Os fósseis e pedras antigas de Guido Borgomanero

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Guido Borgomanero foi cônsul geral da Itália no Paraná. Crítico de artes e música, divulgava a cultura italiana, em especial com o Instituto Dante Alighieri em Curitiba. Nascido na Itália, fez curso superior de violino e doutorado em jurisprudência e ciências políticas na Universidade de Roma; falava e escrevia em sete línguas. No Rio Grande do Sul, na cidade de Mata, é patrono do Museu Guido Borgomanero, com milhares de peças de madeira fossilizada, um dos principais atrativos turísticos da região. Esta entrevista foi gravada em agosto de 1998. Ele morreu em 2005, aos 83 anos. 

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José Wille

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José Wille – O senhor nasceu em 1921, no norte da Itália…

 

Guido Borgomanero – Exatamente, em Cesenático.

 

José Wille – O seu pai também era diplomata?

 

Guido Borgomanero – Era diplomata.

 

José Wille – Daí o interesse que o senhor teve, mais tarde, pela carreira?

 

Guido Borgomanero – Em boa parte.

 

José Wille – O senhor conhece muito da história da vinda dos italianos para o Brasil, principalmente para o Paraná. O que, naquela época, por volta de 1870, criava para os italianos a expectativa de vir para o Brasil?

 

Guido Borgomanero – Eu me considero – um pouco – conhecedor da política de migração italiana, no Brasil ou em outros lugares do mundo, também pelo fato de que, por quase quatro anos e meio em Roma, eu chefiei um departamento que tratava justamente da emigração italiana. Foi um assunto que sempre me apaixonou e que tive a oportunidade, desta forma, de aprofundá-lo. Agora, para entender bem o que é um fenômeno migratório, é preciso ter em conta os elementos que esse mesmo fenômeno determinava nos idos de 1875/80, quando começou a primeira grande emigração italiana, sobretudo para as Américas do Norte e do Sul. A razão era determinada pela extrema pobreza, pela tremenda fragilidade da economia italiana, que, naquela época, estava apenas começando. E como o país não podia alimentar todos os milhões de bocas famintas, a emigração ocorria em grandes escalas e era até facilitada pelo governo, como meio para aliviar a pressão interna. A emigração italiana se desenvolveu antes na América do Norte, com quatro milhões e meio de pessoas, e na América do Sul, com sete milhões. Ou seja, foram mais de 10 milhões de pessoas que emigraram para as Américas, entre 1885 e 1957, quando a emigração cessou. No Brasil, hoje há nada menos que 23 milhões de descendentes italianos; no Paraná, são quase 4 milhões – quer dizer, quase metade da população do estado tem origem italiana.

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José Wille – Foi uma das maiores imigrações que o Brasil recebeu?

 

Guido Borgomanero – Exatamente. E a Itália é o país que tem mais emigrados para o mundo. São mais de 60 milhões, quer dizer, são mais do que os cidadãos que vivem no próprio país.

 

José Wille – Quem promovia a emigração? Eram empresas particulares ou os governos?

 

Guido Borgomanero – Não, não. Era uma emigração voluntária. Gente que arrumava uma mala de papelão, com umas poucas coisas, punha uma cestinha nas costas e ia para Gênova ou para Nápoles, para embarcar em um dos inúmeros navios que faziam a rota para as duas Américas – a do Norte e a do Sul.

 

José Wille – São Paulo tem a maior concentração de descendentes italianos?

 

Guido Borgomanero – Exatamente, com mais de nove milhões e meio.

 

José Wille – Quais foram os estados que  receberam italianos?

 

Guido Borgomanero – Sobretudo os estados do Sul – Rio Grande dos Sul, Santa Catarina e Paraná. Também São Paulo e, numa escala menor, o Espírito Santo.

 

José Wille – O senhor falou da pobreza no final do século passado. Também as guerras tiveram influência?

 

Guido Borgomanero – Naturalmente que foram as guerras. A Primeira Guerra Mundial foi o golpe que fez cair o resto do edifício, já cambaleante, e, num só ano, saíram de Nápoles mais de quatro milhões de emigrantes.

 

José Wille – E como eram as condições desses italianos, quando chegaram ao Brasil?

 

Guido Borgomanero – Terríveis, terríveis, porque não tinham o mínimo de infraestrutura. Paranaguá, nem de porto podia ser chamado. Quando eram arregimentados, recebiam um pouco de alimentos, um pouco de dinheiro. E, a pé, tiveram que atravessar a Mata Atlântica fechada, com onças, sucuris, desafiando epidemias de febre amarela e outras doenças, porque não tinha outra forma de fazer. Essa marcha durou alguns anos e provocou inúmeras perdas entre essa gente. Assim, houve a fundação de Antonina, de Morretes e, por último, de Santa Felicidade, que foram os centros italianos.  Com o lento passar dos anos, as condições melhoraram, até se tornarem, decididamente, boas.

 

José Wille – Houve quase situação de escravidão para muitos desses italianos?

 

Guido Borgomanero – Para muitos desses, teve uma situação autêntica de escravidão, sobretudo para os primeiros que chegaram, pois eram equiparados à condição do negro escravizado.

 

José Wille – Na chegada em Morretes, em Antonina, em Paranaguá, como era a atividade, a sobrevivência desses italianos?

 

Guido Borgomanero – Cada dia que eles podiam sobreviver era um dia ganho. É claro que comiam as frutas que arrancavam das árvores, as ervas que colhiam na floresta, animais que podiam caçar e foi daí que nasceu o famoso barreado. Santa Felicidade foi a maior concentração de italianos aqui no Paraná.

 

José Wille – E a atividade deles era o fornecimento de verduras, principalmente, para Curitiba?

 

Guido Borgomanero – De verduras, frutas e, em segundo momento, o vinho, embora um vinho péssimo, feito com uva americana, um vinho horroroso.

 

José Wille – Mas, antigamente, era um bom vinho?

 

Guido Borgomanero – Antigamente era a mesma coisa, porque não tinham importado os vinhedos da Itália e usavam a uva que crescia aqui, a uva americana.

 

José Wille – A atividade econômica dos italianos, nesta época, era principalmente a agricultura?

 

Guido Borgomanero – Primeiro foi, principalmente, a agricultura. Depois, veio, com grande impulso, a construção civil.

 

José Wille – Demorou para haver uma situação melhor de vida, da primeira à segunda geração?

 

Guido Borgomanero – As condições melhores começaram no final da segunda geração. Para a primeira e quase toda a segunda geração foram muito difíceis, foram precárias. Dava para sobreviver, mas não para dar o passo mais comprido que a própria perna.

 

José Wille – A arquitetura de Curitiba lembra muito a arquitetura italiana, pela presença destes trabalhadores que vieram para cá?

 

Guido Borgomanero – Sim, sim.

 

José Wille – Inclusive na participação da construção da ferrovia?

 

Guido Borgomanero – Inclusive na ferrovia, cujo traçado foi obra de um engenheiro italiano, Francesco Ferrucci, que foi ministro dos Transportes do Governo Cavour em 1855.

 

José Wille – E que participou da construção da ferrovia até Paranaguá, ligando-a a Curitiba?

 

Guido Borgomanero – Sim, sim.

 

José Wille – Como é hoje a influência italiana na nossa cultura paranaense?

 

Guido Borgomanero – Primeiro, na gastronomia. É só ver o número de restaurantes italianos que existe em Curitiba e em outras cidades para se dar conta. Em segundo lugar, a construção civil, que tem muitas empresas, grandes empresas italianas de construção civil. Mas não se pode dizer a mesma coisa de um ponto de vista estritamente cultural, porque a cultura é muito bisonha aqui no Paraná e em Curitiba, isto porque a esmagadora maioria dos imigrantes eram coitados campesinos, gente humilde, muitos nem falavam o italiano e sim o dialeto. Então, não puderam estabelecer bases culturais dignas de seu nome. E nem na gastronomia conseguiram isto, porque, em Santa Felicidade, é só ver os grandes restaurantes que existem lá, com uma cozinha que de italiano não tem absolutamente nada. É uma invenção local, pura e simples. Nem isso eles souberam preservar. Depois, melhorou com o passar dos anos, mas foi uma melhoria muito lenta. Em nenhum deles há a presença italiana que seja digna de seu nome.

 

José Wille – E a preservação das tradições da cultura, da música italiana no Brasil?

 

Guido Borgomanero – Pouco, muito pouco, infelizmente. A música erudita no Brasil é de um estado calamitoso. A minha doce parceira, que é uma empresária que organiza concertos de alto nível de música, tem que batalhar como uma desesperada, porque não consegue patrocínios, não consegue apoios, não consegue praticamente nada, porque ao público falta uma base cultural. Não se consegue absolutamente nada, e isso é muito triste. Tenho que dizê-lo na esperança que um dia possa melhorar, mas não tenho muitas esperanças.

 

José Wille – Quanto à preservação da cultura e da história desses imigrantes italianos, aqui no Paraná, o senhor acha que há muito ainda a se fazer?

 

Guido Borgomanero – Aconteceu alguma coisa, mas eu não poderia dizer que o panorama é um dos mais completos. A cultura, geralmente, é confiada a algumas instituições ítalo-brasileiras, mas que são um pouco, como se diz em italiano, “campanelistas” – quer dizer, baseiam-se nas tradições de uma sociedade, somente. Por exemplo, tem o círculo dos Vicenttini, da cidade de Vicenza, no Vêneto; dos Trevizani, da cidade de Treviso… Então, é uma cultura muito fragmentada e é difícil, através dela, formar uma visão cultural global do que é a Itália. De qualquer forma, é uma organização que mantém viva as tradições sobre todas essas cidades e provoca o agrupamento dessas pessoas, de vez em quando.

 

José Wille – O senhor já tinha estado no Brasil, antes da Segunda Guerra Mundial. Como foi, para os italianos, o Brasil enfrentar a Itália na Segunda Guerra Mundial? Houve preconceito, na época, contra os alemães, italianos e japoneses. O que isso significou para a colônia italiana?

 

Guido Borgomanero – Foi um período muito triste que vivi nos seus primórdios, antes de voltar à Itália, como consequência da ruptura das relações diplomáticas entre o Brasil e as três potências do Eixo, Alemanha, Itália e o Japão. Os italianos, como os alemães e os japoneses, não escaparam a toda a sorte de humilhações, de limitações. Até eram presos se fossem ouvidos falando em italiano entre eles na rua. Só em Curitiba é de se lembrar a ocupação pela força do que hoje é a Sociedade Garibaldi, que foi destinada a uma dependência do Ministério da Justiça. E essa situação, eu repito, foi muito pesada. E assim em todas as outras cidades, nas capitais brasileiras. E foi só depois, vários anos após, ao fim da guerra, que a situação voltou à normalidade.

 

José Wille – Que impressão o senhor teve, na década de 40, quando, pela primeira vez, veio ao Brasil?

 

Guido Borgomanero – Uma impressão maravilhosa! Cheguei ao Brasil em 1940, no mês de maio, no Rio de Janeiro, para onde meu pai tinha sido transferido, como primeiro secretário da então Ligação da Itália. E fomos morar num apartamento no Leme, em plena Avenida Atlântica. Eu tive a impressão de ter chegado ao paraíso terrestre! O Rio era, naquela época, realmente a cidade maravilhosa, não o inferno que virou hoje. E a vida era como um sonho! Eu estava com 19 anos, em plena juventude, e tenho recordações dessa época das mais gratificantes.

 

José Wille – Voltando à Itália, o senhor, que era estudante de Direito, teve que ir para o exército italiano, lutando na Segunda Guerra Mundial. O que isso representou?

 

Guido Borgomanero – Foi traumatizante, porque, logo no dia seguinte à minha chegada à Itália, fui despachado para um curso acelerado de formação militar, pois era aluno oficial e não soldado, pelo fato de ter um título acadêmico. E, menos de um ano depois, fui enviado à frente iugoslava. E lá foi realmente aterrador! Durante três meses, lembro que vivi o inverno de 1942, sem tomar proteção, num abrigo, com 18 graus abaixo de zero, e tive um princípio de congelamento no pé esquerdo. Depois, fiquei ferido e, por sorte, não gravemente, no alto da coxa, por um fragmento de um projétil de um tanque russo que explodiu a uns duzentos metros de onde eu estava. Perdi um litro e meio de sangue. E a experiência mais ingrata foi quando, no dia 8 de setembro de 1943, a Itália assinou armistício com as forças aliadas, virando-se, por conseguinte, contra os aliados alemães, e eu fui feito prisioneiro na cidade de Bologna e levado em um trem para o norte da Alemanha, para ser encerrado num campo de concentração.

 

José Wille – O senhor passou a ser visto como inimigo político, porque mudou o quadro da guerra. Até ali, o senhor era visto como aliado militar e, depois, foi transformado em prisioneiro?

 

Guido Borgomanero – Um prisioneiro, exatamente. Só que, por sorte, com o caráter que tenho e que sempre tive, consegui me jogar do trem. Era noite, mais ou menos uma hora da madrugada, e ninguém se deu conta de nada. Só que, caindo, eu fraturei gravemente o braço esquerdo contra o trilho. Fui salvo por um funcionário da ferrovia, que, com uma lanterna, inspecionava a linha. Foi ele que quase me carregou. Enfim, foi meu protetor, meu salvador.

 

José Wille – Aí o senhor teve que ficar escondido, porque os alemães ainda estavam na Itália?

 

Guido Borgomanero – Depois, consegui tomar um trem para Roma. Cheguei depois de 18 horas, entre um ataque aéreo e outro. A pé, porque não tinha ônibus, não tinha nada, fiz os quatro quilômetros que separavam a estação de minha casa. Fui lá com o coração na garganta! Veio abrir a porta meu pai, que deu um berro de felicidade. No dia seguinte, fui para o hospital, fizeram radiografias, o gesso, e, três meses depois, a triste aventura teve um final feliz.

 

José Wille – Mas até a saída dos alemães, durante mais sete meses, o senhor ficou sob o risco de prisão?

 

Guido Borgomanero – Mais sete meses sob risco de prisão, padecendo de fome, eu, minha mãe e meu pai. Foram sete meses de inferno! Depois, chegaram os aliados e a vida lentamente voltou ao normal. Tiveram que se passar quatro anos antes que o mínimo de sobrevivência, digna desse nome, fosse assegurado.

 

José Wille – Como o senhor via a propaganda fascista entre a população italiana durante a guerra e a situação dos jovens que eram convocados?

 

Guido Borgomanero – Foi o mesmo fenômeno que aconteceu na Alemanha, na União Soviética e na Itália. A propaganda dos regimes ditatoriais é venenosa, é envenenada. E tem uma penetração formidável. A propaganda era absorvida pela esmagadora maioria da população como se fosse o Evangelho, uma nova forma de evangelho, uma nova forma de Bíblia. Isto é um fenômeno típico destas ditaduras.

 

José Wille – Como o italiano recebia a presença dos alemães aliados, pois, de certa forma, a Itália estava a serviço dos alemães? Como era isso para a população italiana?

 

Guido Borgomanero – Depois de 8 de setembro, depois da capitulação, tinha se convertido em ódio, tendo até atos de terrorismo contra os alemães, que foram, aliás, pagos muito caro. Mas antes, durante a guerra, não era propriamente de irmandade nem de simpatia, era considerada como tolerável.

 

José Wille – Para os jovens, o que representava essa situação – de um momento para outro, estar dentro de uma trincheira?

 

Guido Borgomanero – Foi, como disse antes, um trauma. Porque, apesar de ter aquela inconsciência própria da primeira juventude, dos 20 anos, quando se passa semanas e meses padecendo fome, sede e não podendo fumar um cigarro, com a alimentação reduzida ao mínimo, com o indispensável para não cair doente, isso é, naturalmente, muito pesado.

 

José Wille – As pessoas se adaptam a situações mais difíceis. O senhor acha que, com o tempo, começam a ter aquilo como uma rotina?

 

Guido Borgomanero – É o que ensina a experiência da vida. E, também, nas experiências que fizeram de sobrevivência na selva, no deserto e em outros lugares inóspitos. O homem acaba, com esforço maior ou menor, adaptando-se.

 

José Wille – O senhor chegou a capitão?

 

Guido Borgomanero – Sim, a capitão.

 

José Wille – Disso tudo que o senhor viveu, ficou algum trauma por escapar duas vezes da morte, praticamente por milagre?

 

Guido Borgomanero – Às vezes, quando penso nisso e trato de reviver esses momentos, ainda sinto uma espécie de calafrio.

 

José Wille – Para a Itália, foi uma catástrofe a participação na Segunda Guerra Mundial…

 

Guido Borgomanero – Foi uma catástrofe, como, aliás, para o resto da Europa, porque toda a Europa saiu destruída por essa guerra infame.

 

José Wille – Como foi recebida a chegada dos aliados à Itália? O que representou a transição, com os alemães sendo expulsos?

 

Guido Borgomanero – Os aliados foram recebidos com entusiasmo e saudados como libertadores.

 

José Wille – A presença desses jovens em um país como a Iugoslávia, combatendo guerrilheiros – o jovem entendia exatamente o que estava fazendo ali ou apenas cumpria ordens? Como era isso na cabeça do jovem?

 

Guido Borgomanero – Primeira coisa, cumpria ordens. E, depois, de forma maior ou menor, entendia o que estava fazendo. Mas a coisa básica era o cumprimento da ordem.

 

José Wille – Terminada a Segunda Grande Guerra, houve o julgamento dos crimes de guerra. O senhor participou, porque falava sete idiomas.

 

Guido Borgomanero – Sete idiomas fluentemente, entre os quais alemão e inglês. Quando se tratou de punir os culpados, houve um segundo processo, que foi ao estilo de Nuremberg, ocorrido um ano e meio antes. E, ao interrogar os ex-criminosos de guerra – que eram alemães, e os juízes, ingleses – precisavam de um intérprete que pudesse traduzir para as duas línguas os depoimentos, as declarações que eles faziam e as respostas relativas. O estado-maior tinha minha ficha e me convocou para ser tradutor e intérprete nesses processos, que foram celebrados, antes de mais nada, ao cargo do comandante supremo dos exércitos alemães da Europa, o todo-poderoso marechal Kesselring; depois, do general Metzger, ex-comandante da praça de Roma; e do famigerado coronel Kappler, que tinha sido o responsável pelas 340 vítimas nas cavernas de Ardeatine, alguns meses antes. Esses processos duraram quase três meses e eu pude tocar com a mão aqueles mesmos personagens, que eram como personagens míticos, como representantes de um Valhala, de um Olimpo de destruição, que, no final, foram condenados à sentença de morte, mais tarde convertida em prisão perpétua. E todos morreram na cadeia, precisamente.

 

José Wille – O que representou este momento para o senhor, que tinha acompanhado a guerra e até sido prisioneiro do exército alemão?

 

Guido Borgomanero – Devo dizer que, na minha alma, nunca houve ódio por ninguém. Posso xingar, falar palavrões, gritar, fazer tudo quanto é baderna, mas sou incapaz de sentir ódio. Senti até mesmo compaixão, porque esses três personagens tinham sido prisioneiros e vítimas do seu próprio destino, que foi ainda maior do que eles.

 

José Wille – Depois disso, veio a carreira diplomática?

 

Guido Borgomanero – O meu primeiro trabalho foram quatro anos no ministério. Depois, fui enviado como vice-cônsul na Argélia, justamente no período tristíssímo da guerra dos argelinos contra as forças francesas, na famosa Guerra de Libertação Argelina. E lá vivi outros três anos e meio, em meio a bombas, luto, violência e tudo, porque era um povo que se levantava contra uma dominação estrangeira. Um período que lembro com simpatia, mas também como uma ponta de amargura, porque tive muitas limitações – não podia ir de carro a certos lugares, não podia fazer as coisas muito tarde, à noite, porque era muito perigoso e coisas desse gênero. Depois, o meu primeiro encargo no Brasil foi como cônsul em São Paulo, onde fiquei por cinco anos. Foi muito gratificante, à parte o fato de ter tido um chefe que foi um verdadeiro carrasco, para não dizer algoz, que era uma pessoa muito difícil, e por outras razões também. Depois, fui à Noruega, outro país, outro horizonte, onde encontrei a minha doce parceira e foi também uma experiência muito simpática, porque conheci os países escandinavos, que ainda hoje representam um mito quando considerados por outros países que estão mais ao sul. Depois, outra vez em Roma, onde nasceu nosso filho, que hoje está com 30 anos e é violonista. E, finalmente, na Bulgária, em Sófia.

 

José Wille – Como foi essa experiência na Bulgária, um país com influência soviética, na década de 70?

 

Guido Borgomanero – Podemos dizer comunista. Era época dificílima. A Bulgária era o satélite mais fiel à Rússia. Mais fiel e ortodoxo e isso também representou dificuldades. A nossa casa, sabíamos que era visitada de vez em quando, os móveis abertos, marcas de mãos nas coisas, microfones nos lustres e nas paredes. Tenho que dizer que foi uma época bastante ingrata, mas da qual, apesar de tudo, tenho uma boa recordação. E depois de Sófia, finalmente, Curitiba, que devia coroar a minha carreira, onde estive por nove anos, que foram cheios de satisfações, pois ganhei a medalha Cândido Rondon, fui nomeado cidadão-honorário de Curitiba, cidadão-honorário de Colombo e outras honrarias. E foi assim que, no dia 31 de agosto de 1984, fui aposentado com o grau de ministro plenipotenciário de primeira classe.

 

José Wille – Voltando ainda à Bulgária, nestes três anos e meio, o senhor tinha uma previsão de que poderia terminar o regime socialista no Leste Europeu?

 

Guido Borgomanero – Eu sentia e tinha falado sobre isto várias vezes. E aqueles que me ouviam diziam que eu era louco, que eu era um visionário. Só que os fatos aconteceram antes mesmos das minhas previsões.

 

José Wille – O regime era realmente muito fechado?

 

Guido Borgomanero – Sim. O regime mal podia se sustentar. Embora, honestamente tenha que dizer, ninguém pedia esmola na rua, ninguém morria de fome, todo mundo tinha um teto sobre a cabeça, e todos sobreviviam. Mas os salários eram ridículos e davam para uma modesta sobrevivência. O sistema mesmo, com o passar do tempo, não podia mais funcionar.

 

José Wille – O que fez com que o senhor se tornasse paranaense, não voltando mais para a Itália, mesmo depois de aposentado?

 

José Wille – Quando tomamos essa decisão, foi há 25 anos. Naquela época, Curitiba era realmente a Cidade Jardim, a Cidade Sorriso. Hoje, não se pode comparar a cidade com a Curitiba daquela época. Mas, apesar de tudo, como as condições do mundo inteiro pioraram, a começar com a poluição do ar, dos ruídos, do infernal tráfego automobilístico e de tudo o mais, viver em Curitiba, para mim hoje, é muito melhor que viver em Roma, que virou o inferno dos vivos, outra grande cidade europeia. Então, de fato, nenhum de nós se arrependeu da decisão que tomamos há 25 anos.

 

José Wille – O senhor continuou acompanhando a chegada dos italianos, que prosseguiu até o ano de 1957?

 

Guido Borgomanero – Até 1957, quando se interrompeu por completo. Depois, começaram a chegar missões econômicas e tudo isso mais. Mas o fenômeno migratório cessou em 1957.

 

José Wille – O senhor tem uma coleção muito importante, uma das maiores existentes, de pedras, minerais e fósseis brasileiros. Como surgiu esse interesse?

 

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Árvore fossilizada no Rio Grande do Sul.

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Guido Borgomanero – Desde criança, sempre fui fascinado pelas pedras preciosas e pelos minerais e, alguns anos mais tarde, pelos fósseis. Então, comecei a estudar muito seriamente e em profundidade a paleontologia – ciência que estuda os fósseis –, a mineralogia e a gemologia – ciência que estuda as gemas ou pedras preciosas. Comecei, praticamente, a me interessar aos 6 anos de idade e isso, 71 anos depois, continua mais forte e virulento do que nunca. A coleção gemológica que possuo é, de longe, a maior e mais completa da América Latina, porque todas as gemas do Brasil e do mundo são amplamente e muito bem representadas. E tenho também uma coleção paleontológica que tem fósseis achados em todo o mundo, uma de minerais e outra paleoantropológica, que descreve a vida do homem na terra, desde quando ele surgiu até as grandes civilizações ocidentais, a fenícia, grega, egípcia, síria, romana, asteca, maia, tudo isso.

 

José Wille – O senhor se tornou um geólogo autodidata com o tempo?

 

Guido Borgomanero – Sim, li mais de 250 publicações em 5 idiomas e escrevi 8. Participei de 5 simpósios e congressos internacionais de paleontologia e tenho grande orgulho de passar à história da paleontologia, porque dei o nome a um achado de um crânio de um pterossauro, um gigantesco dinossauro voador, cujo nome, Cearadactylus atrox, hoje está em todos os tratados de paleontologia.

 

José Wille – A coleção cresceu mais aqui no Brasil, onde o senhor teve a possibilidade de ter a coleção ampliada.

 

Guido Borgomanero – No Brasil, houve uma verdadeira explosão! É uma paixão e uma vontade de conseguir algo único no mundo, o que consegui.

 

José Wille – E o senhor conserva todo esse material em sua casa? Tem um museu particular?

 

Guido Borgomanero – Exato. E você é convidado a visitá-lo, porque quem não vê, não acredita.

 

José Wille – O senhor recebe muitos visitantes do exterior?

 

Guido Borgomanero – De todo o mundo. Inclusive, o curador do American Museum of Natural History, que é o maior museu de ciências naturais do mundo, ficou abismado, quando viu tudo isso e passou três dias na minha casa, batendo três rolos de diapositivos coloridas, o tempo todo.

 

José Wille – Com os fósseis do Paraná, o que dá para contar sobre nosso passado?

 

Guido Borgomanero – O Paraná é muito pobre, seja em fósseis ou em gemas. Em gemas, temos umas poucas ágatas e poucas ametistas, mas de qualidade medíocre; em peixes, na região de Cianorte, uns peixinhos pequenos, mas, em compensação, tem bastante madeira petrificada.

 

José Wille – Por que, no Paraná, os fósseis não foram conservados?

 

Guido Borgomanero – Porque o Paraná é geralmente terra vulcânica. Houve, há 300 milhões de anos, fenômenos de vulcanismo imponentes, e onde estão os vulcões, não podem estar os fósseis.

 

José Wille – Mas existiam animais no Paraná naquela época. Qual seria o perfil que poderia ser traçado dessa fauna que já existiu aqui?

 

Guido Borgomanero – Sim, existiam, embora dinossauros, parece que não houve.

 

José Wille – Não há vestígios?

 

Guido Borgomanero – Nenhum vestígio foi encontrado. Havia lagoas com peixes de água doce, cujos fósseis foram encontrados. O mar tinha entrado terra adentro e, por isso, encontram-se fósseis de peixes marinhos. Mas à parte isso, muito pouco.

 

José Wille – Em regiões de Ponta Grossa e Almirante Tamandaré, que tiveram seus mares?

 

Guido Borgomanero – Ponta Grossa tem alguns fósseis de certo interesse, porque é um território muito antigo, pré-cambriano, com mais de dois bilhões de anos. O fóssil mais interessante que se encontra é o das trilobitas, que foram os primeiros animais organizados que apareceram na face da terra, há uns 500 milhões de anos.

 

José Wille – Não dá para dizer que esses grandes animais não existiram, o que se sabe é que os vestígios não permaneceram?

 

Guido Borgomanero – Exato. Não foram encontrados vestígios. Por isso, alguns duvidam que houvesse dinossauros no Paraná, ao contrário do que aconteceu no Rio Grande do Sul e no Ceará.

 

José Wille – O Brasil, de forma geral, é uma grande concentração para pesquisa com esses fósseis?

 

Guido Borgomanero – É privilegiado, porque tem o Rio Grande do Sul, que abriga, entre outros, a gigantesca floresta petrificada de mata, numa localidade a uns 90 km ao leste de Santa Maria, que é a segunda maior do mundo, após aquela do Arizona, nos Estados Unidos; depois, tem Paraíba e Ceará, com vestígios de dinossauros, de peixes, de pterossauros, com uma quantidade e qualidade de fósseis excepcionais.

 

José Wille – O que dá para citar, como curiosidade, dos fósseis mais importantes que o senhor possui?

 

Guido Borgomanero – Ovos de dinossauros, fezes fósseis, gastrólitos, que eram pedras que os dinossauros – à semelhança do que as galinhas fazem hoje – engoliam para facilitar a sua digestão – seixos grandes que, com o tempo, viraram rolados. E muitos outros…

 

José Wille – O senhor é bastante procurado por museus, por pesquisadores do exterior, que querem peças?

 

Guido Borgomanero – Sim. Embora que, da parte universitária, sobretudo da Universidade de Paleontologia, seria de se esperar um interesse maior, porque é o mais importante museu que se tem em Curitiba, no Paraná, e é um dos principais no Brasil e na América Latina. E é relativamente pouco visitado.

 

José Wille – O senhor acha, então, que o brasileiro tem pouco interesse sobre a área?

 

Guido Borgomanero – Pouquíssimo! Esse é uma das maiores falhas que eu cito. O brasileiro não sabe a terra rica e abençoada por Deus onde nasceu e sabe pouco ou nada do que ela contém. Isso é triste, mas a verdade tem que ser dita.

 

José Wille – E a sua coleção de pedras e minerais?

 

Guido Borgomanero – Gemas ou pedras preciosas são o estado bruto. Tenho todas as variedades existentes no mundo muito bem representadas. A coleção minerológica contém os principais minerais metálicos e não-metálicos fluorescentes, ultravioletas, vulcânicos do mundo todo, e dá um panorama muito claro do que são e a utilidade dos minerais para a vida do homem moderno. E tem aqueles da paleoantropologia, que trata a história do homem da terra desde os artefatos. Desde o Australopitecus, de dois milhões e meio de anos atrás, até uma mandíbula inferior do mais antigo representante do índio brasileiro, o famoso Homem de Lagoa Santa, com trinta mil anos de idade.

 

José Wille – Com as pedras e os minerais, muito da nossa história geológica pode-se aprender com estes estudos?

 

Guido Borgomanero – Tudo, tudo! A partir dos minerais e das gemas, pode-se traçar um quadro perfeito e completo.

 

José Wille – O senhor, desde jovem, tem interesse pala música e pelo violino.

 

Guido Borgomanero – Comecei aos sete anos e meio a tocar e, aos 18, já era diplomado em violino, na Academia de Santa Cecília, em Roma. Mas, mesmo não tendo feito carreira, como diziam que eu tinha um talento mais único do que raro, continuei e cheguei a um grau de técnica interpretativa e expressiva dos maiores, tanto é que consegui, aqui em Curitiba, num espaço de 10 anos, gravar 28 fitas, cada uma de 45 minutos, contendo quase toda a literatura para violino.

 

José Wille – Vamos terminar falando mais sobre o seu país de origem. Hoje, a Itália tem uma situação curiosa, com uma população decrescente.

 

Guido Borgomanero – Mas eu não considero isso um fenômeno preocupante, porque a Itália tem 58 milhões e meio de pessoas e, para a Itália, é demais. A Itália tem praticamente a superfície do estado de São Paulo, onde vivem quase 60 milhões de pessoas e 34 milhões de carros. Imagine como a gente pode se mover. Não considero isso um fator negativo. Talvez, mais positivo até. É uma opinião minha. Não se pode esquecer que a Itália tem, hoje, mais de 2 milhões de desempregados.

 

José Wille – Qual seria sua definição do espírito do povo italiano?

 

Guido Borgomanero – Como o brasileiro, nem mais nem menos. Grande admirador do sexo feminino, como ele faz amor, ninguém outro faz; apreciadores da boa comida, do bom vinho; bonachões e esperando uma vida que possa ser sempre melhor.

 

José Wille – Hoje, com a facilidade de comunicação, mora-se em Curitiba, mas, por exemplo, pode-se ter a televisão da Itália. O senhor acha que isso aproxima?

 

Guido Borgomanero – É a globalização. Primeiro, realizou-se com a mídia, porque, com a internet, não tem lugar no mundo que não se possa alcançar em questão de fração de segundos. E, depois, globalizou-se a economia e todo o resto. Hoje, a humanidade é globalizada e vai ser sempre mais, o que é um grande bem, embora não seja isento de defeitos e de algum pequeno perigo.

 

José Wille – O senhor viveu uma grande guerra mundial, e presenciou muitos conflitos pelo mundo afora. A globalização, no sentido de paz, pode ser importante?

 

Guido Borgomanero – Não. Infelizmente, não, porque os assim chamados conflitos regionais continuarão enfurecendo e nascendo em todos os lugares do mundo, sem interrupção. Não dará nenhum benefício, infelizmente.

 

José Wille – A missão do diplomata, como o senhor a encara hoje?

 

Guido Borgomanero – O papel tem seus lados positivos, porque pode, quando feito com amor, com competência e dedicação, dar grandes resultados. Por exemplo, os resultados que eu tive na organização da vida cultural deram-me grandes satisfações e isso é apenas uma parte.

 

José Wille – O passaporte, que tantos descendentes de italianos no Paraná procuram, tem gerado uma corrida nos últimos anos. Como se explica esta procura?

 

Guido Borgomanero – Hoje, há mais de 30 mil ítalo-brasileiros curitibanos que têm seu passaporte italiano. E isso se justifica, primeiro, como uma grande comodidade, porque, com o passaporte italiano, vai-se para os Estados Unidos, China, Japão, para o mundo todo. Com o passaporte brasileiro, tem-se muita dificuldade. Segundo, o reconhecimento de um status e uma satisfação de dizer “Eis aqui o país das minhas origens!”. E, terceiro, porque tem uns loucos ou iludidos que dizem “Com isso, vou para a Itália trabalhar”, sem saber que vão encontrar a maior decepção, porque, já com 2 milhões e meio de desempregados, não tem emprego para pessoas que quase não falam o italiano ou o falam mal. Só 1 entre 20 mil pode conseguir algum resultado.

 

José Wille – Mesmo o descendente italiano é recebido como um estrangeiro?
Guido Borgomanero – Praticamente, sim. É recebido bem, tudo isso, mas, quando diz que quer trabalhar, ninguém tem nada para oferecer.

 

José Wille – Na imagem que tem o italiano sobre o brasileiro, há alguma identificação pelo fato de que, como o senhor falou, existem 23 milhões de descendentes italianos no Brasil?

 

Guido Borgomanero – A Itália e o resto do mundo sabem da importância que tem o Brasil. Só que se fala pouco do Brasil, só quando tem favela, desgraça e tudo isso. E o italiano não foge a essa regra. Ele sabe bastante da importância que tem a presença italiana no Brasil, mas não sabe quase nada sobre o Brasil. Fiz uma pesquisa, por conta própria, perguntando a pelo menos 100 pessoas o que era Curitiba, e a maioria me respondeu que se comia com batata frita ou com arroz. Isso diz tudo.

 

José Wille – O senhor acha que a diplomacia brasileira poderia contribuir mais?

 

Guido Borgomanero – Em parte, é responsável, porque, por documentários, palestras, fitas de vídeo, pode-se lutar pelo setor cultural e deve-se fazer muito isso.

 

José Wille – Hoje, depois de tanto tempo no Brasil, o senhor se considera um paranaense?

 

Guido Borgomanero – Total, porque sei reconhecer as grandes qualidades e os tremendos defeitos do estado.

 

José Wille – E acabou optando pelo Paraná?

 

Guido Borgomanero – Apesar de tudo, acabei optando pelo Paraná.

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