Catedral Basílica batiza três filhos de casal gay

papa envia carta
Jéssica, Alyson, Toni, Filipe (na frente de Toni) e David na Catedral Basílica de Curitiba | Arquivo Pessoal

Bruno Brugnolo, Metro Jornal Curitiba 

Há dois anos, Toni Reis e David Harrad foram protagonistas de uma decisão histórica do STF (Supremo Tribunal Federal). Por meio da ministra Carmen Lúcia, a mais alta instância da Justiça brasileira colocou um ponto final no processo do casal – que já durava dez anos – e reconheceu o direito de adoção a casais homossexuais.

No último domingo, o casal deu outro importante passo na formação da família que construiu. Jéssica, 14, Filipe, 12, e Alyson, 16, os três filhos deles, foram batizados na Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, em Curitiba.

“Foi todo um processo. Eu sou católico, o David é anglicano, então primeiro acertamos isto. Depois conversamos com as crianças, que levou mais um tempo, e por fim fui procurar as igrejas”, explicou Reis, que frequenta missas no primeiro domingo de cada mês com a família.

Segundo ele, a tarefa não foi das mais fáceis. “Tive dificuldades com algumas assessorias de padres nas paró- quias. Então, para não falar que foi preconceito, fui até o arcebispo de Curitiba [Dom José Antônio Peruzzo], que foi gentilíssimo. Eu vou batizar as crianças, não vocês, ele me disse”.

Reis, Harrad e os padrinhos então fizeram o curso de preparação para o batismo e realizaram o sacramento no domingo, “Estamos muito felizes, foi uma demonstração de afeto e carinho. Não esperava outra coisa da Igreja”, disse Reis, que fez questão de agradecer Dom Peruzzo, o Cônego Élio José Dall’Agnol e o Diácono Miguel Fernando Rigoni pelo posicionamento sensibilizado sobre a adoção de filhos.

O batismo de filhos adotados por casais gays, contudo, não é inédito na capital paranaense, segundo o Padre Luciano Tokarski, coordenador da Comissão de Animação Bíblico-Catequética da Arquidiocese de Curitiba. “Já houve casos em outras paróquias, inclusive com filhos de casais de mulheres, não há qualquer problema”, declarou.

De acordo com Tokarski, a situação não chega a ser comum, mas a procura existe. “Quem procura o batismo frequenta a igreja; não vai apenas por ato social. Eles querem a vida católica, desejam seguir a religião e a igreja está aberta para isso. O papel da igreja não é de condenar, e sim de acolher a todos – o Papa Francisco tem pedido a atitude de acolhida”, ressaltou.

Em julho, a família tem viagem marcada para a Europa e o roteiro inclui uma visita a Sua Santidade. “A primeira parada será para conhecer o Papa, o Vaticano e a Capela Sistina. Depois vamos visitar os parentes do David na Inglaterra e a chefe da Igreja Anglicana [a Rainha Elizabeth II]”, brincou Reis.

Esta será a primeira vez que os jovens vão conhecer os tios e primos ingleses. Alyson já fala inglês e os irmãos mais novos estão fazendo um curso intensivo da língua.

Histórico

O casal Toni Reis e David Harrad está junto há 27 anos e há mais de duas décadas luta por igualdade de direitos. De 1991 a 2004, Harrad ficou no Brasil com vistos de turista, temporário e por vezes ilegal – a Polícia Federal chegou a dar prazo de oito dias para ele deixar o país em 1996.

Até que em 2005, após denúncia ao Conselho Nacional de Combate à Discriminação, uma resolução do Conselho Nacional de Imigração permitiu a concessão de visto permanente a companheiros estrangeiros, independente do sexo.

Um ano antes, o casal havia assinado uma declaração de convivência marital em cartório na capital paranaense, mas a confirmação do casamento só veio em 2011, quando o STF reconheceu a união estável de pessoas do mesmo sexo –  decisão que abriu as portas para adoção.

Os dois deram entrada para adoção em 2005, mas devido a um vaivém da Justiça, o primeiro adotado – Alyson – só entrou para a família em 2012. Jéssica e Filipe, irmãos de sangue, foram adotados dois anos depois.