Ignorância, ignorância

daniel medeiros

 

Daniel Medeiros, professor de História no Curso Positivo, faz uma análise sobre as ações do educador Paulo Freire até chegar em um ponto crucial vivido ainda hoje pelo Brasil que é a discussão sobre a escravidão. Recentemente, o governo Michel Temer teve que revogar MP sobre trabalho escravo no País e agora o professor nos dá uma lição sobre o tema.

Em artigo que publicamos na íntegra abaixo, diz que “um País é livre quando não tem escravos. Escravos são os que não são capazes de definir seu destino: escolha para onde ir, com quem fazer amizade ou amar, onde trabalhar, qual carreira seguir, em quem votar, com qual país sonhar. O Brasil luta para ser livre e  quem quer, de fato, liberdade no Brasil, quer para todos os brasileiros. Ou então é um embusteiro, que usa a palavra liberdade como um disfarce para manter a escravidão das pessoas, essa escravidão que é a da falta da autonomia da escolha, seja qual escolha for”.

Veja o artigo:

Paulo Freire foi um educador que defendeu a condição fundamental da liberdade dos brasileiros. Sua obra e sua ação voltaram-se, até o fim de sua vida, a um objetivo maior: tornar as pessoas conscientes de seu lugar e de seus direitos no mundo. Um mundo livre. Trabalhou na Europa e na África porque não pode trabalhar no Brasil, assim como milhares de outros cientistas e professores. Na época o Brasil não era um lugar seguro para o pensamento que criticava as ações que impediam a formação da consciência dos direitos que todas as pessoas têm no mundo. Foi uma época de poucas liberdades. E todos pagaram por isso: uns indo para o exílio, outros sendo presos e a maioria, a grande maioria,  ignorando. E ignorar é o contrário da Educação. Paulo Freire agiu contra a Ignorância. Depois de muita luta – luta do diálogo e da negociação – o Brasil tornou-se um país livre e Paulo Freire foi destacado com o título de patrono da Educação brasileira. Esse título não lembra apenas a pessoa que ele foi, mas a causa que ele representou: a buscar, incessantemente,  efetivar a máxima iluminista de liberdade, igualdade e fraternidade.

Kant, o grande pensador iluminista do século XVIII, definia uma pessoa esclarecida como aquela que é autônoma , capaz de seguir sua própria razão. Paulo Freire também entendia assim o papel da Educação: um aprendizado e uma prática para a autonomia. Nada mais liberal do que isso.

Habermas, o maior pensador da social democracia alemã, evoca a importância do diálogo e da formação do consenso nas sociedades democráticas, da construção de uma nova racionalidade comunicativa. E, para isso, a importância de educar as pessoas para o diálogo e para o respeito. Paulo Freire, na sua produção teórica e nas suas ações pedagógicas e políticas foi fiel a esses estatutos formadores da cidadania: racionalidade, diálogo e respeito. Nada mais democrático do que isso.

Um país é livre quando não tem escravos. Escravos são os que não são capazes de definir seu destino: escolha para onde ir, com quem fazer amizade ou amar, onde trabalhar, qual carreira seguir, em quem votar, com qual país sonhar. O Brasil luta para ser livre e  quem quer, de fato, liberdade no Brasil, quer para todos os brasileiros. Ou então é um embusteiro, que usa a palavra liberdade como um disfarce para manter a escravidão das pessoas, essa escravidão que é a da falta da autonomia da escolha, seja qual escolha for.

Paulo Freire defendia essa liberdade. Por isso é o Patrono da Educação de um país livre. Quem quer tirar-lhe esse título, não o ofende nem agride, pois que já está morto e enterrado há tempos. Ofende e agride a ideia de uma Brasil livre para todos os brasileiros.

 

*Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica pela UFPR e professor de História no Curso Positivo, de Curitiba.