Opinião: O lixo da carne, responsabilidade da informação e o efeito colateral

Foto: Rodolfo Buhrer/Paraná Portal
Foto: Rodolfo Buhrer/Paraná Portal
Por Pedro Ribeiro | Sintonia Fina

A corrupção no Brasil chegou ao limite da intolerância. Na mesa do cidadão brasileiro. Se na Petrobras ela sangrou os cofres públicos, na carne ela iniciou um processo de morte impiedoso a mais de 200 milhões de pessoas com uma pequena, talvez, inconseqüente diarréia hoje e um, quem sabe, sofrível câncer amanhã. Crime hediondo praticado por agentes públicos e grandes conglomerados do setor alimentício.

Como jornalista, já penalizado judicialmente por ter carregado nas tintas ao transmitir informações à sociedade, venho, hoje, abrir uma janela para uma crítica e uma pergunta a quem vem fazendo um grande serviço à nação na caça aos corruptos e agora no desmantelamento de uma quadrilha que agia na área alimentícia: a Polícia Federal.

Se a nossa brava Polícia Federal sabia desse esquema de adulteração da carne há mais de dois anos, por que somente agora denunciou e penalizou os agentes públicos e os donos de frigoríficos deixando, por mais de dois anos, os brasileiros comer carne estragada? Será que este mesmo policial e este mesmo agente público n ao sabiam que essa gravidade estava afetando sua própria família?

Ainda como jornalista e cidadão, que come carne, seja ela de qualquer espécie, imputo à Polícia Federal, a falta de responsabilidade no trato da informação. Dizer à população – mais de 200 milhões de pessoas – que havia o risco de estarmos comendo carne moída com papelão quando, na realidade, a carne estava sendo embalada com papelão é um erro grave de comunicação.

A notícia, portanto, divulgada pela Polícia Federal, de que grandes frigoríficos estariam vendendo carnes vencidas e produtos adulterados gerou uma forte reação nas redes sociais que criaram vários memes com a situação e, consequentemente, levaram todo esse lixo à casa do cidadão brasileiro. Empresas vendiam carnes alteradas com produtos químicos e fora da validade. Prato cheio para a internet, por exemplo, a mistura de papelão em lotes de frango e carne de cabeça de porco em linguiça.

Lembro, aqui, sobre o que nos deixou o escritor italiano, Humberto Ecco, recentemente falecido aos 84 anos:”As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis” . Sim, a internet está aí para, sem qualquer responsabilidade, corroborar com as informações dados sem qualquer responsabilidade.

Longe de tirar os méritos da Polícia Federal, mas o estrago psicológico e comercial foi grande. Na área econômica o estrago provocado por esta organização criminosa na mesa do consumidor brasileiro e na economia nacional, basta lembrar que o Brasil é o maior produtor mundial de carne bovina e de frango, área responsável por 7,2% das nossas exportações (US$ 11,6 bilhões em 2016).

Mas, como podemos afirmar que, hoje, quem detém a informação detém o poder e o que pode ser utilizado para o bem também por ser utilizado para o mau, é o que vem acontecendo no dia a dia.

Não é só a Polícia Federal que, na minha opinião, exagerou nas informações e pecou na demora. O próprio procurador público e coordenador da Operação Lava Jato, Deniel Dallagnol, vem respondendo na justiça por ter dito, em entrevista à imprensa, talvez sem ter conclusão dos fatos ou até levianamente, que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva era o chefão da quadrilha que se instalou na Petrobras.

Veja bem.  A informação, do ponto de vista de repercussão junto à sociedade foi bombástica mas, agora, a Procuradoria Geral da República está sendo obrigada a defendê-lo pelas vias judiciais. Lula pede R$ 1 milhão por danos morais.

Vem, também, na sujeira da Carne Fraca, notícias de possíveis envolvimento do Ministro da Justiça, Osmar Serráglio, que teria aparecido em uma gravação em que chama o fiscal Daniel Gonçalves Filho, suposto líder do esquema, de “grande chefe”, ao intervir a favor de um frigorífico. Por não encontrar “indícios de ilegalidade”, porém, a PF resolveu não incluir o ministro nas investigações. A informação foi dada. Não teve a versão

“Nosso sistema dá guarida a uma responsabilidade pela confiança civil que decorre da violação desse dever ético de conduta, essencial às relações intersubjetivas, que impõe o dever de reparar os danos por ela causados. Essa responsabilidade pela confiança decorre de um valor fundamental de nossa ordem jurídica, que se irradia por todas as relações de direito privado, ingressando no ordenamento através dos princípios, regras, cláusulas gerais e padrões que compõem o sistema aberto do direito privado brasileiro”, diz o jurista João Águirre sobre a informação.

Portanto, a penalidade sobre a informação errada ou precipitada, não cabe apenas aos jornalistas. Como nos o ensinamento de anos e anos, a informação desempenha papel importantíssimo na vida do indivíduo como cidadão, bem como na atividade profissional e empresarial. Falar sobre informação é abordar um tema de extrema relevância na vida dos sujeitos, além de se tratar de instrumento de segurança e proteção da saúde, visto que, muitas vezes, a informação deficiente ou errônea sobre um produto ou serviço pode ceifar uma vida frente aos riscos que cria. Em especial, a informação afeta aos profissionais ligados a área da saúde, por estarem vinculados ao cotidiano da informação aos pacientes, seja na prescrição de um medicamento ou no repasse das informações por ocasião do lançamento de novo medicamento promovido pelo fabricante, laboratório ou distribuidor, no tocante aos riscos, efeitos, propriedade e reações que em razão das características pessoais de cada um podem causar dano.

Alguém vai ser penalizado pela informação errada?