Valêncio Xavier marcou a história da televisão e da cultura paranaense

valêncio xavier - livre opinião - Valêncio Xavier - 2001 Foto Marcelino Freire

 

 

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Foto de Marcelino Freire em 2001.

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Um nome reconhecido da literatura experimental brasileira, Valêncio Xavier Niculitcheff ( 1933 – 2008 ) foi autor de livros e um grande número de narrativas em jornais e revistas. Atuou também como consultor de imagem em cinema, roteirista e diretor de TV. Participou ativamente da cultura e da história da televisão no Paraná. Esta entrevista foi gravada em novembro de 1997 para o Projeto Memória Paranaense original, da Rádio CBN Curitiba e Inepar.

 

 

 

José Wille –  O nome Valêncio Xavier Niculitcheff é de origem russa. Seu pai veio de lá?

Valêncio Xavier – De origem russa. É, a culpa não é minha, é dele. Por volta de 1920, na revolução, meu pai era do Exército Branco. Eles ficaram aprisionados em uma cidade portuária e, para fugir da revolução, pegaram um navio que foi para Paris. Lá, ficou um tempo e, depois, veio para cá.

José Wille – Como nasceu a sua ligação com a cultura, na Curitiba da década de 50?

Valêncio Xavier – Naquela época, eu era boêmio, bebia, me drogava, esse tipo de coisas. E Curitiba era uma cidade formidável, não era essa cidade oficial, chata de hoje. Era uma cidade mágica e eu conheci, entre outros, o Marcel Ferreira Leite, que era um dos grandes desenhistas do Brasil. Como eu desenhava, tinha que conhecer as pessoas, me envolver de certa maneira. Mas eu estava mais preocupado em tomar minhas biritas, que, para mim, era mais importante na época.

José Wille – E você cursava Belas-Artes?

Valêncio Xavier – Sim, e trabalhava como desenhista, fazia desenho publicitário, isso e aquilo, pintava placas…

José Wille – Por que você tem essa boa imagem da cidade na década de 1950?

Valêncio Xavier – É difícil explicar, porque, hoje, Curitiba é uma cidade muito chata, muito oficial, onde tudo é feito com o estribo do estado. Há poucos dias, uma amiga minha que é poeta mudou-se de São Paulo para cá e me contou que marcou uma reunião com os poetas daqui para conversar. Disse-me que a conversa de todos os daqui era “Como a gente vai arrumar dinheiro para fazer um livro e não sei o que lá”. E ela se mandou! Então, há um oficialismo em Curitiba que é muito chato. Tudo, de alguma maneira, está atrelado aos governos.

José Wille – Você acha que a produção cultural é muito dependente de verbas oficiais?

Valêncio Xavier – Isso é uma herança da ditadura militar, de um modo geral, para todos os artistas. Os produtores culturais só fazem algo se tiverem algum apoio atrelado ao estado. Curitiba tem mais pintores, mais fotógrafos, mais artistas de grupos teatrais do que habitantes, e todos, de um modo geral, só fazem as coisas quando têm qualquer apoio oficial. Eu me lembro que, no tempo da Cinemateca, eu tinha uma pequena verba. E tinha uma câmera, uma moviola, que hoje está tudo quebrado, mas eu falei para os frequentadores “Olha, se alguém quiser fazer um filme, só me apareça com um projeto. Dinheiro não tem, mas posso dar câmera, filme…”. E ninguém apresentou projeto! Se eu tivesse dito “Eu quero que vocês façam um filme sobre o grande Valêncio Xavier”, eles até pagariam para fazê-lo!

José Wille – Você acha que os nossos meios culturais, então, se acostumaram ao financiamento governamental e ficaram muito dependentes?

Valêncio Xavier – Não é tanto de financiamento, mas de dependência de ideias. Isso foi uma das grandes mazelas que a ditadura militar deixou. Os milicos não ficaram 20 anos aqui em vão. E também, por essa razão, hoje, no Brasil, as pessoas, de modo geral, não pensam com as suas próprias cabeças pensam por palavras de ordem, por chavões. Parece que ninguém pensa. Então, tem que estar atrelado a alguma coisa, nem que seja a um partido político qualquer para existir. Eu, como nunca fui um cara assim, não sou funcionário público…

José Wille – Você não tinha engajamento ideológico partidário

Valêncio Xavier – Engajamento ideológico todo mundo tem, porque, queira ou não, estaria mentindo quem diz que não tem. Todos nós temos, é óbvio. Mas engajamento político é outra coisa. Você pode ter um engajamento ideológico e não ter um engajamento político. Assim como você pode ter um sentimento religioso e não ser ligado a nenhuma igreja.

José Wille – Como, no final da década de 50, você foi parar em Paris, onde ficou por algum tempo?

Valêncio Xavier – Fiquei um ano lá. Fui para curar uma dor de cotovelo. Eu estava morando no Rio nesta época não lembro mais das razões por que me mudei para lá e trabalhava como diagramador na revista Manchete, fazia outros serviços e, para curar a tal dor de cotovelo, fui para a França. Eu tenho a pretensão de entender um pouco de fotografia, tanto que em meus filmes sou sempre eu quem armo o enquadramento, dou a luz etc. Então, na França, fui trabalhar fazendo reprodução de quadros, de obras de arte, primeiro para o Hans Arp, grande mestre dadaísta. Depois, trabalhei na galeria Denise René, que era, na época, a galeria mais importante na efervescência da arte moderna em Paris, com Tinguely, Vasarely… Como eu trabalhava por serviço, no período do mês de agosto, quando para tudo na França, fui colher uvas no Sul. Mas eu prefiro vinhos gregos e corvos italianos. E o telespectador que quiser fazer uma gentileza para mim pode me mandar vinhos gregos, italianos, que são de meu agrado. Vinho nacional, nem amarrado, por favor! Depois, voltei para o Brasil, porque me encheu.

José Wille – Você veio para cá bem no começo da televisão no Paraná. Pegou o início do Canal 6, na TV Paraná.

Valêncio Xavier – Exato. Em 1960, quando foi criado o Canal 6, já existia o Canal 12. Entrou no ar naquele mesmo ano se não me engano, em 19 de dezembro o Canal 6, que era do grupo dos Diários Associados, do Chateaubriand. O Salomão Scliar, grande fotógrafo e diretor de cinema, foi contratado para fazer um filme que abriria o Canal 6. Foi realmente assim: depois do bispo benzê-lo, projetou-se este filme.

José Wille – E você trabalhou na produção?

Valêncio Xavier – Na filmografia que o próprio Salomão fez antes de morrer, ele disse que eu codirigi o filme. Engano dele: eu fiz assistência de direção e montei o filme. Foi feito em 16 mm e é até engraçado, pois não havia tempo e nem maneira de fazer o som do filme na própria película. Então, o som foi gravado em um gravador, que era daqueles gravadores de fio ainda, não era nem fita. E quando se soltou o filme, soltou o gravador também. Eu estava lá, assistindo dentro da emissora quase ninguém tinha televisão na época e vi que o som estava desencontrado. Então, desci no telecine e fiquei puxando aquele fio no gravador até acertar, porque tinha sincronização. O texto era do Luiz Geraldo Mazza e, naquela época, era tudo ao vivo na televisão. Fiquei no Canal 6 primeiro como cenógrafo, depois como produtor. Passei, então, a escrever teleteatro, telenovela, porque era tudo ao vivo e as coisas tinham que ser feitas aqui mesmo.

José Wille – Era um tempo de muita produção local – e você participava destas produções, de diversas maneiras.

Valêncio Xavier – Eu fui assistente da direção artística e, ao mesmo tempo, escrevia. Hoje em dia, com esse sistema de redes, existe uma legislação que não é cumprida – como tudo neste país e que é criminal – em que as televisões têm que fazer uma parte da sua programação. Inclusive, na minha cabeça, uma das razões do golpe militar de 1964 foi porque, naquele ano, João Goulart havia feito um decreto que, aos poucos, obrigava as televisões a fazerem um percentual de programas ao vivo, em relação aos programas em tape ou em filme. Isso obrigaria as estações locais a cumprir a legislação. Mas houve a Revolução de 1964 e a primeiríssima coisa que o golpe militar fez foi acabar com isso. Uns tempos atrás também a data eu não posso precisar bem, mas foi na época da eleição do Tancredo foi aprovada uma lei do Dante Oliveira, que obrigava as emissoras a terem que produzir um percentual razoavelmente significativo de tudo o que gerassem. Nesta época, eu estava trabalhando na Globo daqui, na TV Paranaense. Começamos a fazer o treinamento de pessoal para os programas ao vivo, mas a Globo fez um acordo: para aprovar as eleições do falecido Tancredo, que se esquecesse daquela lei. E ela foi esquecida, apesar de existir.

José Wille – Você acompanhou o começo da televisão aqui no Paraná, com a produção ao vivo. O que você pode contar deste começo, na década de 1960?

Valêncio Xavier – Posso contar histórias tristes e alegres. Os anos 60, no Paraná, foram um momento muito importante, de efervescência cultural muito grande. Como a televisão era ao vivo, necessitava de trabalhadores intelectuais. Essa movimentação foi muito importante, com grandes nomes que surgiram na época: Ary Fontoura, Juarez Machado, o próprio Roberto Menghini era um diretor teatral que estava meio perdido, o Glauco de Sá Brito – um grande poeta e diretor teatral – e cantores, músicos… Toda essa gente a televisão juntou. Deu trabalho, mas a gente ganhava relativamente bem. No meu caso, por exemplo, eu escrevia teleteatro, telenovela… Eu casei com o dinheiro que ganhei escrevendo novelas, pois dava um bom retorno. Foi um momento muito importante no desenvolvimento cultural do Paraná.

José Wille – Com dois canais surgindo quase ao mesmo tempo, foi um momento de abertura de espaço para o meio intelectual e atores da época?

Valêncio Xavier – Sim, e tem gente daquela época que está aí até hoje. Então, isso foi muito importante, mas, ao mesmo tempo, fazia parte do desenvolvimento total do Brasil. Os anos da década de 60 foram quando o Brasil mudou realmente. Isso já vinha do governo do Juscelino, que mexeu completamente com o país, fez ver me parece o que nós somos, criou as indústrias… Mesmo com o golpe militar e a ditadura que se seguiu, foram os anos do Cinema Novo, do desenvolvimento da televisão brasileira, do teatro, um monte de coisas. E é claro que o Paraná não ficou de lado. Foram anos também de crescimento. A literatura tem um dos maiores escritores do mundo de todos os tempos, o Dalton Trevisan, que conseguiu um reconhecimento nacional e mundial nestes anos.

José Wille – Como a televisão mexeu com a Curitiba ainda provinciana, do começo da década de 60?

Valêncio Xavier – Se a gente se colocar naquela época, em que a televisão só alcançava Curitiba, e também depois, quando se criou a TV Coroados, no Norte do Paraná, em Londrina, a televisão era o que é hoje. As novelas que a gente escrevia faziam a cidade parar na hora do capítulo, ficava todo mundo ansioso. Eu escrevia uma novela atrás da outra, usava pseudônimos, escrevia outras com o Glauco de Sá Brito. Um dia, eu estava sem inspiração e tinha que escrever a novela para entrar no ar em seguida. Como gosto muito do Marquês de Sade, um grande escritor e um dos maiores pensadores do mundo, adaptei uma de suas novelas amenas, “Miss Enrietti Strauton”, uma aventura inglesa que, para mim, tinha toda a armação de uma telenovela. Então, adaptei o primeiro capítulo e fiz todo o esquema da novela para seguir o livro. É sobre um casal de noivos do interior que vem com a mãe da noiva para a capital para tratar negócio de herança ou de dinheiro. E o advogado contratado começa a dar em cima da noiva e toda a trama da novela é sobre a tentativa dele de transar com a moça. Então, destrói toda aquela estrutura, até que termina bem, como toda novela. Na minha inocência, eu achava aquilo um modelo perfeito de novela. Então, escrevi o primeiro capítulo, do casal chegando à capital e indo conversar com a mãe e o advogado, que era interpretado pelo Sansores França. Quando o personagem do advogado viu a mulher, ficou gamado aquela coisa bem “Marquês de Sade” e, quando ela sai, ele diz “Eu hei de tê-la!”. Naquela época, a novela não era diária, era às segundas, quartas e sextas-feiras. Como não tinha Ibope naquela época, eu saía pela manhã pela Rua XV para escutar quais eram as reações. Depois, ia para casa e escrevia o capítulo do dia seguinte. Entregava no fim da tarde para os atores, que ensaiavam na rádio Guairacá, que era o estúdio do Canal 6 pequeno, com três colunas no meio e sempre ocupado com programação ao vivo. Então, como eu tinha saído de manhã para ver qual tinha sido a recepção, fui ao Correio Central para pegar um livro que tinha sido enviado para mim. Quando cheguei lá, todo mundo e os funcionários estavam falando “Mas você viu que barbaridade o jeitão que ele olhou para a moça?! ‘Eu hei de tê-la!’”. Foi um escândalo! Na televisão, já tinha 500 mil telefonemas reclamando da novela. E eu tive que mudar tudo, tive que ir para casa e passar até as 5 horas da tarde inventando uma outra história.

José Wille – A pressão da cidade era muito forte.

Valêncio Xavier – Sim, tinha toda essa ligação. Houve outra novela que eu também não sabia o que fazer. Então, fui a um sebo na rua Voluntários. Eu não tinha nada na cabeça e tinha que entregar a sinopse da novela, o que era e o que não era. Encontrei, entre aquelas revistas de fotonovela, uma ação que se passava em uma cidadezinha do interior, bem como as novelas da Globo de hoje. Fazer uma novela da Globo é a coisa mais fácil do mundo: uma cidade do interior, com um bordel, que centraliza o desenvolvimento da ação, coloca lá um cara porra-louca… isso vem desde “Gabriela”. Então, peguei aquilo, escrevi o primeiro capítulo e foi para o ar. No outro dia, na minha saída pela Rua XV, todo mundo tinha lido o diabo daquela fotonovela! “Pô, é um plágio desgraçado!”. Aí, tive que mudar tudo outra vez. Quem escreve telenovela ou mesmo quem não escreve deve saber qual é a dificuldade de mudar tudo, já tendo mostrado o começo. Como se passava em uma cidade do interior, tive que mudar tudo. E criei uma telefonista como personagem principal. Como todos os telefonemas passavam por ela, ela sabia de tudo. E ela era muito fofoqueira, intrigueira. Como eu tinha mudado tudo, não sabia como ia terminar, não sabia o que fazer, e matei a velhinha! O Glauco, que era o diretor, me disse “Pô, você me mata a personagem principal!”. E eu respondi “Se eu não a matasse, vocês não teriam o capítulo de amanhã! Depois eu resolvo. Em último caso, eu a ressuscito, pois em novela vale tudo!”. Mas não foi preciso ressuscitá-la.

José Wille – E essas produções eram sempre com recursos muito pequenos e ao vivo no estúdio.

Valêncio Xavier – No caso do Canal 6, nesse início, o problema era que o estúdio tinha três colunas no meio. Como a produção era grande, o comercial era ao vivo e estava se fazendo o programa, então tinha que ter o cenário do comercial, os apresentadores e fazer as cenas das novelas calculando todo o cenário. Quando terminava e a câmera cortava para outro set, tinha que dar tempo de o ator trocar de paletó e chegar à outra cena. Então, sempre dava trapalhada. Eu lembro também de uma peça de teleteatro que escrevi, em que a mesma cena se repetia duas vezes, no começo e no final. O Joel de Oliveira fazia um personagem que, no começo, entrava em um barzinho onde estava a personagem que era a mãe, sentava-se e conversava com ela. E, pela urdidura da peça que eu tinha escrito, no final tinha que ter a repetição dessa mesma cena. Mas, durante a peça, como eles faziam, e devem fazer até hoje, um contrarregra acabou puxando aquela cadeira vazia e sentou-se. Quando entrou o personagem para conversar com a velhinha, ele ficou em pé, com uma capa que trazia na mão, tendo uma conversa seríssima com a velhinha, com o diabo da capa na mão e sem a cadeira! Essas coisas aconteciam assim. Eu comecei como cenógrafo, fazendo cenários do teatro, e o Juarez Machado e o primo dele, o Jamaia, faziam outros cenários, porque a produção de cenário era constante, pois acabava um programa, tinha que estar pronto para o outro. Lembro que, uma vez, nas vésperas de Natal, o Juarez quis ir para Florianópolis e para Joinville a terra dele e pediu para que eu fizesse os cenários dele. E ele me pagaria por isso. E eu, sem dinheiro, claro que topei. E o Jamaia também resolveu ir para Florianópolis e também me pagou para fazer os cenários dele. Os cenários tinham aqueles telões, a gente tinha que pintá-los, fazer o que fosse necessário. No final, eu ficava com um balde de tinta branca em uma mão, um balde de tinta preta na outra e o pincel. E eu já não sabia mais por que tinha que fazer o cenário desse programa e, atrás, já tinha outro. Então, quando terminava um, tinha que desmontá-lo rapidamente para entrar os músicos sei lá o que no outro. No fim, eu estava tão dopado que ficava com os baldes de tinta como um zumbi. E o Nelson Santos – que hoje trabalha na Fundação Cultural – me encostava naquele painel em branco e dizia “Olha, é um musical da Elis Regina. Você tem 15 minutos para fazer”. Terminava aquilo, ele me levava e dizia “Aqui vai ter uma entrevista…”. Era uma coisa que não dava para enganar, pois, na hora em que a TV apresentava, tinha que ter alguma coisa para mostrar.

José Wille – Você chegou a trabalhar na produção de “O Direito de Nascer”, que foi realizada em Curitiba e foi uma novela de longa duração, de quase um ano.

Valêncio Xavier – “O Direito de Nascer” foi feita primeiro na TV Tupi, dos Diários Associados, em São Paulo. Naquele tempo, os vídeos eram naquele sistema 660. Então, não tinha como guardar 200 e tantas fitas para exibi-las em outras praças. Por isso, exibia-se em São Paulo e no Rio de Janeiro e, depois, apagavam-se as fitas para gravar os outros capítulos, senão não dava. Os Diários Associados procuraram em suas filiais qual teria mais competência para fazer “O Direito de Nascer” e escolheram a TV Paraná Canal 6, que tinha as melhores condições, tinha um teleteatro, escrevia telenovelas de grande valor. Resolveram que a novela seria refeita aqui para exibi-la em outras praças. Quem a dirigia era o Roberto Menghini e eu fiz a produção. Então, foi programado que, depois que a estação saísse do ar, na segunda-feira às dez da noite, não passasse filme e nem tivesse programa ao vivo, para deixar tudo livre para dar tempo de montar o cenário. E a gente começava a gravar por volta da meia-noite os cinco capítulos da semana. Como, naquela época, não era possível editar o tape, gravava-se um capítulo e, no intervalo comercial, parava-se e arrumavam-se as coisas para gravar a segunda parte daquele capítulo. Se errasse, era preciso regravar toda aquela parte, porque não tinha como editar. A edição, inclusive, não era ótica. Quando podia ser feita, cortava-se o tape e o emendava, mas era dificílimo de fazer. E a gente gravava, então, até as 4 ou 5 da manhã e só na semana seguinte ia gravar os da outra semana. Eu lembro que, no primeiro capítulo, havia treze cenários em um estúdio com três colunas no meio. Um dos cenários era o interior do vagão de um trem. O Osni Bermudes, que era o diretor da novela, arrumou lá uma coisa de fazer projeção, um fundo da janela de um filme, e os atores tinham que ficar na cadeira, conversando e se sacudindo como se estivessem em um trem. E, acabada aquela tomada, tinha que desmontar aquilo rápido, para não atrapalhar as câmeras em outra tomada. Era uma mão-de-obra! Havia uma hora em que tínhamos de parar para dar de comer para todos, pois era de madrugada. Era um esquema diabólico! Mas foi feito não me lembro mais até qual capítulo eu produzi. Aí, casei e fui passar a lua-de-mel em São Paulo, onde acabei ficando. Só voltei aqui para pedir demissão. Em São Paulo, trabalhei um tempo como produtor do Sílvio Santos, depois na Globo, recém-inaugurada, e voltei para cá, porque o Canal 6 me fez uma oferta muito boa.

José Wille – Na produção do Sílvio Santos, você participou por um bom tempo daqueles quadros, como o “Casamento na TV”?

Valêncio Xavier – Assim que cheguei a São Paulo, não arrumei trabalho em televisão, a não ser em um programa humorístico muito curto da TV Excelsior, que foi “acabado” pela ditadura militar. Aí, fui trabalhar em uma agência de publicidade, onde trabalhava o Túlio de Lemos, um grande produtor de televisão paranaense. Ele gostava muito de jogar e perdeu muito dinheiro no jogo. Como precisava pagar as dívidas, foi até o Sílvio Santos e ofereceu-lhe um programa, que era o “Casamento na TV”. E me levou como assistente.

José Wille – Como era trabalhar nesse estilo de programação popular, que tinha uma grande audiência?

Valêncio Xavier – Eu gosto muito do Sílvio Santos, pois ele é uma das poucas pessoas no Brasil que entende de televisão. Era um ótimo patrão, pagava em dia e em dinheiro, inclusive. Ele tem um tino, tanto que tem a segunda rede de televisão. Fiquei fazendo a assistência para o “Casamento na TV”, que era um grande programa, um dos melhores achados de televisão! Era um programa sobre a solidão, o maior problema de toda a civilização, que mostrava que, em uma cidade, as pessoas são tão solitárias que precisam procurar um programa para encontrar um parceiro e construir uma família. Mas o “Casamento na TV” não tinha nada a ver com esse esquema do “Namoro na TV” de hoje. Depois, fiz outros quadros para outros programas. Naquela época, o Sílvio só tinha aquele programa à tarde na TV Paulista, que, depois, foi comprada pela Globo. E os Diários Associados tinham a TV Cultura, que hoje é a Educativa. Então, eu fui fazer um programa à noite, o primeiro do Sílvio Santos à noite, nas sextas-feiras, que tinha que combater os programas da Record Agnaldo Rayol Show ou Roberto Carlos, aquelas coisas… Como o Sílvio entende, sabe o que quer, sabe captar o que é televisão e como chegar ao público, acabamos conseguindo o primeiro lugar no Ibope.

José Wille – Aqui no Paraná você acompanhou, no final da década de 60, a presença de grandes programas que eram apresentados ao vivo, como “A Praça da Alegria”, quando vinha todo o elenco para cá.

Valêncio Xavier – ”A Praça da Alegria” já foi em uma outra época. Esses programas ao vivo tinham que ser feitos aqui. Vinha gente de fora, mas a produção toda era local e houve grandes programas por exemplo, o Ary Fontoura fazia um programa humorístico, o “Teleshow CCI”, que, formalmente, era um programa avançado, com quadros musicais e humorísticos, e tinha 100% de audiência. Para tentar combater isto, no mesmo dia e horário, o Canal 12 fez um programa que trazia artistas de fora, cantores, atrizes… Um dia, trouxeram o Jô Soares, que era um humorista superfamoso nas outras televisões de São Paulo e do Rio. Mas se for perguntado a alguém daquela época se ele esteve aqui, ninguém vai lembrar, porque todo mundo assistia ao programa do Ary Fontoura. Acho que só quem assistiu ao programa do Jô Soares fui eu, pois eu não tinha televisão em casa. Então, fui ao estúdio assistir ao Jô. Havia programas de alto gabarito e com externas. Como o Canal 12 não tinha caminhão de externas, não as fazia. O Canal 6, desde o princípio, transmitia corridas no Jockey, jogos de futebol, todos os eventos que eram externos. Outra coisa que o Canal 6 emplacou na época foi reportagem filmada, o que não tinha no 12.

José Wille – E a chegada do videotape, principalmente a partir de 1966, reduzindo os espaços locais. Isto foi, progressivamente, acabando com esse trabalho?

Valêncio Xavier – Não foi nem progressivamente, foi meio num tapa! O pessoal tinha conhecimento daqueles artistas e novelas, os que não vinham para cá. Inclusive, das poucas novelas de gente de fora, houve uma que eu adaptei, diminuindo o número de capítulos para ficar dentro do esquema daqui – as nossas novelas só podiam durar mais ou menos 30 capítulos, pois o cenário não aguentava. Acabava a novela e tinha que desmanchar aquele cenário e guardá-lo, o que ocupava espaço e a tinta ia caindo. Houve novelas e peças de teatro com gente de fora, que vinha para cá para uma temporada de teatro. Então, já aproveitávamos e gravávamos a peça. Uma vez, fiz uma adaptação com a companhia do Sérgio Brito, para que coubessem todos eles. Fazíamos isso no teleteatro para aproveitar o artista que vinha de fora. Segunda-feira era o dia que o pessoal de teatro não trabalhava e, então, aproveitávamos esse tempo para fazer teleteatro com este pessoal. Mas o pessoal queria saber daquelas novelas, ver aqueles atores que não conheciam. E, quando chegou o videotape, vieram não só as novelas, mas os grandes musicais.

José Wille – Foram sendo desativados todos os programas locais?

Valêncio Xavier – Exato. O Canal 6 aguentou o tempo que pôde. O Canal 12, que não tinha toda aquela estrutura, mas fazia aqueles programas como o “Capitão Furacão” ou programas de balé manteve pouquíssima coisa. É normal que o espectador prefira ver pessoas famosas a artistas locais e aí se somam a falta de regulamentação e outras coisas absurdas. Como, por exemplo, agora, na TV Educativa daqui, um grupo de cineastas foi falar com a diretora atual para passar uns filmes paranaenses e ela respondeu que eles arrumassem patrocinador que ela, então, os passaria.

José Wille – O seu último trabalho em televisão, há cerca de 12 anos, foi na produção do Canal 12?

Valêncio Xavier – Sim. Eu tinha largado a televisão, porque me encheu o saco, e fui trabalhar na Fundação Cultural.

José Wille – Pegou o começo da Cinemateca?

Valêncio Xavier – Não, eu criei a Cinemateca do Museu Guido Viaro! Que não existe mais, como o próprio nome diz um órgão para pesquisa, busca e restauração de filmes. Em 1974, se não me engano, fiz um pequeno trabalho para um programa que era uma disputa entre Paraná e Santa Catarina, no Canal 4, que foi um grande sucesso.

José Wille – Você pegou depois a produção do programa “TV Mulher”?

Valêncio Xavier – Eu fazia a parte local do “TV Mulher”, do “Bicho do Paraná”…

José Wille – Algumas coisas para o “Globo Repórter”?

Valêncio Xavier – Fiz coisas para o “Globo Repórter”, inclusive uma coisa da qual me orgulho muito: aquele da morte do cacique Cretan, que foi um episódio do “Globo Repórter” considerado exemplar e requisitado, na época, pela Justiça Federal como prova do processo envolvido. Foi montado pelo telefone, porque a equipe do “Rio Repórter” perdeu a papelada, e editado pelo grande cineasta Eduardo Coutinho. Eu ia dizendo para ele pelo telefone “Isso tem que ir aqui”. E fiz alguns “Globo Ciência”, algumas coisas assim.

José Wille – E os livros. Simultaneamente a esta carreira sobrava um tempo para escrever?

Valêncio Xavier – Tem gente que acha que eu sou um grande escritor. Tem um livro meu, o “Mez da Grippe”, sobre o qual o Décio Pignatari disse que é praticamente a única coisa que presta na literatura brasileira. E eu concordo com ele.

José Wille – E o seu trabalho de hoje no “Caderno G” da Gazeta?

Valêncio Xavier – Sim, eu colaboro no “Caderno G”, da “Gazeta do Povo”, que é o melhor caderno cultural de todos os jornais brasileiros, segundo outro colaborador, o Millôr Fernandes. Escrevo também sobre cultura no “Caderno Dois”, de “O Estado de São Paulo”, o Estadão. Eventualmente, para outros… Por exemplo, recentemente, escrevi para a Vogue nacional e escrevo os meus livrinhos e fazendo minhas coisas.

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