Fase da Lua com soma de fatores causaram fenômeno em Pontal

Cratera na praia de Pontal
Foto: Laura Edson / reprodução / Facebook

A soma da maré alta influenciada pela Lua Cheia, com uma tempestade local (chuva de verão), mais as peculiaridades do vento na Baía de Paranaguá e a existência de uma embocadura com pedras que conduzem um córrego, é a principal hipótese de causa para o fenômeno que intrigou moradores de Pontal do Paraná na última sexta-feira (10), no litoral paranaense.

O mar com água turva e conturbada invadiu a praia do local conhecido como Canto das Pedras, onde há um restaurante com o mesmo nome, e abriu uma cratera com redemoinhos. Na medida em que a água avançava, a areia ia sendo engolida no centro do fenômeno. Apesar de assutar quem passava por lá, não houve danos às estruturas da praia nem incidentes com quem estava na praia.

Moradores e turistas registraram a cena inusitada em vídeos e fotos que circulam nas redes sociais. A erosão naquela praia acontece de tempos em tempos, sem uma data provável, e pode ocorrer sempre que houver uma combinação de fatores. “A situação que forma esse redemoinho é tão peculiar que ela não acontece todo mês. Chance zero (de prever quado o fenômeno voltará a ocorrer)”, afirma o especialista em Engenharia Oceânica, Eduardo Felga Gobbi, professor do curso de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Moradora de Pontal, Débora Ravaglio da Silva conta que já viu o fenômeno em outro ano. “Uma vez aconteceu também, uns cinco ou seis anos atrás. Mas foi à noite, no mesmo lugar. Eu estava na praia. Começa a se formar uma rampa, até que acaba tudo num grande buraco. A gente pulava no mar e não dava pé.  Na época, um pescador que estava lá disse que era influência da lua”, conta.

Em outro ano, Matilde Oliveira, de 60 anos, contou que seu neto de seis anos caiu no buraco e foi salvo pelo tio. “E esse buraco fica depois por baixo, no mar. Uma vez meu neto caiu nesse buraco. Nossa, foi um susto. O tio dele pulou no mar e conseguiu pegá-lo; e a água ali fica escura quando acontece isso. É um perigo banhar-se ali por hora”, alerta.

Explicação

“Associação entre a maré astronômica, que muda em função da Lua e do Sol, com a maré meteorológica. Essa combinação é que causa aquilo com 100% de certeza. Para entender bem, tem que ainda compreender a região”, explica o professor Eduardo Gobbi.

Para Gobbi, as obras portuárias em Pontal e Paranaguá não têm qualquer influência na erosão daquele ponto. “Mais influência mesmo tem a obrinha da embocadura (canal de embarcações que levam para a Ilha do Mel e Paranaguá) que está ali desde sempre”, afirma.

Principal fator de influência, a maré da Lua Cheia, assim como da Lua Nova, pode aumentar em 2 metros o nível do mar nas praias. As luas minguante e crescente influenciam em marés menores, de 80 centímetros a mais que o nível normal. A Lua Cheia neste mês começou no domingo, dia 12, às 11:54:49.

unnamed (10)“Nós temos uma maré semidiurna, na Lua Quarto Crescente, Quarto Minguante, que são as duas maeés menores, essa variação chega a 80 centímetros. A Cheia e Nova chega perto de dois metros. Com isso, numa situação de vazante, formam-se correntes muito grandes. Adicionalmente a isso, a gente tem um guia corrente da embocadura de onde os barcos entram e saem. Ali saia um pequeno rio no passado, há 40 ou 50 anos, e foi feito um canal. Colocaram pedras de cada lado, uma embocadura de rocha. A vazão é interceptada perpendicularmente por essas corrente. Na vazante a água está saindo como um rio. Essa interceptação forma um vórtice e esse redemoinho que causa esse problema”, conclui.

“Corrente de maré e as correntes de deriva litorânea que são essas que são associadas à arrebentação das ondas. Ali (vídeo abaixo), a gente percebe que havia ondinhas razoáveis. Não ondas grandes, poque já é uma região abrigada da baía, mas suficientes, associadas à corrente, as ondas acabam desmoronando a rampa”, aponta o professor. “Se você anda mar a dentro, em direção à baía, as profundidades são muito grandes, porque ali jé é o canal da embocadura da baía, o início do processo erosivo pode evoluir muito rapidamente”, diz.

Como prever o fenômeno

De acordo com o professor, somente um estudo mais aprofundado poderia garantir uma maneira de evitar incidentes ou que o fenômeno volte a ocorrer. “Essa transição entre a lua Quarto Crescente e Quarto Minguante para Cheia e para Nova é contínua. Ela não sai de 80 centímetros para 2 metros. Acontece continuamente ao longo do mês e depois ela volta”, explica.

“A gente precisa daquela embocadura, mas isso não impede que eventualmente a gente possa fazer obras de engenharia para minimizar isso. Eu, particularmente, num primeiro momento, não mexeria em nada ali, não”, afirma.

“A única coisa que pode acontecer ali é essa embocadura de rochas, pode desmoronar um pedaço dela. Como o material no fundo está sendo perdido, e as rochas se assentam direto na areia pode haver um descalçamento dessa embocadura”, avalia.

Em todos os casos em que o fenômeno foi registrado a areia voltou à praia e o formato da região volta ao normal em poucos dias.

A maré astronômica varia igualmente ao longo do ano e não existe um mês em que seja mais propício ao fenômeno. “Pode haver efeitos meteorológicos locais. Pode ter acontecido uma ventania muito forte dentro da baía de Paranaguá e esse vento forte pode incrementar ainda mais o nível. Temos registros não oficiais, mas já vi registros, de até três metros e meio dentro da baía da Paranaguá.

Não houve ressaca

O meteorologista do Sistema Meteorológico do Paraná (Simepar) Lizandro Jacóbsen ressaltou que no fim de tarde de sexta-feira (10), dia do registro da cratera, houve uma tempestade local (chuva de verão), que se forma na Serra e desce para o Litoral. Apesar disso, ele descarta uma ressaca como causa.

“O vento estava de nordeste (na sexta). Não era uma condição de ressaca, quando o vento vira para leste e sudeste, persistente e forte. Até tem uma possibilidade de ressaca para o Sul do País entre hoje (segunda) e amanhã (terça). Dá para dizer que a tempestade ajudou, mas não foi a única causa”, afirma. O vento na sexta soprava em média a 30 km/h, chegando ao pico de 40 km/h por volta das 14 horas, de acordo com o medidor do Simepar instalado em Pontal. Essa velocidade não costuma causar alterações. “Pode ter sido a chuva que desceu muito forte pelo canal. A água estava muito turva”, especula o meteorologista.