Uma conversa com Poty Lazzarotto

poty 3

 

.

.

.

.

Napoleon Potyguara Lazzarotto (1924-1998), ou simplesmente Poty Lazzarotto, foi o mais importante pintor, ilustrador e muralista curitibano. Estudou litografia na École Supérieure des Beaux-Arts, em Paris, e deu aulas em escolas de arte na Bahia, Recife e Curitiba. Ilustrou livros de Jorge Amado, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, Machado de Assis, Guimarães Rosa e Gilberto Freire. É autor de várias obras de exposição pública em Curitiba, principalmente murais. Fez também os murais da Casa do Brasil, em Paris (1950), e o painel para o Memorial da América Latina, em São Paulo (1988). Esta entrevista foi gravada em fevereiro de 1998, pouco tempo antes da morte de Poty.

OBS: Poty falava pouco. Por isso, nesta entrevista tive que falar mais que o usual nas perguntas, para obter este depoimento. 

.

Clique aqui para encontrar outras postagens desta coluna no Paraná Portal.
José Wille

.

poty mural

.

 .

José Wille – Poty, qual é a origem da sua família?

Poty Lazzarotto – Italianos imigrantes. Vieram meus avôs paternos e maternos do Vêneto. E dali nasceram meu pai e uma porção de tios, que acabaram se estabelecendo em Curitiba, depois de uma passagem por Lapa e Marechal Mallet – de onde parece que era a minha mãe.

 

José Wille – E daí vieram para Curitiba?

 

Poty Lazzarotto – Sim. Meus dois avôs, que, na Itália, eram marceneiros, trabalhavam na estrada de ferro.

 

José Wille – E você nasceu em 1924, no bairro do Capanema.

 

Poty Lazzarotto – Em 29 de março, como Curitiba. Uma série de coincidências!

 

José Wille – Como era a infância naquela época, em uma Curitiba diferente, com chácaras?

.

poty divulgação 1

. 

Poty Lazzarotto – Dia e noite, havia o barulho de trens. Geralmente, um ou outro maquinista morava por perto. Então, aproveitava para diminuir a marcha e deixar as cestas e outras coisas que tinham para não carregar na volta para casa. E um cacho de banana ou outro.

 

José Wille – Seu pai sofreu um acidente em uma caçada, onde levou um tiro na cabeça. Como isso limitou a atividade dele como ferroviário, ficou mais em casa. Isso influiu na atenção que ele teve por você?

 

Poty Lazzarotto – Como era um sujeito muito ativo, passou a inventar coisas. Até uma fundição artística – acho, nem lembro, pois ele fazia tanta coisa. Ele tentou várias atividades, até que acabou bem-sucedido no ramo de restaurantes – uma atividade que nasceu por acaso, foi vivendo discretamente e terminou por acaso, embora tenha tido sucesso, pois os seus jantares eram sempre lotados.

 

José Wille – Esse restaurante, o Vagão do Armistício, começou informalmente no quintal da sua casa?

 

Poty Lazzarotto – Sim, nos fundos, ao ar livre, debaixo de um chorão. Pois o vagão mesmo, o rancho, o galpão, como eles chamavam, era uma estrebaria naquele tempo. E, com o crescer da freguesia, com um oficial trazendo outro, acabaram levando para lá o interventor Manoel Ribas, que também passou a levar secretários e convidados de fora. Era sossegado, fácil de conversar e foi crescendo. Em noites de enchentes, eles armavam uma espécie de ponte pênsil ali, pois elas atingiam o vagão. Este vagão meu irmão conservou nesses últimos 30 anos e, agora, refez tábua por tábua, com as mesas, tal como era. É uma prova de carinho. E vai ser aberto ao público para visitas, em um lugar que foi ponto quase obrigatório na época.

 

José Wille – Era o ponto de encontro político da cidade?

 

Poty Lazzarotto – Político e também dos artistas que vinham de fora e, geralmente, acabavam por ali. Procópio Ferreira e Linda Batista eram assíduos.

 

José Wille – O seu pai em casa influiu no estímulo para o desenho?

 

Poty Lazzarotto – Sim, claro! Primeiro, eu comecei a devastar as revistas “Eu Sei Tudo” dele, pintando bigode e pernas onde tinha uma simples fotografia de um rosto. E, naturalmente, ele se irritou e passou a me comprar cadernos para desenho baratinhos. Eu tenho alguns até hoje. E assim fui me desenvolvendo.

 

José Wille – Essa coleção de revistas pode ter sido um estímulo para você gostar de ilustração?

 

Poty Lazzarotto – Sem dúvida, pois me forçou a aprender a ler. Aos 5 anos, eu já lia correntemente. Eu queria saber o que diziam aquelas figuras. Para mim, tudo se passava ao mesmo tempo, romanos e gangsteres americanos. Para mim, era um universo só e vivo.

 

José Wille – E você tentava reproduzir isso através de desenhos?

 

Poty Lazzarotto – Sim. O cinema me estimulava – desenhava, no dia seguinte, as cenas de que eu mais tinha gostado – a guardar de recordação um desenho daquilo.

 

José Wille – Não existia ainda nem o Cine Morgenau, em seu bairro. As exibições eram, então, no Salão Morgenau?

 

Poty Lazzarotto – Sim, o do clube. Chamava-se Sociedade dos Velhos aquele clube. Chamavam, não – apelidaram. Já era a Sociedade Morgenau. Nos primeiros espetáculos, eu era levado no colo de duas primas gêmeas, supostamente para a proteção dos gabirus, que eu nem sabia quem eram. Eu me interessava pelo filme!

 

José Wille – É verdade que você foi posto para fora do Cine Morgenau, por fazer bagunça no cinema?

 

Poty Lazzarotto – Bom, eu fazia coro com os outros. Sempre fui o Tiradentes da história. A turma calava a boca e eu continuava.

 

José Wille – As crianças faziam o som dos filmes, que ainda eram mudos?

 

Poty Lazzarotto – Sim, fazíamos o ruído dos tiros, o trote dos cavalos…

 

José Wille – E você carregava as latas de filme para ganhar o ingresso.

 

Poty Lazzarotto – A gente ia ao Cinema Palácio e trazia os filmes ao Morgenau. No Cinema Palácio, tinha um surdo-mudo que adaptava os cartazes dos filmes americanos ou alemães. Naquele tempo, tinha muito filme alemão. E eu tinha uma inveja desgraçada, porque o mudinho pintava, acentuava um bigode… Aquele cartaz ia para a frente do cinema e a turma parava para olhar.

 

José Wille – E seu pai, quando percebeu que você tinha esse talento, dedicou-se a estimulá-lo ainda mais?

 

Poty Lazzarotto – Como ele já tinha me dado esses dois nomes – Napoleon e Potyguara – na hora de ir para o Rio, ele estava meio recalcitrante. Mesmo que fosse escola militar e ter um futuro garantido, não topei, não. Não tenho nenhum talento para matemática e nem seria um bom soldado.

 

José Wille – Mas você chegou a servir o Exército?

 

Poty Lazzarotto – Não. Era para alterar quadros. Eu era chamado de esclarecedor-observador, aquele cara que reduz e põe ali. Era um grupo de 4 ou 5, mas tinha que ser um ditando para outro. Eu perdia a paciência e fazia o trabalho dos 5 em metade do tempo. Fui classificado de mau soldado. A base do Exército era disciplina e não dava lugar para um camarada como eu. Nunca cometi nenhum ato de indisciplina, mas eles sabiam que eu não ia dar para a coisa.

 

José Wille – Você não gostava de Matemática.

 

Poty Lazzarotto – Para passar de ano, era totalmente diferente o processo. No fim do ano, ele perguntou “O que você sabe?”. E eu “Nada, professor”. E ele “Ah, diga alguma coisa, finja!” e me dava o mínimo para passar. Era um sujeito compreensivo. Pudera, tocava violino e era um gênio em mais não sei o que aí.

 

José Wille – O seu pai tentou várias atividades diferentes. Entre elas, começou a trabalhar numa fundição do alumínio com a reprodução de algumas obras. Isso também deve ter marcado…

 

Poty Lazzarotto – Muita coisa eu usei bem mais tarde, no negócio de fundição de concreto, fazendo os moldes. Eu sei mais ou menos a arte da fundição. É uma coisa que você aprende e guarda na cabeça.

 

José Wille – E sobre o seu nome todo, Napoleon Potyguara Lazzarotto?

 

Poty Lazzarotto – Napolèon do francês, com acento grave. Na Córsega, conta a historinha que Napoleão não deu tempo da mãe, Letícia, sair da missa e chegar em casa. Foi se manifestando na rua e ela acabou dando à luz em uma salinha antes da escada do quarto. Eu visitei esta casa. O pai, naturalmente como bom corso, estava tomando vinho, chegou e berrou para ele logo na entrada: “napoleone” – quer dizer, fazedor de confusão. Quando ele foi batizar o filho, confirmou que era um Napoleone mesmo. Bagunceiro, criador de caso, e deu no que deu.

 

José Wille – E o seu pai, que era um leitor interessado em história e também admirava o militar nordestino Potyguara, acabou juntando os dois e lhe dando esses nomes?

 

Poty Lazzarotto – Foi. E o impedi de chamar meu outro irmão de Nelson. Afinal, Nelson tinha botado a esquadra de Napoleão a pique.

 

José Wille – Você teve muita ligação também com as histórias em quadrinhos. Até chegou a criar um personagem, Haroldo – o Homem-Relâmpago.

 

Poty Lazzarotto – Foi uma fase, porque o “Diário da Tarde” queria expandir a sua rede distribuidora. E teve a ideia de mandar os jornais para os bairros antes de distribuí-los na cidade. Um dia, apareceram lá em casa o Raul Gomes e o Estílio Araújo. Enquanto eles conversavam com meu pai sobre a possibilidade de montar a tal distribuidora, viram meus desenhos. Imediatamente, levaram com eles uma história em capítulos que eu tinha, Haroldo, o Homem-Relâmpago, ou uma coisa dessas, de influência americana – é claro – menos o desenho, que eu adaptei para uma história no Passeio Público, na rua Dr. Muricy. O nome do personagem era Haroldo, o Homem-Relâmpago, e Hal era seu apelido. Mas, em um par de anos, eu esqueci do desenho. Continuava em casa, ilustrando livros e coisas que me apareciam, como Edgar Poe, Cervantes, esses autores mais acessíveis na época. Pois não era como hoje em dia – você vai à banca de jornal e tem tudo isso. Aí, o interventor Manoel Ribas apareceu lá numa tarde e, simplesmente, uns quinze dias depois, me “deportou” para o Rio de Janeiro.

 

José Wille – Como interventor do estado ele ajudou em sua ida para o Rio de Janeiro?

 

Poty Lazzarotto – Na verdade, ele me mandou ao Rio de Janeiro para fazer exame de admissão, como qualquer mortal. Fui e passei. E, fazendo contato com gente nova, fui me acostumando com o Rio, apesar da primeira reação.

 

José Wille – Ir para o Rio de Janeiro, naquele tempo, era uma aventura?

 

Poty Lazzarotto – Durava dezoito horas uma viagem de ônibus daqui a São Paulo. Dormia lá e, depois, mais um dia inteiro de trem para chegar ao Rio. O Ribas não teve dúvidas: me mandou a passagem em um ônibus que, naquele tempo, saía da Praça Tiradentes. Não tinha ainda rodoviária.

 

José Wille – Houve um jornal que publicou as suas primeiras histórias em quadrinhos. Até o classificou como Poty, o Menino-Prodígio.

 

Tinha treze anos, eu acho. Bem, um ano a mais, um ano a menos… Eu frequentava a Escola de Belas-Artes, mas não cheguei a ser inscrito. Eu frequentava aula de tarde para ver se tinha jeito. Foi ainda aqui em Curitiba, no local onde é hoje o Pronto-Socorro Cajuru. Era uma casinha… O mesmo professor de sapataria era violinista na orquestrinha do Morgenau.  E tinha uma partitura dele para o trote de cavalo!

 

José Wille – Como era o Capanema daquela época?

 

Poty Lazzarotto – Era um deserto! Automóvel se via quando buzinava ali pela João Negrão.

 

José Wille – E essa Curitiba aparece muito no seu trabalho posterior, nos murais, nos desenhos…

 

Poty Lazzarotto – Claro! Eu guardo alguma lembrancinha para os outros também!

 

José Wille – Como foi sua adaptação, com pouca idade, no Rio de Janeiro?

 

Poty Lazzarotto – Cheguei lá e fui me adaptando. Não tinha conhecidos. Tinha o Chico Alves, que é o príncipe dos poetas paranaenses. Era uma espécie de cônsul paranaense no Rio.

 

José Wille – E você não voltava para Curitiba a não ser em período de férias.

 

Poty Lazzarotto – Foi um ponto de honra para mim. Porque o sujeito vai para lá e fracassa por fraqueza, por moleza, por saudade dos amigos e da família e, quando chega aqui, ele se desmoraliza. Dizem “Esse cara foi para o Rio para quê?”.

 

José Wille – Era uma oportunidade importante, mas também uma mudança brusca no seu cotidiano. Foi um momento difícil?

 

Poty Lazzarotto – Foi, mas poderia ter sido pior. Porque, em função da guerra, poderia ser mandado direto para a França ou para a Itália, como foram vários outros – De Bona, Turin…

 

José Wille – Que impressão você teve do Rio de Janeiro, quando chegou lá?

 

Poty Lazzarotto – Fincar pé lá! Fincar pé, de algum jeito! Tinha que ser!

 

José Wille – Como era a sua rotina na escola?

 

Poty Lazzarotto – De manhã e de tarde. Eu tive a sorte de arrumar uma pensão a duas quadras da escola. Mas era pensão – todo o dia a mesma comidinha e tal. Até me libertar de pensões, demorou uns três ou quatro anos.

 

José Wille – Quando começou a atividade profissional?

 

Poty Lazzarotto – Conheci o Augusto Rodrigues, que era caricaturista no jornal que Samuel Wainer dirigia, e Valdemar Cavalcanti era o editor do suplemento literário dos domingos. Acabei ilustrando para uns três, quatro suplementos literários no Rio.

 

José Wille – Inicialmente, foram ilustrações para jornais, até mesmo com ilustrações policiais?

 

Poty Lazzarotto – Sim. Para cavar um “cobrinho” a mais…

 

José Wille – O repórter dava para você um roteiro do que tinha sido notícia – o crime – e você desenvolvia?

 

Poty Lazzarotto – Ele chegava esbaforido, pois tinha que entregar a matéria dele e dizia “Hoje, de bom, tem só a cabeça do fulano esmagada por bonde”, coisas assim… Trilho de bonde, bonde passando por cima da cabeça do sujeito… Sadismo, não? E a meu modo, eu ia “mandando brasa” e ganhando experiência.

 

José Wille – Pouco tempo depois, vieram o primeiro livro para ilustrar e a primeira exposição. Foi possível começar a carreira?

 

Poty Lazzarotto – Essa exposição frequentaram José Lins do Rego, os intelectuais que se reuniam naquele tempo no Café Gaúcho, os Acadêmicos, o Vermelhinho, os mais modernos… E a bola foi crescendo normalmente, sem pressa. Aí, veio a bolsa de estudos na França. Fiquei lá, acho que um ano e meio, na Escola de Belas-Artes. Daí, sobraram uns “cobrinhos” para viajar pela Itália e Espanha. Depois, voltei para lá várias vezes, já casado. E minha mulher dirigiu durante um tempo a Casa do Brasil em Paris.

 

José Wille – Você é conhecido também como uma pessoa um pouco retraída.

 

Poty Lazzarotto – Eu não sou retraído. É que não tenho presença de espírito.

 

José Wille – Como isso teve influência na sua carreira? Você frequentava os locais onde estavam os escritores?

 

Poty Lazzarotto – Não, isso não! Porque, para mim, passou de três pessoas, já é comício. E eu prefiro ouvir um ou dois!

 

José Wille – Mas italiano é de falar bastante.

 

Poty Lazzarotto – Eu suponho que sejam os mais do sul que falem, não? Pois, no norte, tem montanha e tudo… O povo montanhês é um pouco mais reservado. Como o mineiro aqui no Brasil. Quem conheceu um baiano e um paranaense, acha a mesma coisa, não é?

 

José Wille – E o curitibano, que já não é de falar muito, chegando ao Rio – como foi o contato com os cariocas, que têm um temperamento bem diferente?

 

Poty Lazzarotto – Eu tinha que me defender, não? E era calar a boca, porque eu não estava a par de metade do que se passava no resto do Brasil.

 

José Wille – Mas sua forma de expressão, que era o desenho, compensava a dificuldade de comunicação?

 

Poty Lazzarotto – Em parte, sim!

 

José Wille – A ajuda que o interventor Manoel Ribas lhe deu prolongou-se depois. Ele o ajudou também na sua permanência e nos estudos no Rio de Janeiro?

 

Poty Lazzarotto – Foi uma figura capital na minha vida! Ele pagou ao Lupion e acho que continuou pagando enquanto eu completava o curso lá.

 

José Wille – O fato de você ter permanecido no Rio foi fundamental, principalmente para a sua projeção nacional.

 

Poty Lazzarotto – Exato. Fui pegando, digamos, cancha.

 

José Wille – Quanto ao trabalho de ilustração, você acha que uma escola importante foi o trabalho nos jornais?

 

Poty Lazzarotto – Muito, muito! Foi um preparativo, um ensaio, para, depois, ilustrar livros para valer.

 

José Wille – O Dalton Trevisan foi um dos primeiros autores que você ilustrou. Mas, na época, ele não era tão conhecido.

 

Poty Lazzarotto – Foi em 1946. Eram os primeiros folhetins que ele distribuía e, depois, a revista “Joaquim”.

 

José Wille – Como surgiu a expansão e valorização do seu trabalho, até se tornar um ilustrador dos grandes autores brasileiros?

 

Poty Lazzarotto – Eu não sei. Eu atribuo a uma porção de coisas. Talvez a mais importante delas (ou menos) é que tinha a superstição de que o escritor para quem eu fizesse a capa entrava para a Academia. E, realmente, foi uma porção de futuros acadêmicos que eu ilustrei. E eu gostava de conversar com o autor, quando possível. E eles iam lá para casa e passavam horas contando o livro. Eu preferia isto a lê-lo, pois pegava um outro entendimento da coisa. O Guimarães Rosa se tornou o caso mais conhecido, por ser ele quem se tornou e porque, antes de se tornar público o negócio do “Grande Sertão: Veredas” – de um dos heróis ser mulher e passar por homem – eu sabia uns dois meses antes, mas era um segredo de mafiosos. Ele sabia, eu e mais um ou dois leitores do Zé Olympio. Ele evitava que eu lesse o livro, os pontos principais onde tal coisa ia se entrosar com outra, dando-me a chave do livro todo. E nem precisava, pois era só a capa que eu ia fazer. Mas precisava para aqueles mapas – dois mapas que eu tive que refazer umas quatro vezes.

 

José Wille – Que estão na contracapa do livro?

 

Poty Lazzarotto – Na orelha, que tem dentro. Ele implicava com a estrela – se não estivesse na conjunção que ele queria, mandava cortar mais dois graus para cá, para lá.

 

José Wille – Tinha um pouco de misticismo nesses pedidos que ele fazia?

 

Poty Lazzarotto – Tinha. Eu só decifrei – quer dizer, acho que decifrei – quando saiu o “Magma”, 50 anos depois. Certos poemas correspondem a ilustrações que eu fiz na ocasião, sem saber o que eu estava desenhando. “Sagarana” é um livro com coisas que estão dentro de um círculo. Ele editou e nunca me explicou o por quê da coisa por exemplo, uma esfinge com três ursos pretos atrás. A esfinge mesmo não tem nada de esfinge. Agora, nesse poema “Magma”, descobri muita coisa – por exemplo, o casamento de um camarão com uma lagosta. Aí, dá para entender um pouco o que ele queria na ocasião. Ele estava gozando alguém sem querer nomeá-lo. Eu preferia conversar com o pessoal, e conversava mesmo. De outros, os falecidos como Machado de Assis, por exemplo eu procurava ler as críticas, comentários e tudo o que fosse possível sobre a obra.

 

José Wille – José de Alencar, Jorge Amado, Machado de Assis, Gilberto Freire, Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos, Darci Ribeiro são alguns dos autores de livros que você ilustrou.

 

Poty Lazzarotto – A-hã.

 

José Wille – Em 1948, você fez o mural da UNE. Foi seu primeiro mural?

 

Poty Lazzarotto – Aquilo não é mural. Aquilo foi uma brincadeira, pois, no tempo de greve de estudantes, reproduzi uma cena de “O Processo”, de Kafka.

 

José Wille – O Mural do Centenário, que você fez para o Paraná em 1953 começou um processo que teve prosseguimento nas décadas seguintes.

 

Poty Lazzarotto – Aquele foi o primeiro. Eu fiz o mural em São Paulo com o Rossi Osir, o ceramista do Portinari. No primeiro painel, você tem direito a dar mancada. Eu entreguei um projetinho desse tamanho para um projeto daquele. Hoje, estão todas tortas as bolas. Aprendi, então, que se deve fazer o primeiro croqui já ampliado, aí você corrige as coisas no lugar certo.

 

José Wille – Em uma longa fase, você fez desenhos para trabalhar no concreto. Mais tarde, você optou pela cerâmica.

 

Poty Lazzarotto – Mudou muito o negócio de concreto com o isopor. Esse do Guaíra eu fiz com uma serra-fita. Então, o cuidado maior era bancar o toureiro. Porque, na hora que arrebentava essa serra, que dava chicotada, você tinha que pular para baixo da mesa, ou alguma coisa do gênero, para escapar da serra.

 

José Wille – Era um trabalho braçal?

 

Poty Lazzarotto – De risco! O isopor, você faz em casa, com uma faca ou um objeto aquecido qualquer.

 

José Wille – Com o isopor servindo de molde para o concreto?

 

Poty Lazzarotto – Sim, servindo de molde. E a facilidade que você tem de manejá-lo…

 

José Wille – Desse trabalho no centenário do Paraná veio uma fase que não terminou mais.

 

Poty Lazzarotto – Fora o que não está inaugurado. O SESI, por exemplo, tem um painel encaixotado até agora.  

 

José Wille – O painel é uma forma do artista alcançar um público maior…

 

Poty Lazzarotto – É a minha inveja do surdo-mudo da minha infância que alcançava um publicão! Todo mundo parava para ver e elogiava o Tim McCoy, a figura dele em um cavalo espumando…

 

José Wille – O engajamento político na esquerda pelos  artistas era muito comum, principalmente na década de 60. Com a convivência grande com o meio artístico, você nunca teve esse perfil?

 

Poty Lazzarotto – Não. Eu tinha simpatia pelo mais fraco, simpatia pelo que apanhava, mas me engajar, não. Era uma coisa de que eu não estava convencido.

 

José Wille – Como era isso na convivência com os artistas, numa época em que as pessoas recebiam rótulos de serem de esquerda ou de direita?

 

Poty Lazzarotto – Eu era bem-visto, porque a maior parte de minhas obras, naquele tempo, eram só sobre operários, trabalhadores de estrada de ferro, pau d’água, mendigos. Essa parte era sincera. Mas me engajar no movimento e seguir A, B ou C não dava pé, não. Não estou convencido e pronto!

 

José Wille – Por que você resolveu doar toda a coleção de obras suas e de outros artistas para a Prefeitura de Curitiba?

 

Poty Lazzarotto – O pessoal cita generosidade, mas não é. É uma questão de segurança com as próprias obras. Você sabe que a vida não é lá muito longa. As obras e desenhos meus em papel eu não teria como guardar, pois acabam amassando, estragando. Eu não ia guardar aqui desenhos de Portinari, de Carybé, do pessoal amigo que eu tinha. Lá, é policiado, tem salas climatizadas…

 

José Wille – A sua esperança com a preservação dessas obras?

 

Poty Lazzarotto – Exatamente. Preservá-las, já que eu mesmo não podia de acordo com minha mulher e meus parentes, justiça seja feita.

José Wille – E era um conjunto de grande valor financeiro.

Poty Lazzarotto – Eu recusei ofertas que tentariam qualquer um que não fosse tão determinado. Mas o objetivo principal era esse: guardar, vigiar e restaurar os que precisassem. Os santos antigos foram para o Museu de Arte; pinturas e esculturas estão no Portão; fotografias foram para a Casa da Memória. A razão é essa: preservação.

 

José Wille – Até hoje, no seu trabalho, você mantém a velha caneta a nanquim.

 

Poty Lazzarotto – Sim. Tenho a impressão que a mão, diretamente na canetinha, transmite melhor uma emoção do que um computador ou uma coisa assim. Das novidades que existem, só adotei a fotocópia. Para continuar um desenho, se você errou uma coisa mínima, tira uma fotocópia e volta a desenhar. Para você ter uma ideia de como era o desenho.

 

José Wille – Você teve, nos últimos anos, na parceria com o artista plástico Adoaldo Lenzi, uma fase muito produtiva, criando muitos painéis que marcaram Curitiba.

 

Poty Lazzarotto – Eu atuei como uma espécie de autor da partitura; e o Lenzi, o maestro que a interpreta fielmente.

 

José Wille – Eram alguns painéis de grande porte, que deram um outro visual para Curitiba.

 

Poty Lazzarotto – Você consulta o povão, que opina melhor que eu…

 

José Wille – E o uso da cor nestes painéis pois, anteriormente, você não trabalhava com a cor quando surgiu?

 

Poty Lazzarotto – Normalmente, eu já punha as aguadas de sépia e azul. Mas a cor nem sei, foi aparecendo normalmente…

 

José Wille – Mas não era normal nos seus trabalhos.

 

Poty Lazzarotto – Eu trabalhava muito em gravura, que é preto e branco. No minuto em que deixei um pouco de lado a gravura, passei a desenhar no papel. Não funcionava tão bem quanto a gravura. Como eu tinha o curso de pintura e sabia teoria de cores, estava mais ou menos a par…

 

José Wille – Poty, depois desse tempo todo, com essa carreira, com o nome conhecido no Brasil, sendo considerado o maior ilustrador brasileiro, como foi o seu retorno a Curitiba?

 

Poty Lazzarotto – Os elefantes voltam no meio do caminho. Achei que já era hora de sossegar e me dedicar um pouco mais às coisas minhas mesmo.

 

José Wille – Você disse que as pessoas se encontravam mais; hoje, no entanto, há um isolamento muito grande.

 

Poty Lazzarotto – Sem dúvida! Mesmo no Rio não havia mais muitos motivos para ficar lá. Os amigos mais chegados foram morrendo. Tem um ou dois que estão na mesma faixa minha. Aposentados ou imigrados. E eu disse “Vou ver se me dedico um pouquinho mais às coisas de lá”.

 

José Wille – Numa dessas visitas a Curitiba, você foi rever sua velha casa no Capanema e caiu do sótão?

 

Poty Lazzarotto – Pois é… Tinham tirado o assoalho e só tinha sobrado uma pranchazinha de compensado. E eu pisei, no maior conforto, nessa coisa e caí de costas. O que me salvou foi o próprio compensado, que serviu como uma espécie de paraquedas, e eu não aterrissei com tanta violência no chão!

 

José Wille – Mas foi para o hospital e se recuperou?

 

Poty Lazzarotto – Sessenta dias de gesso. Driblei as coceiras, pois eu me coçava por cima do gesso e fazia de conta que tinha passado a coceira lá por baixo.

 

José Wille – Como foi, nesse retorno, rever a arte paranaense?

 

Poty Lazzarotto – Nem aconteceu tanta coisa, pois ainda não saí daqui, desses dois apartamentos.

 

José Wille – Viver de arte seu pai já tinha essa preocupação, pois queria até que você tivesse uma carreira militar. Ele acreditava que não seria possível viver de arte.

 

Poty Lazzarotto – Naquele tempo, começavam a aparecer romances como “A Vida Trágica de Van Gogh”. Os próprios artistas daqui não primavam pela fama de sóbrios. Pelo contrário! O artista vivia bêbado por aí, sem dinheiro, barbado. Sobretudo, existe um preconceito contra barba! Se me visse com isso hoje, meu pai se mexia lá no túmulo!

 

José Wille – Ele chegou a acompanhar boa parte da sua carreira. Você acha que ele esperava tanto daquele menino que desenhava em casa?

 

Poty Lazzarotto – Ah, ele tinha mudado de ideia já. Artista não era o terror que ele pensava, não.

 

José Wille – Mesmo com problemas de saúde, com dificuldades, você tem trabalhado diariamente aqui na sua casa. Tem muito o que fazer?

 

Poty Lazzarotto – Eu acordo às sete ou às oito, chega a cozinheira, que me arruma o almoço, mantém a casa limpa… Enfim, é uma secretária de primeira.

 

José Wille – Aqui você recebe muitos pedidos de painéis e murais para empresas?

 

Poty Lazzarotto – Recebo. Geralmente, elas oferecem um brinde ou um desenho. Eles também encomendam painéis e coisas assim, como a Bosch, por exemplo, na Cidade Industrial. O do aeroporto foi a Incepa que ofereceu.

 

José Wille – Então, você tem bastante trabalho para se manter ocupado diariamente?

 

Poty Lazzarotto – Tenho. Dá para esquecer as outras coisinhas…

.

poty traço

.

.

.