O publicitário Jamil Snege e os bastidores de campanhas eleitorais paranaenses

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Jamil Snege (1939-2003) nasceu em Curitiba. Graduou-se em Sociologia e Política pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Escritor e publicitário, dividia seu tempo entre os livros e sua agência publicitária. Publicou crônicas no jornal “Gazeta do Povo”. Escritor reconhecido pela classe literária, publicou, entre outros, “O Jardim, a Tempestade” (minicontos, 1989), “Como Eu Se Fiz Por Si Mesmo” (memórias, 1994) e “Os Verões da Grande Leitoa Branca” (contos, 2000). Também trabalhou em propagandas políticas que fizeram história nas eleições do Paraná

 

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 Foto sem identificação de autoria,  publicada em uma antiga edição da Gazeta do Povo.

 

 

 

José Wille – Snege é um sobrenome árabe?

 

Jamil Snege – Árabe. Sou neto de avós paternos árabes e avós maternos italianos. Uma mistura, nascido em Curitiba, no bairro Água Verde.

 

José Wille – Naquela época ainda era possível ter uma infância de um menino do interior aqui em Curitiba?

 

Jamil Snege – Ah, mas sem dúvida! Eu nasci na rua Engenheiros Rebouças, hoje uma rua movimentada, asfaltada, com muito trânsito. Mas, na época, a parte inclusive da casa de meus pais, era meramente carroçável.

 

José Wille – Quando apareceu o interesse intelectual na infância? Houve influência dos pais?

 

Jamil Snege – Meu pai gostava de ler, lia bastante e foi ele praticamente quem me aliciou à literatura. Meu pai era assinante das Seleções do Reader’s Digest. E as Seleções sempre traziam e trazem, ainda hoje, uma espécie de súmula de um livro, de um romance, de uma obra conhecida. E ali eu comecei a me abeberar de literatura. E, concomitantemente, neste período de infância, meu pai comprava muitos livros, livros infantis…

 

José Wille – Histórias em quadrinhos?

 

Jamil Snege – Histórias em quadrinhos. Então, esse gosto pela leitura, acho que é uma coisa assim, que tem uma influência familiar, evidentemente. Mas depende também de uma certa vocação pessoal.

 

José Wille – E gostava de cinema?

 

Jamil Snege – Mas claro! Acho que o cinema é responsável pela formação de todas essas últimas três ou quatro gerações que estão aí. Então, o cinema sempre foi a grande magia, o grande circo, o grande teatro! Eu era um grande frequentador de cinema.

 

José Wille – Mas, ao lado do interesse intelectual, também havia o esporte. Você gostava de futebol.

 

Jamil Snege – Ah sim, eu era um fanático jogador de futebol! A minha paixão não foi muito correspondida, evidentemente, mas eu percebi isso talvez com 16 ou 17 anos e desisti.

 

José Wille – Como foi a experiência do CPOR, do serviço militar, no final da década de 50?

 

Jamil Snege – Eu ingressei no CPOR voluntariamente, como todo mundo ingressava. E, com uma certa rebeldia, uma certa inconstância de propósitos, fui levando o curso, pois, na época, só tínhamos os períodos de sábados no quartel e durante as férias escolares. E foi indo, tranquilamente, até que, alguns dias antes da formatura, no segundo ano, ocorreu um certo desastre ecológico que me botou fora do CPOR.

 

José Wille – Você foi excluído do CPOR? Por quê?

 

Jamil Snege – Eu fui excluído… No boletim, dizia “Seja excluído deste Centro de Formação dos Oficiais de Reserva o aluno fulano de tal, por falta de idoneidade moral”. Essa foi a minha pena.

 

José Wille – Mas o que você fez, exatamente?

 

Jamil Snege – Depois de uma série de pequenos deslizes disciplinares, eu acabei provocando um incêndio num exercício de tiro, em Campo Largo da Roseira, que colocou em risco a vida de todo mundo. Foi um incêndio de proporções significativas e fui eu quem ateou fogo ao local.

 

José Wille – Foi uma brincadeira, então, que acabou em incêndio?

 

Jamil Snege – Exatamente. Eu estava participando de uma das peças de morteiro e comecei, imprudentemente levianamente até a encostar a brasa do cigarro nas cápsulas auxiliares da munição do morteiro. E aquilo começou a pegar fogo. O incêndio se alastrou, pois havia um vento muito forte no momento, e nós tivemos uma tarde de muita fumaça, muito fogo e perigo de vida. E eu fui o causador.

 

José Wille – E isso resultou na sua expulsão do CPOR?

 

Jamil Snege – Expulsão talvez seja um termo um pouco rude. Então, foi exclusão, que soa um pouco melhor. Pelo regimento, o aluno de segundo ano excluído ou desligado deve servir novamente como cabo por mais um ano. Então, ele deve ir à tropa, como cabo. Aquilo me constrangeu, pois eu já era aluno de CPOR, já tinha coluna em jornal e, de repente, teria que botar uma farda de soldado raso. Então, para não ficar em Curitiba, consegui uma alternativa, que foi ingressar voluntariamente no Corpo de Paraquedistas, servindo no Rio de Janeiro.

 

José Wille – E essa experiência, o que representou para você  – estar numa cidade diferente, como militar, praticando paraquedismo?

 

Jamil Snege – Acho que foi uma experiência muito importante para mim, porque houve uma quebra de status violenta. Eu era um colaborador de jornais, tinha uma coluna assinada inclusive. Já cometia minhas pequenas peças literárias e era um aluno de CPOR que já tem um status,. aspirante a oficial. De repente, sou atirado a um corpo de tropa. Não reconheceram meus direitos à divisa de cabo. Fui incorporado como soldado raso, pé-preto – porque, no paraquedismo, quando se entra, calça-se aquele boot preto e se é discriminado em função disso. Você só coloca o boot vermelho depois que tira o brevê. Então, passei uns oito meses assim, abrindo valeta, fazendo todas as tarefas. E aquilo, para mim, foi muito bom, no sentido de tirar qualquer nascente de arrogância que eu poderia ter.

 

José Wille – Você pensava, nesta época, em ficar no Rio de Janeiro?

 

Jamil Snege – Pensava! Eu pretendia fazer, inclusive, o curso de piloto na Marinha Mercante. Só não fiz porque não consegui dispensa no núcleo de paraquedismo no dia, para fazer o exame de piloto na Marinha Mercante. Então, nessa época, eu pretendia ser marinheiro.

 

José Wille – A literatura já era um sonho? Você pensava em escrever?

 

Jamil Snege – Eu já escrevia alguma coisa. Evidentemente, com 20 anos, a gente não tem ainda uma aferição correta do que é a literatura. Mas já cometia minhas pequenas peças literárias.

 

José Wille – Mas você acabou voltando para Curitiba. Por quê?

 

Jamil Snege – Eu voltei para passar o Natal com os meus pais, porque já havia passado um Natal fora. Ao encontrar um amigo meu chamado Reginaldo Linhares em Copacabana, ele disse “Vai passar o Natal com teus pais? Afinal de contas, está já há quanto tempo fora? Mais de ano…”. E eu cedi àquele impulso. Isso foi numa véspera de Natal, mas consegui chegar aqui. Fiquei um período aqui e me enturmei com meus camaradas de antes. Então, resolvemos montar uma agência de propaganda.

 

José Wille – E você, também por um tempo, foi representante da Rio Gráfica e Editora, nessa mesma fase, no começo da década de 60.

 

Jamil Snege – Alguns anos depois, eu, ciente de que tinha feito uma loucura, de permanecer em Curitiba, resolvi ir de novo ao Rio de Janeiro. E, frequentando um birô de informações, da área de propaganda no Rio, fui informado de que a Rio Gráfica e Editora – da Editora Globo – precisava de um representante para suas revistas. A Globo, na época, era a Editora Abril de hoje. Eles precisavam de um representante em Curitiba. Eu achei aquilo irônico: “Vou ao Rio e, no Rio, me devolvem para Curitiba”. Então, voltei como representante da editora.

 

José Wille – E, ao mesmo tempo, você escrevia em jornais e em revistas? Você nunca deixou de escrever?

 

Jamil Snege – Isso! Eu nunca fui um funcionário efetivo de jornal. Mas sempre peguei cargos como redator-chefe de revistas, de jornais.

 

José Wille – A década de 60 foi a época das utopias, dos sonhos de mudança da sociedade. Como foi isso para você?

 

Jamil Snege – Como todo jovem, estava embalado por aquele concerto mundial de novas ideias. A década de 60 é o que todos nós sabemos: florescimento das revoltas, das resistências, das insubordinações, da quebra dos antigos tabus, dos antigos regimes. Então, é claro, quando houve esse arrolhamento, quando houve aqui o golpe militar de 1964, aquilo foi, realmente, um grande Niágara de água gelada sobre nossas intenções, nossas pretensões. Aquilo nos encolheu, de tal maneira que acho que nunca recuperamos o antigo ardor dos anos 60.

 

José Wille – Para você, foi um momento de grande decepção?

 

Jamil Snege – Foi, absolutamente! Nós críamos, até de uma maneira quase religiosa, que o mundo se encaminharia para um socialismo. Essa era nossa crença. Praticávamos uma política eu, particularmente, mais na área da cultura em que acreditávamos que, utopicamente, chegaríamos a um estado sem as desigualdades sociais, com um estado libertário, de manifestação de tudo que era humano. Então, foi um choque muito grande, uma frustração imensa…

 

José Wille – Você não tinha exatamente o engajamento partidário. Era apenas um interesse intelectual. Foi isso que o levou a cursar Sociologia, na Universidade Católica?

 

Jamil Snege – De certa forma, sim. Eu acho que, quando ingressei na faculdade de Sociologia, já havia sido decretado o golpe militar de 1964. Já estávamos naquele período de fechamento das manifestações e, para ter uma visão mais crítica da sociedade, mais consequente, mais amparada historicamente, fui fazer Sociologia. Para compreender melhor o país em que vivia, evidentemente.

 

José Wille – Como foi essa fase para você em Curitiba?

 

Jamil Snege – Essa fase foi boa, de certa forma, pelo efeito reflexo. Porque, em 1968, tivemos a grande revolução juvenil, a famosa Revolução Francesa dos jovens, e esses ecos chegaram até nós. Embora sob um regime duro, muito bem controlado, como era nosso regime militar, esses ecos chegavam e nos estimulavam. Então, houve, nesse período, uma espécie de revolução dos costumes. Se o caminho da revolução coletiva estava vedado, interditado, cada um fazia sua revolução pessoal, abandonando preconceitos, tentando ter uma vida um pouco mais consequente, mais livre.

 

José Wille – Quais são seus sentimentos em relação a sua geração? Você acredita que o período militar prejudicou mesmo o surgimento de novas lideranças?

 

Jamil Snege – Eu acho que houve, evidentemente, uma espécie de castração no surgimento de lideranças políticas, é óbvio, pois todas as que surgiram tinham de se alinhar ao regime vigente. Mas, ao mesmo tempo, isso não foi de todo mal, porque nós passamos a ter uma visão mais crítica da realidade. O socialismo, que parecia um determinismo histórico irrevogável, de repente mostrou-se falho. Ele podia ser contido com uma quartelada, podia ser contido com um movimento contrário. Então, de certa forma, acho até que, do ponto de vista da volta para a resolução das posturas pessoais, a revolução foi boa. Ela nos devolveu a individualidade.

 

José Wille – Na década de 60, como estudante de Sociologia, você andou por todo o interior do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, conversando com os moradores, tentando estabelecer um perfil dessa população.

 

Jamil Snege – De certa forma, a nossa experiência anterior era muito livresca, muito contida dentro da cidade. Então, quando se abriu a oportunidade de irmos eu e meus colegas do curso trabalhar no interior, na implantação de municípios-modelo pelo Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário, aquilo foi uma experiência muito boa de contato direto com o povo, com o homem rural, com os problemas que ele enfrentava, o miniproprietário, o boia-fria… Foi uma experiência muito enriquecedora, no sentido de aprofundar mais esse conhecimento, essa imersão na realidade.

 

José Wille – Dava uma ideia diferente? Porque existia uma utopia sobre a mentalidade do homem do campo, em relação à necessidade de mudanças sociais. Porém, outra coisa é chegar lá e observar que ele está mais preocupado com o seu cotidiano do que com qualquer outra questão social.

 

Jamil Snege – Exatamente. Você vê que nem uma doutrina política cobre ou oferece resposta a todos os segmentos da sociedade. Nós sabemos que muitos segmentos permanecerão à margem, permanecerão com os seus problemas habituais. A mudança nunca se processa homogeneamente. Todas as mudanças privilegiam antes alguns setores do que outros.

 

José Wille – A mistura das raças, com a chegada dos colonizadores, muito presente nos estados do Sul como modificou a mentalidade? Ou foram os próprios moradores – antigos portugueses e índios – que acabaram influenciando os emigrantes que chegavam?

 

Jamil Snege – Eu acho que o primeiro espelho de costumes, de hábitos, de comportamento, de conduta fornecido ao emigrante recém-chegado eram aqueles emigrantes autóctones, o bugre, o português aculturado. Aquela população que estava ali promovendo o trato da terra, a criação de animais e conhecendo os regimes de chuva, de clima, de rios da região. Então, o emigrante teve de aprender com o autóctone. Esse foi o primeiro contato. Evidentemente, ele trazia em sua bagagem algumas técnicas que aqui não se conheciam e, ao mesmo tempo, outras que não dariam resultado nessa região subtropical em que vivemos.  E é claro que uma técnica agrícola de um país onde as estações são muito definidas transposta para o nosso meio físico, muitas vezes, mostra-se improdutiva. Nesse particular, nosso emigrante teve de aprender com o habitante nativo. Mas é claro que, dessa interação, houve uma troca e o que foi trazido da Europa foi incorporado pelo habitante nativo. E esse choque resultou, evidentemente, em um ganho para ambos os lados.

 

José Wille – E da integração dessas culturas diferentes alemães, italianos, e os portugueses que já estavam aqui antes, vivendo em pequenas cidades do interior do Sul?

 

Jamil Snege – A primeira preocupação do emigrante, evidentemente, é a manutenção de sua própria identidade. Então, muito embora ele tenha de conviver, até certo ponto, com outras etnias, ele precisa preservar seus valores, pois seu campo de referência está preso ali. Ele tende, mais ou menos, a dar continuidade às práticas sociais, aos cultos, à prática da religiosidade conforme seu país de origem. E é curioso, porque temos emigrantes aqui que ainda cumprem, com alguma fidelidade, aqueles deveres culturais de sua terra de origem e vivem com alguns costumes e hábitos como a forma de tratar a terra, por exemplo que já não existem no país de origem. Porque lá houve uma evolução, incorporação de novas tecnologias, que reformaram aqueles hábitos da época da emigração. E nossos emigrantes conservam ainda alguns hábitos de 60, 70 ou 100 anos atrás.

 

José Wille – E há outro fator: esses jovens, filhos de diferentes emigrantes, vão se casando e criando uma nova cultura.

 

Jamil Snege – É, evidentemente, com a comunicação… E, de certa maneira, isso que chamamos de globalização é um fenômeno que, de uma forma incipiente, não tão contundente, já vinha ocorrendo desde o advento do rádio e do cinema. Isso serve para criar uma espécie de campo de referência comum a todas as pessoas. A modernização, muitas vezes, chega pelo cinema, pela televisão, através do rádio e da importação de revistas. Então, não estamos sós no nosso território. Sofremos uma série de influências e, a partir daí, elas acabarão, evidentemente, predominando.

 

José Wille – Já na década de 60, apesar desse grande interesse pela Sociologia, foi a propaganda que acabou virando sua profissão.

 

Jamil Snege – A propaganda, evidentemente, como forma de sobrevivência. Acho a propaganda uma bela atividade, desde que seja canalizada para campanhas de interesse comum, interesse coletivo. Os métodos e as técnicas da propaganda, porém, são aplicados, de modo geral, a serviço do mercantilismo barato, da ânsia de lucros, da manutenção de governantes.

 

José Wille – Houve um conflito de consciência para você, que vinha de uma visão utópica, passar para a propaganda e vender, muitas vezes, coisas ou ideais nos quais não acreditava?

 

Jamil Snege – É um problema com que todo criador na área de propaganda se defronta. Muitas vezes, ele percebe que vai oferecer ao público um produto carente de melhores qualidades, um produto contestável. Mas ele se obriga, às vezes, a empurrar aquilo para frente.

 

José Wille – A propaganda era muito rudimentar aqui na década de 60, quando você começou?

 

Jamil Snege – Eu diria que a propaganda, a partir de 1968, 1969 e, particularmente, no início da década de 70, era melhor que a de hoje. Nós tínhamos uma excelência de criação aqui no Paraná. Éramos considerados o terceiro ou quarto estado da Federação em qualidade de propaganda.

 

José Wille – Isso com relação à propaganda gráfica. Não era o caso, por exemplo, da produção para televisão ou outras espécies.

 

Jamil Snege – É que a produção para televisão, na época, também no Brasil não era lá essas coisas. Mas, no campo das ideias, nós tínhamos uma presença muito atuante. O nosso estado sempre se compunha ao lado dos três, quatro ou cinco estados mais significativos na área da propaganda.

 

José Wille – Mas esse status foi mantido?

 

Jamil Snege – Foi, com alguns desvios, principalmente o recuo dos investimentos na área de propaganda dos anunciantes locais. Isso promoveu uma queda na qualidade da propaganda local. Com os custos de produção muito baixos, vê-se até hoje que a mídia, os breakscomerciais das TVs, são quase totalmente ocupados por propagandas nacionais. A presença do anunciante local cada vez diminui mais e, então, essa retração, evidentemente, enfraquece a propaganda em termos de produção. Não podemos produzir um filme de 100 mil dólares. Então, fazemos um comercial de quatro ou cinco mil dólares.

 

José Wille – Falando sobre a literatura: em 1965, ocorre a publicação de “Contos de Repente”, seu primeiro livro, escrito junto com outros autores.

 

Jamil Snege – Exatamente. Dez escritores que, eventualmente, escreveram contos na década de 60, alguns conhecidos e que continuam atuantes, a exemplo do nosso Luiz Geraldo Mazza e do Walmor Marcelino, foram reunidos e fizemos um livro de contos, chamado “Contos de Repente”. Foi uma primeira tentativa de se fazer uma editora aqui no Paraná, com o nome de Editora Delfos. Através dela, publicamos o livro, com dois mil exemplares, uma tiragem até ousada para a época, que foi bem distribuída e vendida.

 

José Wille – Esta fase do começo do governo militar foi uma espécie de resistência cultural?

 

Jamil Snege – De certa forma, sim. Quer dizer, o sonho poderia acabar, mas não de todo. Tínhamos de nos apegar a alguma coisa. Você não elimina todas as crenças de uma pessoa ou não convence as pessoas de que elas devem mudar as suas crenças de um dia para outro. Então, alguma coisa, algum resíduo daquelas antigas utopias deveria permanecer: a liberdade, a melhor distribuição de renda, a realização do ser humano num regime livre que o incentive… Coisas universais, das quais a gente não pode declinar.

 

José Wille – Em 1967, você fez uma novela-reportagem que trazia o retrato da situação enfrentada pelo jovem.

 

Jamil Snege – Sim, em linhas bem gerais. Em 1967, estávamos num período de grande fechamento político no Brasil. O regime estava se consolidando e não havia possibilidade, a menos que desembarcássemos na clandestinidade, de fazer qualquer forma mais organizada de resistência. Então, uma saída era trabalhar com as artes, usando os diversos códigos artísticos e procurando, dentro desses códigos, operar alguma mudança.

 

José Wille – Foi o que restou da inquietação entre estes jovens?

 

Jamil Snege – Exatamente. Seria uma forma de dar continuidade àqueles impulsos pessoais de mudança, através da arte, do exercício solidário da individualidade. Então, eu acho que cada um, defrontando-se com a folha de papel em branco, com a tela em branco, com o filme virgem, teria de dar um recado para o mundo. Tínhamos essa obrigação! E a arte era o que se nos apresentava, evidentemente, para esse campo de experiências.

 

José Wille – E a coisa só iria piorar, porque, em 1968, a situação se agravou com o AI-5.

 

Jamil Snege – Exatamente. Houve um fechamento maior ainda e a quebra total da institucionalidade.

 

José Wille – O que veio a seguir é definido como um império da mediocridade no Brasil –  a televisão, com um nível baixíssimo; não se falava em política nos jornais; o país não podia continuar pensando…

 

Jamil Snege – Exatamente. Acho que houve uma espécie de castração do pensamento. Evidentemente, para a manutenção do status quo que os militares impuseram, era muito bom que o povo não pensasse. Inclusive jornais que nunca tiveram nada de esquerdistas, como é o caso de “O Estado de São Paulo”, eram censurados. Então, adotou-se o hábito saudável de publicar poemas nos espaços da página dos quais eram retiradas as matérias julgadas lesivas ao sistema. O “Jornal da Tarde”, do mesmo grupo, publicava receitas culinárias. Se, na primeira página do jornal, tinha uma receita – por exemplo, de coelho à caçadora – sabíamos que ali foi censurado alguma coisa.

 

José Wille – Curitiba ainda guarda muito disso hoje?

 

Jamil Snege – Eu acho que Curitiba nunca chegou a ser, necessariamente, provinciana. Vejo, por fotos antigas, do começo do século, que nós tínhamos teatro, tínhamos uma burguesia bem-vestida, com hábitos europeus – numa pequena escala, evidentemente. E tínhamos certa elegância urbana, as pessoas se vestiam bem, frequentavam cafés… E a década de 60 também foi uma década mais ou menos agitada.

 

José Wille – Mas a cidade sempre foi mais conservadora.

 

Jamil Snege – Eu diria que havia duas Curitibas. Uma Curitiba oficial, mais conservadora, que atendia aos anseios dessa classe dominante, e outra, mais contestatária, formada por estudantes, por artistas, por pessoas mais marginais, que também queriam a sua vez, a sua maneira de expressar as coisas. Então, havia sempre esse conflito entre essas duas Curitibas.

 

José Wille – E a imagem publicitária da cidade que se criou e se consolidou quando Jaime Lerner foi prefeito pela primeira vez, no começo da década de 70?

 

Jamil Snege – Criou-se o que uma arquiteta – não lembro o nome agora – com muita propriedade, batizou de city marketing de Curitiba. Foi no início da década de 70, com a nomeação de Jaime Lerner para a prefeitura, que começou a se produzir esse marketing, que redundou, duas décadas depois, na consagração de Curitiba como modelo de cidade.

 

José Wille – Ney Braga, nessa mesma época, tinha aproximação com os artistas nacionais. Até foi ministro da Cultura, dando apoio às manifestações culturais. Você acha que, com relação a Curitiba, ele importou mais cultura do que ajudou na produção cultural local?

 

Jamil Snege – Ney Braga é responsável por uma modernização sensível no Paraná. Do ponto de vista administrativo, ele montou uma série de organismos, de entidades. O governo realmente cresceu em termos de importância. Na área da cultura, ele passou a importar espetáculos e atores nacionalmente famosos. Então, o Paraná passou Curitiba particularmente a ser uma espécie de seara, onde os atores consagrados do teatro, da cena brasileira, vinham colher benesses aqui, subvenções, grandes borderôs. Mas não contatavam nem passavam qualquer qualidade aos artistas locais. Unicamente quando se criou o Teatro de Comédia e permaneceram três ou quatro artistas nacionais, houve uma espécie de troca ou, melhor, uma espécie de passagem de técnicas na área do ator para as pessoas que participavam do grupo. Mas essa vinda de espetáculos e de pessoas não estimulou, de modo geral, o teatro do Paraná.

 

José Wille – A devoção à cidade, com a tentativa de criação de peças falando de Curitiba, na primeira administração de Jaime Lerner, deixou alguma coisa de positivo quanto ao interesse pela própria cidade?

 

Jamil Snege – Coincidentemente, em 1972, eu estava na prefeitura, na primeira gestão do Jaime Lerner, e fui nomeado chefe do Serviço Social da prefeitura. Alguns meses depois, fui editar um jornal chamado “Mural”, que era fixado nos pontos de ônibus, onde começamos a construir essa filosofia de ponto de encontro, da importância da vizinhança, do transporte coletivo. Desta maneira, tive certa participação na construção dessa filosofia de cidade como “espaço do homem”, que o Jaime Lerner, de certa forma, impunha. Depois, creio que isso extravasou um pouco os limites e passou a se constituir em um mito. Então, a rigor, não modernizamos nada; nós importamos modernidades, que é uma coisa muito diferente. Existe quem promove modernização, quem a cria e existe quem a importa. As ruas para pedestres, que era uma solução que já havia sido adotada em algumas cidades da Europa, foram trazidas para Curitiba. O transporte coletivo, com estações, já havia em outros lugares do mundo. Então, importamos tudo isto. Há um mérito, evidentemente, de Jaime Lerner por promover e estimular essa mudança. Mas nós ficamos prisioneiros desse mito. E como ele nos lisonjeia, nos afaga! “Ah, Curitiba? Você mora em Curitiba? Uma cidade maravilhosa!”. Nós somos cúmplices…

 

José Wille – Por isso você acha que o curitibano incorporou tão bem esta visão? E até nas campanhas eleitorais, das quais você participou depois, mesmo nas de oposição, há dificuldade em combater esse mito?

 

Jamil Snege – Exatamente. Porque é um mito que nos lisonjeia, mas não é verdadeiro. Hoje, este mito frequenta outras cidades, como Buenos Aires, nossa vizinha, a uma hora e vinte de avião. É uma cidade, do ponto de vista do cidadão que quer usufruir do equipamento urbano, das coisas que a cidade oferece, imensamente mais significativa que Curitiba. Há bairros e regiões em São Paulo que têm uma vida cultural intensa, têm ofertas de produtos muito mais intensas que Curitiba. E outras capitais, como Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Salvador, cada uma tem suas características. Nós fomos vítimas, fomos reféns desse mito construído de que Curitiba era um modelo, era uma das três melhores cidades do mundo…

 

José Wille – Jamil, voltando a sua carreira de escritor: na década de 70, você começou a trabalhar muito como publicitário,  produzindo também muito como escritor, sendo considerado um dos poucos nomes do Paraná.

Jamil Snege – Eu nunca, em nenhum momento, deixei de manter a literatura como uma espécie de sonho. Era a eleição do que eu gostaria de fazer. Mas houve a necessidade terrível de sobrevivência: casei no final da década de 60, com compromisso de pagar aluguel, compromisso de sustentar o filho, que veio ao mundo imediatamente… E aquilo me reduziu os espaços destinados à produção literária. Então, fui me concentrando mais no trabalho. E a propaganda, como é uma espécie de arremedo da arte, que exige e demanda certa criatividade, acaba descarregando a sua ansiedade. Você faz propaganda, cria na propaganda, e aquela ansiedade de criar coisas, você resolve ali. A propaganda te furta da arte e te contempla. Então, você fica meio satisfeito. Nesse sentido, o melhor para uma pessoa que tem um pendor artístico bastante intenso é nunca trabalhar numa área que a descarregue, mas que a mantenha sempre com a necessidade de expressão. E a propaganda tem isso ela retira da sua atividade de eleição aquela garra, aquele insumo de mão-de-obra que se deve colocar ali dentro.

 

José Wille – Outros escritores já disseram, neste mesmo programa, que você só não se tornou um nome nacional de expressão porque não se dedicou a isso, pois ficou mais preocupado com a publicidade.

 

Jamil Snege – Acho que não posso culpar só a sobrevivência. Eu tenho uma grande dose de preguiça também sou obrigado a confessar isso. Eu tenho horas e horas intermináveis de ócio, em que não faço absolutamente nada, que eu fico contemplando passarinhos, fico vendo televisão. Eu poderia, evidentemente, se eu quisesse e tivesse mais disciplina, trabalhar três, quatro horas num livro. E isso não me causaria nenhum dano, mas some-se à minha preguiça natural de escrever o fato de eu nunca ter mandado um original para editora nenhuma. Todos os meus livros foram produzidos em cooperativas de amigos ou por conta própria. Então, eu procuro, primeiro, resolver essa literatura para mim. Quando acho que está boa, me satisfaz, posso mostrá-la ao resto do Brasil. Por enquanto, eu ainda tenho certo pudor…

 

José Wille – Por que existem poucos escritores no Paraná, Jamil?

 

Jamil Snege – Eu acho que, primeiro, pela falta de uma política que estimule a criação literária, a criação de coisas do espírito. Não temos uma política que nos contemple as dificuldades. Somos um estado periférico em termos de literatura. O eixo Rio-São Paulo concentra a maior parte ou a grande maioria das editoras. O nosso acesso até lá é um pouco difícil, temos essa dificuldade. E aqui, do ponto de vista oficial, não há nenhuma política que estimule a criação literária. Se o autor de um livro tivesse do governo um apoio material significativo, que dissesse “Vamos adquirir 500 exemplares desse livro. Você paga a edição e nós vamos distribuir isso nas bibliotecas do estado e, com isso, você custeia sua edição”, mas não existe tal comportamento. Aqui, o autor, às vezes com prejuízo da sua própria sobrevivência, das coisas mais elementares do dia a dia, economiza e custeia uma edição, faz a edição por conta própria.

 

José Wille – Muitos dizem que nem existe uma literatura paranaense.

 

Jamil Snege – Em uma entrevista que dei, certa vez, a um jornal, falei que não concordava muito com essas compartimentações do tipo “literatura paranaense”, “literatura gaúcha”… Porque, transportando isso para os Estados Unidos, você imagine uma “literatura da Carolina do Norte”, uma “literatura da Carolina do Sul”… Ficaria estranho se cada um dos 50 estados americanos tivesse uma literatura. A mesma coisa ocorre conosco. Acho que isso é somente para classificações domésticas, mas, a rigor, isto não existe. Nós temos uma literatura brasileira e, numa instância maior ainda, uma literatura de língua portuguesa nesse continente que é a língua portuguesa.

 

José Wille – Para encerrar esse assunto: a autofagia tão falada do paranaense você acredita mesmo que as pessoas se ofendem com o sucesso dos outros?

 

Jamil Snege – Acho que vivemos numa cidade onde as coisas devem acontecer com uma certa calma, uma certa tranquilidade. De repente, surge um sujeito com uma carga de ruído capaz de tornar o sistema desconfortável. Então, esse indivíduo é imediatamente isolado. Parece que as pessoas aqui gostam de preservar certa tranquilidade em termos culturais, em termos intelectuais, e ninguém quer grandes choques. Sempre quando chega alguém batendo pé, rufando tambores, procuram fechar a porta sobre o chato. É isso que normalmente acontece a autofagia está aí.

 

José Wille – Jamil, na década de 80, além de publicidade, você passou a fazer também a propaganda política, a participar de campanhas eleitorais. Como foi essa nova atividade, principalmente em 1982, com a campanha de José Richa, que vinha como oposição, contra a candidatura de Saul Raiz, apoiada por Ney Braga?

 

Jamil Snege – Perfeitamente. Fazendo uma ponte com o que foi dito há alguns momentos, sempre procuramos manter a chama de alguma necessidade de mudança, de alguma esperança no futuro. Durante esse período todo, o MDB passou, como partido institucional, reconhecido e permitido, a concentrar as esperanças daquelas pessoas que ficaram órfãs de repente de um projeto revolucionário maior. Quando, em 1982, houve essa abertura e retornaram as eleições para governador, era a oportunidade que tínhamos – nós que ficamos à margem do processo político no Brasil – de retornar à atividade política através das campanhas eleitorais.

 

José Wille – Havia um pouco de idealismo, então, nessa adesão à campanha?

 

Jamil Snege – Esse idealismo foi mantido, digamos, embrionariamente, congeladamente, durante o período de repressão, quando não houve mais eleições para governador durante muitos anos. Então, em 1982, houve a reabertura desse processo político. Depois de várias campanhas, das quais o MDB participou com muita veemência, como as “Diretas Já”, redesenhou-se para nós a possibilidade de voltarmos a atuar, do ponto de vista político, dentro de um processo de restauração democrática que, acreditávamos, teria de vir um dia.

 

José Wille – A candidatura de Saul Raiz, apoiada por Ney Braga, utilizava a frase “Saul e Ney: ou um salto no escuro!”. E a campanha de José Richa rebatia “Richa, ou fica como está!”, dando a entender a continuidade do governo da antiga Arena. Como foi a definição dessa campanha acenando com a ruptura com o antigo regime?

 

Jamil Snege – Nós da oposição tínhamos um ponto a favor, pois havia uma onda crescente de descontentamento e de aspiração à liberdade. E era isso que, mais ou menos, criava esse esteio por onde o MDB passava. Surgiu, para mim, a oportunidade de fazer a campanha do Richa, candidato do MDB à sucessão de Ney Braga. Eu, coincidentemente, trabalhava na Múltipla Propaganda, que fazia a propaganda do Saul Raiz. Então, eu passava as minhas tardes não participando diretamente, mas vendo aquela agitação da criação das peças. E, às seis horas da tarde, eu saía da agência, ia para o diretório do MDB e cuidava da propaganda do partido.

 

José Wille – Dentro da agência, não havia preocupação que você pudesse levar as informações para o outro lado?

 

Jamil Snege – Nunca, porque eu colocava um muro na frente, como questão de ética íntima, de postura! Quando estava de um lado, eu não sabia e não queria ver o que tinha do outro… Nunca usei nenhum elemento de um lado para o outro. Um era meu ganha-pão, minha profissão. Embora houvesse muita pressão para que eu saísse da agência, é claro, pois era um elemento infiltrado. Mas eu mantive essa independência de opinião, de tal modo que eu pude, confortavelmente, continuar trabalhando na agência e trabalhando para o MDB. E a respeito das duas frases: “Richa ou fica como está” era uma alusão direta ou há mudança ou vai continuar a mesma coisa. Como o grupo no poder achou que deveria assustar ou criar um elemento de intranquilidade no eleitor, dizia “Saul e Ney, ou um salto no escuro”…

 

José Wille – Que seria a oposição.

 

Jamil Snege – Exatamente. Mexendo assim com aqueles fantasmas ah, o receio de mudança e tal. Mas o pessoal da minha agência não foi muito feliz, pois escreveu essa frase “ou um salto no escuro” em negativo na base do outdoor. E o pessoal do meu partido, evidentemente, à noite, com um rolo de tinta a base d’água preta, simplesmente cobria o “ou” e ficava “Saul e Ney, um salto no escuro”.

 

José Wille – O efeito contrário da propaganda.

 

Jamil Snege – Exatamente. Numa noite, provavelmente os 400outdoors foram cobertos e, na manhã seguinte, explicitavam outra mensagem.

 

José Wille – Outra utilização foi do nome do Jaime Lerner, que era muito forte em Curitiba, com a frase “Ney eleito, Jaime prefeito”, combatida pelo outro lado, dizendo que, se a oposição vencesse, haveria eleição para prefeito.

 

Jamil Snege – É, exatamente. Foi isso.

 

José Wille – Eleito, José Richa correspondeu àquilo que era esperado? Como você acompanhou o primeiro governo de oposição, depois de tanto tempo de domínio de Ney Braga no Paraná?

 

Jamil Snege – Voltamos a ter voz dentro do estado, porque, até então, éramos completamente marginalizados de qualquer participação dentro dos poderes oficiais. Com a eleição do Richa, de repente se abriu o poder a nossa participação, pudemos fazer coisas dentro do governo que antes não podíamos.

 

José Wille – E você foi trabalhar na área de comunicação no Palácio, durante o governo Richa.

 

Jamil Snege – A pedido dele, assumi, até com prejuízo em termos de ganhos, o cargo de Coordenador de Propaganda do governo dele. Eu passei a analisar as campanhas que eram criadas por outras agências.

 

José Wille – Nos anos seguintes, veio a eleição para a prefeitura de Curitiba. Em 1985, era Jaime Lerner contra Roberto Requião, um nome então pouco conhecido em Curitiba, que tinha sido eleito há pouco tempo deputado estadual. O que foi trabalhar pela candidatura de Roberto Requião, que acabou vencendo Jaime Lerner, mas por pequena diferença?

 

Jamil Snege – O Requião tinha, como experiência anterior, a eleição para deputado estadual, na qual ele se elegeu com mais ou menos 4% dos votos válidos aqui da capital. Foi uma eleição difícil, pois ele vinha de uma militância estudantil e não era bem conhecido. Coincidentemente, eu fiz o primeiro slogan de campanha do Requião. Era “Richa e Requião, irmão!”, pois o Richa era candidato a governador e o Requião pegou carona. Então, essa rima “Requião, irmão!” nasceu aí.

 

José Wille – Como foi trabalhar com o nome de Roberto Requião para tentar vencer Jaime Lerner?

 

Jamil Snege – Foi uma eleição bastante difícil, porque Roberto Requião, na época saído das hostes estudantis e ingressando finalmente na política institucional, elegeu-se com um número muito baixo de votos para deputado estadual. E, como candidato a prefeito, evidentemente, ele tinha de alargar essas bases e se defrontar com um grande antagonista, Jaime Lerner, que já tinha sido prefeito.

 

José Wille – O forte daquela campanha foi a transferência de prestígio de Maurício Fruet, que era o prefeito, de Richa, que era governador, e também do MDB, para Roberto Requião.

 

Jamil Snege – De certa forma, Roberto Requião foi conduzido pelo prestígio de Richa e de outros nomes do MDB, como Maurício Fruet, por exemplo. Foi conduzido à prefeitura em função do prestígio dos seus sustentáculos.

 

José Wille – Jamil, você fez outras campanhas interessantes. Por exemplo, Tony Garcia para o Senado, que, mais tarde, acabou se elegendo deputado estadual. Sendo um candidato que tinha dificuldade de expressão, você trabalhava muito na imagem, aproveitando-a da melhor forma possível.

 

Jamil Snege – Particularmente, adoro pegar candidatos que não têm nenhuma chance. Fiz a campanha da Rosemeri Kredens – candidata a governadora –  e ela marcou bastante a sua presença na mídia fez mais de 40 mil votos. E era absolutamente inviável. O Tony Garcia, quando surgiu, também era. Já tínhamos trabalhado juntos, pois ele era contato de propaganda na época em que eu era redator de uma agência. Quando ele falou em sair para senador, evidentemente que eu achei uma coisa um pouco pretensiosa. Mas, em função da bela imagem que ele tinha na época e ainda conserva – sujeito alto, bonitão, com cara de super-herói americano – achei que daria para trabalhar a imagem em termos físicos. É claro que, do ponto de vista oral, Tony Garcia tinha uma dificuldade muito grande de articular palavras, de uma contenção verbal muito grande, uma timidez…

 

José Wille – E a utilização da imagem e do simbolismo por exemplo, ele destruindo marajás com uma marreta?

 

Jamil Snege – Exatamente! Partimos para uma coisa de ação, uma campanha que valorizava o tipo físico dele e excluía a carga verbal. Tornamos desnecessária a explicitação oral. Então, se ele aparecia quebrando cabeças de marajás e saltavam moedas de dentro dessas cabeças, a ação por si só falava. E lá no meio da campanha, tive a extravagante ideia de colocar Tony Garcia lutando boxe. Fizemos um ringue, com todas aquelas condições de um ringue normal, commanager e locutor anunciando. E o Tony Garcia, de calções, sobe ao ringue e luta com um adversário imaginário, que era a câmera. E aquilo, realmente, em termos de proposta de campanha política, foi uma extravagância, que mereceu até notícia na Veja e em outros veículos.

 

José Wille – E acabou funcionando, pois, mais tarde, ele chegou à Assembleia Legislativa por este caminho.

 

Jamil Snege – Pois é. E, na época do senado, ele estava enfrentando José Eduardo Vieira – que foi o vencedor. E havia, no páreo, o ex-governador Paulo Pimentel, o ex-prefeito Maurício Fruet e outros nomes de peso. E o Tony Garcia chegou honrosamente ao segundo lugar, ameaçando o vencedor.

 

José Wille – Na eleição de 1998 – Roberto Requião contra Jaime Lerner – Requião chegou perto, surpreendendo Jaime Lerner, apesar de este ser favorecido, porque disputava reeleição como governador, tinha a máquina toda e era favorito nas pesquisas. O que representou, para você, esse desafio?

 

Jamil Snege – Tínhamos, de saída, uma grande dificuldade. Primeiro, Jaime Lerner, apoiado pelo presidente Fernando Henrique, com a máquina do estado, da prefeitura de Curitiba, da prefeitura de Londrina, com todos os prefeitos, com uma base partidária muito sólida e com bastante dinheiro para a campanha. Nós, pelo nosso lado, além da mudez da imprensa em relação ao Requião, não tínhamos dinheiro para nada. Para conseguir cem reais para mandar um repórter para o interior, eu tinha de dar três, quatro telefonemas. E eu trabalhei de graça, numa espécie de contrato de risco que fiz com ele. Eu e outros amigos não recebemos absolutamente nada. E não fosse essa terrível desproporção de meios, eu acho que nós teríamos condições de fazer uma campanha ainda mais acirrada e, talvez, até ganhar a governança.

 

José Wille – E qual foi o raciocínio básico de concepção da campanha?

 

Jamil Snege – Nós passamos a denunciar o total de gastos do governador atual em propaganda. Ele gastou 334 milhões em três anos! Então, isso foi nosso cavalo-de-batalha. Mas tivemos a nosso desfavor a baixa frequência dos horários eleitorais na televisão, pois apenas 12 ou 13% das pessoas os viam. Então, apesar de nós fazermos uma campanha um pouco mais pobre, do ponto de vista de produção, nós ainda tivemos a desvantagem de não ter uma audiência que entendesse a nossa mensagem, pois era uma pequena frequência. Isso enfraqueceu muito a nossa campanha. Porém, como saldo, acho que foi positivo, porque fizemos uma campanha até certo ponto eficiente. O próprio presidente da Assembleia, Aníbal Curi, reconheceu que nossa campanha foi mais eficiente que a deles. E mais uma coisa muito importante que quero consignar, finalizando o programa: fomos pessoas do Paraná que fizemos a campanha do Requião, e não o esquema importado de São Paulo, como o senhor Jaime Lerner sempre usa.

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