Piloto da Real salvou 19 pessoas no Paraná em 1961

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Um avião da Real Aerovias teve que fazer uma aterrissagem forçada em Campo Largo, no Paraná, no ano de 1961. Mas a habilidade do piloto salvou as 19 pessoas daquele voo, com um pouso forçado. As informações sobre o acidente foram enviadas por dois leitores. E complementadas depois, em uma conversa com o próprio piloto.  Conversei com o ex-comandante do avião da Real, Décio Barreto de Camargo. O avião saiu de Londrina para Ponta Grossa, decolando a seguir para Curitiba. Mas logo teve problemas com o mecanismo do motor direito, com o chamado “disparo de hélice”. Por isso o avião não poderia ir até Curitiba, e nem poderia regressar a Ponta Grossa. Com a situação de emergência, a primeira ideia foi prosseguir até a fazenda do empresário Hermes Macedo, o que possibilitaria a aterrissagem. A fazenda ficava próxima, em uma região mais elevada da Serra de São Luiz do Purunã...

Mas o avião começou a perder altura, com só um motor em funcionamento. Desta forma,com a impossibilidade de continuar adiante, a única saída era desviar para a região mais baixa e próxima, no município de Campo Largo. Ali o piloto poderia tentar descer na rodovia principal, ou buscar alguma área de campo, propícia para uma aterrissagem forçada.

Ao avistar um banhado, o comandante Décio Barreto de Camargo começou a descer, conseguindo fazer um pouso forçado.  Ele desligou a ignição dos motores, por segurança. A área era de banhado e vegetação baixa. Com isso todos os 19 ocupantes, entre passageiros e tripulantes, foram salvos, e o próprio avião foi recuperado posteriormente. O local do pouso era de acesso difícil, e só depois de duas horas chegaram uma ambulância, um veículo do Corpo de Bombeiros e uma Komby da própria Real Aerovias. Para o piloto, diante da difícil situação, foi um pouso forçado bem sucedido,  sem mortos ou feridos. Ele ainda continuou na aviação até dezembro de 1992, quando se aposentou. Na última fase profissional, pilotava Jumbos 747 do Brasil para Nova Iorque e para Frankfurt. Hoje está com 84 anos, residindo em São Paulo.

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Ex-comandante Décio Barreto, da Real Aerovias.

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 E aqui está publicada a reportagem da Tribuna do Paraná em 1961, enviada por Gilmar Portela. 

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Matéria da  Tribuna do Paraná no dia  8 de julho de 1961.
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AVIÃO DA REAL CAIU PERTO DE CAMPO LARGO.
 
Na manhã de ontem, por volta das 11 horas, circularam notícias em torno do acidente aviatório que teria ocorrido nas proximidades da nossa capital. Pondo-se a campo,a reportagem da TRIBUNA conseguiu apurar que tal ocorrera realmente na região de Campo Largo, tendo de imediato se dirigido para o local.
 
BANHADO PROVIDENCIAL
 
A distância aproximada de três quilômetros da vizinha cidade de Campo Largo,encontramos o avião da Real, prefixo PP-YPT, que , pelo terrível impacto da queda, provocou no solo uma valeta de cerca de sessenta metros. A condição do terreno, banhado e a não existência de árvores de grande porte no local, teriam sido providenciais no sentido de ser evitada catástrofe de grandes proporções .
 
PROCEDIA DE LONDRINA
O aparelho PP-YPT procedia de Londrina no seu vôo o normal com escala em Ponta grossa. O DC3 partira daquela cidade no norte do Estado por volta das 7:40 hrs e após escalar em Ponta Grossa,decolara para normalmente aportar as 11:15 hrs no Afonso Pena.
 
INICIO DA TRAGÉDIA
 
Atingindo a serra de São Luiz do Purunã lavradores que trabalhavam no local perceberam o forte ronco dos motores do DC 3 ,dando a exata impressão que tentava ganhar mais altura,pois voava muito baixo. Segundo testemunho daquelas pessoas ,o aparelho não conseguiu ganhar mais altura e,ultrapassada a serra, não mais conseguiram divisá-lo.
 
CAIU EM LUGAR DE DIFICIL ACESSO
 
O DC3 da Real caiu em difícil acesso a cerca de mais de 2 quilômetros da estrada de rodagem num banhado quase que intransitável mesmo a pé .Conquanto o terrível impacto produzido pela queda,todos os dezesseis passageiros conseguiram abandonar o aparelho ilesos,sem qualquer ferimento,o mesmo ocorrendo com a tripulação composta de quatro pessoas.Apenas uma senhora evidentemente em face do grande abalo e da enorme tensão nervosa sofreu desmaio sem maiores consequências.
 
CHEGAM OS SOCORROS.
 
Momento após o acidente acorreram ao local três ambulâncias do PSM ,bem como uma viatura do Corpo de Bombeiros  prontos para entrar imediatamente em ação, a qual felizmente não foi necessária dado que não houve vítimas nem tampouco ocorreu fogo não obstante a violência da queda.
 
VIATURA DOS BOMBEIROS TEVE OS PNEUS FURADOS.
 
Detalhe interessante a se ressaltar é o atinente a viagem da viatura do Corpo de Bombeiros em demanda ao local do acidente.Durante o percurso teve dois dos seus pneus furados ,mas dada a rápida ação, conseguiu ainda alcancar o local  para prestar seus valiosos serviços caso tal, eventualmente tivesse sido necessário.
 
TRIPULAÇÃO
 
A tripulação do PP -YPT estava composta pelo comandante Décio Barreto,co-piloto Lourival Fernandes,comissário Alvim e como rádio telegrafista Nicolau.O comandante Barreto como é mais conhecido,30 anosde idade,casado reside nesta capital a rua Eusébio da Rocha . Já tem mais de cinco anos de experiência em  vôos e cabe-lhe um registro meritório na ocorrência dado que graças a sua perícia, e ao fato de ter conduzido o aparelho mesmo com o motor falhando ao lugar já descrito, foi evitada uma tragédia de funestas consequências.
 
PASSAGEIROS
 
Era de dezesseis o número de passageiros do DC3 Douglas da REAL acidentado. Nossa reportagem dirigiu-se a referida companhia com a finalidade de conseguir a relação dos nomes ,para divulgá-los aos nossos leitores.Todavia nosso trabalho foi infrutífero pois a REAL alegou “lista só em Londrina e em Ponta Grossa”.
 
PROVÁVEL CAUSA DO ACIDENTE
 
Instado pela nossa reportagem o comandante Barreto negou-se peremptóriamente a fazer quaisquer declarações em torno da possível causa do acidente . Apenas nos declarou.Não posso falar. A causa do acidente só poderá ser apurada pela comissão de inquérito que obviamente será instalada. Ao decolar em Ponta Grossa, nada notei de anormal no aparelho.Tudo transcorreu normalmente até  o momento do acidente.Sobre qualquer defeito técnico,a reportagem deverá consultar posteriormente a devida comissão. As circunstâncias contudo indicam,que a provável causa do acidente teria sido falha no motor do lado direito,o que, aliás,era comentado por um grupo de funcionários da empresa presentes no local.
 
 
INQUÉRITO INSTAURADO
 
Foi designado a presidir ao inquérito em torno da ocorrência o tenente Moura da Base Aérea local,presente também ao local.A ele dirigiu-se a reportagem da TRIBUNA DO PARANA sendo seguintes as suas declaracões . Agora vamos trabalhar.Já estamos realizando as primeiras investigações.Somente após colhermos elementos é que poderemos apurar a real causa do acidente. Quinze soldados da Base Aérea mantém guarda ao local,a fim de evitar a aproximação de curiosos.
 
DEMAIS AUTORIDADES PRESENTES
 
Conseguimos anotar outras autoridades que acorreram ao local entre as quais o Tenente Bozza,delegado de polícia de Campo Largo e bem assim elementos da Policia Técnica e da Policia Rodoviária.
 
ENCONTRO EMOCIONANTE
 
Já passado todo o susto motivado pela quase tragédia e, em meio a graças pela ausência de qualquer dano pessoal,chegou ao local por volta das treze horas,a jovem esposa do comandante Barreto.Indescritível a emoção que se apossou de todos quando a esposa e o marido atiravam-se um aos braços do outro , ela em prantos quiça mais de alegria e satisfação ao encontrar o marido são e salvo, ele com furtivas mas perceptíveis lágrimas, apesar dos óculos escuros que portava na ocasião.
 
VINTE MILHÕES O SEGURO
 
Segundo notícias que foram transmitidas,o DC 3 acidentado está segurado pelo valor de vinte milhões de cruzeiros aproximadamente. Os danos materiais foram de grande monta –  trem de aterrissagem, hélice e pedacos de motor encontravam-se a muitos metros de distância .
Texto da Tribuna enviado pelo leitor Gilmar Portela.
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E leia abaixo o relato do leitor, Renato Hundsdorfer:

 

Era o dia 15 de julho de 1961, uma sexta-feira. Na manhã fria partia do “aeródromo Sant’Anna” em Ponta Grossa o avião DOUGLAS C47 – PP-YPT para a sua última viagem, que deveria ainda ter mais uma escala em Curitiba, antes de seguir para São Paulo, seu destino final. O PP-YPT, um avião fabricado em 1944 para carregar cargas e paraquedistas na segunda guerra mundial era utilizado pela USAF _ United States Air Force, depois ficou para a ROYAL AIR FORCE, do Reino Unido (United Kingdown) e recebeu o prefixo KG-6671. O modelo C47A-25-DK, um dos primeiros a ter o sistema elétrico de 24 volts e dos quais foram fabricados 5.254 unidades. Veio para o Brasil em 1946 adquirido pela empresa Linhas Aéreas Natal, e  então foi registrado com o prefixo PP-JAA. Em 1948 foi vendido para a Viação Interestadual de Transportes Aéreos, que após uma fusão com a REAL-Transportes Aéreos (Redes Estaduais Aéreas Limitada)e passou a ter registro com o prefixo PP-YPT.

A empresa REAL adquiriu as linhas da empresa “Aerovias”, para poder fazer transporte internacional de passageiros. Já nos últimos anos a REAL-Aerovias fazia o interior do Paraná e até Assunção, no Paraguay.
As viagens aéreas só tinham autorização para serem feitas de dia entre aeroportos que não possuíssem iluminação, o que era raro na época. Cada viagem tinha autonomia para aproximadamente 3 horas. O combustível era armazenado em tanques no interior da fuselagem do avião (corpo do avião). Um tanque para cada um dos motores do modelo R 1830-92. O modelo C47 Skytrain, como era chamado, foi adaptado para carregar cargas e 16 passageiros acomodados confortavelmente em poltronas, e uma tripulação composta por mais 4 pessoas: Um piloto comandante, um copiloto, um telegrafista e um comissário(a).
O ULTIMO VOO: Partiu do aeródromo (aeroporto) Sant’Anna em Ponta Grossa pela manhã. O voo diurno deveria durar aproximadamente uma hora e meia, todo realizado com orientação visual. Vinha seguindo o trajeto da Rodovia do Café (BR277). Não havia radares nem mesmo comunicação externa via rádio, nem com Ponta Grossa, nem com Curitiba. Antes de pousar o avião fazia uma volta no entorno do aeroporto, ou mesmo uma passagem sobre a pista, dependendo da posição que soprasse o vento. (Se o piloto pousasse com vento à favor poderia ser punido com uma multa de 3.000 mil cruzeiros). A saída (decolagem) era avisada por telegrafia à Base Aérea Afonso Pena em São José dos Pinhais (meu tio Miguel Hundsdorfer era o telegrafista em Ponta Grossa).
Uma hora após a partida o telegrafista de bordo relatou a pane no motor direito. O avião seguiu o trajeto da rodovia ciente de que poderia chegar ao destino com apenas um motor em funcionamento. Ao chegar sobre a Serra de São Luiz do Purunã o motor direito parou de funcionar totalmente. Apenas um motor esquerdo passou a ser utilizado à plena potência.  Entrou em superaquecimento. Para chegar a Campo Largo e tentar um pouso de emergência seriam ainda 10 Km em linha reta.
A proposta seria pousar no asfalto plano entre os km 26 e 25 da Rodovia do Café. Iniciaria em frente ao posto TEXACO e finalizaria em frete à loja POLOVI. Ao realizar o sobrevôo descobriu-se que não seria possível devido à nova linha de transmissão da COPEL. O avião fez todo o trajeto sobre o “asfalto” sem conseguir pousar. Com a hélice “parada”, a tentativa de “arremeter” quase foi frustrada. O avião ganhou altura para sobrevoar algumas casas, mas próximo ao ponto de aterrissagem, as árvores e a possibilidade de bater em algum carro ou caminhão, fez com que o piloto procurasse um local para o pouso de emergência. O segundo motor parou e o avião “planou” por cerca de 400 metros, deslizando pelo banhado por algumas dezenas de metros, no local chamado “Ilha”.
O avião foi avistado por muitas pessoas. Após a perda de contato, já que as antenas de telegrafia ficavam na parte inferior do avião, a equipe de socorro da “Base Aérea Afonso Pena”, em São José dos Pinhais, fez contato com os funcionários da “POLOVI”, (Loja de Porcelanas às margens da Rodovia do Café, KM 25) para saber se o avião havia passado por ali. Era comum a pessoa sair de dentro de casa ou dos comércios para ver a passagem de algum avião. Eram barulhentos e voavam com velocidade inferior a 300 Km/h. Um dos vendedores que atendeu ao “telefonema” confirmou que o avião havia passado sobre a pista, com a hélice do motor direito parada e com motor esquerdo “rateando”, e que ele possivelmente havia pousado. E isto realmente havia acontecido.
Centenas de campolarguenses foram até o local para ver. Para muitos a chance única de ver um avião. Não era possível chegar perto devido à lama. Os passageiros e a tripulação saíram pelas duas portas de emergência que ficavam sobre a asa direita. Não houve nenhum passageiro nem tripulante ferido mesmo com o impacto. Horas mais tarde soldados da aeronáutica chegaram para fazer a segurança do avião. Quando representantes da REAL – Aerovias chegaram, cobriram o nome da empresa e o prefixo do avião com lama, e mais tarde com tinta preta. Após a retirada da aeronave da lama, foi colocado à margem da rodovia e aberto à visitação dos curiosos. Havia uma fila imensa. “Quem teve a oportunidade de ver o interior, conta que as poltronas eram revestidas de um veludo toalhado verde musgo, havia o nome da empresa nos encostos de cabeça e a sensação de estar dentro de um avião era um sonho. Carlos Alfânio, uma testemunha do acidente, conta que viu seu pai em cima da asa do avião e ficou desesperado pensando que o avião o levaria embora.
Meu pai veio em casa rapidamente, me apanhou juntamente com minha irmã Rosane Hundsdorfer, e nos levou para ver o avião (lembro como se fosse agora). Perguntem aos mais velhos, todos eles contam esta história que com a ajuda de Cilmara Portela, que me compartilhou a foto, pude pesquisar e contar a vocês.
O voo foi relatado como pouso de emergência. Apenas agora completei a ficha técnica. O último voo do PP-YPT que apenas os campolarguenses souberam que houve. Não existe registro algum deste acidente, apenas esta narrativa, mas com a foto será passada aos órgãos competentes para que registrem este fato. Hoje há prova material, um acontecimento que sempre foi tratado como “lenda”. Agora Faz parte da “Verdadeira História de Campo Largo”
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*Este último texto foi enviado pelo leitor Renato Hundsdorfer que também enviou a foto do avião no alto desta página. 
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Curiosidade: O jornalista Ney Hamilton, da UFPR, por pouco não entrou neste avião, no colo da mãe, vindo de Londrina. Por insistência de amigos da família, a viagem foi adiada, apesar da passagem já estar comprada. Eles vieram de carro.
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