Nelson Luiz de Souza Pinto trabalhou nos projetos das maiores hidrelétricas do Brasil

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Nelson Luiz de Souza Pinto

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Entrevista com Nelson Luiz de Souza Pinto. Engenheiro hidráulico por formação, ele participou da construção das maiores usinas hidrelétricas do Paraná. Também escreveu muitos trabalhos científicos que são referência na área. Foi também um dos primeiros engenheiros a compor o quadro funcional da Copel, em sua  fundação, em 1954. Como reconhecimento a seu trabalho, o professor da UFPR recebeu a Ordem Nacional do Mérito Científico, na classe de Comendador, do Ministério da Ciência e Tecnologia. Esta  entrevista foi gravada em janeiro de 1998, dentro do projeto Memória Paranaense original, da CBN e Inepar. 

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José Wille

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José Wille – O senhor nasceu em 1932, em Curitiba, e seu pai era engenheiro da prefeitura. Foi daí que veio a escolha da engenharia?

 

Nelson de Souza Pinto – Sim, podemos dizer que há um contingente sentimental. Meu pai foi engenheiro civil e faleceu muito moço, com 38 anos. A memória dele era minha memória como criança. Depois, a afinidade com matemática foi naturalmente me induzindo à profissão de engenheiro.

 

José Wille – Quando o senhor ingressou na Universidade Federal, em 1950, para cursar Engenharia, a construção era ainda muito limitada. Não existiam as várias habilitações de Engenharia.

 

Nelson de Souza Pinto – O curso era um curso de Engenharia Civil. Na verdade, a universidade nem era ainda Universidade Federal. Foi o último ano em que trabalhou ainda como universidade particular. Era uma universidade que tinha ainda muitas vagas. Eram duzentas vagas e o curso único oferecido era o de Engenharia Civil.

 

José Wille – Quando a Copel foi criada, o senhor foi um dos seus primeiros funcionários?

 

Nelson de Souza Pinto – Quando terminei o curso, fiquei como engenheiro de pontes no DER e não me atraiu muito a especialidade. Mas a hidráulica tinha sido uma especialidade que tinha me atraído. Então, procurei o professor Parigot, na tentativa de entrar na universidade. Mas ele me disse que estava montando a Copel, uma companhia nova e iria me convidar para trabalhar nela, como de fato convidou. Comecei em agosto de 1955, quando a empresa era ainda muito pequena. Eu fui o funcionário número 6 da Copel.

 

José Wille – Era apenas um escritório no Centro de Curitiba?

 

Nelson de Souza Pinto – Exato.

 

José Wille – E qual era o projeto que existia na época para a Copel? Qual era a filosofia, quando houve a criação?

 

Nelson de Souza Pinto – Quando se criou a Copel, a ideia era se basear na Cemig, de Minas Gerais – ou seja, uma empresa que se concentraria nas principais obras hidrelétricas do estado.

 

José Wille – O que era, naquele momento, a energia elétrica no Paraná? Não existiam ainda grandes usinas hidrelétricas.

Nelson de Souza Pinto – O fornecimento de energia, principalmente nas grandes cidades, dava-se por empresas particulares, como a Força e Luz, em Curitiba; a Prada, em Ponta Grossa; Paranapanema, no Norte Velho; e a Companhia Elétrica de Londrina. O governo do estado, através do Departamento de Águas e Energia Elétrica, tinha pequenas unidades de energia, às vezes hidráulica, às vezes diesel, nas pequenas cidades do interior.

 

José Wille – Havia muitos motores pequenos e de pouca potência nas cidades?

 

Nelson de Souza Pinto – Muitas vezes trabalhando em más condições. A luz era bem pouco confiável. Isso era característica da época, a não ser nessas cidades como Curitiba, onde o serviço da Força e Luz, baseado em usinas hidráulicas, era um pouco melhor.

 

José Wille – Mas os cortes eram permanentes. Havia até um horário limitado de funcionamento de energia em algumas cidades.

 

Nelson de Souza Pinto – Houve bastante esse tipo de coisa. E houve também problema de racionamento devido à política do governo federal, que era de conter essas empresas particulares. Então, começou a haver muito racionamento de energia.

 

José Wille – O funcionamento ainda não era interligado entre as cidades? Cada uma tinha seu próprio sistema de fornecimento independente de energia?

 

Nelson de Souza Pinto – Aqui no Paraná não havia linhas de transmissão praticamente em lugar nenhum, a não ser pequenas linhas, como a de Chaminé a Curitiba, mas coisa pequena e limitada à cidade.

 

José Wille – Mas existia no governo a consciência de que, daquela forma, não aconteceria a industrialização e o desenvolvimento.

 

Nelson de Souza Pinto – Exato.

 

José Wille – No segundo governo de Moysés Lupion, que começou em 1956, houve uma mudança na filosofia na Copel?

 

Nelson de Souza Pinto – A Copel, quando mudou o governo, em 1956, de fato mudou bastante. Primeiro, porque se deu uma ênfase política. A Copel recebeu vários sistemas de distribuição, como Paranaguá, Maringá e Apucarana, e havia mesmo uma conotação de se fazer influência política. A Copel ficou numa posição difícil de relacionamento com a Companhia de Águas e Energia Elétrica, que tinha o restante do estado. E não se definiam claramente quais eram as políticas mais interessantes. Pararam praticamente todas as obras hidráulicas que existiam na época, a não ser a de Campo Mourão, que vinha andando muito devagar, e a Usina de Cotia, que era um ponto de honra do governo Lupion, porque foi iniciada no primeiro governo e tinham aparecido problemas técnicos, principalmente de falta de água. Tinha parado também durante o governo Bento e, no segundo governo Lupion, houve uma tentativa de reiniciar as obras de Cotia. Então, em todo esse governo, as obras foram completadas praticamente na sua primeira etapa.

 

José Wille – Havia o uso político da energia, atendendo melhor ou pior, de acordo com as conveniências políticas, os prefeitos que fossem favoráveis ou não ao governo estadual?

 

Nelson de Souza Pinto – Houve muitos problemas desse tipo – interferências dentro do serviço de luz e força, em Apucarana e Maringá; invasões dos escritórios da Copel por grupos políticos, tentando criar constrangimentos para a oposição… Coisas desse tipo…

 

José Wille – O fato é que, até o final da década de 50, não existiam usinas de porte no Paraná – apenas pequenas centrais de produção de energia.

 

Nelson de Souza Pinto – Exato. Com exceção, talvez, se a gente pudesse considerar grandes as usinas de Chaminé e Guaricana. Mas, do governo, não havia. Foi de fato só em 1961, quando Ney Braga entrou no seu primeiro governo, que houve uma grande modificação e o início do que hoje se chama Copel, uma empresa de porte no setor de energia.

 

José Wille – O senhor optou pela área de energia hidráulica, e foi aos Estados Unidos fazer o seu mestrado nessa área.

 

Nelson de Souza Pinto – Logo depois que entrei na Copel, dois anos depois, fui convidado para ser assistente do professor Parigot de Souza. E, nesses quatro primeiros anos de profissão, acabei dando ênfase à formação universitária. Já que na Copel e no governo do estado não se deslanchava muito bem, fiz um mestrado na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos.

 

José Wille – Foi no governo Ney Braga que houve  preocupação real com a eletrificação do Paraná?

 

Nelson de Souza Pinto – No governo Ney Braga, a primeira posição foi reconduzir o professor Parigot de Souza à presidência da Copel. Na formação da Copel, Parigot era diretor técnico e esse segundo convite foi para diretor presidente. E ele, com base em uma série de engenheiros que tinham permanecido na Copel e que tinham formado um núcleo técnico bom, criou essa Copel moderna, que passou a se desenvolver no sentido das linhas de interligação, principalmente interligando os serviços do Paranapanema, que era da Cesp – naquele tempo se chamava Oselpa – e fazendo a ligação da Rede Ferroviária Federal do Marumby com Paranaguá. Foram as primeiras linhas de alta tensão do estado.

 

José Wille – Em 1960, começa, então, a construção dessas hidrelétricas para o  abastecimento do estado?

 

Nelson de Souza Pinto – E se passa a pensar seriamente em se fazer usinas maiores. Então, o governo de estado passou a construir a usina-piloto de Salto do Iguaçu, que era uma usina de 15 megawatts e, em seguida, a usina do Chopim 1, no Sudoeste. E o início das obras no Capivari-Cachoeira, que era a grande obra para a região de Curitiba, que já era uma usina de 250 megawatts.

 

José Wille – O senhor citou o professor Pedro Parigot, que foi governador do Paraná e morreu em 1973, não completando o governo. O trabalho dele na expansão da Copel, nesta fase, foi fundamental?

 

Nelson de Souza Pinto – Foi preponderante. Ele foi um homem que se preocupava muito não só com a formação da equipe, mas também em definir linhas de estratégias futuras. A Copel se desenvolveu com uma orientação já visando às grandes conquistas futuras. Definiu-se, por exemplo, o grande anel de interligação do estado em linhas de 220 quilovolts. Organizou-se, no chamado Comitê Sul, o estudo da priorização das obras da Região Sul do Brasil, que era uma coisa feita pela Eletrobrás, mas foi sediada em Curitiba, com grande influência da Copel. Lá, definiu-se essa linha das usinas seguintes, como, por exemplo, todo o aproveitamento do rio Iguaçu.

 

José Wille – Uma das primeiras usinas foi a de Capivari, considerada na época uma obra muito importante, pelo grande desnível e pela distância em que houve a abertura da rocha da Serra do Mar para que fosse construída. O senhor dirigiu esse trabalho durante boa parte do tempo.

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Exemplo de maquete para teste prévio de projetos de hidrelétricas na UFPR. Este foi o modelo da Usina de Belo Monte.

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Nelson de Souza Pinto – Tive a oportunidade de trabalhar como diretor técnico de uma empresa subsidiária da Copel chamada Eletrocap. O diretor-superintendente era um engenheiro chamado Hiram Lamas, que também havia sido diretor da Copel e que se destacou no Capivari. Mais tarde, foi presidente da Telepar e teve também um desempenho muito importante. Tivemos uma experiência muito interessante, pois criamos uma empresa subsidiária com uma obrigação específica de não só construir essa obra, mas também formar um grupo de excelência. Nós nos demos a responsabilidade de fazer o projeto dessa obra, o projeto executivo. Quer dizer, a Eletrocap não só fiscalizava a construção, mas fazia todo o detalhamento de escritório, como se fosse uma firma de engenharia. Fazia a fiscalização das obras, a contratação etc. O trabalho de uma obra que, para a época, era muito difícil, pois incluía vinte e poucos quilômetros de túneis, uma central subterrânea, com 750 metros de queda…

 

José Wille – Era um rio que estava em um planalto e que deveria descer a Serra do Mar?

 

Nelson de Souza Pinto – Sim. O rio Capivari é da bacia do rio Ribeira. Normalmente, o rio sai na Ribeira do Iguape. Então, ele é captado lá na Serra do Mar e desviado para o mar, para aproveitar o desnível de 750 metros entre o planalto, onde ele corre normalmente, e o litoral, no rio Cachoeira. Por isso, o nome Capivari-Cachoeira. Cachoeira é o rio para onde a água é vertida. Foi uma obra muito importante, pois, naquele tempo, não havia uma experiência brasileira na execução de túneis. Contratamos uma firma que ganhou a concorrência, mas também não tinha experiência em túneis – era uma empreiteira brasileira. Então, houve a necessidade de ir à Europa entrevistar e contratar técnicos para virem assessorar aqui. E foi um período de muito aprendizado e de muita formação de tecnologia.

 

José Wille – Quantos quilômetros de túneis foram abertos.

 

Nelson de Souza Pinto – Vinte quilômetros de túneis! E o acesso à usina é um túnel de um quilômetro para dentro da terra. E a água, depois que passa nas turbinas, ainda tem que percorrer dois quilômetros de túneis até chegar ao rio Cachoeira. A usina é muito interessante, porque é uma usina moderna, que não fere o meio ambiente. E é uma usina que não se vê, pois toda ela é praticamente subterrânea.

 

José Wille – E foi realmente importante, naquele momento, para o fornecimento de energia elétrica para o Paraná?

 

Nelson de Souza Pinto – Sim, porque ela representou setenta, oitenta por cento da energia para o estado, e tinha uma posição estratégica, pois, em linha reta, está a cinquenta quilômetros de Curitiba. Hoje, é uma usina importante no sistema de distribuição, pela confiabilidade e por estar tão perto do centro consumidor.

 

José Wille – Na década de 60, quando acontecia esse trabalho, já existia uma ideia precisa do potencial hidrelétrico do Paraná?

 

Nelson de Souza Pinto –  Foi nessa ocasião que se instituiu aqui em Curitiba o chamado escritório do Comitê Sul, que fez um estudo do potencial hidroelétrico do Sul do Brasil e, de maneira particular, dos locais de maior prioridade, principalmente da bacia do rio Iguaçu, onde se encontravam grandes possibilidades de aproveitamento. Foi nessa ocasião que o estado não só percebeu as suas riquezas hidrelétricas como também definiu a ordem de prioridade das próximas usinas.

 

José Wille – Isso tudo com a consciência da importância deste fornecimento para o futuro do estado.

 

Nelson de Souza Pinto – Já existia essa ideia e havia uma política muito nítida de interesse de iniciar a próxima obra. E ela seria a obra inicial do Iguaçu, a Usina de Salto Osório, nas proximidades da Usina do Chopim 1, em um afluente do rio Chopim, que é bem próximo de Salto Osório.

 

José Wille – Que fatores foram importantes e acabaram possibilitando, na sequência, a construção de tantas hidrelétricas no estado?

 

Nelson de Souza Pinto – O Brasil estava vivendo um período de progresso, e o Paraná tinha um progresso da ordem de dez, doze por cento ao ano no crescimento de energia. A gente deve lembrar que, na década de 50 e no início de 60, o Paraná era um estado muito pobre em energia – tinha metade da média brasileira per capita, algo dessa ordem. E o progresso do estado, o desenvolvimento do interior, criou um mercado muito grande. O governo tinha a política de acompanhar esse progresso. E o Brasil todo estava progredindo, tanto que começou a haver uma mudança da política federal, criando empresas especiais para a construção de usinas, como a Eletrosul. O governo federal criou uma política de fazer grandes usinas, deixando aos estados apenas a parte de transmissão e distribuição.

 

José Wille – O Paraná era citado como um estado hidrelétrico. O governo federal identificou esse potencial, apoiando a construção desse grande número de usinas?

 

Nelson de Souza Pinto – Não é só o Paraná que é um estado hidrelétrico. O Brasil todo é. É um país sui generis no mundo, porque 95% de sua energia é hidrelétrica. Somos um país muito rico, principalmente toda essa região Centro-Sul, que é onde está o progresso material e onde havia grandes rios. A bacia toda do rio Paraná é muito rica em potencial hidrelétrico. Então, o Brasil é assim e o Paraná também o é, particularmente pela bacia do Iguaçu.

 

José Wille – Na década de 70, durante o governo militar, existia a crença de que a Eletrosul deveria construir as hidrelétricas. O senhor acha que foi neste momento que a Copel perdeu seu espaço no planejamento?

 

Nelson de Souza Pinto – Sim. Houve uma disputa política. O ministro Dias Leite, no governo Médici, criou a política de que as grandes usinas seriam federais e deu a primeira concessão de uma grande usina do Iguaçu, Salto Osório, para a Eletrosul. E criou a Eletrosul, uma empresa que, na verdade, não existia – e tanto era artificial essa posição que quem construiu a usina foi a Copel, que tinha o know-how, que tinha os técnicos. E, enquanto isso, a Eletrosul se criava como uma empresa. A Copel construiu Salto Osório e passou a obra para a Eletrosul, que se tornou a dona da usina. Nessa ocasião, houve uma disputa interessante, pois, quando a concessão foi dada à Eletrosul, houve reclamações no Paraná. E foi prometido extraoficialmente que a usina de Salto Santiago seria do estado. Mas o governador Parigot adoeceu e houve boatos de que ele não tinha muitos meses de vida. Então, o ministro aproveitou aquela situação para dar a concessão de Salto Santiago também à Eletrosul. Mas o professor Parigot não faleceu naquela ocasião, recompôs-se – ele era muito decidido – e voltou ao governo, reclamando em termos veementes. Na tentativa de apaziguar a crise, o ministro concedeu a concessão de Foz do Areia à Copel, que, na época, era uma usina média, de quinhentos megawatts. O desnível entre União da Vitória e Foz do Areia era constituído por duas usinas: a de Salto Grande, que teria 50 metros, e Foz do Areia, com 100 metros, que, juntas, dariam quinhentos megawatts. Nesta ocasião, a Copel começou a estudar e viu a possibilidade de fazer uma barragem maior e transformar Foz do Areia em uma usina-chave do rio Iguaçu, elevando de 100 para 150 metros a altura da barragem. Ao mesmo tempo, o ministro acabou caindo e a Copel ganhou a concessão dessa obra importante, que foi Foz do Areia.

 

José Wille – Que seria, a princípio, uma obra menor e acabou se tornando enorme?

 

Nelson de Souza Pinto – Acabou sendo uma usina de dois milhões de quilowatts.

 

José Wille – No segundo governo de Ney Braga, houve um esforço para se conseguir para o Paraná a construção da usina de Segredo?

 

Nelson de Souza Pinto – Exato. Quando deram Salto Santiago, deram também o restante do Iguaçu para a Eletrosul.  O governador Ney Braga, em uma posição de defesa dos interesses paranaenses, exigiu de volta essas concessões para o estado. E conseguiu: Segredo e Salto Caxias voltaram à concessão da Copel.

 

José Wille – Professor, se, por um lado, havia a garantia do fornecimento de energia de que o Paraná e o Brasil estavam, o Paraná também reclamava da perda de grande quantidade de terras, área que poderia ser usada para a agricultura. Houve uma campanha pelos royalties, que a “Gazeta do Povo”, na época, apoiou. Era justa a reivindicação que o Paraná fazia?

 

Nelson de Souza Pinto – Não sei se ela compensa de todas as perdas, mas pelo fato de que a água, no Brasil, pela lei, é um bem federal, os estados e as localidades municipais nunca tiveram benefícios dos alagamentos, das perdas de terras pela construção das usinas. Muitas vezes, as usinas são construídas para gerar energia em outros estados. E essa campanha foi justa, no sentido de dar compensação aos estados – o reforço da independência estatal perante a Federação.

 

José Wille – Dentro de uma visão estratégica, o governo militar teve o mérito de perceber a necessidade desta estrutura energética para o futuro, até adiante da demanda?

 

Nelson de Souza Pinto – Acho que esse assunto é interessante, porque foi no governo militar que se deu grande ênfase à produção de energia pelas empresas estatais. E nunca o estado esteve tão envolvido na construção de novas usinas, com uma política que era justificada pela possibilidade de acelerar o progresso. A ênfase no progresso era a palavra de ordem. E isto trouxe um benefício muito grande para o setor em todo o país.

 

José Wille – Na década de 50, o atendimento era de empresas particulares. Então, houve um momento em que o governo tomou a frente e partiu para a estatização e, assim, o governo federal e, às vezes também, os governos estaduais tentaram atender à demanda de energia.

 

Nelson de Souza Pinto – Exato. O modelo anterior era um modelo privatizado. Nas grandes capitais, eram sempre empresas estrangeiras fornecendo energia. A partir do momento em que, politicamente, o país começou a ter interesse de se ver livre dessas empresas, criou-se um estrangulamento deste sistema pelo congelamento das tarifas. Politicamente, as tarifas não podiam crescer e tinham que ser calculadas, obrigatoriamente, pelo valor histórico contábil.

 

José Wille – Então, também não havia recursos para expandir o sistema?

 

Nelson de Souza Pinto – Exato. Havia essa desculpa e não se sabia quem veio antes, se o ovo ou a galinha – se não se investia porque a compensação era baixa ou a compensação era baixa porque não se investia. E acabou vencendo a política da estatização. Chegou a um ponto que, mesmo no governo militar, foi exigido pelos países estrangeiros, foi colocada como uma condição ao apoio à Revolução, a estatização das empresas. Foi, nessa ocasião, que as empresas privadas passaram ao governo federal.

 

José Wille – Desde 1959, o senhor é professor no Centro de Hidráulica da Universidade Federal do Paraná, que tem um trabalho no planejamento das hidrelétricas, desde a simulação anterior, que verifica se a hidráulica vai ser compatível com o que está no projeto. Qual foi a importância desse centro na construção de usinas no Paraná?

 

Nelson de Souza Pinto – O Centro de Hidráulica, a que hoje chamamos de Centro de Hidráulica e Hidrologia Professor Parigot de Souza – CEHPAR, foi uma iniciativa universitária do professor Parigot, em 1959. Quando retornei do mestrado nos Estados Unidos, iniciei o trabalho em 1960, já no primeiro modelo reduzido que estavam fazendo. Era uma iniciativa de caráter universitário, que tinha um pensamento de fazer investigação no campo de hidráulica. E tinha um princípio de funcionamento universitário, que era o seguinte: deve-se pesquisar na universidade aquilo que a sociedade precisa e aquilo que ela está disposta a pagar. O Centro de Hidráulica passou a fazer modelos reduzidos porque havia um mercado. As empresas que estavam fazendo projetos de hidrelétricas necessitavam desses modelos físicos para estudar os problemas hidráulicos das suas obras. Então, criamos esse laboratório e vivíamos da renda produzida por ele.

 

José Wille – Ali eram montados, em miniatura, os modelos das usinas que, mais tarde, seriam construídas?

 

Nelson de Souza Pinto – Exato. Para resolver problemas hidráulicos das usinas, principalmente da construção das barragens. Então, por exemplo, para construir a barragem, é preciso desviar o rio, fazer com que ele passe por um túnel. Como isso acontece? São problemas que não têm solução analítica fácil. Então, é preciso fazer uma simulação física. E é isso que esses modelos permitem.

 

José Wille – A computação ainda não substitui esse sistema?

 

Nelson de Souza Pinto – É um ramo que está muito desenvolvido, porque o computador tem tido uma evolução muito grande, mas, até hoje, os problemas tridimensionais, escoamentos turbulentos, vertedores, não são satisfatoriamente reproduzidos matematicamente.

 

José Wille – O Centro de Hidráulica da Universidade Federal do Paraná, teve um trabalho fundamental para muitas hidrelétricas e também para Itaipu.

 

Nelson de Souza Pinto – O Centro de Hidráulica fez todos os modelos reduzidos para esse aproveitamento de Itaipu. Itaipu, na ocasião, era a maior obra hidrelétrica – e ainda é a maior usina hidrelétrica do mundo. Mas, em termos hidráulicos, havia vários problemas importantes. E um, talvez o mais importante, era o projeto do vertedouro. O vertedouro de Itaipu era um desafio em termos de tecnologia, porque um rio como o Paraná, que tem uma vazão média de 8 mil metros cúbicos por segundo, tinha que ser levado a cento e vinte, cento e trinta metros de altura e ser descarregado em uma calha de concreto. E isso era um fato que não tinha retorno – ou seja, o rio, quando fosse colocado ali, tinha que passar nesse canal durante dez anos de operação contínua em um desnível de cento e tantos metros, e velocidade da ordem de trinta, quarenta metros por segundo. Então, o projeto deste vertedouro era realmente um desafio. E o Centro de Hidráulica teve a oportunidade de ajudar nesse projeto de uma maneira muito eficiente. Tão eficiente que o funcionamento dessa obra é exemplar, citado no mundo como uma grande realização no setor de obras hidráulicas.

 

José Wille – Foz do Areia, também construída pela Copel, tinha características importantes para a época?

 

Nelson de Souza Pinto – Talvez não tenhamos dado ênfase ao fato de que o Centro de Hidráulica e a Copel, nessa questão hidráulica, sempre trabalharam juntos. Parte pelo fato de a gente ter sido Copel e Universidade sempre, e pela própria necessidade de deixar o Centro de Hidráulica ágil comercialmente, o centro acabou sendo administrativamente o resultado de uma cooperação entre a Copel e a Universidade. Quer dizer, o centro trabalha com base em um convênio com a Universidade e com a Copel. Praticamente, seus funcionários são da Copel, colocados à disposição da universidade. E nesses estudos, um dos mais interessantes foi para a usina de Foz do Areia. Foz do Areia é uma barragem de enrocamento com face de concreto, que, para a época, foi um recorde mundial. Foi uma barragem de 160 metros – e a barragem mais alta que havia no mundo desse tipo tinha 110 metros. Então, houve todo um estudo tecnológico em relação à barragem de enrocamento, no qual a gente teve oportunidade de participar – não o Centro de Hidráulica, propriamente dito, mas o centro participou no vertedouro. O vertedouro tinha um desnível de 120 metros e tinha riscos sérios de cavitação, que é um fenômeno que acompanha escoamentos de alta velocidade e provoca a destruição do concreto. Nessa ocasião, tivemos a oportunidade de investigar e de desenvolver, no Centro de Hidráulica, uma tecnologia chamada de aeração, em que se mistura o ar e a água, provocando um fenômeno que protege o concreto contra a cavitação. Foi em Foz do Areia que tivemos a oportunidade de fazer o primeiro vertedouro de grandes dimensões com esse dispositivo, que teve um desempenho excelente.

 

José Wille – Com 40 anos dedicados ao ensino na Universidade Federal, e sabendo do sucateamento que estas instituições enfrentam, com poucos recursos, o senhor acha que o ensino fica defasado, com pouco investimento e a dificuldade em acompanhar o desenvolvimento da tecnologia?

 

Nelson de Souza Pinto – Acho que há uma dificuldade. A universidade no Brasil progrediu muito nesse período em que a acompanho, mas acho que a universidade ficou atrasada com relação às necessidades. O mundo está evoluindo de uma maneira fantástica e o conhecimento é a principal moeda, a principal riqueza de um país. As universidades estão de fato muito atrasadas, talvez pelo modelo da pouca interação entre universidades e os problemas reais. Como eu disse, nós do Centro de Hidráulica tivemos sempre a preocupação de estarmos ligados às necessidades. Procuramos não ter vergonha de que a investigação fosse aplicada, porque o estudo é sempre aplicado. Mesmo a pesquisa básica, a longo prazo, é aplicada. E um país no estágio de desenvolvimento do Brasil tem que dar prioridade a suas necessidades mais iminentes. Acho que a universidade poderia participar de uma maneira mais íntima com o dia a dia do país. Isso tem faltado.

 

José Wille – O potencial paranaense para a produção de energia, já chegou ao limite ou ainda há algo que possa ser explorado?

 

Nelson de Souza Pinto – Entendo que ainda há bastante coisa. Existem muitas usinas médias, usinas de cem a trezentos, quatrocentos megawatts. Há o rio Tibagi todo para ser aproveitado. O rio Ivaí e afluentes do rio Iguaçu, como o Chopim e o Jordão, ainda permitem desenvolvimento de usinas de tamanho médio.

 

José Wille – No governo militar, houve a opção pela compra de tecnologia para a produção de energia nuclear. O senhor acha que foi uma decisão acertada? O Brasil teria uma limitação para a produção hidráulica a longo prazo?

 

Nelson de Souza Pinto – Acho que o Brasil não pode deixar de entrar na era nuclear de energia, porque a energia hidráulica é limitada. À medida que o progresso continua, e devemos continuar nessa mesma direção, temos que multiplicar rapidamente a potência instalada do país. Se hoje temos sessenta milhões de quilowatts, daqui a dez anos precisamos ter cento e vinte milhões. Esses novos sessenta milhões não existem na forma hidráulica e vamos, forçosamente, ter que fazer usinas térmicas. E usinas térmicas para nós brasileiros, sob o ponto de vista econômico, serão forçosamente as usinas nucleares.

 

José Wille – Por que falhou o projeto implantado no Brasil? As usinas têm dificuldades?

 

Nelson de Souza Pinto – São dois fatos. A primeira usina é um projeto Westinghouse e foi uma escolha infeliz, pois já se provou, em três outros locais do mundo, que tinha falhas inerentes ao projeto. E é uma usina que está terminada, mas nunca teve uma operação muito satisfatória, com o coeficiente de aproveitamento baixo. Houve, então, a segunda decisão, que foi mais pretensiosa. O Brasil, na época do Milagre Econômico, achou que poderia dar um grande salto para frente e conseguir não só entrar no setor elétrico nuclear, mas dominar toda a produção e enriquecimento do urânio. E achou que poderia, então, sair das restrições impostas pela União Soviética e pelos Estados Unidos, com produção e enriquecimento independentes de urânio. O Brasil fez esse convênio com a Alemanha, que incluía não só usinas alemãs de produção de energia, como uma tecnologia que se dizia existir e que permitiria o enriquecimento. Mas isso foi um passo que acabou provando ser maior que as pernas e não teve sucesso.

 

José Wille – Por que existe compra da tecnologia já pronta, que é muito sofisticada, mas nem sempre há a real transferência dessa tecnologia aos países compradores?

 

Nelson de Souza Pinto – Exato. Mas uma coisa é a usina térmica em si. Outra coisa é a tecnologia do enriquecimento do urânio, que daria uma independência total ao país em relação aos países em desenvolvimento. Você precisa enriquecer o urânio para poder produzir energia. O ciclo de enriquecimento do urânio envolve produtos e subprodutos que podem produzir bombas atômicas – exclusividade das grandes potências. Para entrar aí, precisa-se de um investimento enorme, que, em certa ocasião, o país teve a sensação de que tinha condições de obter. Hoje, estamos em outra situação. Provavelmente, deveríamos ir na mesma direção de um país como a França, que já tem tecnologia comprovada, e passar a comprar essas usinas e, gradualmente, desenvolver o conhecimento.

 

José Wille – Isso vai ser inevitável? Vai chegar um momento em que o Brasil terá que otar pela energia nuclear, em sua industrialização?

 

Nelson de Souza Pinto – Acho que sim. Não há nenhuma maneira de evitar este processo, porque não temos outro tipo de combustível. Então, a maneira econômica será o combustível atômico.

 

José Wille – Outra realidade é a participação da iniciativa privada. Tivemos um longo período em que todo o investimento foi estatal. O senhor vê melhores dias para a produção da energia elétrica, com a participação da iniciativa privada?

 

Nelson de Souza Pinto – Estamos vendo o início deste novo modelo da iniciativa privada. Tenho participado de vários projetos com empresas particulares. Há vários pontos positivos. Sentimos imediatamente uma redução nos custos, porque, quando os investimentos eram estatais, houve, gradativamente, uma elevação dos custos, pela pressão dos empreiteiros, pelos acordos com os políticos, os governos sempre interessados em ajudar nas campanhas, fazendo com que os preços crescessem. Quando tudo tem que ser negociado entre particulares, há uma redução nítida no custo das obras. Por outro lado, há uma dificuldade grande em definir um ritmo para essas construções. O governo tinha, digamos, uma facilidade política. Ele dizia “Quero desenvolver esse ritmo de oferecimento de energia” e colocava o investimento nessa direção. Os particulares o fazem em função do seu interesse. Então, o particular investirá na medida que o progresso esteja de fato sendo assegurado. Será que esse mecanismo é suficiente para garantir o futuro do país? Isso é realmente uma incógnita e não sabemos a resposta.

 

José Wille – Por que alguns países optam pela participação mista da iniciativa privada e o governo?

 

Nelson de Souza Pinto – Existem países, como a França, em que se mantém estatal. E o que é interessante é que se mantém tão bem que essa estatal – a EDF – é sócia de uma série de empresas particulares no Chile, no Brasil e em diversos países. Ou seja, ela está entrando nas privatizações. É um exemplo de que a estatização em si não é um mal. É uma questão que pode ser eficiente, desde que você tenha condições de organização. E há países como os Estados Unidos, onde convivem grandes órgãos federais com a iniciativa particular.

 

José Wille – O futuro paranaense, com a industrialização. Ainda temos , por um certo tempo, a garantia de energia?

 

Nelson de Souza Pinto – Acho que não temos garantia de energia, a não ser que continuemos investindo no caminho em que estamos investindo. Estamos, por exemplo, construindo Salto Caxias, mas temos que lembrar que o crescimento deve ser cumulativo. E o Paraná, que está entrando em outra era, mais industrial, vai precisar de energia crescendo à base de, por baixo, 7% ao ano. Com esse crescimento, em dez anos, teremos que construir tudo o que construímos até aqui. Então, haverá uma grande necessidade de investimentos no setor elétrico.

 

José Wille – E isso tem que ser de forma contínua, sob o risco de paralisação no processo de industrialização, e até de competitividade na atuação de empresas estrangeiras.

 

Nelson de Souza Pinto – Já estamos vendo vários exemplos localizados. Há muitos blackouts, porque cai uma linha de transmissão, o que mostra que o sistema elétrico brasileiro está sem muita folga. E esse processamento da privatização atrasou um pouco os programas de construção. É toda uma mudança de modelo, até que se assumam as responsabilidades, inicie-se o processo, e isso demora tempo, principalmente da parte da indústria privada, que não vai investir sem ter uma segurança muito grande do seu investimento. Isso tudo brecou bastante o crescimento do parque energético brasileiro. E se o progresso material começar a exigir essa base, temos que manter uma atuação sem solução de continuidade.

 

José Wille – O senhor falou de blackouts – com a interligação das redes elétricas brasileiras. O problema agora não é mais regional.

 

Nelson de Souza Pinto – Hoje, fala-se que o próximo grande investimento no sistema de interligação vai ser do sistema Norte ao Centro-Sul. Pretende-se fazer uma linha que vai ser capaz de transmitir do Norte, das Usinas Tucuruí etc. para o Centro-Sul. O objetivo é conseguir, quando aqui tem mais seca, transferir energia do Norte para cá. É ainda parcial, porque o país é muito grande para se conseguir uma interligação perfeita, mas traz um benefício, sem dúvida, grande.

 

José Wille – Com o quadro que temos hoje, é possível fazer uma previsão da folga existente para esse desenvolvimento industrial, principalmente no Paraná?

 

Nelson de Souza Pinto – Dependemos muito da meteorologia. Nesse sistema nosso, temos o perigo de termos 4, 5, 6 anos de seca em seguida. É o que chamamos de períodos críticos, que acontecem muitas vezes. Então, é difícil dizer se hoje você está no meio de um período crítico ou não. Dependerá muito da hidrologia.

 

José Wille – O modelo energético brasileiro teve méritos, solucionando o problema do desenvolvimento do país?

 

Nelson de Souza Pinto – Teve um grande sucesso até a década de 80. O problema não é do setor, é o problema econômico do país. O país teve dificuldades e o setor elétrico é muito ligado ao progresso econômico, de maneira que sentiu estes problemas, exatamente como os outros.

 

José Wille – O senhor diz que existem ilhas de excelência, de conhecimento nesta área, mas existe pouca produção de literatura técnica, para que se dê continuidade ao desenvolvimento.

 

Nelson de Souza Pinto – O Brasil, por um defeito cultural, perdeu uma grande oportunidade naquele período, naqueles 15, 20 anos do Milagre Brasileiro, quando construímos de fato as maiores usinas do mundo na época. E éramos conhecidos no mundo como uma grande força técnica nesse setor. Mas, por falta de uma sedimentação, de uma ideia de priorizar esse tipo de preocupação, o Brasil nunca produziu tecnologia proporcionalmente a isso, em termos de literatura técnica. Então, muito se perdeu. Existe em pessoas, em consultores, em algumas empresas que tiveram isso, mas não foi uma política. Você pega, por exemplo, os Estados Unidos, que tem o Bureau of Reclamations. Os livros básicos que todos seguem no mundo são produzidos por essa empresa, que tem uma influência enorme no mundo, apesar de já não ter mais nenhum técnico daquele nível. Mas eles, enquanto faziam as suas obras, faziam a divulgação técnica dessas obras. E isso deixamos de fazer. Então, não tivemos, como país, tanta importância lá fora.

 

José Wille – Como consultor, o senhor viaja a muitos países e dá assessoria na construção, não só de hidrelétricas, mas também de Engenharia Hidráulica, em obras de abastecimento de água.

 

Nelson de Souza Pinto – A gente desenvolveu, em termos particulares, uma certa experiência pela oportunidade que tivemos em nossa carreira. Começamos na Copel, quando ela não tinha nem um quilowatt instalado, e construímos grandes usinas. Acompanhamos Itaipu, acompanhamos obras no país. Essa experiência, hoje, a vendemos em termos de consultoria no Brasil e no exterior. A experiência com grandes obras hidrelétricas é a mesma em grandes obras para outras finalidades. Existem países em que a falta de água é muito mais importante como problema do que a falta de energia. Para você ter uma ideia, por exemplo, a África do Sul é um país que tem um milhão e seiscentos mil quilômetros quadrados e toda a água doce do país corresponde ao nosso rio Iguaçu. Quer dizer, somando-se todos os rios da África do Sul, não se chega à vazão do rio Iguaçu. É um país carente de água. Então, nesses países, as barragens são construídas, principalmente, para o abastecimento de água, seja para uso doméstico, seja para irrigação. Quer dizer, a água é uma riqueza prioritária.

 

José Wille – E há necessidade de obras de grande porte para o transporte por longas distâncias desta água?

 

Nelson de Souza Pinto – Estamos agora, por exemplo, no Lesoto, um pequeno reino no centro da África do Sul, que está vendendo água ao país. O projeto inclui duas barragens de 150, 160 metros de altura e três túneis de 40 quilômetros cada um para conduzir a água e vendê-la para a região de Joannesburgo. Então, são obras do vulto de Foz do Areia, de Segredo, somente para a produção de água para o país.

 

José Wille – E o Brasil, que também tem regiões críticas com o abastecimento de água, como é o caso do Nordeste, tem feito as obras necessárias?

 

Nelson de Souza Pinto – O Nordeste do Brasil desenvolveu uma tecnologia de barragens que ficou clássica, a experiência do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas. Eles construíram muitas obras. Mas, existiu, eu acredito, certa deformação política do uso da água. Deu-se muita ênfase ao estoque da água e não à distribuição real da água. Estamos vendo isto, hoje, ser alterado. Estou trabalhando junto ao governo do Ceará, onde há uma mudança bastante grande da política na perenização de rios. Há um programa de construção de vinte a quarenta barragens, com financiamento do Banco Mundial, não para fazer açudes – aqueles clássicos do Nordeste – mas fazer barragens que permitam regularizar o rio e mantê-lo correndo normalmente. São rios não perenes, onde, em um ano, chove o suficiente para cinco anos e, nos outros, em quatro anos, não chove nada. Então, você cria grandes reservatórios que mantêm o rio perene, para que a população possa se servir dele ao longo do tempo.

 

José Wille – Como é o planejamento ambiental, para que as regiões de onde a água está sendo retirada não venham a ser afetadas no futuro?

 

Nelson de Souza Pinto – Essa questão do efeito ambiental é um pouco de modismo. Não existe quase nenhum efeito maléfico dos reservatórios. Esses reservatórios o que fazem é inundar uma área. Então, é claro que a natureza naquela área restrita sofre. Por exemplo, se tenho plantações, tenho que acabar com elas. Mas eu também, quando construo uma estrada, por onde ela passa, acabo com a natureza naquele local. Quando eu construo uma cidade, onde construí a cidade, acaba a natureza. Mas, sob o ponto de vista do ciclo hidrológico, o efeito é pequeno. A água do reservatório evapora, depois chove, aí evapora de novo e corre ao longo do rio mais regularizada que antigamente. Então, há poucos efeitos ecológicos dos reservatórios. E você raramente vê alguém reclamando de um efeito depois que o reservatório está em operação.

 

José Wille – Como professor do curso de Engenharia, que era tido como um curso nobre. Com o tempo houve uma desvalorização profissional. Qual é a situação hoje?

 

Nelson de Souza Pinto – É uma situação curiosa. Quando fomos para a engenharia, ela era uma profissão nobre, que produzia o progresso. E agora, nesses últimos anos, há certa mudança e parece que se dá prioridade à natureza em relação às obras. E o engenheiro, que é o homem que faz as obras, fica sendo visto como quem ataca a natureza, modifica a natureza e que produz os impactos ambientais. Penso que países como o nosso enxergam esse problema de uma maneira um pouco ingênua, porque o país se desenvolve, cria riqueza e faz a sua distribuição modificando a natureza. Se o Brasil é um país que tem 60 milhões de quilowatts, ele mudou um pouco a natureza para fazer isso. E os Estados Unidos da América têm 700 milhões de quilowatts, a maior parte obtida da queima de carvão e óleo, ou seja, modificando a natureza dez vezes mais, pelo menos. Mas é lá onde está o melhor nível de vida. Não se pode isolar o nível de vida do progresso material. Se dermos ênfase na manutenção da natureza. Bem, os índios mantinham a natureza… No entanto, o aumento da população e a melhoria do nível de vida exigem uma modificação da natureza. Claro que não se vão fazer coisas que se faziam antigamente, em termos de produção de lixo, produção de rejeitos que prejudiquem. Mas há necessidade de ter a consciência de que o progresso material é necessário para melhorar de fato o nível de vida.

 

José Wille – E com relação à queda salarial dos engenheiros, às sucessivas crises da construção civil e até às obras dos governos, que, hoje, são menores: tudo isso refletiu na situação do engenheiro?

 

Nelson de Souza Pinto – Acho que é fruto da crise econômica do país. O país está construindo poucas estradas, poucas obras civis, poucas usinas, em relação àquilo que ele deveria para manter a sua população em um nível bom e até melhorá-lo. Então, a profissão do engenheiro, que é o técnico que constrói, sente mais na carne. Só um exemplo interessante: meu filho, estudando um ano nos Estados Unidos, recebeu a visita de uma associação de engenheiros americanos, que tentava convencer os jovens americanos a entrarem para a Engenharia, porque a profissão estava pouco valorizada, mas as previsões eram de que, em vinte ou trinta anos, haveria muita falta de engenheiros. Mesmo em um país como os Estados Unidos haveria falta de engenheiros e haveria uma valorização da profissão! Penso que não estamos muito diferentes. Se o país de fato for progredir, vai necessitar dos engenheiros. E como haverá poucos engenheiros, haverá uma valorização da profissão.

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