Ex-presidente da Andrade Gutierrez passa por constrangimento em palestra

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Por Lenise Klenk / BandNews FM Coritiba

O ex-presidente da Andrade Gutierrez Otávio Marques de Azevedo, delator condenado em um processo decorrente da Operação Lava Jato, protagonizou nesta terça-feira, uma cena de constrangimento, ao ser questionado sobre arrependimento. Convidado a apresentar uma palestra em Curitiba sobre os efeitos da prisão, ele não admitiu que tenha se arrependido, mas reconheceu a responsabilidade de pagar por atos ilícitos cometidos na empresa que dirigia.

Preso em junho de 2015, Azevedo ficou cerca de oito meses detido no Complexo Médico Penal em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba. Depois, passou mais um ano em prisão domiciliar e agora cumpre pena em regime semiaberto diferenciado, podendo trabalhar durante o dia e se recolher em casa à noite, monitorado por tornozeleira eletrônica. Aos 66 anos, ele diz que está retomando a vida de empresário, administrando a assessoria empresarial e de investimentos que abriu há 18 anos, quando começava a se preparar para a aposentadoria como executivo da Andrade Gutierrez.

Na palestra durante o VI Encontro Estadual dos Conselhos da Comunidade, Azevedo relatou experiências pessoais como ex-presidiário e também falou de um projeto que ajudou a criar há dez anos que trabalha com egressos do sistema prisional. O empresário se abalou ao responder a uma pergunta de um participante do evento. Ele questionou se, além da preocupação demonstrada com a reputação e a família, Azevedo fazia uma autocrítica em relação aos crimes cometidos.

“Eu exercia uma posição de liderança, eu tinha determinadas responsabilidades e, por elas, eu paguei, pago e estou pagando. São meus atos, meus gestos, minhas atitudes, o que faço no meu dia a dia é que pode dizer se eu tenho ou não arrependimento. A maior parte das palmas que você recebeu, para mim, na maioria das vezes, vem em forma de vaia, porque, aparentemente parece que o egresso tinha mesmo que desaparecer”.

Na cadeia, o empresário conheceu a advogada Isabel Kugler Mendes, presidente do Conselho da Comunidade de Curitiba, organismo composto por representantes da sociedade, responsável por fiscalizar a execução penal. Ele contou a ela sobre a participação que teve na criação e manutenção do Instituto Minas pela Paz, que, entre vários projetos, trabalha na assistência a condenados que saem do sistema penitenciário. Azevedo diz que não compara as dificuldades que enfrenta com as dos egressos que vivem situação de vulnerabilidade social, mas que todos passam por um sofrimento em comum.

“Existem obstáculos que normalmente constrange não só o não vulnerável. Mas, perto dos obstáculos dos vulneráveis, n´so temos que agradecer a Deus pelos obstáculos que tenho. Porque um detento que sai não sabe se vai encontrar uma família, uma casa, não tem emprego, ele sai desestruturado, porque ele entrou, muitas vezes, desestruturado”.

Azevedo foi condenado no processo que apurou desvio da Eletronuclear e respondia a outra ação penal em Curitiba, que foi suspensa por causa do acordo de colaboração. Em dezembro, o empresário deve começar a cumprir dois anos de pena em regime aberto, que prevê prestação de serviços comunitários.