Curitiba tem o maior registro de envolvidos com jogo Baleia Azul

Imagem ilustrativa. Reprodução/Facebook
Imagem ilustrativa. Reprodução/Facebook

Curitiba teve ao menos oito casos de adolescentes que teriam tentado se matar ou se automutilado nesta semana depois de participar de um jogo chamado Baleia Azul, que propõe 50 desafios aos participantes e sugere o suicídio como última etapa, segundo a Secretaria Municipal da Saúde (SMS). A prefeitura publicou no site oficial nessa terça-feira (18) um alerta para pais e responsáveis por crianças e adolescentes, além de profissionais da educação e saúde.

Ao menos três estados brasileiros – Mato Grosso, Minas Gerais e Paraíba – também estão investigando casos de suicídio relacionados ao “Blue Whale”, ou desafio da Baleia Azul. A diferença desses casos para os de Curitiba é que foram registrados isoladamente.

A Polícia Civil de Minas Gerais informou que vai abrir um inquérito para apurar o caso de um adolescente, de 15 anos, encontrado morto em casa, em Belo Horizonte, no último fim de semana. Em Vila Rica (MT), uma adolescente de 16 anos cometeu suicídio na terça-feira, dia 11. Ela deixou duas cartas onde falava sobre as regras e a cronologia das ações a serem cumpridas e também apresentava cortes nas coxas e nos braços. Em Pará de Minas (MG), um jovem de 19 anos morreu no dia 12. À polícia, a mãe afirmou que o garoto também estava participando do “Baleia Azul”.

Na Paraíba, a Polícia Militar (PM) abriu no, dia 11, uma investigação para apurar a participação de estudantes de João Pessoa no jogo. As denúncias são de que alunos estariam participando do grupo e já teriam realizados “tarefas” de automutilação.

Já em Curitiba, os casos foram registrados simultaneamente, na madrugada de terça-feira (18). Em nenhum desses registros os jovens consumaram o suicídio. Foram quatro tentativas e quatro mutilamentos. A rede municipal de saúde teria registrado os cinco casos simultâneos entre adolescentes de 13 a 17 anos. Logo depois, durante o dia de terça, outros três casos.

Quatro foram atendidos na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro Sítio Cercado, um na UPA Pinheirinho. Segundo a prefeitura, os adolescentes foram atendidos e encaminhados para acompanhamento nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) do município. Outro caso foi antendido no Hospital Santa Cruz Batel.

Procurada, a SMS não informou o estado de saúde dos pacientes citados.

Divulgação

Apesar de fazer um alerta público, inclusive com vídeo do prefeito Rafael Greca (PMN) nas redes sociais, a Prefeitura de Curitiba ainda não confirmou se há ligação dos casos com o jogo.

printDiferentemente do habitual, a Polícia Civil do Paraná não foi notificada antecipadamente dos supostos casos de tentativas de suicídio divulgados pela Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba (SMS) nessa terça-feira (18). A Delegacia de Homicídios e Proteção a Pessoa (DHPP) é responsável pelas investigações de casos de suicídios, tentativas de suicídio e qualquer outro caso de atentado a integridade física e a vida.

Até a tarde desta quarta-feira (19), não houve notificação oficial, segundo a assessoria da Polícia Civil. Normalmente, segundo o delegado Fabio Amaro, chefe da DHPP, casos como esses são comunicados com antecedência pela própria unidade hospitalar ou Conselho Tutelar para situações que envolvem menores de idade. A assessoria da prefeitura informou que enviou os prontuários dos pacientes à polícia por volta do meio-dia desta quarta.

Na nota publicada no site oficial, a Prefeitura de Curitiba afirmou na terça que já havia solicitado investigação também da Polícia Federal. A informação foi negada pela assessoria da PF. Até às 12h40 desta quarta-feira ninguém havia procurado o órgão federal para denunciar os casos.

O prefeito e a prefeitura também divulgaram que serão desenvolvidas atividades de prevenção ao suicídio nas escolas com estudantes adolescentes.

Notícia falsa e Efeito Werther

O jogo Baleia Azul surgiu em 2015 como “fake news” (notícia falsa) divulgada por um veículo de comunicação estatal da Rússia. O assunto se espalhou em uma histeria coletiva e gerou um contágio, principalmente entre jovens. De acordo com especialistas, o jogo não existia, mas com a grande repercussão da notícia, pode ter passado a existir.

O presidente da Associação Paranaense de Psiquiatria, Osmar Ratzke, ressalta, por outro lado, que os suicídios sempre existiram. “Eu vejo como positivo discutir o assunto. Não adianta a gente colocar a cabeça no buraco como avestruz e dizer que isso é um problema que não existe. Sempre existiu. Um problema muito humano”, afirma.

Ratzke defende a necessidade de se discutir o assunto, embora seja tratado como tabu pela imprensa e espacialistas.

O psiquiatra cita a história da publicação de um romance (Sofrimento do jovem Werther – 1774) do poeta e escritor Johan Wolfgang von Goethe. O tom realístico e perturbador do romance provocou comoção entre os jovens da época, que atraídos pelo espírito passional e depressivo do protagonista da obra, resolveram por fim em suas próprias vidas.

Na psicanálise criou-se um termo chamado Efeito Werther, em referência ao personagem e caracterizado por sua fenomenologia suicida.

“O fenômeno “Werther”, que ocorreu depois da publicação do livro do Goethe – ‘O sofrimento do jovem Werther’ – realmente aconteceu naquela época, na Europa, com a divulgação. Eu, hoje, coloco um pouco em dúvida isso, em termos de que se realmente a gente ficar divulgando (vai causar outros casos). Claro, não podemos falar de casos específicos. Não dá para publicar que fulano de tal tentou suicídio. Isso não se pode fazer. O que a gente pode fazer é divulgar que sete adolescentes foram atendidos em unidades de saúde porque isso vai ser positivo. Vai servir de alerta”, apoia.

O comportamento suicida também teria maior influência quando se tratando de celebridades ou figuras públicas — como já ocorreu, segundo pesquisas, na mesma época, com as mortes da atriz Marilyn Monroe e do músico Kurt Cobain.

Descrição

A coordenadora de Saúde Mental da SMS, Flávia Adachi, afirma que em todos os casos desta semana em Curitiba havia sinais de automutilação e ingestão de medicamentos. Segundo a profissional, não é comum o atendimento a esse tipo de ocorrência simultaneamente como aconteceu hoje (terça) de madrugada.

“São padrões muito similares, encontrados nos jovens, que deram entrada nos serviços nossos de urgência e que apresentaram automutilação e ingesta de medicação. Foi na madrugada, não é habitual, tanto que nos chamou muita atenção, nos causou preocupação e um alerta importante”.

“Foram em dois serviços de urgência, mas nós não temos como comprovar a conexão, a ligação desses jovens, se eles se conheciam, enfim. O que nós temos é que foi procurada ajuda, justamente pela questão de tentativas de suicídio e os sinais ali foram comuns (entres os casos). A ação, enquanto serviço de saúde, foi acolher prontamente, procurar avaliar as situações, e direcionar para a continuidade do tratamento em serviço especializado.

Flávia Adachi acredita que o debate sobre o assunto neste momento é fundamental. Por isso, a secretaria optou por publicar o alerta.

“O alerta está posto. As situações estão se manifestando. É necessário que se oriente a sociedade. Temos que lançar mesmo a situação enquanto utilidade pública.

Reprodução/Facebook

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Jogo

Após o boato, o jogo mortal ganhou popularidade e chamou atenção na internet. Os desafio teria sido promovido por um grupo da Rússia, conhecido como “#F57”, que está sendo investigado devido à suspeita de que já teria induzido mais de 130 jovens, a maioria na Europa, a cometerem suicídio desde 2015.

Os 50 desafios, propostos por “curadores”, que aliciariam os jovens, devem ser cumpridos diariamente e chegariam por meio de mensagens de WhatsApp, Facebook, SMS e outros aplicativos e redes sociais.

Há desde tarefas simples, como desenhar uma baleia num papel, até outras muito mais mórbidas, como cortar os lábios ou furar a palma da mão. Em outra tarefa, o participante deve “desenhar” uma baleia em seu antebraço com uma lâmina. O desafio de número 50 é sempre o mesmo: suicídio.

Série

Outra preocupação relacionada ao tema foi levantada na segunda-feira (17) pela Associação Paranaense de Psiquiatria que divulgou nota oficial sobre a série do Netflix 13 Reasons Why.

O alerta está na glamourização da suicídio, supostamente promovida pela série. Apesar disso, a associação ressalta que obras de ficção como essa simbolizam a vida real e podem contribuir para fomentar discussões de temas importantes para a sociedade, como bullying, depressão e até mesmo suicídio entre adolescentes.

Depois do lançamento da série houve alta de 170% nos acessos ao Centro de Valorização da Vida, que há 55 anos atua na prevenção do suicídio no Brasil.

No entanto, levando em consideração que a Organização Mundial de Saúde (OMS) relata que mais de 90% dos suicídios estão relacionados com transtornos mentais e que a maioria dos óbitos poderia ser evitada se houvesse estratégias de prevenção mais acessíveis à comunidade.

Segundo a associação, a série do Netflix peca por não abordar a questão do adoecimento mental da personagem.