por que o senhor acha que houve um renascimento cultural de Curitiba no governo Bento Munhoz?

 

René Dotti – Porque Bento Munhoz era um intelectual. Porque o nosso país respirava, quando Bento assumiu o governo, em 1950, novos ares de liberdade vindos de uma Europa libertária e vindos também do plano interno de uma nova Constituição – a Constituição Federal de 1946, na qual Bento Munhoz da Rocha foi deputado federal constituinte. E lutou muito, inclusive contra aquele movimento fratricida de tentativa de separar o Paraná: a criação do chamado estado do Iguaçu. Um movimento divisionista, um movimento separatista, influenciado somente pelo aspecto econômico e que, de tempos em tempos, procurou se renovar entre nós, mas que, felizmente, foi abatido não somente a tiros, mas também pelo sentimento paranista, que não admite mais essa forma de separatismo.

 

José Wille – Como era a vida intelectual de Curitiba na década de 50?

 

René Dotti – Era muito rica, porque Curitiba e o Paraná também não tinham a televisão, como São Paulo e Rio de Janeiro. Então, os meios de comunicação se limitavam evidentemente ao rádio e ao jornal. Isto fazia com que os movimentos artísticos, políticos e culturais, de um modo geral, tivessem uma aglutinação em determinados pontos da cidade. Refiro-me ao fenômeno de Curitiba, à Biblioteca Pública do Paraná, à Cocaco, ao Teatro Guaíra, construído e inaugurado em 1954. E desses pontos havia ressonâncias muito grandes captadas pelo jornal e pelo rádio, e que formavam um eco extraordinário do ponto de vista de estímulo para a produção artística e cultural. E até mesmo ao movimento de resistência. Foi famosa, durante aquele período, a rebelião do Salão Paranaense, quando Loio-Pérsio, Guido Viaro e outros pintores e artistas plásticos se rebelaram contra os critérios adotados pela secretaria de estado da época, que dava prioridade a um estilo de produção artística, principalmente na pintura e na escultura, em oposição ao que vinha de mais recente dos movimentos artísticos europeus, ao abstracionismo e outras tendências mais libertárias quanto à forma. Então, era um movimento intenso, estimulado também pela fundação do “Diário do Paraná”, nos anos 50, que era uma espécie de ponte dos Associados. Recebia, inclusive, do “Diário de São Paulo”, os Associados de São Paulo, um farto material para repercutir em nosso estado. Fotografias, clichês, ideias, diagramação visual como o “Benjamin” – o famoso “Benjamin” foi uma conquista do “Diário do Paraná”, em função do know-how dos Associados.

 

José Wille – Foi um veículo importante nessa época e o senhor foi colaborador do “Diário do Paraná”.

 

René Dotti – Ao lado do “Estado do Paraná”, de Aristides Mehry, que tinha uma projeção muito grande. Eu fui colaborador de 1955 até 1961. Porque, em 1955, deixei a atividade de teatro, à qual estive ligado durante um tempo, e passei a exercer a função de crítico literário e crítico de teatro. Os jornais em Curitiba mantinham diariamente uma coluna sobre teatro: a “Gazeta do Povo”, o “Estado do Paraná” e o “Diário do Paraná” tinham esta coluna. Porque o movimento era tão grande de teatro, dança e outras formas de cultura estética que permitiam 3 colunas diárias nos jornais. Então, eu passei a prestar uma colaboração ao “Diário do Paraná” e também fazia crônicas literárias. Em 1955, foi criada a página “Letras & Artes”, coordenada pelo Sylvio Back e que contava, a partir de então, com Luiz Geraldo Mazza, Walmor Marcelino, Roberto Muggiati e outros escritores. Muitos estão fora e outros ainda estão na imprensa do Paraná.

 

José Wille – Na sua infância e adolescência o senhor era um pouco gago. O teatro ajudou a superar este problema? Foi uma das razões de sua dedicação ao teatro no Colégio Estadual do Paraná, no começo da década de 50?

 

René Dotti – Em alguns momentos, eu tinha dificuldade no pronunciamento de certas palavras e era, indiscutivelmente, uma gagueira. Não permanente, mas cíclica ou episódica. E tomei conhecimento de que aqui em Curitiba, no Colégio Estadual, estava um professor do Serviço Nacional de Teatro que era também professor da arte de dicção – naquela época, não havia fonoaudiólogos. Então, passei a ter umas aulas de dicção com ele e a superar, portanto, aquele problema, que durante a minha infância e adolescência me preocupou muito.

 

José Wille – E o senhor conseguiu superar?

 

René Dotti – Consegui superá-lo muito bem, muito bem..

 

José Wille – O grupo do qual o senhor participou por alguns anos surgiu no Colégio Estadual do Paraná e era liderado por Ary Fontoura, que depois fez carreira como artista nacional.

 

René Dotti – Dentro desta preocupação de sair um pouco do bairro do Ahú de Baixo e de aprimorar a técnica de dicção de linguagem, nós iniciamos um período no Colégio Estadual do Paraná, que tinha o seu próprio grupo de teatro. O professor Ribeiro estimulava muito o grupo de teatro de alunos, mas formamos outro grupo, liderado por Ary Fontoura, que, mais tarde, veio a se constituir na Sociedade Paranaense de Teatro. Lembro que, quando nós saíamos – eu, Ary, Sinval Martins e outros colegas – pelas ruas da cidade, o Ary olhava as garagens e dizia “aqui cabem trinta e poucos lugares.”. Ele sempre concebia os espaços físicos como espaços de auditórios de teatro. Era uma vocação inata, profundamente estimulante e também contagiante, pois nós vivíamos uma época que sofria uma influência muito grande do Teatro Brasileiro de Comédia, muito importante, um marco histórico na cenografia e no movimento de teatro nacional, com atores italianos. O tempo das grandes produções do Teatro Brasileiro de Comédia, que saiu depois para a produção de cinema, com o estúdio da Vera Cruz, como a história veio a registrar. Então, havia no Colégio Estadual do Paraná já uma semente! Eram as vertentes de um movimento de teatro que se caracterizou por sua dedicação a textos não só nacionais como também estrangeiros traduzidos. E que nós marcamos, penso eu, um período muito significativo, inclusive inaugurando como grupo local o Pequeno Auditório do Teatro Guaíra.  Trabalhei como ator. Ganhei o prêmio Paschoal Carlos Magno como ator, em uma peça de teatro de Oscar Wilde, “A importância de chamar-se Ernesto”. Fiz cenários também e ganhei prêmio de cenografia. E também ganhei prêmio de direção de teatro na peça de Franciosi. Na contabilidade geral, participei de umas 15 produções de teatro durante o período de 1951 até 1955.

 

José Wille – Mas o senhor não teve entusiasmo para  acompanhar seus colegas para o radioteatro ou para a televisão, para onde muita gente foi?

 

René Dotti – Em 1955, eu tive que fazer uma opção de vida. Ou a carreira de teatro ou o curso de Direito. Teatro não era para mim uma carreira, era um envolvimento intelectual, envolvimento afetivo, mas não um envolvimento do ponto de vista de formação de uma carreira. Eu tive inclusive problemas de frequência em disciplinas de Direito, porque estava fazendo o cenário ou preparando as peças. Então, fiz minha opção. E o Ary me disse, naquela ocasião, que ele tinha feito a opção pelo teatro e que iria realmente começar em uma grande cidade, o Rio de Janeiro. Então, ali nos separamos e me dediquei integralmente à faculdade de Direito. E, logo depois, fui ao jornal “Diário do Paraná”. Passei a acompanhar, então, o movimento artístico, mas na condição de colunista de teatro.

 

José Wille – Sua preocupação social e política, considerada na época à esquerda, surgiu nessa fase?

 

René Dotti – Surgiu nessa fase pela grande ressonância do movimento francês do existencialismo. Nós adorávamos ler os trabalhos que se tornaram famosos dos escritores franceses, como Albert Camus, Sartre e outros, que influenciaram muito a geração dos estudantes universitários. Não tínhamos muito a influência dos textos ingleses e dos costumes americanos, apenas a influência do seu cinema. Mas, do ponto de vista de filosofia, era indiscutivelmente a francesa, que era uma filosofia libertária. Era a França, inclusive, que comemorava as grandes vitórias da resistência contra o nazismo. Então, os anos 50 foram uma reprodução das emoções grafadas e vividas nos anos 40 na Europa, da França e da Itália especialmente. Tínhamos naturalmente uma tendência a acompanhar esses movimentos libertários e, consequentemente, nos colocávamos à esquerda, porque admirávamos muito os movimentos e as ideias socialistas.

 

José Wille – Mas o senhor não chegou a participar de partidos, apenas da movimentação ideológica?

 

René Dotti – Da movimentação e da convivência ideológicas. Porque todos os meus amigos ou estavam trabalhando em favor da reconstituição do Partido Comunista Brasileiro ou estavam militando já na clandestinidade por esse partido. Ou, também, tinham uma atividade política ligada ao Partido Trabalhista Brasileiro, que era também um partido de grandes teses nacionalistas. E eu estava integrado nesse meio, indiscutivelmente ligado a esse meio.

 

José Wille – Já tinha alguma expressão, na segunda metade da década de 50, na Universidade Federal, onde o senhor cursava Direito, a presença de tendências à esquerda dentro do movimento estudantil?

 

René Dotti – O número era pequeno, mas a repercussão era muito grande. Eram formadores de opinião muito vigorosos. Então, podemos dizer que havia um movimento muito grande do ponto de vista das ideias libertárias. Iniciava-se também um período novo para o Brasil, com o governo Juscelino Kubitschek de Oliveira, que, indiscutivelmente, era um governo democrático; e sentíamos isso. Para nós universitários, a sensação era de que as ideias e o programa de ação de Juscelino eram um programa de respeito às liberdades democráticas e, então, nos envolvemos também intensamente nele. Acompanhamos muito de perto a preocupação que ele teve em assumir efetivamente o governo, diante das tentativas de golpe que se desenhavam antes da sua posse: os movimentos de 1954, depois da morte de Getúlio Vargas.

 

José Wille – Como o clima dentro da redação onde o senhor trabalhava como jornalista?

 

René Dotti – Eu considero um cenário maravilhoso, porque a redação era – usando uma imagem popular de uma canção – um palco iluminado. Por quê? Porque as notícias do exterior não vinham com a velocidade dos dias correntes. Nós tínhamos o teletipo e o telegrama. Então, à medida que a notícia ia chegando, algo de importante no cenário internacional, o chefe de redação do jornal dizia “Está acontecendo tal fenômeno na França, nos Estados Unidos”. Então, passávamos a avaliar aquele problema na redação do jornal. Recebíamos aquele material e, à medida que transformávamos aquilo em notícia, vivíamos também aquela notícia! E, quando o jornal era impresso, muitas vezes saíamos juntos à rua com o jornal impresso para tomar um chope ou conversar mais na madrugada. E dizíamos “Que bom isso que foi feito, que bom esse artigo!”. Tínhamos a sensação de contribuirmos para mudar as coisas. Esse é um aspecto que eu sinto da maior importância na convivência da redação da época. Hoje em dia, facilita-se – não quer dizer que não haja uma equipe de redação, e existem até equipes muito mais especializadas – mas hoje o fax dispensa a presença física do jornalista na redação, evidentemente. Então, havia aquele clima, aquela solidariedade nas ideias, na discussão… Aquele cenário de controvérsias, aquele palco de litígios intelectuais e ideológicos. Havia discussões ideológicas muito acentuadas na redação. Isto é o que mais me marcou durante aquele tempo.

 

José Wille – Como professor de Direito e advogado, o que representou para o senhor, em 1964, o Golpe Militar?

 

René Dotti – Eu tinha uma formação jurídica. Tinha me dedicado nos últimos anos à atividade de professor de Direito Penal, portanto um tipo de convivência com o sofrimento humano, do ponto de vista da visita aos cárceres e da defesa de acusados. Passei a defender os acusados políticos que eram meus amigos, meus companheiros de redação, meus alunos e também meus professores. A mudança foi, de certa maneira, grande, do ponto de vista dos estereótipos, que se modificavam. Agora, o autor não era mais o acusado de um crime de homicídio, de um crime de estelionato, mas sim o acusado de um crime contra a segurança nacional, que era algo imaginário, do ponto de vista do governo, do poder militar que se instaurou no país. E isso provocou em mim uma resistência intelectual muito grande. Não provocou o temor, porque eu não me divorciei nunca das atividades de advogado nas auditorias. Houve colegas que ficaram intimidados e tiveram que desistir… Muitos deles passaram para o meu escritório determinadas causas, porque se sentiram intimidados pelo regime. E eu recebi, evidentemente, telefonemas anônimos, ameaças… O delegado Josias Algavro, numa ocasião, não me deu a certidão negativa para poder viajar à Argentina e defender uma tese que eu havia escrito em favor da própria Escola de Polícia do Paraná, onde eu era professor. Ele me negou a certidão. E disse para a minha mulher, que foi buscar a certidão na delegacia, “Eu conheço o René faz tempo, admiro o trabalho dele, mas eu não posso dar a negativa, porque tem essas anotações.”. E ela olhou e disse “Aqui está advogado de Vinholes, advogado de Vieira Netto, mas a Constituição não garante defesa?”. Ele disse “É, mas eu tive que tomar essas anotações aqui e, infelizmente, a certidão não pode sair”. E não saiu!

 

José Wille – O senhor teve que responder inquérito na universidade?

 

René Dotti – Eu respondi ao inquérito na universidade em função dessa minha atividade e também por que eu era orador do Instituto Brasil-Cuba, que foi criado em 1962 como uma ressonância muito natural do novo governo que se instalou em Cuba, contra a ditadura de Fulgencio Batista, que era efetivamente um déspota. Fidel Castro representava para todos da minha geração uma nova perspectiva de vida, não só para Cuba como também para a América Latina. Então, eu respondi inquérito por causa dessa minha ligação com esse instituto. Mas essa circunstância também não me afastou da faculdade, porque eu tinha uma posição pública como professor e advogado que não tinha radicalizações. Sempre, como advogado, nunca fui radical. Então, é possível que, em função disso, não interromperam minha carreira de professor universitário em 1967 ou 1968.

 

José Wille – Esses anos de fechamento do regime o que representaram para a vida cultural aqui no Paraná?

 

René Dotti – Nós sentimos que houve um descompasso muito grande em relação a produções, especialmente produções teatrais, que não podiam mais manter um ritmo ideológico ou um ritmo de produções que contivesse debates e discussões em torno dos problemas nacionais. Assim como estava ocorrendo não só em nosso estado como em outros, especialmente em São Paulo, em função da geração de Gianfrancesco Guarnieri. Isso, é claro, impediu que nós tivéssemos o desenvolvimento de uma produção teatral em relação a esses domínios, porque a censura se fez muito intensamente.

 

José Wille – O senhor sentiu isto também na formação de novos líderes nas universidades onde era professor?

 

René Dotti – Paradoxalmente, as artes plásticas não tiveram esse tipo de comprometimento, porque não estavam no index a produção de artes plásticas, as exposições, os quadros, as esculturas… Mas essa repressão se fez sentir intensamente na universidade, com o alijamento de lideranças naturais para o campo político. Era época em que um ex-reitor da nossa universidade, então na condição de ministro da Educação, proclamava que os estudantes deveriam estudar e que os políticos deveriam se preocupar com a política, impedindo e desestimulando gerações de estudantes de Direito e de outras áreas, como Administração, Sociologia, Psicologia, Relações Públicas… E nós tivemos, então, um hiato muito grande, a ponto de sentir, nos anos 80 e 90, a repercussão desse fenômeno, com a falta de criação de líderes. E mais – o que é profundamente nocivo – uma cultura disseminada de que a política é arte do demônio e que os políticos são pessoas desonestas. É um tipo de cultura disseminada, em grande parte, pelo desestímulo que a ditadura militar determinava. Porque, para ela, não interessava a existência de líderes, de ícones, de símbolos que não fossem aqueles próprios da ditadura por ela estabelecidos em nosso país. E havia a doutrina de Segurança Nacional, que foi a grande vedete da época, de modo a criar condições para a tortura institucionalizada nos vários sentidos de nosso país, infelizmente.

 

José Wille – O senhor diz que, em 1960, quando chegou a televisão no Paraná, houve uma migração do meio cultural paranaense para este novo meio. Mas depois a própria tecnologia, com a criação de redes, tirou o espaço regional dos meios de comunicação.

 

René Dotti – Foi uma perda extraordinária! Anos mais tarde, quando eu participava do Fórum de Secretários de Estado de Cultura, em 1987, estivemos perante comissões do Congresso Nacional, representando vários secretários de Cultura dos estados, e procuramos defender a necessidade da regionalização dos programas de rádio e televisão, de espaços para os programas regionais de informação, de cultura e de sociedade. Infelizmente, esse dispositivo, que está na Constituição, depende de uma lei ordinária para implementá-lo. Não temos ainda a riqueza, o movimento, a arte e a cultura regional, em prejuízo, portanto, de uma identidade cultural do nosso próprio estado. Porque as novelas produzidas em Rio e São Paulo, com os standards de comportamento das grandes metrópoles, fazem com que essas atitudes, os próprios temas e enredos ingressem nas cidades mais distantes como forma de invasão. Como um colonialismo cultural. E isso é profundamente nocivo. Eu gostaria muito que, em tempo breve, tivéssemos, para a satisfação de todos vocês que trabalham nesta arte, nesta técnica, nessa ciência da comunicação, uma ampliação desses espaços na televisão. Porque é profundamente lamentável que, já às 8 horas da manhã, quando ainda muitas pessoas estão se preparando para ir ao trabalho, estejam ligadas necessariamente a um programa infantil. E que não haja uma notícia, uma informação para a população, pois muitos trabalham de manhã em suas casas também. De modo que é desolador o cenário que nós temos hoje na televisão, na forma como ele se apresenta.

 

José Wille – De 1960 a 1966, quando as emissoras eram só locais, o espaço cultural que existia na década de 50 foi para a televisão: os debates, o teatro…

 

René Dotti – …Entrevistas! O que a CBN faz muito bem hoje, e que tenho dito com muita insistência: informação e discussão são formas do exercício do poder. E a CBN faz a informação e a discussão. Nós tínhamos riqueza de detalhes, de protagonistas, de personagens… Eram os programas de auditório, era o teatro na televisão, eram os programas humorísticos. Lembro muito bem que, na eleição de 1962, o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná teve que impedir a contagem dos votos em favor do doutor Pomposo, um personagem de caricatura criado por Ary Fontoura como crítica ao político de má formação e de má conduta. Pois a repercussão que a televisão dava àquele tipo de programa local era extraordinária! Havia um mercado de trabalho, havia um sentimento de agregação muito maior do que o sentimento de desagregação que estamos vendo. Eu acho que notícia da filha da Xuxa é importante até pelas idiossincrasias de linguagens que nos remetem à Rússia clássica do apelido, mas até certa medida. E nós teríamos, com certeza, outras notícias, tão atraentes como essas, de foro local, da natureza local, que não necessitariam da reiteração da notícia sobre fatos que, a rigor, não deveriam prender tanto a atenção da comunidade paranaense e brasileira. É uma ditadura de certos standards de publicidade.

 

José Wille – O senhor prosseguiu, na década de 60, durante a fase mais dura do regime militar, com o trabalho de defesa de estudantes e professores e, em 1971, houve um mandado de segurança contra o governador Haroldo Leon Peres, que, depois, veio a ser afastado.

 

René Dotti – O movimento das auditorias… Eu tive, por exemplo, causas em favor de Amaury Silva, que era ministro do Trabalho, Valter Pecoits, que havia sido deputado, e uma série de outros políticos, intelectuais, jornalistas etc. Os jornalistas da “Última Hora” também eu os atendi juntamente com outros colegas na auditoria militar. Bancários… E depois, em 1971, fui procurado em meu escritório por Cândido Martins de Oliveira, que disse “Nós temos um mandado de segurança idealizado já por um dos deputados da oposição que se insurge contra a emenda constitucional do governador Haroldo Leon Peres, que quer mudar a Constituição”. E esse deputado, José Mugiatti, um dos líderes da oposição, tinha basicamente pronto o esboço do mandado de segurança. Eu recebi esse trabalho, fiz algumas adaptações e o Cândido Martins de Oliveira me consultou: “Escute, os deputados do MDB que querem assinar o mandado são o Álvaro Dias, o Bellinati, o Maurício Fruet, o Nivaldo Krüger, líder da oposição. E eu e o Erondy estamos pensando também em concordar com esse mandado de segurança”.  Eu sugeri que não fizessem isso, pois ambos pertenciam à Arena, embora fosse louvável essa iniciativa que tiveram em participar da democratização da Assembleia. Porque o fundamento do mandado de segurança era de que esta emenda constitucional foi votada sem obediência aos prazos do regimento interno da Assembleia. Então, eu sentia que o Cândido e o deputado Erondy iriam se sacrificar se participassem também do mandado de segurança. Mas a contribuição deles foi muito valiosa, porque formaram, juntamente com outros deputados da Arena, que não podiam dar o seu nome ao mandado de segurança, uma corrente no sentido de que o governo autoritário não tivesse um longo período. O Tribunal de Justiça concedeu uma liminar nesse mandado de segurança. O desembargador Henrique Nogueira Dorfmund concedeu o mandado de segurança para dizer que a emenda constitucional que estava modificando a Constituição aprovada em 1970, no governo Paulo Pimentel, era uma emenda inconstitucional. E aquilo trouxe um episódio de grande repercussão não só jurídica como política em nosso estado. Lembro que, no Supremo Tribunal Federal, o ministro Aliomar Baleeiro, ao intervir no caso e cassar esta liminar, disse pela segunda vez em um despacho “As circunstâncias estão a demonstrar que tudo pode levar a uma intervenção”. E realmente essa intervenção houve quando Haroldo Leon Peres foi constrangido a renunciar ao governo do estado.

 

José Wille – Em 1986, o senhor recebeu o convite para participar do governo Álvaro Dias como secretário de Cultura. O que representou essa atuação para o senhor que não tinha ligação com partidos políticos e não tinha interesse político?

 

René Dotti – Eu não tinha militância partidária, mas tinha conhecimento pessoal com o governador eleito. E um dos primeiros convites que fez para formar sua equipe foi a mim. Ele disse, na entrevista que mantivemos, em dezembro de 1986, que gostaria que eu participasse do governo dele. E que pensou em me nomear para a Secretaria de Cultura. Eu fiquei inicialmente surpreso, porque, embora já tivéssemos secretário de Justiça escolhido, o professor Breda, pensava que o governador fosse me distinguir com algum convite para alguma comissão de trabalho do governo na área jurídica. Ao receber o convite, pedi uns dias para avaliá-lo junto a meus colegas de escritório. E, ao perguntar à minha mulher como via esse tipo de convite, ela disse “Mas é uma área nobre, é muito importante, e você deve responder positivamente”. E aquele foi efetivamente meu primeiro estímulo para assumir a Secretaria de Cultura do Paraná. Uma época fantástica de minha vida.

 

José Wille – Dessa participação no governo, que análise o senhor faz hoje dela e do próprio governo?

 

René Dotti – Algumas pessoas me procuravam e diziam “Como você, que não fez atividade política – não foi deputado, vereador etc –, está se dando na convivência com políticos e artistas?”. Para dizer como me sentia, eu falava “Vou usar uma imagem de Dante, da ‘Divina Comédia’. Eu me sinto no Purgatório quando não posso lidar com o volume de demandas que tenho. Eu me sinto no Inferno quando não posso atender àquilo que é justo atender. Mas fico muito tempo no Paraíso quando vejo que muitas coisas podem ser feitas com criação, com apoio, com equipe etc.” Então, me sentia, na maior parte das vezes, feliz, compensado, estimulado. Porque eu considerava a Secretaria de Cultura como a usina dos sonhos. Tudo se multiplicava, tudo se criava, tudo se transformava. E a convivência política foi boa, à medida que eu pude sentir que a minha convivência com os artistas – ao contrário do que me diziam, que eu teria dificuldades nessa área – era muito mais fácil, principalmente do ponto de vista da sinceridade.

 

José Wille – Por isso o senhor não quis ser deputado, quando houve a possibilidade de lançamento no final do governo?

 

René Dotti – Não necessariamente, porque eu não fiquei desgostoso da classe política. Alguns tipos, alguns estereótipos da classe política é que apareciam para mim como de mais difícil convivência do que outras pessoas. A minha decisão de não acompanhar o então candidato a governador Roberto Requião e tentar o mandato de deputado federal, em 1990, foi porque queria retornar ao meu escritório e introduzir na advocacia também a minha filha, que, poucos anos depois, se formaria. Então, eu tinha um projeto pessoal de retornar ao escritório, realimentar inclusive os meus trabalhos universitários, sem perder de vista a possibilidade de, no futuro, exercer – é claro, com muita honra – o mandato. Eu não tenho nenhum preconceito, porque tenho, na classe política também, extraordinários amigos. E tive do governo uma impressão muito rica. A minha convivência com o governador Álvaro Dias foi muito grande, muito fraterna e senti nele um exemplo de dedicação e de perseverança, um entusiasmo muito grande. Principalmente, quando nosso estado sofreu as consequências terríveis de uma inflação galopante, do fechamento do apoio federal, da redução de verbas e recursos federais, em face da nova Constituição de 1988, que retirou estímulos que a União passava para os estados. Então, com essa dificuldade constante, posso dizer que a imagem que ficou para mim, não só como secretário, mas como cidadão, foi de um governo de muita austeridade, de muita coragem para brigar, inclusive com grupos econômicos poderosíssimos. Ele tinha muito e tem ainda muito dessa coragem. Tanto assim que renunciou tranquilo ao mandato de senador, no final do governo, em 1990, para continuar o governo em 1991.

 

José Wille – O senhor acha que ele acertou? Ele ficou, depois disso, muitos anos afastado da política porque  decidiu ficar no cargo e não disputar a eleição para o Senado.

 

René Dotti – É um traço da personalidade do líder: enfrentar dificuldades e ir pelo melhor caminho. Isto é o que caracteriza o líder que não é, neste momento, um oportunista. Eu acho que ele acertou, pois teria desgastes muito grandes na sequência da administração estadual. A opção que ele fez me pareceu muito adequada, até para o futuro político dele.

 

José Wille – Como secretário de Cultura, como pessoa ligada à área cultural, é uma preocupação sua a identidade cultural do Paraná, que seria fraca.

 

René Dotti – Há uma frase antológica, de que lembrei no meu discurso de posse na Academia de Letras: “O Paraná é a terra de seus próprios caminhos. A história do Paraná é a história de seus caminhos”. Por quê? Porque o Paraná é uma confluência de culturas. O Paraná é um centro muito vivo das mais variadas tendências migratórias, sejam elas do exterior ou do interior do nosso país. É o alemão, o polonês, o japonês, o paulista, o mineiro, o nordestino etc. Daí porque a frase muito bem-cunhada – penso que pelo Adherbal Fortes – que o Paraná é a terra de todas as gentes. E eu digo, usando um símile, que o Paraná é uma liga das nações. Nós podemos dizer que o Paraná ainda não tem bem definida uma identidade cultural. Ele tem traços dessa identidade, algumas marcas que são próprias. Por exemplo, essa de ser uma terra de todas as gentes, de ser uma liga das nações, uma confluência de culturas. Mas falta ainda ao nosso estado, para os efeitos dessa identidade marcante, o estímulo a certo tipo de atividade, a determinados fatos históricos. Então, nós sentimos que, em parte, isso ainda não ocorreu por causa de um aspecto político: nossa emancipação ainda recente. A cultura gaúcha vem de uma convivência com culturas de outros países; a cultura baiana, da África; a cultura paulista e a cultura mineira, de outros centros, inclusive europeus. Nós não estamos vendo, nos governos que se sucedem em nosso estado, um programa mais definido de apoio à história, à cultura das personagens da nossa história e dos fatos históricos importantes do Paraná.

 

José Wille – O senhor acha, portanto, que o governo pode atuar sobre isso?

 

René Dotti – O governo pode e é obrigação constitucional do governo atuar sobre isso, porque compete ao governo estimular a cultura em todas as suas formas de expressão. Na Academia Paranaense de Letras, nós aprovamos um projeto que pretendemos, através da professora Chloris Justen e do presidente Túlio Vargas, encaminhar ao próximo governo, para subsidiar os currículos escolares das escolas da rede pública da rede primária e secundária com as figuras da nossa história, os fatos importantes da nossa história. Isso deve ser visto como uma necessidade, como um gênero de primeira necessidade. Além disso, na área cultural, nos costumes paranaenses, há determinados costumes do litoral, da cidade, que devem ser estimulados pelo governo, a fim de ganharem efetivamente uma marca. Não, por exemplo, o apoio ao Carnaval através de recursos públicos, porque não é, efetivamente, o Carnaval uma das formas de expressão cultural do nosso povo. Não se quer com isso impedir apoios, mas dizer que esse não é o traço marcante do nosso estado, da nossa cidade ou das nossas cidades. Então, eu sinto que o Paraná tem essa necessidade. E são os governos que se sucedem e a sociedade civil organizada também que devem participar efetivamente desse processo. E também a nossa representação. É muito comum nós criticarmos a nossa própria representação nas casas do Congresso Nacional, como representações que não tenham efetivamente dado uma demonstração da existência do sentimento paranista. Nós temos visto isto agora que precisamos do Tribunal Regional Federal funcionando no Paraná. Nós temos um Tribunal Regional Federal que atua nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que está com seu trabalho atrasado, enormemente atrasado, que é um problema público gravíssimo, mas não estamos vendo um movimento estadual compacto para que nós resolvamos isso. Isto é, um movimento que envolva efetivamente as lideranças do nosso estado, inclusive as parlamentares. Não tenho visto, lamentavelmente, esse movimento. Tenho certeza de que se essa necessidade fosse de outro estado da União, esse estado já teria o seu Tribunal Regional Federal instalado. E não estaria, como nós, a depender de certas concessões regionais ou ideológicas de poderes da República e dos estados.

 

José Wille – Professor René Dotti, em 1978, o senhor foi convidado pela primeira vez a integrar uma comissão. De lá para cá, foram 20 anos participando em comissões para discutir Código Penal e o sistema penitenciário. Em praticamente tudo o que se tratou nestas áreas, o senhor esteve presente, integrando as comissões, levando a decisões, que, depois, foram executadas.

 

René Dotti – Foi a partir da administração do ministro Petrônio Portella que fui convidado, juntamente com 10 outros colegas, para elaborar um relatório sobre as causas da violência e da criminalidade em nosso país. E, a partir de então, nos governos que se sucederam, tenho sido distinguido com convites para participar de comissões do Ministério da Justiça, quer de reforma penitenciária, quer de reforma do Código Penal. Também no Superior Tribunal Eleitoral, participei de comissão para elaborar um projeto de código eleitoral. E tenho recebido essa honraria dos convites, independentemente da natureza política e ideológica dos governos federais. Ainda agora, em julho, tive um honroso convite do Ministério de Relações Exteriores para ter o meu nome submetido à consideração do Presidente da República para nomeação na Organização dos Estados Americanos. Convite extremamente honroso, mas que, por exigir minha presença permanentemente durante 2 anos em Washington, não me foi permitido aceitar, porque isso implicaria, mais uma vez, em interromper as atividades de meu escritório e da universidade. E também interromperia a dedicação que eu tenho atualmente à produção literária, de livros de Direito. É uma forma de eu documentar aquilo que penso, aquilo que sinto… E de deixar um registro, evidentemente, para as gerações futuras. Assim eu pretendo, essa é a minha ambição. Todo escritor tem, sem dúvida nenhuma, a esperança de ser lido mais tarde, independentemente do tempo. Então, essa pretensão eu também tenho. Mas eu escrevo mais para manifestar aquilo que penso e que digo, o que tem sido um exercício muito gratificante. É uma forma de me conhecer e aprender, inclusive com meus próprios defeitos. À medida que estou escrevendo, estou vendo que aquilo que poderia dizer mais fácil, não dizia mais fácil antes. Então, procuro dizer mais fácil agora.

 

José Wille – Principalmente, para tentar ajudar a resolver problemas graves brasileiros, como o da violência, da recuperação dos presos, do sistema penitenciário brasileiro, que são questões fundamentais para o Brasil.

 

René Dotti – E numa linguagem que não seja cifrada, numa linguagem que possa ser conhecida, que possa ser identificada. Que não tenha determinados tipos de segredos internos e que não apareça como uma expressão babélica, como meio de confundir as pessoas. Porque, se há, lamentavelmente, uma das áreas onde mais se abusa de neologismos ou se abusa das dificuldades de linguagem, é a área do Direito.  Economia e Direito estão passo a passo disputando, lamentavelmente, um concurso de se escrever e pensar difícil. Ainda recentemente, quando estive em Londres, fui adquirir um livro para advogados e uma das primeiras frases dizia assim “É muito comum os advogados escreverem difícil, criando assim maiores dificuldades”. E a minha preocupação é exatamente o contrário. Penso até, nos próximos anos, em fazer um curso para novos advogados aprenderem não só a lei, mas para aprenderem a conhecer a lei e a transmitir o que diz a lei.

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