Revolta popular que destruiu delegacia deve custar R$ 1 milhão em reformas

Foto: divulgação / Polícia Civil
Foto: divulgação / Polícia Civil

A revolta popular em frente à 7ª Subdivisão Policial de Umuarama, no Noroeste do Paraná, após a prisão de um suspeito de ter matado a menina Tabata Crespilho da Rosa, de 6 anos, deve custar R$ 1 milhão aos cofres públicos. O valor foi contabilizado pela Secretaria de Estado da Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná (Sesp-PR).

“Uma atitude incompreensível. A polícia agiu com absoluto autocontrole para que isso não virasse uma tragédia”, diz o delegado-geral da Polícia Civil do Paraná, Julio Cezar dos Reis.

A delegacia foi depredada pela população no dia 27 de setembro, que ainda ateou fogo em 12 veículos estacionados na rua. Seis viaturas da Polícia Civil– cinco foram queimadas e uma depredada – ficaram completamente destruídas. Ao todo, 12 veículos foram alvo dos populares. “Estamos trabalhando com muita intensidade na identificação dessas pessoas”, destacou o delegado geral.

Além dos danos aos veículos privados, o custo da destruição calculado pela Secretaria de Segurança não inclui a reforma que será necessária nas celas e galerias da cadeia, anexa à delegacia, onde presos aproveitaram o tumulto de moradores para se rebelar.

“A policia tinha uma cadeia publica com mais de 200 presos para ter atenção e salas com armas. Uma reação com armas letais com certeza teríamos uma tragédia”, afirmou o delegado-geral.

O motim durou 17 horas. No dia da revolta da população, a carceragem abrigava 260 detentos em um espaço com capacidade para 64 pessoas.

Por enquanto, o atendimento na unidade policial segue suspenso, apenas a cadeia continua com os presos. O governador Beto Richa (PSDB) afirma que as obras para reconstrução da delegacia devem começar até o fim do mês.

Revolta 

A revolta popular começou depois que o corpo da menina Tabata Fabiana Crespilho Rosa, de 6 anos, foi encontrado no dia 27. Ela desapareceu após ser deixada na esquina da escola pelo irmão, de 13 anos. Seu corpo foi encontrado após a prisão do suspeito, que indicou o local. Ele disse, aos policiais, que matou a criança asfixiada e que depois a enterrou.

Após a notícia da prisão de Eduardo Leonildo da Silva, de 30 anos, centenas de pessoas cercaram a delegacia. O Batalhão de Choque da Polícia Militar (PM) de Maringá, a 162 quilômetros de Umuarama, precisou ser chamado.

Antes da chegada do reforço da PM, as pessoas começaram a jogar coisas a forçar a entrada na delegacia. A situação evoluiu a ponto de populares destruírem carros, entre eles quatro pertencentes e veículos de imprensa e uma viatura nova da Polícia Civil.

Com a situação, os presos da delegacia, que abriga 260 detentos e tem capacidade para 64, se rebelaram. Até a manhã desta quinta-feira (28) a situação interna da delegacia ainda não havia sido controlada. A população jogou pedras, pedaços de pau e ferro, quebrando vidraças do prédio e inclusive ferindo pessoas que estavam no interior da delegacia. Não há confirmação do número de feridos.

De acordo com a polícia, alguns presos chegaram a sair das celas e circular pela delegacia, mas teriam desistido da fuga após se depararem com a revolta da população.

Com a chegada do reforço policial – os primeiros a chegarem foram os policiais do 7º Batalhão, de Cruzeiro do Oeste – o suspeito de matar a menina foi transferido para outra cidade. Mais tarde chegaram policiais de Campo Mourão e Maringá.

O Sindicato dos Jornalistas do Paraná, por meio de nota, exigiu que a Secretaria de Segurança Pública, bem como a Polícia Civil investiguem o ocorrido em Umuarama para punição dos envolvidos na depredação de carros de imprensa e coação de jornalistas. Profissionais teriam sido ameaçados e agredidos.

Suspeito preso

Criança desaparecida em UmuaramaO suspeito, Eduardo Leonildo da Silva, foi identificado pela polícia com base em imagens de câmeras de segurança de ruas do bairro Parque Danieli, em Umuarama, onde fica a Escola Municipal Rui Barbosa. O suspeito, que já tinha passagem na polícia por homicídio, aparece nas imagens com um veículo Gol.

Ele reside no Parque Danieli e seria conhecido da família da menina. A mãe de Tabata, Fernanda Crespilho, e o padrasto, Willian, disseram que Silva é conhecido ‘de vista’ e que ele teria sido preso e recentemente solto – e que depois que ele retornou da cadeia não o tinham mais visto.

Ao ser preso, ele negou ser o autor do desaparecimento de Tabata, mas depois confessou o crime. Policiais especializados de Curitiba participaram da investigação do caso.

Após alguns procedimentos de investigação , a polícia identificou e prendeu o homem suspeito pelo crime, que confessou, inicialmente, sem dar detalhes.

De acordo com a polícia, o suspeito matou uma adolescente, de 15 anos, há sete anos. Ele cumpria pena em regime semiaberto. O assassinato de Ana Maria Rosenes foi cometido em 2010 em Chopinzinho (PR). O criminoso conheceu a jovem, a época com 15 anos, quando ele trabalhava em um parque de diversões.

No dia 27 de agosto de 2010, a adolescente desapareceu, tendo seu corpo encontrado dois dias depois em um terreno baldio na cidade. A polícia apurou que Ana foi morta a pedradas por Eduardo; Em depoimento, ele disse que cometeu o crime após um desentendimento.

Desaparecimento

Após ser deixada pelo irmão de 13 anos, no início da tarde, em uma padaria na esquina da Escola Municipal Rui Barbosa, no Parque Daniele, em Umuarama, Tabata Fabiana Crespilho da Rosa não foi mais vista. Segundo a polícia, o irmão deixava a menina na esquina colégio todos os dias.

Na noite de quarta-feira, o suspeito preso indicou o local para onde o corpo da menina foi levado, na região do bairro Sonho Meu.

Umuarama já foi palco de linchamento histórico

No dia 20 de dezembro de 1986, três assassinos confessos foram arrancados de dentro da delegacia, linchados e queimados em praça pública. Luiz Iremar, 19, Edivaldo Xavier de Almeida, 20, e Aurico Reis, 18, sequestraram uma jovem de 22 anos (optamos por omitir o nome), e seu noivo, o fotógrafo Júlio César Jarros, 26, na porta da casa da mulher. Os bandidos teriam levado as vítimas para fora da cidade, estuprado a jovem e executado Jarros a tiros. O site “OBendito” relembrou o caso no ano passado.

Edivaldo e o momento do crime (2)Revoltadas, cerca de duas mil pessoas cercaram e invadiram a delegacia. De acordo com registros da imprensa local, praticamente não houve resistência policial e os assassinos confessos teriam sido mortos a pauladas. Os corpos arrastados por quilômetros pela Avenida Paraná até chegar à praça Miguel Rossafa, onde foram molhados com gasolina e queimados.

Uma atitude de Edivaldo, durante a reconstituição, teria sido determinante para despertar o desejo coletivo de vingança. Ao ser indagado sobre a forma como matara o fotógrafo, Edivaldo teria dito ironicamente: “Por que não me dão um revólver carregado (que eu mostro)?”

O caso ganhou repercussão nacional. A revista Veja descreveu assim o contexto do linchamento (edição de dezembro de 1.986). “Um grupo de pessoas não identificadas marchou para a delegacia pedindo a adesão de todos que encontrava pelo caminho. Ao chegar diante da cadeia, a multidão crescera a tal ponto que os 30 homens da PM e a meia dúzia de agentes da Polícia Civil, ali postados para guardar os presos, deram brandos sinais de resistência. Entregues à própria fúria, os participantes do linchamento amarraram os corpos dos mortos em automóveis e os arrastaram num cortejo que atraiu para as janelas e calçadas mais de 5 mil pessoas. O desfile foi aplaudido. A cada esquina aumentava o coro: “Queima, queima” (…). Foi o que se fez em seguida, com a ajuda de 1 litro de gasolina e uma caixa de fósforos, além de alguns pneus para manter as chamas vivas por um tempo”.

Criança desaparecida em Umuarama