Confinado em casa há três anos, grupo desenvolve super-jogo em Curitiba

Foto: Narley Resende / Paraná Portal
Foto: Narley Resende / Paraná Portal

Para financiar a criação independente de jogos autorais brasileiros, um grupo de desenvolvedores de Curitiba trabalha há três anos na produção de um super-jogo, com potencial para competir com os melhores games do segmento. O projeto se coloca entre as produções mais complexas do mercado.

O carro chefe é o jogo “IX – The Pilgrim’s Path” (Nove, a Jornada do Peregrino), game em primeira pessoa, FPS (First Person Shooter), idealizado pelo programador Andrei Daldegan, de 32 anos. A obra está 65% concluída e ainda demanda pelo menos 1,5 mil horas de trabalho.

“No Brasil, o mais próximo do Nine, em termos de jogo autoral, se tivesse que comparar, seria o Toren. É um bom exemplo de jogo brasileiro bem sucedido”, aponta Andrei. Lançado em 2015, Toren vendeu mais de 50 mil cópias, a US$ 9,99 cada, para computadores (o jogo também foi distribuído em outras plataformas).

Assim como Toren, o Nine é compatível para PC, XBox One e PS4. Para viabilizar o game autoral de alta complexidade, Andrei traçou um plano. O primeiro passo foi desenvolver jogos para concorrer a prêmios em dinheiro e estruturar sua empresa, a Animvs. Para isso, Andrei conta com a ajuda de Luiz Henrique Bussolo, de 28 anos, que trabalha na equipe como level-designer, e Igor Bueno, de 32, que é game-designer. A equipe também conta com prestadores terceiros, como é o caso do ilustrador Bruno Ferrari, de 35 anos.

A empresa ganhou dois prêmios em concursos de criação de jogos para o Sebrae – um prêmio de R$ 40 mil (4º lugar) e outro de R$ 30 mil (8º). Os jogos em questão já continham sinais escondidos com lembretes de que faziam parte da criação de um objetivo maior. As reais intenções dos criadores aparecem nas inserções de “easter eggs”, uma espécie de segredo escondido nos sistemas dos jogos. São cartas e imagens subliminares que remetem ao Nine, escondidas nos jogos de empreendedorismo.

Com o capital inicial obtido com os prêmios, Andrei montou um estúdio de programação em sua casa no bairro Capão da Imbuia, em Curitiba, e tem mantido a estrutura necessária para desenvolver os jogos autorais.

São três os principais games em desenvolvimento, mas todos os esforços giram em torno do ‘Nine’ (IX – The Pilgrim’s Path), carro chefe da equipe (saiba mais abaixo). Os outros dois são Last Stand (Última Resistência); e Dungeon Crowley (sem título em português).

Dungeon Crowley

O outro jogo, Dungeon Crowley, é um fragmento do jogo maior, o Nine. “Está relacionado com o Nine. Em um certo momento do Nine, o neófito (personagem do Nine) conhece o abismo. A queda no abismo é o Dungeon Crowley. É um jogo para ser jogado multiplayer, com até quatro participantes, onde cada um reflete uma personalidade, na verdade uma despersonalização do neófito. É um jogo procedural, infinito. Cada vez que você joga as fases são geradas aleatoriamente, assim como os inimigos e armas. Ele é um ‘hack n slash‘, ou seja, ele parece com o Diablo. Você vai coletando itens, subindo level, aprimorando skills (habilidades) e enfrenta inimigos cada vez mais difíceis. Isso tudo gerado em tempo real, cada vez que se joga é diferente”, aponta.

Dungeon Crowley deve ficar pronto até o final de 2018. Até agora, foram 900 horas de trabalho para desenvolver o jogo.

Last Stand

Last Stand, um Zombie Shooter, deve ser lançado no primeiro semestre de 2018. “O conceito do Last Stand foi proveniente da Global Game Jam, um evento mundial que acontece também em Curitiba. É um jogo de hordas de zumbis, essencialmente um shooter, que, porém, tem um diferencial. É um ‘versus’, mas você não compete diretamente com seu adversário. Cada um fica em uma parte do cenário e ambos disputam quem atira melhor. Conforme o progresso nos tiros, você causa problemas para o seu adversário, mais zumbis nascem, etc. Essa é a proposta. Um jogo multiplayer, duas pessoas, 1×1″, explica Andrei.

Nine

Com 4 mil horas de trabalho ininterrupto no desenvolvimento, o Nine nasceu antes dos outros dois. Trata-se de uma manifestação artística do autor, materializada em um jogo de videogame. O objetivo demandou um plano funcional, mas para manter autêntica a concretização do sonho, Andrei também recusou interferências e toma cuidado com as propostas de financiamento.

Segundo o idealizador, houve propostas de investimento para o financiamento da obra, mas em troca de mudanças substanciais no enredo. “Eu não abro mão de fazer o Nine como ele tem que ser feito”, justifica.

Outra possibilidade era a inscrição em um edital da Ancine (Agência Nacional do Cinema), que oferecia R$ 1 milhão, R$ 500 mil, ou R$ 250 mil, dependendo da categoria, mas com a promessa de aproximadamente 78% dos lucros em contrapartida. Mais uma vez o programador recusou contaminar sua meta.

“O objetivo de cada jogo é a viabilização do próximo jogo. Isso não é diferente com o Nine. Temos vários outros scripts, anotações e enredos. Se eu aceitasse dividir o lucro nesses parâmetros temo não conseguir pagar pelo desenvolvimento do próximo jogo”, pondera.

Andrei conta que a empresa norte-americana Epic Games, fornecedora do programa utilizado para produção do jogo mostrou interesse na proposta, mas recomendou que a complexidade fosse reduzida para garantir que o produto seja lançado.

“A gente trabalha com o Unreal Engine, que é um engine de jogos feito pela Epic. Ela [a empresa] me aconselhou a fazer uma coisa menor, mais rápida, que seja exequível. Mas eu acredito muito no Nine. Acho que apesar dos esforços requeridos ele vai dar um bom resultado. Vale a pena pelos conceitos que ele tem. Ele não é simplesmente, ao nosso ver, um jogo. Ele é mais do que isso. Ele é uma mensagem”, exalta.

Nine é uma “busca por expansão da consciência”

Cheio de referências culturais brasileiras e latino-americanas, como a etapa em que o personagem do jogo prepara uma mistura para produzir o chá ayahuasca, o Nine é um game que também reflete a identidade do criador e da equipe. O grupo também busca referências externas, mas prioriza sua impressão própria na hora de incluir uma novidade no enredo ou na personalidade do Neófito (personagem do game). Há também uma mistura de ocultismo na obra, como por meio de elementos

Andrei Daldegan. Foto: Narley Resende / Paraná Portal

Andrei Daldegan. Foto: Narley Resende / Paraná Portal

da cabala, com a árvore da vida – base para construção da personalidade no game – e cartas de Tarot.

O criador revela que a história se faz em uma trama existencial que envolve o jogador e o personagem do jogo. “O Nine é um jogo onde o Neófito está em busca da sua personalidade. Ele passa por estágios de consciência diferentes. E em cada estágio ele vai conhecendo melhor a si próprio. O Nine é fundamentado em conceitos numerológicos cabalísticos. Ele é reflexo de toda essa cultura, esses arquétipos cabalísticos. Com isso, na medida em que o jogador transfere sua consciência para o Neófito, ou seja, o personagem do Nine, ele também passa por esses questionamentos e passa por esse tipo de aprendizado. Esse é o propósito do Nine”, conta Andrei.

“O Nine é um jogo open-world, o jogador é livre para explorar o mundo à sua maneira. O jogo é intercalado em duas etapas, sonho e vigília. Enquanto está acordado, o Neófito é uma pessoa normal, mas ele pratica sonhos lúcidos, e tem poderes de vôo e telekinesis durante os sonhos. Essas skills (habilidades) são aprimoradas, e, com o decorrer da trama, o sonho e a realidade se misturam em um questionamento filosófico. O jogo também faz referência aos alicerces de nossa cultura moderna, com cenários egípcios e sumérios, fazendo alguns questionamentos interessantes.”, esclarece.

“O Neófito tem um arqui-inimigo que é o Obsessor. Existe sempre uma espécie de entidade obscura que aflige o Neófito. No desenrolar da trama ele vai conhecendo mais sobre essa entidade. De onde ela vem, e por que ela causa essa aflição nele. Reflete as dores que nós como seres existenciais, em um plano físico de três dimensões, sofremos. O Nine também tem sua parte positiva, refletida em vôo, liberdade e belezas naturais. Ele reflete as duas partes duais da realidade, tanto o bom quanto o negativo, o ‘bom’ e o ‘ruim’ são conceitos subjetivos”, explica.