PF e Correios investigam venda de uniformes no Paraguai

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Matias denunciou a venda de camisas dos Correios no Paraguai e viralizou. Reprodução / Facebook

Rafael Neves, Metro Jornal Curitiba

Há pouco mais de uma semana, o estudante de medicina Paulo Henrique Matias estava em um hipermercado na região de Assunção, capital do Paraguai. Em um corredor, dispostas em ‘araras’, estavam dezenas de camisas dos Correios, o clássico uniforme amarelo e azul usado por carteiros de todo o Brasil.

“Achei muito curioso, mas na hora eu estava com pressa. Uns dias depois eu estava mais tranquilo, fazendo compras com a minha família, e as camisas continuavam lá”, conta Matias, que tomou um uniforme nas mãos, tirou uma foto e publicou no Facebook. Ontem a postagem já tinha mais de 3,6 mil compartilhamentos

O mistério nas redes sociais é o mesmo que agora move uma investigação dos Correios com apoio da PF (Polícia Federal): afinal, como os trajes dos trabalhadores postais no Brasil estavam à venda em um comércio paraguaio pela bagatela de 18 mil Guaranis (cerca de R$ 10 no câmbio atual)?

Matias disse ter alertado a gerente de que eram roupas de uma empresa pública brasileira, e ela “prontamente” recolheu todas. O mercado teria comprado as peças de uma empresa importadora de vestuário do Paraguai, com a qual o Metro Jornal não conseguiu contato até a noite de ontem.

Estoque ocioso

As etiquetas que aparecem nas fotos mostram camisas de pelo menos duas confecções, ambas do interior do Paraná: a B2, de Apucarana, e a Janbonés, de Jandaia do Sul.

Segundo o portal da transparência dos Correios, a última vez que uma delas forneceu camisas à estatal foi em 2013. Essa data – mais o fato de as roupas estarem com a logomarca antiga, aposentada no ano seguinte – indica que são uniformes velhos.

Os Correios afirmaram que “possuem processos rígidos de destinação correta dos materiais que não estão mais em uso, garantindo a descaracterização dos uniformes antes do descarte”.

Na prática, porém, nada impede que haja centenas de uniformes usados em circulação. A cada três meses, em média, os carteiros ganham novos kits – três camisas, três calças, tênis, cinto e meias – e nem sempre devolvem os antigos após o uso.

“Eles [a administração] pedem para devolver. Mas pouca gente devolve. E eles não cobram essa devolução. Apenas pedem para devolver”, conta Fabiano Batista, dirigente do Sintcom-PR (Sindicato dos Trabalhadores nos Correios do Paraná).

Apenas nos contratos de 2017, os Correios compraram 17.575 novas camisas. O preço unitário variou entre R$ 11,40 e R$ 11,81, ou seja, um pouco mais caro do que as vendidas no Paraguai. As compras são feitas pela administração central dos Correios, em Brasília, que distribui o material para todas as unidades do país.

Em 2016, foi identificada no portal a compra de mais de 213 mil camisas, somando as de manga curta e manga longa – ambos os tipos, alguns com etiqueta arrancada, estavam disponíveis no mercado paraguaio, diz Matias.

Na Polícia Federal ninguém quis comentar o assunto. Apesar de já haver uma investigação, Matias diz que ainda não foi procurado por autoridades policiais para falar sobre o caso.

Procurada, a empresa B2 negou ter vendido camisas para fora dos Correios e diz que auxilia as investigações. Já a Janbonés afirmou ter sido orientada pelos Correios a não se manifestar.

Mercado teria feito muitas vendas

O baixo preço das camisas – cerca de R$ 10 pela de manga longa e R$ 8 pela de manga curta – fez com que várias tivessem sido vendidas no Paraguai até a intervenção de Matias, segundo o estudante. Os uniformes estariam no local há cerca de um mês.

“Cheguei a comprar uma camisa – e depois devolvi – para gravar um ví- deo mostrando o comércio”, diz Matias.

Uniformes de carteiros e de outros funcionários públicos, falsos ou verdadeiros, costumam ser usados no Brasil para a prática de golpes ou assaltos.

Sobre as investigações, os Correios afirmam que “apuram os fatos internamente e com a PF para que sejam punidos quaisquer envolvidos”.