Homem da JBS na Carne Fraca cita políticos do PMDB-PR. Veja íntegra

Em ação penal da Operação Carne Fraca, o veterinário Flávio Evers Cassou, apontado como “homem da JBS” no esquema investigado pela Polícia Federal, confessou em depoimento que pagou propina a fiscais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Cassou, que era gerente da JBS/Seara na Lapa (PR), afirmou que parte do dinheiro era destinado a políticos do PMDB do Paraná.

Segundo o ex-gerente, os repasses eram feitos mensalmente por ordem da matriz da empresa de Joesley Batista. Cassou está preso preventivamente na carceragem da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba desde o dia 17 de março.

Ele foi ouvido pelo juiz federal Marcos Josegrei, da 14ª Vara Federal de Curitiba na última sexta-feira (1º). O depoimento publicado nessa terça-feira (5) durou cerca de 4 horas (veja íntegra abaixo).

Entre os principais beneficiários da propina relatada por Cassou estavam o ex-superintendente Regional do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Daniel Gonçalves Filho, a ex-chefe do Serviços de Inspeção de Produtos de Origem Animal, Maria do Rocio Nascimento e o fiscal agropecuário Renato Menon.

Cassou afirmou que anotava em sua agenda toda a rotina mensal de pagamentos em dinheiro que entregava a fiscais, em especial a Renato Menon.

“Era mensal. Por que está anotado na agenda? Porque eu tenho por hábito anotar tudo. Nunca fiz nada que eu precisasse esconder. Eu sempre anotei porque a empresa me entregava em dinheiro e eu repassava conforme o combinado”, disse Cassou.

Juiz: Isso era chamado ajuda de custo, popularmente?

“Veja, não era ajuda de custo. ‘Esse era pro [Renato] Menon’… Você vai dizer se eu não interferia? De repente eu chamava o gerente e digo ‘ó, o Meno tá, pô, veja aí, tá vindo… Dá uma mão. Eles decidiam quanto que era. Então ‘isso aí’ era pro Menon. Todo mês eu entregava para ele e anotava. Por isso está anotado na agenda”.

Juiz: tinha um valor específico?

Cassou: “Acredito que o Menon era assim na faixa de quatro mil reais”.

Juiz: E onde que o senhor entregava esses valores pra esse povo?

Cassou: “Dos fiscais eu entregava no dia que eu recebia, dentro do frigorífico. Do frigorífico, não. Na sala. Envelope, em dinheiro. Eles me entregavam em dinheiro”.

A prática de pagamento de propina teria começado em 2008. Segundo Cassou, parte da vantagem indevida de R$ 20 mil entregue a Daniel Gonçalves, que ocupou o cargo de superintendente entre 2007 e 2016 no Ministério da Agricultura, era repassada a um deputado do PMDB do Paraná.

Os políticos do partido seriam responsáveis pela indicação do superintendente em Brasília. Gonçalves é apontado como líder no esquema de corrupção investigado na Carne Fraca.

Procurador: quando o senhor diz que esse valor era para pagar políticos do PMDB, essa informação quem disse para o senhor foi o Daniel (Filho)?

Cassou: “Daniel”.

Juiz: o senhor não viu pessoalmente?.

Cassou: “Não vi pessoalmente. Não vi nenhuma passagem. Foi ele [Daniel] que me informou.

Juiz: o senhor mencionou que foi até o escritório de um deputado aqui no Paraná, né? Mas a finalidade foi encontrar no saguão o Daniel?

Cassou: “Nos encontramos na garagem e subimos no escritório. Cumprimentei o deputado e saí antes. O Daniel ficou. Eu disse ‘tenho que ir embora’. Tenho que ir embora, não vi passar [o dinheiro].

Juiz: o senhor viu entregar esse dinheiro para o deputado?

Cassou: “Não. Visualizar, não. Minha conclusão”.

Sergio Souza

Sergio Souza (PMDB-PR). Foto: Câmara Federal.

Serraglio e Sergio Souza 

O deputado federal paranaense Osmar Serraglio (PMDB-PR), ex-ministro da Justiça do Governo Michel Temer, flagrado em grampo telefônico numa conversa com Gonçalves Filho, afirmou anteriormente que o nome do superintendente foi chancelado pela bancada do PMDB do Paraná, mas nega ter sido o responsável pela indicação.

O ex-senador e atual deputado federal Sérgio Souza (PMDB-PR) também é citado em grampos da Carne Fraca e suspeito de ter recebido dinheiro de Daniel Gonçalves.

A assessoria do deputado afirmou em nota que ele irá se manifestar somente depois de ter acesso ao conteúdo do depoimento do veterinário.

Reta final 

A Operação Carne Fraca está no fim da fase dos depoimentos de testemunhas. Até o dia 19 de dezembro todas devem ter sido ouvidas. Ao todo são 60 réus nas seis ações penais instauradas. Até agora, nas seis ações somadas foram indicadas 630 testemunhas, além dos 60 interrogatórios dos réus.

A partir do dia 19, o processo caminha para a reta final. Podem ser feitas diligências complementares se necessário, além das alegações finais, e, por fim, as sentenças do juiz Marcos Josegrei as Silva, da 14ª Vara Federal de Curitiba. Paralelamente, novas ações podem surgir no STF na medida em que o processo envolva políticos com mandato.

A Carne Fraca mantém atualmente oito presos preventivos desde o dia 17 de março. São fiscais, donos de frigoríficos, além de Flávio Cassou, que é veterinário e ex-gerente da JBS/Seara, na unidade da Lapa, na região metropolitana de Curitiba.

Presos

Ainda estão presos Daniel Gonçalves, ex-superintendente do Mapa; Maria do Rocio, ex-chefe do Serviço de Inspeção de Produtos Animais no Paraná; Juarez José Ide Santana, chefe do Mapa em Londrina; Idair Peccin, dono do frigorífico Peccin; Paulo Rogério Sposito, dono do frigorífico Larissa; e os fiscais Luiz Carlos Zanon Junior e Eraldo Cavalcanti Sobrinho.

Os frigoríficos Peccin e Larissa permanecem interditados. Após a operação, em março, uma fiscalização extraordinária do Mapa constatou a inobservância dos parâmetros necessários previstos em regulamentação.

Veja os outros depoimentos divulgados nessa terça-feira (5):