“É pouco racional”, diz artista após crítica de nudez na Bienal de Curitiba

Foto: Reprodução
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Os vereadores Thiago Ferro (PSDB) e Osias Moraes (PRB) criticaram na Câmara de Curitiba, imagens com “nudez explícita” da exposição “Imagem em profusão – Intersecções da colagem expandida”, atividade da Bienal de Curitiba realizada no Museu Municipal de Arte (MuMA), no bairro Portão na capital.

Segundo Ferro, que exibiu em plenário fotografias da mostra consideradas impróprias, a Fundação Cultural (FCC) atendeu seu pedido e sinalizou a sala como desaconselhável a menores de 18 anos.

“Vamos continuar a proteger a inocência das crianças. Se algum pai gosta de mostrar essas imagens [aos filhos] e acha que acrescenta, tem liberdade de levar”, declarou Ferro. Já escolas que visitarem o MuMA, afirmou o parlamentar, não verão a exposição “Imagem em profusão”, inaugurada em 1º de outubro e que deve ficar em cartaz até 25 de fevereiro de 2018. As mostras culturais, avaliou, “em algumas situações têm passado do limite e do bom senso”. Por outro lado, ele elogiou obras expostas no MuMa “que vieram da China [país homenageado pela 24ª edição da bienal], que são belíssimas”.

Um dos artistas da exposição, Mário de Alencar, afirmou que a atitude é uma “perseguição” e que as escolas já haviam sido avisadas sobre a sala. “Na nossa perspectiva, estamos sendo perseguidos. O vereador visitou a exposição na última semana e, como a sala já estava sinalizada, parece que ele quer criar um clima de histeria como aconteceu em outros estados. É pouco racional, parece um ultraje fabricado”.

Para Moraes, exposições “dessa natureza não trazem benefício algum. Não podemos permitir que crianças e adolescentes sejam dessa forma atingidos. Estou vendo que pornografia virou arte”. O vereador também comentou o veto do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, integrante de seu partido, à realização do “Queermuseu – Cartografias da diferença da arte brasileira” no Museu de Arte do Rio (MAR). Ele opinou que o chefe do Pode Executivo pode sim se posicionar contra a iniciativa, pelo fato de a mostra ter utilizado recursos públicos (via Lei Rounet).

Além do posicionamento contrário ao “Queermuseu”, o representante do PRB na Câmara de Curitiba havia falado, na semana passada, contra a performance com nudez “La Bête”, realizada no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) pelo bailarino e coreógrafo Wagner Schwartz – que, para Moraes, pode ser considerada um “ato pedófilo”.

Por meio de nota, a FCC afirmou que não é responsável pelas exposições. “O evento no Muma é de responsabilidade da curadoria da Bienal de Curitiba, que solicitou espaços públicos e privados para acomodar as exposições. Na entrada da exposição, há uma placa com a faixa etária, desaconselhando a visita para menores de 18 anos. Nenhum CMEI ou escola municipal visitou tal exposição”.

Informações

O vereador também protocolou um pedido de informações oficiais ao Município sobre a exposição. Entre os questionamentos, ele quer saber se as obras foram visitadas por escolas municipais (se sim, por quais); quais os critérios de faixa etária adotados para a mostra; se existe uma pessoa responsável pela recepção dos visitantes e, consequentemente, por informar sobre a restrição de idade; e se houve divulgação para os equipamentos da rede pública de ensino (se sim, por qual meio). “A referida exposição foi visitada e contém conteúdo impróprio para menores”, justifica o vereador. “A arte é livre, porém a inocência das nossas crianças deve ser preservada. O intuito da proposição é receber informações a respeito do assunto, para que nossas crianças não sejam atingidas por tais conteúdos.”

Exposição

A entrada para a exposição é gratuita. A visitação pode ser feita de terça-feira a domingo, das 10 às 19 horas, até o dia 25 de fevereiro de 2018. Dezesseis artistas participam da exposição.

Confira a descrição da exposição: “No momento congelado entre o real e o falso, em meio à enxurrada cotidiana de ícones e representações, entre camadas de imagens espontâneas e identidades fabricadas, existe uma lacuna entre a arte e a vida. É um vulto no canto do olho durante uma transação financeira, escutamos seu eco na balada da propaganda de cigarro e no silêncio do cinema mudo memético. É a auréola do artista retirada da sarjeta e colocada num pedestal, ainda enlameada. É o espectro materializado pelo carro possante na auto-estrada, simultaneamente concreto enquanto bolha de separação urbana e abstrato como estilo de vida. A tautologia daquilo que é bom porque aparece, e aparece porque é bom. É a reificação, é o fetiche, é o espetáculo. É a imagem de um rosto humano sendo sobreposta à imagem de um rosto humano sendo sobreposta à imagem de um rosto humano – para sempre. Nesse excesso sem fim de cópias e simulacros encontramos a Colagem na curiosa posição de linguagem oficial da comunicação fragmentada e assíncrona da contemporaneidade. Enquanto ferramenta de desconstrução e ressignificação de poéticas, ela sintetiza contextos visuais de naturezas diversas com seus processos de criação, traduzindo recortes de cultura em transgressão subjetiva.

Enquanto metodologia de aglomeração de conceitos, ela preenche o hiato entre pintura e escultura, entre vídeo e performance, entre artista e audiência. A fotografia se torna a catalogação de narrativas que se fragmentam na exuberância das cores plásticas de rótulos de produtos aglomerados e objetos encontrados que emolduram vídeo-sequências em loop. Com o objetivo de vislumbrar o potencial da Colagem como linguagem intermediária entre as demais formas de expressão artística, o Clube da Colagem de Curitiba convida essa seleção de artistas para investigar a área cinza da intertextualidade e abordar suas pesquisas individuais através da perspectiva da Colagem em Campo Expandido”.