A revolta dos posseiros em 1957 foi tema de livro de Roberto Gomes

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Nesta entrevista, gravada em maio de 1998, o escritor Roberto Gomes fala sobre a revolta dos posseiros do Oeste do Paraná em 1957. E também sobre a própria história como escritor.

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Roberto Gomes publicou romances, contos, crônicas e literatura infantil, além de traduções. Sua primeira obra, “Crítica da Razão Tupiniquim” (1977), questionou a filosofia no Brasil. Em 1979, obteve o Prêmio José Geraldo Vieira, com o romance “Alegres Memórias de um Cadáver”. Escreveu outros romances, como “Antes que o Teto Desabe” (1981), “Terceiro Tempo de Jogo” (1985) e “Os Dias do Demônio”. Recebeu também o Prêmio Jabuti em 1982, por “O Menino que Descobriu o Sol”. Seu conto “Sabrina de Trotoar e de Tacape” foi adaptado para o cinema, no longa-metragem “Flor do Desejo”, dirigido por Guilherme de Almeida Prado em 1983. Foi professor da Universidade Federal do Paraná, onde também dirigiu a Editora da UFPR.

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José Wille – O senhor nasceu em 1944, em Blumenau. Santa Catarina, na época, tinha poucas oportunidades de estudo. Foi o motivo de sua vinda para Curitiba?

 

Roberto Gomes – Sim, havia poucas oportunidades em nível universitário. Tínhamos excelentes colégios em nível de segundo grau. Mas, realmente, as universidades não existiam. Alguns anos depois é que começaram a abrir algumas universidades em Florianópolis; depois, em Itajaí, em Joinville, em Blumenau… Fiz o caminho que meus três irmãos fizeram – viemos todos estudar em Curitiba.

 

José Wille – O interesse pela leitura surgiu do seu pai, que tinha atividade jornalística em Blumenau?

 

Roberto Gomes – Meu pai foi jornalista. Inclusive, as minhas primeiras lembranças de criança são de uma casa em que morávamos, onde o meu pai dirigia um jornal, que ficava na parte dianteira da casa. Então, eu brincava no meio dos linotipos, no meio das impressoras, daquele chumbo fervendo. Meu grande sonho era poder sair na rua anunciando as manchetes do jornal. Tinha inveja de um menino que se chamava Nélson, que trabalhava para o meu pai, que saía gritando a manchete do dia, pois, naquela época, era como se vendia jornal. E eu achava o máximo poder fazer aquilo um dia. Nunca consegui. Então, acho que, para mim, o interesse pela leitura é, ao mesmo tempo, interesse por fazer o texto. Nunca fui um leitor, simplesmente. Acho que por essa influência, da convivência com o jornal, no ambiente do jornal, meu pai sendo jornalista, eu já via que o que lia, era algo que tinha que ser escrito. Então, esse sempre foi o objetivo principal meu.

 

José Wille – O senhor veio em 1964 cursar Filosofia na Universidade Católica, aqui em Curitiba. Era justamente o início do governo militar.

 

Roberto Gomes – O clima era ruim, porque era um momento de repressão, um momento em que tudo tinha que ser conquistado com muito cuidado, tínhamos de cuidar até com os passos que dávamos para conseguir certas coisas. Então, havia muitas limitações. Lembro das realizações que conseguíamos colocar em andamento – por exemplo, um centro de estudo de filosofia, que eu dirigi na Católica, ou então o diretório, uma conferência que se conseguia. E nada de muito revolucionário, nada disso. Uma vez, trouxemos o Bento Munhoz da Rocha para falar, isso já mais adiante. Ele veio falar e isso foi um acontecimento. Ou certos artistas da época, de teatro. A Cacilda Becker esteve lá. Isso tudo eram as coisas que a gente conseguia obter. Havia, por um lado, esse clima de repressão, não tão violenta ainda. E havia o esforço que fazíamos para sair desse clima de limitação, de repressão. Acho que era uma época, ao mesmo tempo, de muito entusiasmo, pois nós sonhávamos muito. Se a gente fosse fazer uma caracterização desse período, tudo que se fazia, fazia-se pensando em mudar o mundo. Todas as ações eram voltadas para mudar os próprios destinos da humanidade. Hoje, com a mentalidade de mercado e de globalização, do “salve-se quem puder”, ninguém pensa em mudar o mundo, cada um quer mudar a sua conta bancária ou coisa parecida. Nós queríamos mudar o mundo! Isso amenizava um pouco aquela desastrosa situação de repressão em que o país vivia.

 

José Wille – Como era o contraste desse idealismo da década de 60 com o conservadorismo e, mais ainda, com a fase da repressão que vinha com o governo militar?

 

Roberto Gomes – Isso foi se acentuando, eu tenho uma imagem – como ficcionista, eu penso em imagens, não abstratamente. Entre os vários empregos que tive que arranjar para poder fazer a faculdade, eu consegui um no curso de Biblioteconomia, na Federal. Lá, fazia de tudo – rodava mimeógrafo, desenhava coisa, datilografava, atendia gente no balcão. E lembro de uma das coisas que me assustou – isso já um pouco mais adiante, se não me engano em 1968. Num determinado momento, em determinado dia, eu estava trabalhando, rodando mimeógrafo e fazendo uma apostila de História da Arte, escrita pela Adalice Araújo. Eu rodava tudo aquilo e ilustrava. E, de repente, veio a diretora do curso de Biblioteconomia, andando depressa pelo corredor. Ela entrou apavorada na sala e disse “Fecha tudo e vamos embora!”. Eu não entendi, mas fechei e saí. Aí, ela me levou até a janela e eu olhei. Em cima da Reitoria da UFPR, estava cheio de gente. Já tinham saltado o teto. Pior que todos meus amigos e conhecidos tinham tomado conta da Reitoria. Foi naquele dia que fizeram uma grande passeata aqui pela Rua XV, com busto do reitor etc. Foi em 1968. Mas passei ali, nesse período, mais ou menos três anos. Foi um dos empregos que eu arranjei para poder sobreviver e fazer a faculdade na Católica.

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José Wille – E a Católica ficava no centro da cidade, onde era o Colégio Santa Maria, perto do prédio central histórico da UFPR, na Praça Santos Andrade.

 

Roberto Gomes – Sim. A Católica era naquela quadra ao lado do Teatro Guaíra, em frente ao Guairinha. Era ali que funcionava o Santa Maria, funcionava a faculdade, funcionavam também ali os grêmios, havia salas de debate. Tinha um cineclube, tinha um cinema, onde se assistia a muitos filmes, até onde era possível, naquele momento, trazer filmes de várias origens. E se tomou conhecimento desses filmes de países que, hoje, já nem se colocam aqui, como Tchecoslováquia e China, por exemplo.

 

José Wille – Sendo uma cidade ainda provinciana, existia então uma vida cultural estudantil na década de 60?

 

Roberto Gomes – Pois existia! Acho que existia esse movimento estudantil esse movimento em torno do cinema, por exemplo. Essas coisas todas compensavam um pouco o clima provinciano da cidade e compensavam também a repressão, que era bastante forte. Havia essa agitação, com esse propósito de mudar o mundo. E, nessa ilusão de mudar o mundo, mudar o país, eu acho que se amenizavam um pouco aquele peso da repressão e aquele peso da cidade provinciana que Curitiba era.

 

José Wille – O senhor começou como professor universitário em 1970, primeiramente na Católica. Como era a convivência com a ação da repressão sobre os professores, a presença de agentes da repressão política dentro da sala de aula?

 

Roberto Gomes – Na Católica, a coisa era mais direta, porque os próprios mecanismos da universidade providenciavam a repressão. Na Federal, tínhamos os mecanismos vindos de fora. A gente, com frequência, estava dando aula e entrava um aluno novo, um aluno inesperado, normalmente um sujeito de 1,90m, ombros largos, pescoço grosso, cabelo bem curtinho. E sentava numa cadeira lá e ficava querendo fazer perguntas embaraçosas. A gente estava falando “…a República de Platão” e aí o cara dizia “Mas essa República de Platão não era meio comunista? Isso não tem alguma coisa a ver com Fidel Castro?”. Então, havia toda uma presença ostensiva da repressão. Na Católica, era feita através dos próprios mecanismos de uma faculdade particular, que impõe as suas regras e o que ela quer e o que deixa de querer; na Federal, pela presença de elementos de serviço de segurança dentro da universidade.

 

José Wille – O senhor tentou ir para a Universidade Federal como professor, mas teve problemas por duas vezes, nos concursos que realizava.

 

Roberto Gomes – Isso já foi na década de 70. Então, em 1973, entrei pela primeira vez por concurso. Aí, conseguiram fazer uma série de coisas lá que me obrigou a me afastar. Fiz novamente o concurso em 1976, e então houve uma denúncia, que eu não entendo até hoje. Um dia, o frei Raimundo, professor de Filosofia, que dirigia o departamento naquela ocasião, me chamou e disse “Temos aqui uma indicação de que você não pode ser contratado”. Meu contrato estava rolando, rolando e não era efetivado. E ele me levou para falar com a pessoa que tinha dito isso. Essa pessoa era, pelo que fui saber depois, um ex-bedel da faculdade de Direito que representava o SNI dentro da universidade. Ele tinha, ao lado da sala do reitor, uma saleta onde decidia o destino de quem entrava e quem não entrava na universidade. E, sem qualquer acusação formal, insisti várias vezes para que ele dissesse afinal do que estavam me acusando, o que eu havia feito, porque não tinha ligação político-partidária nenhuma. E ele apenas me respondia, à maneira dos anos da ditadura, “O senhor deve saber o que fez. Se está sendo acusado, o senhor deve saber o que fez”. Finalmente, tive que me afastar, depois de várias ameaças. Voltei à universidade só em 1989, com a Lei da Anistia.

 

José Wille – O senhor participou como escritor e como professor de várias tentativas de se produzir literatura e editoras no Paraná. Por que essa dificuldade? Como foram as experiências de tentar editar livros aqui no Paraná?

 

Roberto Gomes – É difícil compreender a história da questão das edições no Paraná. Eu costumo fazer uma brincadeira – digo que é uma explicação metafísica, mas acho que é a explicação que funciona: editar é uma atividade comercial, uma atividade industrial. Mas é também uma atividade cultural você, quando edita, faz todo seu trabalho para um outro. Quer dizer, o editor trabalha, no fundo, para um autor, ele trabalha para um grupo de autores, para uma tendência literária, ou uma tendência intelectual etc. Acho que é interessante que a atividade editorial sempre seja uma atividade generosa. Eu acho – e essa explicação é metafísica – que, em Curitiba, falta essa generosidade. As pessoas parecem que não sabem trabalhar para os outros. Por exemplo, o que foi feito no Rio Grande do Sul, na década de 30, não foi feito até hoje no Paraná. Até hoje nós não temos uma indústria editorial. Tivemos várias tentativas, algumas poucas tentativas. A Guaíra, a Coeditora, que teve a Beija-Flor um pouco antes, a Criar, e agora, no domínio acadêmico, a editora da Universidade Federal do Paraná. E há uma editora nova, de que conheço pouco a respeito, mas sei que existe, uma editora que está tentando fazer um trabalho de literatura infantil, a editora Braga, se não me engano. Então, são coisas pontuais e não existe uma profissionalização desse setor. E as explicações são muitas, mas, enfim, nem todas elas convencem. Uma das coisas que se pode dizer é o seguinte: uma das dificuldades das editoras no Paraná não é a ausência de autores, como se dizia, porque os autores que escrevem no Paraná estão publicando fora. Então, todos nós que escrevemos – eu, por exemplo, publico no Rio Grande do Sul, publico em São Paulo, publico no Rio – publicamos em outros estados. Então, não é falta de autores. Mesmo autores de livros didáticos, nós temos muitos no Paraná. O problema é que, no caso da literatura, o que existe é uma falta de um reconhecimento dessa produção literária no interior do Paraná, no sistema educacional, no sistema de bibliotecas, no sistema de promoções culturais etc.

 

José Wille – O que os gaúchos fizeram de diferente para estabelecer a sua literatura, para estimulá-la, como o senhor diz, já desde a década de 30?

 

Roberto Gomes – Os gaúchos têm, primeiro, isso que aconteceu com a criação da Editora Globo, com o Bertazzo e o Érico Veríssimo. Dali para cá, foram criadas várias editoras gaúchas. Na década de 70, os gaúchos fizeram um programa, que eu considero um marco, do qual participaram vários escritores, intelectuais e editores gaúchos. Esse programa era executado por uma pessoa que já faleceu, a Lígia Averbuck. O que eles fizeram? Da maneira mais simples! Primeiro, eles prestigiaram o autor gaúcho. Segundo, eles criaram uma nova geração de professores. Os professores de literatura do estado do Rio Grande do Sul passaram por uma verdadeira reciclagem, através de contato com os autores, com as obras que esses autores estavam produzindo naquele momento, com um novo modo de abordar essa literatura. Esses professores passaram a ensinar literatura não a partir do século XVI e de Portugal, mas a partir do século XX, do autor gaúcho que estava escrevendo naquele determinado momento. Eles inverteram a direção. Isso fez com que se formassem uma nova concepção de ensino de literatura, uma nova geração de professores, uma nova geração de leitores e uma explosão editorial. Hoje, no Rio Grande do Sul, devemos ter cerca de doze editoras, uma coisa assim. E são editoras realmente profissionais e de impacto nacional. Aqui, a coisa nunca frutificou. Eu acho que aqui se tem uma concepção da cultura muito oficialesca, muito governada a partir de cima pelos aparelhos de estado… E o estado, cada vez que se fala em livro, não fala em livro. Tenho essa implicância com as coisas que se faz em Curitiba, que valoriza como cultura tudo aquilo que pode juntar gente na praça. Teatro junta gente na praça, cinema pode juntar gente numa sala, pintar papelzinho junta gente na praça. Literatura, normalmente, lê-se quieto, em casa, em silêncio, às vezes no banheiro. Então, literatura não junta gente na praça. Então, literatura não é cultura. Você não vê uma preocupação efetiva com a literatura nos órgãos culturais. E eles, ao invés de se preocuparem em fazer um trabalho de base, preocupam-se em querer editar coisas – “Ah, vamos editar o autor tal, o autor tal etc”. Eu acho que Secretaria de Cultura, Fundação Cultural –, enfim, o estado – não tem que editar coisa nenhuma. O estado do Paraná, o estado em geral, a prefeitura, tem que ter excelentes escolas, tem que ter, nessas escolas, excelentes bibliotecas, tem que ter professores capazes de dar um ensino da literatura num nível excelente, tem que pegar os autores, levar a essas escolas, tem que reciclar esses professores. Se isso for feito, vão aparecer editores, pessoas que vão colocar essas obras em circulação.

 

José Wille – A iniciativa da prefeitura ou do estado de publicar alguns livros e distribuí-los em massa gratuitamente, como acontece com alguma frequência, não contribui?

 

Roberto Gomes – Não, isso não é função do estado. O estado não tem nada que editar ninguém, porque ele tem várias limitações. Ele edita mal, fisicamente mal, editorialmente mal, graficamente mal. Ele escolhe mal o que vai editar, porque normalmente escolhe aqueles que são partidários, que são amigos, que são próximos ou que são insistentes. Edita por motivos não literários, não editoriais, por motivos políticos, com muita frequência. Então, o estado acaba jogando dinheiro fora. Essas edições, à medida que elas não são feitas para uma circulação adequada, acabam muitas vezes em porões. A gente sabe disso, pois há histórias e mais histórias a respeito disso. Um autor meu conhecido encontrou 80% da edição do livro dele num banheiro desativado. Ainda bem que desativado, mas, em todo caso, os livros estavam todos lá. Ele foi encontrar lá, dois, três anos depois, tudo amontoado naquele banheiro. Então, o estado não tem que editar, pois edita mal em todos os sentidos. O estado teria que agir na sua área específica, que é dar boa educação.

 

José Wille – O senhor dirigiu, por um bom tempo, a editora da Universidade Federal. Algumas obras que são publicadas nem sempre despertam interesse ou têm algum motivo especial para publicação. Este equívoco, de uma forma geral, acontece nas editoras universitárias?

 

Roberto Gomes – Isso é um perigo tremendo nas editoras universitárias. Se bem que elas são um tipo especial de editora – que não têm pretensão de entrar no mercado de forma comercial, não têm aquela preocupação em editar literatura, pois edita o livro científico, o livro de pesquisa etc. Mas ela tem que ter critérios muito claros e muito explícitos, senão ela cria prejuízos para aquela atividade editorial. Por exemplo, de 1985 a 1995 e isso não se refere somente à UFPR, mas a todas as editoras universitárias brasileiras – começou a se fazer justamente uma transformação nas editoras universitárias, no sentido de que elas não podem editar por razões pessoais ou de grupo ou de influências. Elas têm que ter critérios propriamente editoriais, ainda que sejam ligadas a uma instituição, ainda que tenham essa destinação acadêmica, científica etc. Porque o risco é muito grande. Nas editoras universitárias, o caso mais célebre é da UNB, a Universidade de Brasília, quando, por volta de 1986, descobriu-se um verdadeiro depósito onde cabia um avião, lotado de livros que não haviam sido distribuídos, não haviam sido vendidos. Havia livros que comportariam talvez uma edição de mil exemplares, mas foram feitos 8, 10 mil, 15 mil exemplares. O problema das edições universitárias também é isso: elas são feitas, às vezes, de uma forma que está totalmente voltada para o interior da universidade. A forma dela é de tese, de dissertação e tal. Isso interessa a um grupo limitado de pessoas, que são os especialistas daquela área. Você, então, não pode fazer esse tipo de trabalho, nessa forma, para uma edição para o mercado em geral, para as pessoas em geral, porque você não vai encontrar público para isso. É preciso saber dimensionar isso.

 

José Wille – É possível dizer que exista uma literatura paranaense, que trate dos temas, dos costumes, que tenha realmente uma característica paranaense?

 

Roberto Gomes – Acho que isso está em formação no Paraná. Mas, seguramente, acho que é possível, perfeitamente. E isso, claro, cabe às pessoas que estão voltadas para o estudo disso. Eu não sou um estudioso da literatura no sentido de crítico literário ou de professor de literatura. Mas tenho a percepção de que hoje, certamente, vamos encontrar em quem está escrevendo no Paraná – desde o Dalton e a Helena Kolody até a geração dos mais jovens – um grupo de temas, um tratamento da linguagem e uma ambientação de personagens que estão caracterizando uma literatura. Uma literatura de língua brasileira, feita no Paraná, de pessoas que estão no Paraná, que já têm toda uma especificidade própria. Isso está surgindo nesses últimos anos, eu acho.

 

José Wille – Mas existiria muito por se fazer ainda, para relatar a história do Paraná?

 

Roberto Gomes – Isso é o X do problema. O Paraná é um estado predominantemente rural, com um passado, uma história rural, com peso econômico rural. E a literatura paranaense é predominantemente urbana – temática urbana, feita de uma ótica urbana. Sempre achei isso uma coisa um pouco estranha. Não que eu tenha qualquer coisa contra a literatura ambientada de uma forma urbana. Não, tanto que isso é predominante inclusive no que escrevo. Mas não sei por que excluir essa preocupação com o domínio rural. Isso me veio à mente quando escrevi “Os Dias do Demônio”, que é um livro que trata de vários episódios relacionados à história do Paraná. Percebi que não havia nada escrito até aquele momento, havia pouca coisa, que não havia sido trabalhada suficientemente. Eu acho que há muito, então, por fazer. Seria o caso, talvez, de a gente dizer o seguinte: as regiões do Paraná têm histórias muito próprias e com linguagens próprias…

 

José Wille – Populações diferentes…

 

Roberto Gomes – Populações diferentes, populações de origens diferentes, de formação diferente, de propósitos até diferentes. Então, você pode pegar aqui, digamos, o litoral do Paraná, Antonina e toda essa região; você pode pegar o Norte Velho; pode pegar o Oeste e o Sudoeste; Foz do Iguaçu, aquelas peculiaridades de Foz do Iguaçu etc. Cada região dessas está pedindo uma série de romances, uma série de contos. Então, tudo isso é extremamente rico. O Paraná é um estado que tem um potencial em termos de história, de acontecimentos, de fatos, inclusive relativamente recentes. Uma história relativamente recente, que está pedindo quem a escreva.

 

José Wille – É parte de um contexto maior? Por que essa crise de identidade do Paraná é tão falada?

 

Roberto Gomes – Pois é, a crise… Não sei… Às vezes, fico meio atrapalhado com esse termo. Acho meio complicado falar em termos de identidade do Paraná. Eu tenho uma dificuldade, enfim, de lidar com isso. O que se sente é efetivamente isso. Eu tenho a impressão de que a produção cultural nossa esteve sempre voltada para um universo fora do Paraná. Ela estava olhando para as perspectivas do Rio de Janeiro, de São Paulo. Isso é mais ou menos natural no Brasil, um país que tem esse eixo Rio-São Paulo muito forte, que sempre dominou, sempre conduziu, sempre liderou os movimentos culturais. Mas, se você olhar, por exemplo, o que acontece no Rio Grande do Sul, ou em Minas, ou na Bahia, ou até mesmo no Nordeste, você vai ver que, em todos esses polos, produziu-se determinado tipo de literatura que não tinha uma preocupação de ser carioca ou ser paulista ou ser cosmopolita ou ser urbana. Os gaúchos falavam dos gaúchos, os mineiros falavam dos mineiros etc. No Paraná, há um certo desconforto, que não sei de onde vem, em não querer falar das suas próprias histórias. É como se as origens devessem ser esquecidas ou se devesse passar por cima disso. Eu penso que isso, hoje, é um problema político e cultural sério no Paraná.

 

José Wille – Sobre a literatura urbana, o senhor trabalhou com este tema. Está até publicando um livro, “Exercício de Solidão”, que dá um retrato de Curitiba. O título define bem esta questão?

 

Roberto Gomes – “Exercício de Solidão” vem de uma frase que eu publiquei num livro, há muitos anos, um livro de crônicas a frase completa é “Curitiba é um exercício de solidão”. Porque uma das coisas que, talvez por ser de fora vim para cá com 20 anos notei muito em Curitiba: há um lamento constante, as pessoas estão continuamente se lamentando da própria solidão “Ah, o curitibano é fechado”, “Ah, fui apresentado a fulano, depois ele passou por mim, nem me cumprimentou”, “Ah, ninguém me convida para ir à casa dele”, “Só tenho relações de trabalho, profissionais, não sei o quê, não tenho relações pessoais com quem está em volta”… Há toda uma lamentação a respeito de Curitiba sobre a questão da solidão. Então, esse meu livro, que vai sair agora em setembro pela Record, gira em torno dessa sensação de solidão, do personagem abandonado a si mesmo, do personagem carente que a gente encontra.

 

José Wille – O senhor consegue explicar essa característica do curitibano, que é retratada?

 

Roberto Gomes – Não…Não me arrisco a explicar, não! A gente constata, mas não me arrisco a explicar.

 

José Wille – O senhor tem um livro também que fala de sua vivência universitária, aquilo que passou na Universidade Católica.

 

Roberto Gomes – Esse livro é o “Alegres Memórias de um Cadáver”. É um romance cuja preocupação era, em princípio, retratar o clima da década de 70, o clima repressivo e fechado desta década. E como eu havia sido, inclusive, afastado da universidade, coloquei ali toda a ação do romance. Ele se passa todo dentro de uma universidade, que tem muito de universidade brasileira e tem muito de universidade de Curitiba. A história é de um cadáver contrabandeado do Hospital de Clínicas para a universidade, como dizem que costuma acontecer… Só que esse cadáver, por algum motivo que não se sabe, continua morto, mas recupera a consciência, começa a andar pelo interior da universidade e a causar problemas. Então, a convivência dessa universidade com seu próprio cadáver é o tema do romance.

 

José Wille – O senhor tem outro trabalho, “Os Dias do Demônio”, que tenta relatar, em ficção, aquilo que aconteceu realmente no grande conflito do Sudoeste do Paraná. Como o senhor escolheu esse tema para trabalhar e como desenvolveu a pesquisa?

 

Roberto Gomes – Esse romance é uma coisa com que, imagino, comecei a me preocupar quando tinha 13 anos, ou seja, em 1957, quando aconteceram os fatos aqui no Paraná ­ a revolta dos posseiros etc. Eu morava em Blumenau, onde nasci e onde vivia, naquele ambiente urbano, e uma das coisas que eu fazia aos 13 anos o início do meu interesse pela leitura, pela literatura era ler a revista “O Cruzeiro”, que, embora hoje seja muito difícil as pessoas acreditarem nisto, foi uma excepcional revista, uma revista excelente, como também a revista “Manchete” foi uma revista sensacional em um determinado momento. Na revista “O Cruzeiro”, eles faziam reportagens naquele momento sobre o problema da terra no Paraná, os conflitos da terra. Eu, ainda uma criança, um pré-adolescente, 13 anos, lia aquilo tudo e ficava muito intrigado, porque não entendia direito. Falavam de posseiro, e eu não sabia o que era isso. Para mim, posseiro era de poço. Tinha o jagunço, que eu imaginava que era uma espécie de bandido de faroeste americano, mas também não era, era diferente. Lembro que isso ficou na minha memória. Quando vim para o Paraná e conheci a minha esposa, a Iria, que veio do Sudoeste, ela começou a me contar aquelas histórias. “Eu li isso… quando era menino” e tal e coisa. Quando se fez uma comemoração dessa data de 1957, a Iria estava preparando a dissertação de mestrado e resolveu abordar o movimento de 1957. E eu, ao mesmo tempo, resolvi escrever um romance sobre esse assunto, sobre o qual eu já vinha lendo alguma coisa junto com ela. Fizemos toda a pesquisa, entrevistamos uma série de pessoas, fomos para a região. Ela, pensando na dissertação de mestrado, e eu, pensando no romance.

 

José Wille – Para começar, o trabalho então foi uma grande reportagem?

 

Roberto Gomes – Isso! De início, juntamos um material enorme, pastas e mais pastas com jornais da época, entrevistas, fotos etc. Fizemos tudo isso de duas óticas diferentes, mas o material era o mesmo. Publiquei, na época, numa revista chamada “Panorama”, uma ou duas reportagens a respeito de 1957, comemorando os vinte anos isso foi em 1977, se não me engano. Comecei a juntar esse material todo e, a partir de 1986, mais ou menos, decidi escrever esse romance. Quando comecei a escrever, levei um susto, porque eu dispunha de todo o material, de todos os dados, de jornais e fotos, entrevistas, depoimentos, mas eu ia escrever e não funcionava. Não dava certo! Se fosse para escrever uma reportagem, eu escrevia, mas fazer ficção daquilo não dava. Então, comecei a sentir esse processo de transformar aquilo em ficção e foi um processo muito lento, por vários motivos. Primeiro, eu não vivi na região, e esse é um motivo sério. Precisei fazer toda uma reciclagem da minha cabeça para poder entender o que era aquela região. Em segundo lugar, por uma característica da literatura paranaense. Quando, por exemplo, um escritor do Rio Grande do Sul escreve, ele conta com todo um passado literário, desde a literatura regionalista, desde Érico Veríssimo e José Guimarães, na qual ele se apoia para produzir, como, por exemplo, faz Luiz Antônio Assis Brasil, ao produzir essa obra magnífica que está produzindo.

 

José Wille – Que é descritiva de costumes e falas.

 

Roberto Gomes – Que fala da história dos costumes, de toda essa formação do Rio Grande do Sul e de todos esses personagens que estão em volta disso. Aqui no Paraná, então, notei o seguinte: eu não tinha nenhum apoio para isso, eu não tinha como fazer esse tipo de abordagem, porque ninguém havia feito antes. Havia até um romance, que acho interessante, do José Angeli, “A Cidade de Alfredo Souza”, mas é a única coisa que eu conhecia. Em suma, eu não sabia como falava o personagem da região, eu não sabia que roupa usava, como se divertia… Então, isso tudo precisou ser recriado. Como se tratava de um romance, a preocupação foi fazer a recriação desse episódio histórico.

 

José Wille – Para entender a história: qual era o grande conflito, a questão fundamental que provocou toda essa mobilização, principalmente em 1957?

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Revolta dos posseiros do sudoeste paranaense em 1957.

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Roberto Gomes – Vou fazer uma síntese, porque não sou historiador e não manejo muito bem esses dados históricos e essas informações mais precisas, mas eu diria o seguinte: até um certo momento desse século, aquela região foi praticamente uma região abandonada, uma região largada a si mesma, onde era costume, por exemplo, os argentinos entrarem, paraguaio pegar erva-mate… Ali, foragidos da polícia, vindos do Rio Grande do Sul, escondiam-se eram conhecidos como farrapos. Aquilo era uma região meio abandonada. A partir de um certo momento, constituiu-se em um problema, pois havia necessidade de ocupar aquela região. Então, o governo brasileiro fez um projeto para a região, um projeto de colonização. Criou a Colônia Agrícola Nacional General Osório, a CANGO, para então colonizar aquilo. Mas, nesse momento, já havia uma titulação de terras sobre aquelas regiões. Ao mesmo tempo, uma estrada de ferro pegou parte daquelas levas. Então, na origem, há uma confusão tremenda de titulações daquela área.

 

José Wille – Vários donos…

 

Roberto Gomes – Vários donos.

 

José Wille – E havia ainda o valor daquela madeira, que poderia ser extraída.

 

Roberto Gomes – Sim. Era uma região riquíssima, principalmente em araucárias e madeira-de-lei da melhor qualidade. E numa quantidade imensa, tanto que as companhias que depois para lá foram, na verdade, não estavam interessadas na terra, elas queriam vender a terra para o colono, que comprava a terra e tirava madeira. O grande objetivo delas era tirar a madeira, extraí-la e vendê-la. Não era propriamente um projeto de colonização, como, por exemplo, aconteceu no Oeste do Paraná. Lá, existiam projetos de colonização, projetos de ocupação. No Sudoeste, a coisa foi muito predatória. E isso gerou, então, essa coisa de terrenos que eram vendidos várias vezes. E era muito comum se brincar com isto na época: um conhecido vendeu para outro o terceiro andar de um terreno. Isso tudo causou esses atritos enormes. E para lá se deslocou uma população muito grande, vinda do Rio Grande do Sul, onde as terras escasseavam e, como as famílias estavam aumentando, os filhos não tinham possibilidade de ficar na terra. Esses gaúchos e parte de catarinenses do Sudoeste e do Oeste de Santa Catarina subiram e foram atraídos por promessas da colonização propostas pelo Getúlio de que receberiam terras, receberiam atendimento médico, dentário, instrumentos e financiamento para se estabelecerem ali. Eles se estabeleceram lá e as companhias de terra começaram, com o tempo, a fazer pressão e a exigir que eles pagassem pela terra que haviam recebido do governo. E isso começou a gerar todo o atrito. O que se pode notar, no primeiro governo do Lupion, é que se acentua e começa todo um processo de pressão sobre os colonos, para que eles reconhecessem os títulos das companhias de terra e pagassem pela terra que já haviam comprado do governo. Essa é a característica do primeiro período do governo do Lupion. Isso chega a um determinado ponto de tensão social, com a presença até mesmo de capangas e de jagunços. Mas, com o governo do Bento Munhoz da Rocha, isso foi relativamente amainado. O Munhoz da Rocha impediu que essa proliferação de títulos e de vendas e negociatas continuassem. Mas, com o segundo governo do Lupion, isso voltou, e voltou com uma velocidade, com uma força muito maior. E foi aí que, realmente, a tensão social naquele local se tornou explosiva. A questão era a população que lá estava estabelecida, que eram esses descendentes de gaúchos e catarinenses, contra os interesses das companhias.

 

José Wille – Companhias que tinham jagunços.

 

Roberto Gomes – Sim. E essas companhias, de início, armaram-se, como acontece nesses casos, só de advogados. Como não era possível impor isso à população, elas começaram a se armar propriamente com jagunços, com verdadeiros exércitos de jagunços. Elas conseguiam, por exemplo, em São Paulo, na Bahia, aqui mesmo, libertar pessoas que estavam em presídios, grupos de sujeitos, assassinos e tal, e levavam para lá. Criaram esse exército de jagunços, que cometiam barbaridades terríveis, crueldades monstruosas, espancando gente, matando gente etc. Eles eram a tropa de pressão, mas é claro que essas companhias contavam com o apoio de políticos e, às vezes, de juízes, de delegados, que estavam comprometidos com essas companhias.

 

José Wille – E como começou a revolta?

 

Roberto Gomes – Uma das dificuldades de se escrever sobre história recente é que os personagens estão, na sua maior parte, vivos. Não quero que ninguém morra, mas é que isso constitui um problema, porque, estando vivos, todos eles, cada um deles tem a sua versão. Então, aquele que era o líder de uma determinada cidade, prefeito da cidade, ou era vereador aqui ou comerciante lá, ou era médico não sei onde, proprietário de terra todos eles têm a sua versão. O que eu notei é que essas versões não são propriamente falsas, mas elas também não são verdadeiras. Elas são parcialmente falsas e parcialmente verdadeiras. Então, o meu romance não tem um personagem principal, ele tem uma quantidade muito grande de personagens, para justamente tentar fazer a história de uma região. Uma região de pessoas muito diferentes e colocadas em diferentes níveis sociais, com atuações de natureza diferente. Então, você vê que tem importância, às vezes, uma figura notável, como, por exemplo, Pedrinho Barbeiro, que é um caboclo, um vereador, cujo projeto era fazer um grande abaixo-assinado na região e levar esse projeto pessoalmente ao Juscelino Kubitschek, pois achava que o Juscelino ia pôr ordem naquela situação…

 

José Wille –  …que era o presidente da época…

 

Roberto Gomes – …Presidente da época. Ele ia viajar ao Rio de Janeiro, levando esse abaixo-assinado. Outros se organizaram de outra forma. Havia lideranças, como Walter Pécoits, que era um médico; o Giacomo Trento, que era um comerciante; e outros que atuaram e foram importantes ali. Procuro contar o conjunto dessa história, em que há muitas verdades e elas se complementam. A violência social cresceu de tal forma que chegou num ponto explosivo. Esse ponto explosivo tem três momentos, imagino eu, que aparecem no romance. Primeiro, é o assassinato do Pedrinho Barbeiro. É um fato chocante, e eu começo o livro com ele. Pedrinho Barbeiro foi assassinado brutalmente, quando estava consertando o rancho, a casa onde ele vivia com os seus filhos e a mulher. Isso ocasionou um impacto muito grande. Depois, também, o fato de que um cidadão, num determinado momento, queria fazer um protesto na frente das companhias de terra, mas o advertiram “Não vá lá que está cheio de jagunços com metralhadoras. Se você for lá, eles te fuzilam!”. E aquele grupo, vai, não vai, uns ficaram com medo, recuaram, outros disseram que iam, mas não iam. E, de repente, como era setembro, era Semana da Pátria, ele viu a bandeira do Brasil. Resolveu pegar a bandeira e embrulhar-se nela, saindo em direção à companhia de terra onde estavam os jagunços, porque, segundo ele, se estivesse embrulhado na bandeira do Brasil, ninguém teria coragem de atirar nele. E ele foi morto com várias rajadas de metralhadora. Isso foi também uma coisa de muito impacto. E, finalmente, duas crianças que foram espancadas pelos jagunços. Então, temos uma região inteira que foi atingida e o movimento de 1957 não começa em nenhum lugar do Sudoeste; ele começa em todos os lugares. Quer dizer, a morte do Pedrinho Barbeiro se dá no Verê, em um lugar; esse cidadão que se embrulhou na bandeira, num outro lugar; as crianças, num outro lugar. Aí, a explosão da revolta se dá também em vários lugares ao mesmo tempo no Sudoeste. E o interessante é que o movimento é social. Às vezes, os líderes, os supostos líderes, os políticos, acham que eles conduzem a história, eles fazem história. Mas o Sudoeste é um exemplo de que ninguém faz a história. Todos eles participaram, todos eles tiveram papel importante naquela história. Mas nenhum deles é dono da história, nem da verdade histórica eles foram parte daquela história, que é muito maior do que eles. É um exemplo muito interessante disso.

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José Wille – É um dos poucos casos em que um movimento como esse acaba tendo resultado no final?

 

Roberto Gomes – Acho que eles se uniram porque a grande preocupação, a grande exigência do movimento é que eles queriam, naturalmente, obter uma titulação correta das terras, ter uma titulação definitiva. Mas também queriam se livrar das companhias e queriam se livrar do exército de jagunços. Essa era a meta deles. E, para isso, eles acabaram sendo conduzidos por toda essa dinâmica da revolta, acabaram sendo conduzidos a uma revolta armada. E o interessante é isso que você lembrou: não conheço outro caso na história do Brasil em que tenha acontecido isso, que uma revolta armada de colonos tenha tido êxito. Então, todas as revoltas que conhecemos, em primeiro lugar, tiveram uma mistura maior ou menor de messianismo: Canudos, Contestado, os Muckers do Rio Grande do Sul, uma mistura com religiosidade… Ou, então, uma mistura com partidarismo, partidos… Isso não aconteceu no Sudoeste. O problema no Sudoeste era social e não havia nenhuma preocupação messiânica, religiosa, e eu diria que nem mesmo ideológica. Eles queriam uma coisa muito simples, queriam a terra, que era deles, o título da terra. E queriam que as companhias e os jagunços caíssem fora.

 

José Wille – E como eles conseguiram se articular e acabaram dominando a região, tendo o reconhecimento do governo?

 

Roberto Gomes – Eles tomaram a região de uma forma caótica, eu diria, mas que, justamente por isso, acabou sendo eficiente: em vários lugares, eles tomaram a prefeitura, a casa do juiz, os órgãos públicos. Bloquearam pontes, bloquearam estradas, prenderam alguns jagunços. O Giacomo Trento prendeu o Maringá, por exemplo, que era um jagunço feroz, que matou uma montoeira de gente. Eles fizeram, primeiro, esse movimento. O Walter Pécoits, em Francisco Beltrão, prendeu o delegado, soltou os que estavam presos na cadeia e botou o juiz em casa e o delegado no hospital. Esse era o movimento que aconteceu. E esse movimento todo teve uma repercussão, um impacto nacional muito grande.

 

José Wille – Eles acabaram, inclusive, destruindo a documentação das colonizadoras, que dizia de quem era a terra. Eles acabaram destruindo as provas de quem tinha propriedade.

 

Roberto Gomes – Isso quando eles chegaram ao final do movimento. O objetivo deles era esse. Mas, para eles chegarem lá, o movimento teve uma tal repercussão nacional que o Lupion teve que mandar seu chefe de polícia, que tinha resolvido um conflito em Foz do Iguaçu e foi para lá tentar resolver o conflito do Sudoeste. E ele chegou com um propósito mais ou menos assim “Eu vou lá resolver essa majorca” – chamava de majorca. Essa era a pretensão dele. Ele chegou de avião em Francisco Beltrão e os colonos que haviam tomado posse da cidade limparam o aeroporto e deixaram-no descer. Quando ele desceu, mandaram o avião voltar e prenderam o chefe de polícia do Lupion. Disseram-lhe que ele estava preso e que eles só iam soltá-lo na hora em que as companhias fossem mandadas embora, junto com seus jagunços. E que não tinha conversa. O Lupion insistiu, mandou telegrama e tal, mas eles disseram “Não tem conversa, ele está preso e acabou-se!”. E isso forçou a que eles tivessem que atender a várias reivindicações em vários lugares no Sudoeste. Uma delas foi a designação do Walter Pécoits como delegado da cidade, o responsável pela cidade. Até que, finalmente, o governo do estado, pressionado, teve que ordenar a saída das companhias. E elas saíram. Todas as companhias, os diretores das companhias e todos os jagunços saíram do Sudoeste numa caravana de jipes e caminhõezinhos. Foi aí a vitória. Nesse momento da vitória, a grande festa do dia 10 de outubro de 1957, foi quando eles entraram em todos os escritórios das companhias. Como o homem do interior é muito objetivo, para ele, o que o escravizava era a promissória que ele tinha sido obrigado a assinar, às vezes sob ameaça de espancamento, aqueles contratos absurdos. Eles queriam encontrar esses contratos e rasgá-los. Entraram nas companhias, tiraram tudo que tinha lá dentro, rasgaram os papéis e os jogaram na rua. Nesse dia, choveu muito, então virou uma lama de papel e barro. E eles, dessa forma, comemoraram a derrubada das companhias.

 

José Wille – Mas foi o encaminhamento para a solução, pois foi só no governo João Goulart, anos depois, que terminou essa questão.

 

Roberto Gomes – Em 1962 é que realmente se vai, de uma forma legal, definitiva, dar uma organização a todas essas reivindicações e resolver a questão da titulação das terras. Entre 1957 e 1962, houve um período de acomodação, mas a vitória foi conquistada realmente em 1957.

 

José Wille – Um livro de ficção dá liberdade maior para se tratar do assunto. Tem essa complexidade de contar a história, mas que não é fiel ao registro por exemplo, o nome das pessoas e esses detalhes.

 

Roberto Gomes – O grande atrativo dessa história é que ela é uma história essencialmente épica. Digo que é um épico caboclo. É uma história épica, com personagens extremamente fortes, como, por exemplo, os jagunços, personagens que sempre causam um impacto muito grande. A mim, causava uma atração grande entender como era esse homem contratado para matar, matar friamente, mas também como era o pioneiro, a pessoa que sai do Rio Grande do Sul, andando em carroças desconfortáveis, às vezes puxadas por boi, que vinha com crianças e velhos para se estabelecer aqui. Quer dizer, vinham em busca de um sonho. Tanto que a primeira parte do livro é “o paraíso”, a busca pelo paraíso. Esse aspecto épico da história, que é o grande atrativo, foi o que me atraiu muito. Acho que esse é um momento grandioso. E que, na nossa história, nós nem sempre valorizamos suficientemente esse lado heroico, esse lado épico dos acontecimentos.

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José Wille – Para finalizar, o senhor acha que a literatura paranaense ainda está sendo construída e ainda descreve pouco daquilo que aconteceu na história da ocupação do Paraná?

 

Roberto Gomes – O que eu acho é que a história está à disposição, está pedindo para ser narrada, está aí para ser transformada em literatura, uma série de fatos, uma série de personagens, uma série de acontecimentos que ainda não foram abordados pela literatura paranaense. Claro que precisamos continuar com essa literatura ótima que fazemos, que é a literatura urbana, que vem de Dalton e na qual hoje existem várias pessoas atuando. Quer dizer, precisamos fazer essa literatura urbana como ela é feita, porque isso também é o Paraná. Mas existe uma série de possibilidades temáticas e formais que merece ser explorada e eu acho que elas estão começando a ocupar a imaginação de certas pessoas que estão escrevendo.

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