“Carne Fraca é a nova Lava Jato”, diz fiscal que denunciou esquema

Foto: Rodolfo Buhrer/Paraná Portal
Foto: Rodolfo Buhrer/Paraná Portal
Com Tabata Viapiana

O fiscal agropecuário Daniel Gouveia Teixeira foi o responsável pela denúncia que levou a Polícia Federal (PF) a investigar o esquema de venda de carne adulterada mediante pagamento de propina a fiscais do Ministério da Agricultura no Paraná revelado pela Operação Carne Fraca deflagrada na semana passada. De acordo com Teixeira, as investigações sobre o esquema de corrupção tem potencial para ser uma nova Operação Lava Jato.

“Pra mim, a Carne Fraca é uma nova Lava Jato. A gente ainda não viu ainda nem o fio que foi puxado nesse novelo”, disse.

Segundo o fiscal, o esquema foi descoberto por ele ainda em 2012. Ele percebeu que frigoríficos sem condições sanitárias adequadas recebiam certificados de qualidade. O fiscal juntou dados e informações e denunciou o caso à Superintendência do Ministério da Agricultura no Paraná. Um processo administrativo foi instaurado em 2014, mas até hoje, não foi concluído. No mesmo período, Daniel foi afastado da fiscalização dos frigoríficos. Foi quando ele decidiu procurar a Polícia Federal, e desde então, tem auxiliado nas investigações.

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“Eu procurei a minha chefia. Não achava que a minha chefia era tão aprofundada como líder da organização criminosa e nada foi feito. Eu procurei o superintendente e ele consolidou a retirada das minhas atribuições e me removeu para um setor que eu não fiscalizasse frigoríficos”, conta. “Tendo em vista isso e os dados recolhidos e procurei a autoridade responsável pela apuração dos fatos. A gente passava de uma simples decisão administrativa para uma organização criminosa facilitando frigoríficos fraudadores que colocava em risco a saúde dos paranaenses, no início”, afirma o fiscal.

Entre as irregularidades que encontrou enquanto podia fiscalizar frigoríficos, Daniel encontrou produtos vencidos e adulterados. “A empresa mascarava através do uso de produtos químicos. O produto ia pro mercado com, mais ou menos, um terço do preço. O público-alvo deles era a classe mais carente. As pessoas que tinham mais dificuldade para se alimentar estavam comendo os piores produtos”, afirma Daniel.

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Na opinião do fiscal, um dos maiores problemas no Ministério da Agricultura é a indicação política para cargos de chefia. Por exemplo, o superintendente do Ministério no estado foi apontado pela PF como um dos líderes do esquema. Ele foi indicado pela bancada paranaense do PMDB na Câmara. Inclusive, o fiscal afirmou que as nomeações para Superintendente do Ministério no Paraná sempre vieram de dois partidos: PP e PMDB, ambos citados pela Polícia Federal nas investigações da Carne Fraca. “O que a gente vê hoje é que a Superintendência do Ministério da Agricultura do Paraná sempre teve dois proprietarios… O PP e o PMDB”, afirma.

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Operação Carne Fraca

A Polícia Federal  (PF) deflagrou na última sexta-feira (17) a Operação Carne Fraca, com o objetivo de desarticular uma organização criminosa liderada por fiscais agropecuários federais e empresários do agronegócio.

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A operação detectou, em quase dois anos de investigação, que as Superintendências Regionais do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) no Paraná, Minas Gerais e Goiás atuavam diretamente para proteger grupos empresariais em detrimento do interesse público.