Liga chega aos 70 anos de luta contra o câncer

Liga de Combate ao Câncer
Símbolo da LPCC, Erasto tem hoje 1,2 mil funcionários, sendo 250 médicos em sua sede no Jardim das Américas . Divulgação

No último dia 8, a LPCC (Liga Paranaense de Combate ao Câncer) completou 70 anos. A entidade que hoje é referência em tratamentos oncológicos no Paraná e no Brasil foi criada em 1947 pelo mé- dico Erasto Gaertner, que quatro anos depois – como prefeito de Curitiba – idealizou o hospital que hoje leva seu nome.

“Era uma época com um sistema de saúde muito arcaico, as pessoas morriam de tuberculose. O estado não tinha condições de assumir [os doentes de câncer], foi ausente e então a sociedade criou organizações para isto. O movimento era nacional, o Erasto viu e fez aqui”, contou Luiz Antonio Negrão Dias, presidente da LPCC.

Em 1954, mulheres, incluindo esposas de integrantes da LPCC, deram origem a RFCC (Rede Feminina de Combate ao Câncer) com o objetivo de arrecadar fundos para a construção do hospital. Depois de quase duas décadas de rifas, quermesses, bingos, bazares e demais eventos beneficentes, o Erasto Gaertner foi oficialmente inaugurado em 8 de dezembro de 1972.

‘Quando foi idealizado o câncer era mortal de 70% a 80% dos casos. Inicialmente ele seria um local para albergar os pacientes, assim como existia para tuberculosos onde hoje é o Hospital do Trabalhador e o de leprosos em Piraquara. Porém, até a construção dele o tratamento foi evoluindo e a mortalidade caiu para 60%. Então ao invés de ser abrigo ele já nasceu com a intenção de tratar e curar esses 40%”, explicou Dias.

Desde então o Erasto foi crescendo ano a ano e atualmente está entre os cinco maiores hospitais oncológicos do país. São 380 mil atendimentos anuais e mais de 1,5 milhão de procedimentos, sendo 91% deles pelo SUS (Sistema Único de Saúde). “Hoje nossas taxas de cura são de 65%: é um indicador de país de primeiro mundo”, orgulha-se Dias.

Como todo hospital filantrópico, o Erasto tem dificuldades para deixar a conta no azul. “Para fechar esta conta e manter o equilíbrio dependemos dos pacientes conveniados e das doações da sociedade, temos 20 mil pessoas que doam valores a partir de R$ 10. É claro que temos certas dificuldades, mas fechamos 2016 com superávit”, disse o presidente da Liga.

Além disso, o apoio de empresas vem fazendo a diferença. Na última sexta foi inaugurado o Centro de Convivência para a Família – anexo a ala de pediatria oncológica – possível graças ao Instituto Ronald McDonald. As paredes externas também foram pintadas na última semana por meio da rede de restaurantes Madero. Para Dias, isto é resultado do bom serviço prestado. “É o reconhecimento ao nosso atendimento, responsabilidade e o respeito com o dinheiro dos outros”, argumentou.

Além do Erasto e da RFCC, fazem parte da LPCC hoje o Instituto de Bioengenharia Erasto Gaertner e o Centro de Projetos de Ensino e Pesquisa. O primeiro atualmente é o único fabricante nacional de cateter totalmente implantável 100% de titânio, e ganhou no mês passado um prédio exclusivo para o seu funcionamento. Já o segundo oferece seis cursos de residência médica, sete cursos de residência multiprofissional e quatro especializações.

Para o futuro, planos não faltam. E o principal deles já está em andamento: o primeiro hospital oncopediátrico do Paraná, o Erastinho.

“É o mais arrojado. O governo já doou R$ 9 milhões [quase 1/3 da obra], o campo de obras já existe e daqui um ano e meio, dois esperamos inaugurá-lo. Estamos 15 anos sem ampliar o número de leitos e os casos crescem mais de 7% ao ano. Em 2020 não vamos conseguir absorver os novos casos sem ele”, declarou Dias. Nos próximos meses, o Erasto também deve inaugurar sua primeira unidade avançada no interior, em Irati, para reduzir os deslocamentos. “Já existem planos para um hospital”.

‘Morei 2 anos no hospital’, diz médico

Antes mesmo da inauguração o Erasto já atendia no setor de radioterapia e logo após a abertura, oferecia basicamente atendimento clínico e ainda não tinha internamentos. Eram sóque três médicos no local: Sérgio Hatschbach, Benedito Valdecir de Oliveira e Massakazu Kato.

“Benedito e eu morá- vamos dentro do hospital. Eu morei dois anos e ele um”, revelou o paulista Kato. O médico, que 45 anos depois continua atendendo no Erasto, contou um pouco sobre a rotina dos primeiros meses. “Era todo dia organizando documentação, prontuários médicos e aguardando a chegada de pacientes. Fazíamos propaganda pelos Correios, algumas vezes por telefone. Pegávamos a lista telefônica e mandá- vamos cartas de apresentação para os médicos da capital, que passaram a encaminhar os pacientes”.

Segundo Kato, a primeira cirurgia aconteceu em abril de 73 mesmo sem um espaço adequado. “Foi um sangramento de emergência em um caso de colo de útero”.