O artista plástico Juarez Machado começou a carreira em Curitiba nos anos 1960

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Pintor, escultor, desenhista, caricaturista, mímico, designer, cenógrafo, escritor, fotógrafo e ator, Juarez Machado é um dos mais reconhecidos nomes da arte brasileira contemporânea no mercado internacional. Nascido em Joinville, após fazer carreira em Curitiba e no Rio de Janeiro, instalou-se em Paris a partir de 1986. Esta entrevista foi gravada em setembro de 1998.

 

 

 

 

José Wille – Como foi o começo dessa história em Joinville, em 1941?

Juarez Machado – Foi em um dia de domingo, 16 de março, à uma hora da tarde, que nasceu o Juarezinho. O filho e o neto mais velho de uma família bacana: Machado de um lado – o meu pai era de origem espanhola, galega, isto é, não é nem espanhola e nem portuguesa, é da Galícia; e do lado de minha mãe, Bush, uma família de origem alemã. Então, nasce esse menininho lá em Joinville, na rua São Pedro. E nasci já com toda a vontade de ser artista.

José Wille – A arte estava presente na sua família, com seus pais?

Juarez Machado – Estava. É bacana isso! O meu avô foi um personagem importante na minha vida. Foi ele quem ajudou a construir a estrada de ferro que saía de Porto União, passando por Mafra e indo até São Francisco do Sul. E ele, construindo essa estrada, teve um acidente no percurso e acabou se aposentando, mas chegou com a família, onde nasceu meu pai, em São Francisco do Sul. Ali chegou também a família Machado, não lembro se eram 4 homens e 3 meninas ou vice-versa. Meu avô acabou indo para o interior do estado para construir a estrada de ferro Paraná-Santa Catarina. Meu pai nasceu em São Francisco e depois se mudou para Joinville, onde eu nasci. E todos lá na minha casa tinham a arte como um grande prazer. O meu pai era caixeiro-viajante, uma profissão romântica, que não existe mais. E ele aproveitava essas suas viagens para comprar objetos de arte e conhecer novos lugares. Na época, tinha somente eu como filho. Depois, veio meu irmão, o Edson Machado, meu irmãozinho querido, onze anos mais moço do que eu, que também conviveu com esse universo.

O meu pai chegava de viagem com duas malas. Uma delas cheia de objetos que comprava no caminho: relógios antigos, armas antigas, quadros, esculturas… Ele chegava em casa e botava tudo em cima da mesa. Como, naquela época, não tinha televisão, depois de jantar aquela mesa se transformava numa grande oficina. Ele restaurando os objetos que comprava e, do outro lado da mesa, a minha mãe pintando leques. Na época, fazia parte da indumentária da mulher usar leques quando ia à igreja, a um velório, pois não tinha ar-condicionado. E ela pintava os leques para uma fábrica que existia em Joinville, a Haensel, hoje uma fábrica de conexões e tubos. Ela era a diretora do departamento de pintura desses leques. E eu fui criado em torno dessa mesa, um grande ateliê! Inclusive esse meu avô escrevia, era um poeta. Então, todos tinham essa vida espiritual muito forte, usando a arte como um hobby. Talvez eu, por ter sido o filho e o neto mais velho dessa família, tenha feito da arte uma profissão. E todos, os meus primos e também meu próprio irmão, fizeram disto uma profissão.

juarez-machado-na-infância-em-Joinville-jwsJuarez Machado com as primas em Joinville, no final dos anos 1940.juarez-machado-na-infância-em-joinville-2-jwsJuarez Machado na infância em Joinville. É o segundo em pé à esquerda.

José Wille – Você tinha autoconfiança, sentia que tinha potencial em criança para o desenho e para a arte e gostaria de ser pintor?

Juarez Machado – Eu nunca tive dúvidas. Eu nasci em Joinville, uma cidade industrial, com vocação para a indústria, e todo o meu grupo, toda a sociedade da época, queria ser engenheiro, médico, operário das fábricas. Eu nunca pensei nada que não fosse dentro da arte. Desde pequeno, queria ser um artista. E era difícil, porque, dentro de um grupo em que você é o diferente, isso acaba criando conflitos. Tive vários momentos da minha vida com dúvidas – “Puxa, será que eu estou certo, será que eu sou o único que está certo? Eu quero ser artista em uma terra, em um período em que não é importante isso”. Hoje, Joinville é uma cidade importante no mundo das artes. É um polo cultural de Santa Catarina, com muitos festivais e exposições. Mas estou falando isso de quarenta e cinco anos atrás. Eu queria ser artista e isso provocava certos conflitos até mesmo em mim – “Mas, eu quero ser artista! É o único prazer e a única maneira de eu ser feliz!”.

José Wille – Quando você começou a trabalhar, aos 16 anos, foi desenhando rótulos de remédios?

Juarez Machado – Pois é… Nesse período, eu estudava no colégio da cidade. Enquanto todos os meus colegas, meus amigos, já tinham uma fábrica para herdar do pai, da família, e estavam se preparando para serem grandes empresários, eu queria ser artista. Por essa vontade tão grande eu já queria me comprometer com as artes. E acabei, aos 16 anos, procurando emprego, o meu primeiro emprego, que foi na gráfica de um laboratório em Joinville, o Laboratório Catarinense, que continua sendo um grande laboratório. Fui trabalhar na gráfica, desenhando rótulos de remédio, decorando a vitrine da farmácia, o que me deu muito prazer. E todo esse processo, já com 16 anos, era um tempo de espera para que eu terminasse o meu período de Joinville, que terminasse a escola, fizesse o quartel, pois, na época, você era obrigado a servir com 18 anos.

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Juarez Machado como desenhista do Laboratório Catarinense em Joinville.

José Wille – O que significou para você, com esse espírito ligado às artes, servir o Exército?

Juarez Machado – Foi divertido! Porque, na época, não sei se isso ainda existe, tinham os famosos “catarinas”, os catarinenses com um metro e oitenta de altura, louros, olhos azuis, fortes, bonitos e que serviam à Guarda Presidencial, em Brasília. Quando eu cheguei lá para me apresentar, com um metro e setenta, raquítico, feinho, disseram-me que estava reprovado, porque não tinha físico para aquilo. E nisso chegou o capitão Pedro Ivo – mais tarde, um grande político nosso e governador do estado de Santa Catarina – e disse “Mas esse menino eu conheço. Ele sabe desenhar muito bem. Guarde esse para nós, para que ele faça desenhos e pinturas no nosso quartel”. E passei um ano muito doce, muito simpático no quartel, sem fazer marcha, sem fazer acampamento, sem fazer aquelas coisas todas, só fazendo painéis e pinturas. E atirando muito bem. Porque meu pai, como grande colecionador de armas, nos ensinou desde pequenos a atirar. Então, eu era um bom atirador. Até minha mãe, com 79 anos, há dois anos me pediu de aniversário uma espingarda para praticar tiro ao alvo. Comprei aqui em Curitiba, na casa Az de Espadas, todo o kit de tiro ao alvo e dei para ela, que atira até hoje e muito bem. O negócio de atirar foi uma coisa boa, mas o importante do quartel, nesse período, é que também era um pretexto e um momento de espera para vir para a cidade grande. E o lugar mais próximo era Curitiba.

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Juarez Machado de bicicleta em 1954 em Joinville.

José Wille – Você pensava realmente que tinha que sair de Joinville para continuar com a carreira e ter alguma projeção?

Juarez Machado – Era fundamental! Eu sabia que havia um processo. Eu tinha a certeza absoluta que havia um caminho. Eu precisava passar por uma escola, precisava me envolver com pessoas que pensassem como eu. Porque, em Joinville, eu não tinha ninguém – apesar de ter grandes amigos e que são amigos até hoje – que pensasse como eu, que quisesse ser artista, que quisesse esse caminho das artes. E eu sabia que ia encontrar isto aqui em Curitiba. Então, terminado o meu período de Joinville, com 19 anos, escola e quartel, com oito mil dinheiros – não sei o que significava isso na época – eu cheguei a Curitiba, para fazer a matrícula na Escola de Belas-Artes e procurar uma pensão em que eu pudesse morar e começar realmente a minha carreira como artista. Achei aqui uma pensãozinha na Carlos de Carvalho.

A casa existe até hoje, perto do clube Thalia. Arranjei ali um quartinho, debaixo da escada, escuro, por quatro dinheiros. Mas me garantiam cama e comida. Paguei o primeiro mês adiantado e saí correndo atrás de um novo emprego para poder dar continuidade aos meus planos. E, então, já ligado às artes gráficas, fui pedir emprego na Impressora Paranaense. Mas não durei muito, porque era um emprego meio cruel. Tinha que chegar lá às sete horas da manhã, no inverno, um frio danado, chuva… E só tinha aquele par de sapatos molhados, em que a gente colocava jornal para secá-los, mas continuavam frios. Eu fiquei ali três meses. E eu queria uma pensão melhor, porque estava em um quartinho escuro sem janela e eu precisava pintar, precisava fazer meu ateliê para poder desenhar, fazer meus trabalhos. Achei outra pensão, onde acabei ficando até o meu final de Curitiba, em 1965. Era uma pensão na 24 de Maio, que já era uma coisa maior, sofisticada. Da cama desse meu quarto, eu via a janela e via a antena de televisão a piscar. Era o Canal 6, o canal de televisão da TV Paraná. Da janela do meu quarto, eu via de noite, piscando, aquela coisa da mariposa, do vaga-lume, de noite piscando e piscando para mim. E pensei “É a minha solução! Ir para a televisão!”. Eu passava o dia inteiro estudando na Escola de Belas-Artes e precisava arranjar um trabalho à noite para sobreviver. E tinha poucas opções. Ser leão-de-chácara de boate com esse meu físico de borboleta não teria grandes chances. E a televisão acenava com grandes chances, porque a televisão, na época, era ao vivo, que chamo de televisão a vapor, pois era seu começo.

A televisão tinha começado aqui em 60 e eu cheguei praticamente junto com ela. A primeira televisão aqui foi o Canal 12, a TV Paranaense, e, logo depois, a Associadas, o patrão era o Stresser. E Assis Chateaubriand era o grande cacique da organização, da rede toda. Então, eu estava na Escola de Belas-Artes e, por coincidência, em uma tarde, um dos professores da escola disse que íamos visitar o departamento de cenografia da televisão aqui no Paraná. Nunca fui um bom aluno na minha época de Joinville. Quando cheguei à Belas-Artes, virei um bom aluno, porque era aquilo que eu queria. Não fui um bom aluno em Joinville, não por culpa minha, mas por culpa dos professores, que não entenderam aquele menino que não queria ser engenheiro, queria ser um artista. Como todo mundo queria ser engenheiro na minha classe, no meu grupo, eles não entenderam aquele menino que não queria aquele código. Queria um código diferente… Eu os culpo, eu os condeno, porque não entenderam aquele menino. Mais tarde, já no Rio, fui trabalhar numa clínica de psiquiatria com crianças carentes. Eu entrei para esse trabalho pelo Anglo-Americano do Rio, pois quis trabalhar com crianças carentes em todos os sentidos, inclusive em termos de escola. Para trabalhar a cabeça individual de cada um. Para não botar tudo isso num coletivo. Eu acho que foi um trabalho maravilhoso, da maior importância para mim, porque eu tinha vivido na pele esse preconceito de não ser igual aos outros. E foi um trabalho muito legal na época. Isso me rendeu uma série de livros, que acabei publicando no mundo inteiro. Livros sem palavras, usando a imagem como linguagem.

José Wille – Para crianças?

Juarez Machado – Para crianças. Crianças na faixa etária de nove a onze anos. Era uma coisa bonita, porque eu tinha vivido isso na pele. Bom, eu estava falando da televisão, quando fui para o Canal 6, conhecer o departamento de cenografia. No nosso grupo, a maioria era meninas, lindas meninas que estudavam conosco, e éramos apenas em alguns rapazes que faziam parte da classe. Chegamos lá, visitamos os estúdios, as câmeras, aquela coisa toda. Tudo muito novo, tudo muito especial para nós. Quando chegamos ao departamento de cenografia, quem tomava conta era o Maurício Távora, que se tornou grande amigo mais tarde, casado com a Jane Távora, uma grande atriz. E ele, para fazer charme para as menininhas, disse “Estou precisando de uma bela assistente para me ajudar aqui no departamento de cenografia”. E eu, morrendo de fome, precisando de um emprego, me apresentei – “Eu, eu, eu, eu quero ser seu assistente!”. Ele olhou para mim e disse “Desculpe, estou falando com as meninas bonitas e não com você”. E acabou não me dando o emprego. Mas eu voltei no dia seguinte! Botei um terno, uma gravata e tal… Eu tinha 19 anos e cara de 13, era muito menino. Fiz um ar de mais velho. Pus embaixo do braço a minha pasta com todos os meus desenhos e meu talento. Até comprei um maço de cigarros! Tudo para me fazer de homem, para me fazer de mais velho… Cheguei lá, fumando, com cara de mais velho, e disse “Olha, eu sou bacana, sou talentoso e quero um emprego aqui”.

O diretor da televisão era o Aloísio Finzeto, um homem da maior sensibilidade, um homem espetacular, que me mandou apagar o cigarro, porque eu não tinha idade para fumar, para fazer aquela pose toda. Viu meus desenhos e me contratou como cenógrafo da TV Paraná, ali na rua José Loureiro. Era aquela coisa improvisada, mas foi um período delicioso o tempo que passei em Curitiba. Eu estudava de dia e, de noite, trabalhava na televisão. A televisão era ao vivo, começava às seis horas da tarde e terminava à meia-noite. E foi um período pobre para a televisão. Hoje, a televisão é uma coisa milionária, você escuta falar em grandes ordenados e contratos milionários. Naquela época, era uma pobreza franciscana. Tamanha pobreza que, quando cheguei lá para pintar os cenários – como a televisão era em preto-e-branco e para não ser mais realista que o rei – eu os pintava em amarelo, branco e preto, para dar o meio-tom. Havia três cores, apesar de a televisão ser em preto-e-branco. Mas eu me negava a pintar em cinza e usava o amarelo para dar uma luz melhor. A gente misturava pó de sapato preto, pó xadrez amarelo e alvaiade branco para fazer essas misturas com o pó, a água e a cola. A televisão era tão pobre que chegou um momento em que não tinha mais dinheiro para comprar a cola. Então, a gente pintava só com o pó e a água. E foi nesse período que eu conheci a Maísa Matarazzo. Porque eu conheci todos os grandes artistas do Brasil aqui…

 

juarez-machado-e-ary-fontoura-nos-anos-1960-tv-jws-300x227 Juarez Machado com Ary Fontoura em 1962 na TV Paraná.

Juarez Machado com Ary Fontoura em 1962 na TV Paraná.

José Wille – …Que passavam pelo Canal 6?

Juarez Machado – …Que passavam pela televisão e que vinham para cá. Não havia o negócio do videotape. Eles vinham de São Paulo e do Rio, cantavam aqui e iam embora. Então, veio a Maísa e eu pintei um cenário bonito, umas grades, uma coisa meio dramática, com pó preto e água. Aí, ela, toda de preto, com aqueles cabelos, aquele olhar verde-esmeralda, aquela coisa lindíssima, entra em cena cantando “Meu Mundo Caiu”, pegando no cenário e se esfregando. E quanto mais ela pegava e se esfregava, mais ela se pintava, porque na minha tinta eu não tinha colocado a cola. Era culpa da produção, que não tinha comprado a cola para dar a resistência. No intervalo, entravam em cena as garotas-propaganda que faziam o comercial do Malucelli da Visconde. O Fruet, nosso querido amigo que faleceu há uma semana, também estava lá presente. E todo esse pessoal que acompanhava o comercial ali naquela hora fazendo sinal para ela! Ela olha no espelho, se vê toda rebocada de preto e diz “Mas eu quero matar esse menino que me fez uma coisa dessas!”. E por causa dessa história nos tornamos grandes amigos mais tarde no Rio. Bom, isso foi na primeira fase, quando não tinha dinheiro para comprar cola. Na segunda fase, não tinha dinheiro para comprar o pó. Então, resolvi pintar cenários só com água. Era uma parede de tecido, algodãozinho, e eu perguntava para a produção a que horas entrava o programa. E, quatro minutos antes, eu entrava em cena com um pincel só com água e fazia o cenário, usando a água, que dava uma manchada nesse pano. Com o calor dos panelões, como chamavam na época os spots, aquilo ia secando. E o que eu tinha desenhado ia se transformando em outras formas e, no final do programa, o público telefonava dizendo “que maravilha um cenário que se move, um cenário que se transforma!”. E percebi que tinha inventado os efeitos visuais por falta de dinheiro, de estrutura. Isso era uma coisa muito divertida desse período de televisão! Por causa do piscar da antena no meu quartinho e que me chamou para a televisão…

José Wille – Juarez, retornando à década de 60, que foi o início da televisão no Paraná: como era a rotina dentro do estúdio do Canal 6?

Juarez Machado – Espetacular, porque eu tinha o dia completo e a noite também! Durante o dia, eu passava na Escola de Belas-Artes. Eu tive grandes professores: De Bona, Viaro, que me prepararam para ser um grande pintor. Foi realmente onde eu tive os primeiros amigos pintores, que aqui encontrei, como João Osório Brzezinsky, Fernando Calderari, Luiz Carlos de Andrade Lima, Fernando Veloso, Jair Mendes… Puxa, tem uma coleção aí… São a minha família em Curitiba estes meus amigos pintores, com quem eu falava de arte. Às cinco horas da tarde, terminava a escola e a gente ia para a única galeria da cidade, a galeria Cocaco, em uma ruazinha que sai da Rua XV e vai para a Biblioteca, em frente às Lojas Americanas. Era uma portinha pequeninha, onde a gente se reunia com o Aramis Millarch e com um grupo de escritores, poetas, jornalistas, toda uma geração.

Tínhamos, na época, vinte e poucos anos, querendo ser artistas e querendo fazer alguma coisa. E a gente se reunia na porta da galeria para tomar uma caipirinha e comer um bolinho de bacalhau no boteco da frente. E lá fiz a minha primeira exposição, em 1961, com o tema As Bicicletas de Joinville. A moça que vendia os quadrinhos ali, a Maristela Requião, que devia ter uns 15 anos, foi a pessoa que vendeu meu primeiro quadro. E o vendeu para a primeira-dama, que era a dona Nice Braga. E o Ney Braga ainda tem o quadro! Quando ele me encontra, sempre diz que o quadro esta lá na casa dele e todo mundo gosta. Na época, vendi por 40 dinheiros. Eu pagava de pensão 10, já estava devendo dois meses atrasados e ganhei 40 em uma só bolada. Paguei três meses adiantados e gastei os dez com o grupo, comemorando no boteco da frente, comendo bolinho de bacalhau e caipirinha. Não era nem caipirinha – era batida, um negócio enjoativo, horroroso! Então, ficava ali até as seis horas da tarde e ia correndo para a televisão. Ali, eu encontrava outro grupo, um outro universo da minha vida, que era o pessoal ligado ao rádio, à televisão e ao circo, que eram os Irmãos Queirolo. E grandes atores também, como o meu grande amigo Ary Fontoura, que foi e é até hoje um dos personagens mais importantes do teatro de Curitiba. Ele tinha, na época, o Teatro de Bolso, na praça Rui Barbosa, junto com Odelair Rodrigues, Lala Schneider, o próprio Mauricio Távora,  a Jane… Já era um núcleo de teatro, no qual eu participava sempre como cenógrafo e desenhista. E, às vezes, até trabalhava como ator – um péssimo ator! E eu nunca quis ser um ator. Mas eu queria viver o espaço do palco dentro do cenário que eu tinha feito, para tomar consciência e noção daquele espaço, para, mais tarde, aplicar isso na minha pintura.

José Wille – Você chegou a ir para o ar, naquela época?

Juarez Machado – Ah, sim, claro! Tinha um programa que se chamava Doutor Pomposo. Era o Ary Fontoura em um personagem que lembrava um pouco a Família Trapo e um pouco o que hoje se faz no Sai de Baixo. Aquela família meio atrapalhada, com muito humor. Eu acho que a televisão progrediu muito pouco depois de certo período. Toda essa bobajada que está sendo feita hoje já se fazia naquela época. Mas lá a gente fazia sem dinheiro, sem possibilidade, com um monte de talento e muita improvisação. E era engraçado por isso! Hoje, essa improvisação a gente já não permite mais, porque o computador está aí para apagar essa coisa artesanal. Era muito divertido! E, quando eu saía na rua, às segundas-feiras, as pessoas me reconheciam, pediam autógrafo – ou cuspiam em mim. Porque eu, já de certa maneira, provocava o público. Eu usava uma barbicha, sem pelo na cara, mas já usava cabelos compridos. Comprava panos de cortina estampados na praça Tiradentes e mandava fazer minhas calças com eles.

José Wille – E Curitiba era muito conservadora. Como era essa convivência?

Juarez Machado – Muito conservadora. Eu acho que continua sendo. Como me sinto tão curitibano, permito-me dizer que Curitiba sempre teve essa coisa conservadora. E, na época, era muito mais. Então, um garoto que aparece de cabelos compridos e calça feita de cortina era uma coisa meio esquisita. Eles não sabiam definir bem o que era aquilo. Era eu – apenas um artista que queria provocar e queria aparecer. Era aquela coisa do adolescente de querer agredir, de uma certa forma, para buscar a sua identidade. Mas eu não estava buscando a minha identidade, eu já a tinha: era querer ser um artista! E, com isso, também eu já estava entrando na cenografia do teatro, porque, na época, os grandes artistas vinham de fora: grandes artistas, grandes atores, grandes escritores. Atores como Cláudio Corrêa e Castro, Paulo Goulart, Nicete Bruno, o Teatro dos Sete, com Fernanda Montenegro… Todos eles circulavam aqui na cidade, fazendo televisão, fazendo teatro no Guairinha – porque não existia o Guairão ainda – ou na Reitoria. E eu era o cenógrafo oficial. Nesse período, conheci a inteligência carioca, que circulava por Curitiba há muito. Por exemplo, o Millôr Fernandes e o Ziraldo, quando estrearam aqui “A Megera Domada”, de Shakespeare, traduzida pelo Millôr. Eu executei o cenário e o Ziraldo fez a parte gráfica, os cartazes e tudo mais. E, nessa época, fiz uma exposição dentro do teatro com elementos dos figurinos. Era uma vida, um cotidiano muito rico. Porque todas as noites a gente saía do teatro, da televisão e ia para o cinema. O cinema aqui era uma coisa importante, onde você via filmes do mundo inteiro. Hoje, você só vê porcaria americana, de “Titanic” para baixo – como o Titanic afundou, então imagine a profundidade… Nessa época, havia debate, havia concertos, grandes artistas de música que vinham fazer oficinas aqui no inverno ou nas férias de verão. Então, nossa geração era de uma garotada com muita riqueza cultural.

José Wille – Como era a sua preocupação com a questão social, nesta fase na década de 60?

Juarez Machado – Antes da tal Revolução, a gente já fazia parte do diretório da faculdade, da UPE, com o sempre tão polêmico e contestador Requião. A gente fazia parte desse grupeto, já brigando pelos direitos, por certos direitos. E foi uma coisa muito boa, pois, quando explodiu, em 1964, peguei meu boné e fui embora para o Rio. Nem tanto por isso, mas fui para o Rio em busca do meu espaço, porque eu senti que o meu período de Curitiba havia acabado. Eu tinha pretensões maiores, de uma coisa mais ampla, de uma coisa mais nacional. Então, fui para o Rio de Janeiro.

José Wille – Mas, Juarez, antes disso, os talentos, as pessoas que você conheceu na televisão, como você os descreveria?

Juarez Machado – Rico, sempre muito rico. Talvez tenha sido por que todas as pessoas pensavam igual e a gente se reunia. Tinha um personagem maravilhoso e de que pouca gente lembra, um personagem importantíssimo para a história do Paraná e da televisão, que foi o Clemente Chen, um chinês que passou por aqui e trouxe um novo know-how para a televisão. A televisão estava sendo feita por pessoas do rádio ou de circo. Nós nunca tivemos a tradição do velho teatro nem do cinema. A gente tinha uma cultura do rádio ou do circo. E essas eram as pessoas que faziam a televisão na época. Como eu não tinha passado nem pelo circo e nem pelo rádio, pois saía de uma escola de artes visuais, achava que o veículo estava sendo mal aproveitado. Com isso, eu forçava a valorização do visual e que o veículo encontrasse a sua linguagem! E não que fosse uma extensão de um auditório de rádio e muito menos de um picadeiro de circo.

José Wille – A televisão ainda estava muito limitada pela tecnologia àquele pequeno espaço onde ficava o Canal 6.

Juarez Machado – Era um apartamento de sala e quarto. Eu trabalhava nos porões do prédio e, quando chovia, inundava até a um metro de altura! A gente colocava lá uns andaimes para poder andar por cima e pintar o cenário. Era uma coisa muito precária. Mas as pessoas se reuniam nos bares depois, de madrugada, para falar de televisão e de suas possibilidades. Então, era um emprego por prazer e por idealismo total, porque a televisão atrasava seis meses de ordenado. A gente trabalhava de graça, apenas por amor à camisa e à arte.

José Wille – E havia repercussão disso que se fazia na época, apesar do pequeno número de aparelhos de televisão em Curitiba?

Juarez Machado – Acho que a repercussão era um delírio! Porque, da parte do público, havia uma certa discriminação. Pessoas que trabalhavam em televisão eram boêmios, eram vagabundos, eram malandros. Quer dizer, não era o que é hoje. Você estar em uma televisão hoje é importante. Até para um personagem do Chico Anísio, o Bozó, era colocado tapete vermelho para ele entrar. As pessoas que trabalhavam na televisão eram uma coisa menor, vagabundos, boêmios, não tinham esse prestígio que têm hoje. Mas eram pessoas apaixonadas pelo veículo, como nosso querido amigo Osni Bermudes, um dos Pedro Álvares Cabral da televisão paranaense, uma pessoa queridíssima, que passou a vida se entregando à televisão, para fazer do veículo uma coisa da maior dignidade. Eu acho que todos, na época, tinham esse pensamento.

José Wille – Juarez, voltando ao começo da televisão: o trabalho, a improvisação, a correria, isso tudo acabou sendo importante para sua carreira de artista?

Juarez Machado – Foi uma grande escola! Porque, mais tarde, quando fui para o Rio, me envolvi com arquitetura, me envolvi um pouco com a psicanálise, a televisão, o teatro, e tudo isso acabou refletindo na minha pintura. A minha pintura é a soma de todas essas vivências e que, antes de mais nada, é muito honesta. Isso foi o que eu senti e foi o que eu vivi. E Curitiba teve uma importância na minha vida. Não sei se Curitiba é a mesma. Não é, mudou! Curitiba é uma grande cidade. Quando eu cheguei aqui, Curitiba tinha trezentos mil habitantes. Hoje, tem um milhão, dois milhões, sei lá! É uma grande cidade. Eu vinha de uma cidade menor – na época, Joinville tinha cinquenta mil – e quando cheguei aqui, tinha trezentos mil. Eu vim de ônibus e vim sentado atrás do chofer do ônibus. E quando ele desceu aquela ladeira que tem ali em São José dos Pinhais, foi quando eu vi a cidade de Curitiba. Tinha meia dúzia de prédios – o Edifício Garcez e mais alguns poucos. E eu olhei aquela silhueta daquela grande metrópole. E, na minha vaidade – que eu acho que não a perdi, esse meu lado ambicioso e jovem que não quero perder nunca – quando vi essa silhueta da cidade, dessa metrópole, com os edifícios, sendo que o maior era o Garcez, disse “Eu quero essa cidade para mim! Eu vou ser dono dessa cidade!”. Uma coisa ambiciosa! Todo político deve pensar a mesma coisa… E aconteceu essa mesma emoção quando cheguei ao Rio. E foi a mesma coisa quando cheguei a Nova Iorque. A minha ambição sempre foi muito pequena: não quero um carro bonito e nem um apartamento com piscina, só quero a cidade inteira! E acabei tentando ser um sedutor e um conquistador de cidades. Porque, quando vi Curitiba e falei que a queria para mim, tudo isso acabou se refletindo. E Curitiba passou a ser uma cidade da maior importância, porque foi o começo de tudo.

José Wille – E que impressão e colaboração a cidade deixou para você, já que aqui começou a se solidificar a sua carreira?

Juarez Machado – Eu mostro marcas pelo corpo todo. E essas marcas são deliciosas, porque foi o começo. Eu me lembro quando eu fui “batizado”, ali na Marechal Deodoro, no primeiro ateliê do Luiz Carlos de Andrade Lima, um grande pintor. Eles me jogaram cachaça… Eu queria mesmo que jogassem champanhe, mas, como não tinham, jogaram cachaça e tinta e óleo de linho! E jamais esquecerei, porque foi o começo daquilo que eu queria: ser pintor. E foi aqui em Curitiba que fui confirmado para ser pintor.

José Wille – Ainda sobre a televisão: essa televisão espontânea, diferente, tornou-se um produto pré-fabricado, com o videotape, no qual tudo é pensado e editado antes de ir ao ar. O que a televisão daquela época tinha de importante nesse aspecto?

Juarez Machado – Eu não sei se ela tinha esta espontaneidade. As pessoas é que tinham! As pessoas estavam sempre abertas para fazer esse trabalho. Era uma proposta nova. Hoje, a televisão não é uma proposta nova, é uma briga de audiência, é uma briga de prestígio, é uma briga de dinheiro. Na época, não havia isto, porque a coisa era isolada. Havia televisão e apenas dois canais em Curitiba. Aí, fui mandado para Londrina, comecei a televisão lá, na TV Coroados, em 1963. Uma poeira desgraçada! Só tinha uma rua, a igreja, a pracinha e um hotel de madeira. E a televisão começando… As pessoas gostavam de Londrina, porque ganhavam dinheiro plantando café. Eu não tenho nada a ver com café, a não ser depois do almoço. Mas me mandaram e eu fui para lá. E foi um período maravilhoso, porque era uma coisa de você acreditar em uma proposta. A televisão mudou… Como um jogador de futebol: o cara, mesmo sem ganhar um tostão, jogava por amor à sua família e jogava até o final! O cara, hoje, sem ganhar um cachê, não joga. E a televisão, na época, tinha esses “tarados”, apaixonados, dedicados, que fizeram a história da televisão no Brasil.

José Wille – Por estar no teatro e na televisão, e por passarem por aqui grandes nomes nacionais das artes e da música, isso ajudou no momento em que você decidiu sair de Curitiba e ir para um grande centro, pois já conhecia essas pessoas?

Juarez Machado – Eu acho que foi até intencional eu fazer amizades com todos que por aqui passaram. Porque, quando eu cheguei ao Rio, eu queria a cidade do Rio de Janeiro na minha coleção de cidades. E, em 1965, eu fui para lá. Eu já conhecia essa intelectualidade toda. Por exemplo: Juca Chaves, um amigo que começou aqui, de quem sou amigo até hoje – recentemente, passou 15 dias comigo em Paris – é uma amizade de quase 40 anos. E todos os outros: Ivon Curi, Cauby Peixoto, Fernanda Montenegro, Millôr Fernandes… Quando saí de Curitiba, sabia pintar uma laranja. Quando eu cheguei ao Rio e me envolvi com uma outra intelectualidade de muita importância – como Millôr Fernandes, Fortuna, Jaguar, Henfil – tive que reestruturar a minha cultura. Já não interessava eu pintar bem aquela laranja. Eu precisava contar alguma coisa com aquela laranja. Porque já havia um problema político no país, quando foi explorado o desenho de humor.

José Wille – E veio daí a fase do “Pasquim”…

Juarez Machado – …Daí veio a época de cartoon no “Pasquim”. Conheci o Ziraldo quando pintava um grande painel no Canecão. E, logo depois, veio o Millôr Fernandes, que foi um guru durante muito tempo e é, até hoje, um personagem da maior importância da cultura brasileira. E eu tive que reestruturar, inclusive, a maneira como eu desenhava e como eu pensava, para poder usar toda essa formação e informação no desenho do humor, para um ataque, uma carga pesada dentro do desenho de humor brasileiro. E comecei primeiro no “Jornal dos Sports”, em um caderno especial de humor chamado Cartoon, uma coisa assim… Depois, em “O Cruzeiro”, que era uma coisa produzida pelo Ziraldo, chamada “O Centavo”, em que tínhamos 3 páginas de humor. Depois, na primeira revista de homens no Brasil, chamada “Fairplay”. E no “Correio da Manhã”, “Manchete”, “Fatos e Fotos”, “Playboy”… A coisa se alastrou! Quando fui para o Rio, evitei a televisão. Eu tinha me desquitado da televisão quando saí daqui. Mas a Globo, que começava na época, foi me buscar em casa. Não pelos meus lindos olhos azuis, mas porque, no Rio, eu já tinha criado um núcleo de conhecimento, de prestígio, através do desenho de humor. E fui para a televisão fazendo cenografia da linha de shows e para o Fantástico.

José Wille – Aí foram quase dez anos?

Juarez Machado – Quase dez anos de TV Globo. E, na hora do recreio, eu fazia mímica. Não sou mímico, mas, como sei desenhar o gesto, acabei emprestando o meu corpo para dar animação ao meu próprio desenho. Comecei a fazer quadros de mímica dentro do Fantástico. Mais uma vez, não estava fazendo aquilo para o grande público. Eu estava mostrando para as pessoas da televisão as possibilidades do veículo. Que você, desenhando uma janela, pode abri-la. Desenho uma bicicleta de roda quadrada e posso montar nela e sair pedalando. Tirando partido do veículo, essa coisa mágica… Hoje, o computador tira isso de letra.

 

juarez machado no fantástico nos ano 1970

Juarez Machado no “Fantástico” da Globo nos anos 1970. Foto publicada em “A Notícia” de Joinville.

José Wille – Você ajudou a criar a identidade da TV Globo, dirigindo o departamento de cenografia durante muito tempo, quando se modernizou a imagem da televisão…

Juarez Machado – Eu acho que foi quando a televisão encontrou a sua identidade. Porque, até então, era uma cópia do auditório. Porque, até hoje, você vê programas que ainda têm um ranço, uma “nhaca” de auditório de rádio ou de picadeiro de circo por certos apresentadores. Desculpem-me as pessoas que trabalham no circo, não quero atingi-las, mas você ainda percebe esse ranço na televisão. Acho que a televisão, nessa época dos anos 70, encontrou sua identidade.

José Wille – Mas foi muito importante profissionalmente esta participação – neste momento em que a televisão em rede, através da TV Globo, ganhava espaço nacional – para o seu trabalho, com você integrando esse trabalho, aparecendo, fazendo parte dos cartoons animados do vídeo?

Juarez Machado – Foi uma coisa de popularidade. Mas, como artista plástico, é um pouco complicado. Na época, eu também trabalhava em uma clínica com crianças carentes. Era um grupo de crianças na faixa de dez anos e a gente fazia um trabalho de psicanálise. Eu não sou um terapeuta, pois lá havia psicólogos e terapeutas que faziam este trabalho. Eu era apenas o animador, o provocador desse grupo de crianças. E, quando eu chegava lá na segunda-feira, era extremamente agredido por elas. E eu comecei a trabalhar o por quê era agredido por elas. Aí percebi que, durante a semana, eu era deles, exclusivo deles; no domingo à noite, eu era uma puta, eu era de todos, do Brasil todo, porque era o programa do Fantástico. E eles se sentiam extremamente traídos por esse meu lado. Porque todas essas brincadeiras que eu fazia a semana toda com eles, no domingo à noite eu fazia para o Brasil todo. E comecei a perceber que o meu colecionador de quadros também tinha esse tipo de emoção, também tinha esse tipo de sentimento. Ele comprava um quadro meu, chegava em casa e ligava a televisão. E estava lá eu fazendo gracinhas. Ele queria exclusividade só para ele. Só ele tinha aquele desenho, só ele tinha aquele quadro. Então, o negócio da popularidade é uma coisa meio complicada. É claro que é muito bom você sair na rua e dar autógrafos. Mas, num trabalho que eu queria fazer mais profissionalmente como pintor, uma coisa mais profunda… Então, em 1979, eu percebi que estava usando apenas o meu malabarismo de executar, as minhas habilidades; não estava mais usando a minha cultura, não estava mais fazendo pesquisa. Foi quando eu parei com a televisão, fui para Londres, me enfiei num ateliê durante um ano para estudar, para me aprofundar dentro dos museus e me dedicar somente à pintura, o que, é claro, me distanciou um pouco do grande público. Mas acho que eu preciso desse distanciamento para chamar esse grande público para um outro universo meu. E eu tenho conseguido isto através das minhas exposições de quadros.

José Wille – Juarez, falando ainda da cultura de Ipanema, do “Pasquim”, em um momento em que era difícil escrever, por causa da censura: o cartum foi importante como um foco de resistência…

Juarez Machado – Acho da maior importância, porque, na época, eu estava chegando ao Rio. Até o Ziraldo falou “Puxa, Juarez, você é um cara de sorte, teu lugar é sempre pela porta da frente!”. Nessa época, Ipanema estava acontecendo: Garota de Ipanema, Leila Diniz, Jaguar, Fortuna… Quer dizer, havia a cultura ipanemense, que foi um modelo de comportamento para o Brasil na época. O Brasil imitava o comportamento de Ipanema dentro da música, dentro do teatro, dentro da agressão, do amor, dentro da maneira de ser. Era uma coisa muito boa! E eu fui cair na praça General Osório, onde nasceram os meus três filhos e onde eles foram criados. E o cartoon era a única possibilidade encontrada na época de poder falar as coisas, em que a censura se perdia um pouco, porque a coisa não estava tão clara assim. O desenho é uma coisa mágica, é uma coisa que dá dois sentidos. Segundo a sua cultura, as suas coisas, é que você vai ler aquilo ou não. Eu chegando de Curitiba, Henfil chegando de Belo Horizonte, Fortuna, Jaguar, Millôr Fernandes, todos já estavam no Rio praticamente nos esperando para que a gente fizesse este trabalho. E nos reuníamos toda semana para usar o desenho de humor em todos os veículos possíveis. E foi muito usado dentro da publicidade. Aí, começa o nascimento do “Pasquim”, que foi um jornal da maior importância, da maior resistência, da maior tiragem! Era um jornal sem dinheiro, com tantos problemas… Foi fechado tantas vezes, foi quebrado, destruídos seu papel e suas máquinas, presos os seus editores e escritores. Todos pagaram um preço muito alto por isso. Foi um jornal da maior importância, foi uma bandeira que incomodou muita gente, e a gente fazia parte dessa resistência, trabalhando muito, mas sem ganhar nada também. Ao mesmo tempo, eu trabalhava em outro jornal, já não com tanta agressividade e tanta força, que era o “Jornal de Ipanema”. Também em uma pobreza franciscana, tanto que a gente até trocava anúncio: por exemplo, se o anunciante era barbeiro, o pagamento do anúncio era em troca de corte de cabelo – uma coisa engraçada! Mas eu militava nesse universo e gostava muito, porque, antes de mais nada, tudo isso era um idealismo e um exercício de fazer.

José Wille – Em 1979, você tinha uma posição invejada, porque era chefe de cenografia, uma pessoa de muita projeção na TV Globo, e trabalhava também nas grandes revistas brasileiras. E deu outra guinada, pois resolveu ir embora do país, para fazer outros trabalhos.

Juarez Machado – É meu lado inquieto. Realmente, eu sou meio inquieto e, em 1979, tinha um grande prestígio na cidade por trabalhar na Globo, um ordenado maravilhoso, um belo apartamento na Lagoa, enorme, com três empregadas… Mas eu tinha um medo muito grande de me acomodar. Aí, achei que tinha que mudar tudo, tinha que renovar, estudar as coisas. Foi então que acabei com a televisão, fui a Londres e voltei. Começou aí esse meu processo. As pessoas me perguntam por que eu saí do país. Eu não saí do país, eu fui para outros países. Eu continuo aqui, porque, a cada ano, eu volto, fazendo exposições. E, mesmo morando fora, estou engajado até a medula com meu país. Antes de mais nada, eu sou um artista brasileiro morando fora.

José Wille – Mas, como nome mundial, quando você sentiu que já era supervalorizado com aquilo que produzia?

Juarez Machado – Eu nunca me importei com isso. E eu acho que, na ambição da gente, sempre queremos fazer mais. O grande desafio é você mesmo. Hoje, eu faço exposições no mundo inteiro dos meus quadros, tenho um mercado internacional. É outra proposta à qual me engajei: de vestir essa camisa e fazer das artes plásticas brasileiras um mercado internacional. Porque não temos! Nosso mercado é muito pequeno em relação aos outros países, até a outros países da própria América Latina. Nós temos artistas do Uruguai que têm uma cotação muito mais alta do que artistas brasileiros, mortos, geniais da maior importância, que não têm a cota no mercado internacional como têm outros jovens e vivos, sem tanta importância histórica. E isso foi uma coisa que já começou aqui no Brasil. Desde ainda estudante em Curitiba de Belas-Artes, eu fazia questão. Ia de ônibus, de carona, em caçamba de caminhão lá para o Nordeste ou lá para o Sul, já na divisa com o Uruguai, para fazer exposições. Levava meus quadros amassados embaixo do braço e lá os esticava. Já queria fazer parte de um mercado. Eu não estou falando de qualidade de arte, mas sim de mercado. Eu queria que meu quadro fosse uma moeda nacional. Eu ia para o Piauí fazer exposição. O Juca Chaves ia fazendo música e eu pendurava meus quadros na porta do teatro para vendê-los… E saí por esse Brasil todo fazendo exposições, mesmo de carona, de qualquer jeito… E, em 1979, eu propus essa mesma intenção pelo mundo. Eu já fiz exposição no mundo inteiro. Morei em várias capitais, em várias cidades. Morei na França, em Nova Iorque, em Londres, em Florença… Essa coisa não é porque sou um turista; é porque eu preciso mostrar a minha pintura e o meu país. Acima de tudo, sou um pintor brasileiro.

José Wille – O que você pode contar desta homenagem à sua cidade, Joinville – aquele painel para um parque de exposições, numa técnica diferente em um painel de grandes dimensões?

Juarez Machado – Estou terminando o painel. Estou cheio de calos, de dor nas costas, calos no joelho, mas é uma coisa deliciosa, porque se inaugura finalmente em Joinville um teatro. Estávamos precisando de um teatro. Na época em que eu saí de lá, não tinha absolutamente nada. Hoje, obviamente, passado tanto tempo, há varias galerias, vários museus e um novo teatro. E o prefeito, então, me convidou para fazer uma pintura na fachada desse teatro, que aceitei por paixão e carinho à minha cidade. E a estou fazendo aqui em Curitiba, no ateliê do Adoaldo Lenzi, um craque da cerâmica, pois, por ser um trabalho externo, precisa ser de um material que resista ao tempo. Então, está sendo feito em azulejo. Terminei ontem esse painel. Estou festejando, sentindo-me uma mãe parida, vazia, dolorida, mas feliz, porque terminei um painel de 90 metros quadrados para a fachada do teatro de Joinville com o tema Circo. Volto para a minha pré-história, que é Joinville, que é Curitiba, porque é a base de tudo, a base do espetáculo, a base da alegria. E porque foi no circo que vi pela primeira vez a alegria do palco, das luzes e da fantasia, da imaginação!

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