Curitiba vira expoente da revolução cervejeira

No Hauer, festival de microcervejaria reúne milhares de jovens curitibanos | Divulgação / Bodebrown
No Hauer, festival de microcervejaria reúne milhares de jovens curitibanos | Divulgação / Bodebrown

Thiago Machado, Metro Jornal Curitiba

Cerca de dez anos atrás, quando as primeiras cervejarias curitibanas que hoje se mantêm hoje em atividade abriam as portas, a grande dificuldade era convencer os donos de bares e restaurantes a comprar a cerveja, tida como de 2ª linha. “Nos diziam que o chopp tinha que ser Brahma, que os clientes eram exigentes e não iriam aceitar outro”, lembra o fundador da Gauden Bier diretor da Abracerva (Associação Brasileira de Microcervejarias), Ronaldo Flor.

Passada uma década, a situação se inverteu: são as micro que vendem o produto ‘gourmet’. “Os restaurantes mais conceituados da cidade têm cervejas artesanais. Mas também os jovens adotaram a cerveja artesanal, no movimento de bares de rua na Vicente Machado, Trajano”, diz.

Cinco anos atrás, as principais marcas eram, além da Gauden, a Alles Bier e a Bavarium (as duas últimas já extintas). Hoje já são 18 micro associadas à Procerva (Associação das Microcervejarias do Paraná) em Curitiba. Somadas, elas têm registradas no Ministério da Agricultura 10% dos rótulos nacionais.

Nos últimos dois anos a crise econômica foi capaz de apenas reduzir o crescimento, mas a produção seguiu aumentando.“Tudo que as cervejarias produzem em Curitiba aqui é vendido. Estamos no limite”, conta Samuel Cavalcanti, da cervejaria Bodebrown.

Respeito

No Concurso Brasileiro de Cervejas de Blumenau, neste ano, a Bodebrown foi escolhida como segunda melhor cervejaria do Brasil, atrás da Tupiniquim, de Porto Alegre. Outra curitibana, a Bier Hoff. ficou em 3º. “Curitiba, junto com Porto Alegre e Rio de Janeiro são os polos mais importantes do país. São Paulo acordou um pouco mais tarde”, conta Samuel.

As cervejas curitibanas já estão, inclusive, sendo exportadas, caso dos rótulos da Way Beer, que desde 2015 chegaram aos Estados Unidos, conta Alejandro Winocour. “Os americanos procuram muito nossos sabores locais, como as envelhecidas em barris de cachaça, ou de frutas brasileiras como a Goiaba, Gabiroba”.

Sem título

Brasileiros estão fugindo de cervejas ‘mais do mesmo’

Os novos sabores e a possibilidade de tomar o produto fresco, direto da fábrica, são dois dos grandes atrativos para os consumidores das cervejas artesanais. “As cervejas mais do mesmo são ainda 99% do mercado, mas temos 1% e estamos crescendo muito”, diz Ronaldo Flor, da Gauden.

Por décadas o mercado brasileiro foi dominado apenas um estilo de cerveja – o ‘american lager’, também o mais popular nos Estados Unidos. O surgimento das microcervejarias fez com que centenas de outros estilos estejam sendo descobertas. “É um caminho sem volta. Os Estados Unidos têm 6 mil cervejarias, enquanto no Brasil são cerca de 500. Toda vez que uma pessoa descobre a cerveja artesanal, ela não volta ao paladar que tinha antes”, diz, Alejandro Winocour, da Way.

Além da diversidade de rótulos, as cervejarias apostam em visitas às fábricas, em que os consumidores podem tomar o produto fresco – o que faz a diferença na qualidade.

Logística

Por ser perecível e fermentada, variações da temperatura e impactos no transporte influenciam na qualidade da cerveja. Parte dos insumos também é importada, o que encarece a produção. “A cerveja não pode ter grande variação de temperatura em estradas, por exemplo, nem tanto impacto. Isso dificulta o transporte – não temos uma linha de trem como nos outros países”, pondera Samuel Cavalcanti.

Sem títuloPequenas batendo gigantes

Em 2013 e 2014 a curitibana Bodebrown, foi eleita consecutivamente a melhor cervejaria do país no Concurso Brasileiro da Cerveja, organizado em Blumenau-SC. No primeiro ano a microcervejaria deixou para trás, a Brasil Kirin – dona de marcas como a Schin, Devassa, Eisenbahn e Baden Baden. No ano seguinte a grande inscreveu apenas os rótulos da Eisenbahn.

Os festivais de cerveja artesanal costumam premiar dezenas de cervejas e as medalhas acabam servindo como ‘selos de qualidade’ para os rótulos. “Os concursos trazem notoriedade para as cervejarias. Algumas se dedicam muito a ganhar esses prêmios”, conta Alejandro Winocour, da Way.

O festival catarinense é considerado o maior concurso do país e, neste ano, 61 jurados de 20 países diferentes avaliaram os rótulos brasileiros.

Desde o ano passado vêm ocorrendo edições da Mondial de la Bière no Brasil. O evento, criado em Montreal, reuniu 48 mil visitantes no Rio de Janeiro.

Preço até 300% mais caro é atribuído aos impostos

O diretor de Abracerva (Associação Brasileira de Microcervejarias) Ronaldo Flor, diz que o diferença de preços entre as artesanais e os rótulos mais conhecidos é fruto mais do sistema tributário do que dos custos de produção.

Segundo ele, apesar de pagarem as mesmas alíquotas, as grandes empresas conseguem recolher menos impostos usando filiais em Estados ‘mais baratos’, por exemplo.

Como fazem grandes investimentos, também é comum que os governos ofereçam descontos. “Em Ponta Grossa, uma fábrica vai recolher 75% menos ICMS por 20 anos”, lembra.

No ano passado foi aprovada a lei que permite a inclusão das microcervejarias no SuperSimples. Na avaliação de Ronaldo, o novo modelo vai facilitar a regularização de microcervejarias, mas não terá grande impacto final nos preços. “Nos Estados Unidos essa diferença entre os preços é de cerca de 20%; aqui chega a 300%. São valores muito deslocados”, afirma.