Inspirado em projeto polonês, tatuador resgata estética social de detentas no PR

Tatuagens

Por Eriksson Denk

Joana Andrade (nome fictício), egressa que pediu ao Conselho da Comunidade de Curitiba um curso de operadora de empilhadeira, foi a sétima detenta monitorada do Escritório Social a passar pelo projeto de emporedamento e libertação do tatuador curitibano Matheus do Rosário Siqueira, o Matheus Sari (nome profissional). Na tarde de sexta-feira (15), ele transformou a fada que ela tatuou de próprio punho dentro da Penitenciária Feminina do Paraná em flores.

O projeto de cobrir tatuagens realizadas no interior das celas ainda não tem nome, mas é pioneiro no Paraná e, até onde se sabe, no país. Para Matheus, que trabalha como tatuador há três anos, não se trata de apagar o passado, mas de restituir a confiança.

A inspiração é polonesa-paranaense. Em 2015, a campanha Freedom Tattoos (veja no fim da matéria), da faculdade de Ciências Sociais de Varsóvia (Pedagogium WSNS), viralizou entre internautas brasileiros nas redes sociais. Na mesma época, o tatuador e engenheiro mecatrônico de 25 anos procurava um projeto social para tocar e encontrou similaridade numa oferta de uma professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Foto: Conselho da Comunidade

Foto: Conselho da Comunidade

“A ideia de trabalhar com a mulher é totalmente deliberada. Infelizmente, a mulher carrega um estigma muito grande pela passagem pela prisão”, afirma. “O homem que não estudou sai da prisão para uma vaga no mercado de trabalho braçal. A mulher, não. O mercado leva a mulher para trabalhos em ambientes que exigem confiança irrestrita, casas, comércio. O projeto quer expor a confiança delas”.

O vídeo de divulgação do Freedom Tattoos conta a história de uma mulher que tatuou a palavra VENDETTA (vingança) na nuca durante a prisão em um centro de detenção juvenil. A primeira tatuagem redesenhada por Matheus, há alguns meses, guarda história parecida. Ele transformou o nome de um homem em um emaranhado de flores. A presa que inaugurou o projeto carregava no braço a alcunha do marido e também a assinatura da condenação: foi presa justamente pelo assassinato desse homem.

Outra transformação que recorda com carinho trocou a junção MÃE TEREZINHA e o desenho de uma bruxa. A maioria vira flores, uma das especialidades de Matheus, como se replicasse, a cada nova obra, o hino de Geraldo Vandré: “acreditam nas flores vencendo o canhão”.

“Algumas contam a história, outras não. A maioria é muito simples. Essa mulher, da Mãe Terezinha, no entanto, tinha uma história interessante. Ela se envolveu no tráfico e chegou a comprar uma casa para a família com isso. São circunstâncias que não são autoexplicativas, mas ajudam a entender as circunstâncias que levam ao crime”, conta.

A seleção das mulheres é feita em parceria com o Escritório Social, instituição do Estado que serve de amparo e assistência a presos do regime monitorado. “Melhora a autoestima das mulheres, melhora a apresentação em uma entrevista de emprego, por exemplo. Além de deixar para trás aquele legado do cárcere que é tão difícil de apagar”, conta Ananda Chalegre, diretora da unidade.

Tatuagens

Depois da triagem, Matheus se encontra com as mulheres em duas oportunidades. Na primeira, conhece um pouco da história de vida e daquele(s) desenho(s) e planeja a repaginada. Na segunda, executa a ideia. A nova tatuagem é inteiramente bancada por ele e pelo Estúdio Teix, que comprou a ideia desde sua concepção. Os materiais utilizados são os mesmos de uma consulta paga.

“Elas costumam improvisar nos materiais usados dentro da unidade. Tinta de caneta, tinta de tecido. E usam qualquer material minimamente perfurante. Não há nenhuma precaução com a saúde, por isso eu tento orientar elas também sobre os cuidados mínimos com as regiões de tatuagem”, conta o tatuador. “Usávamos mesmo todo tipo de material, mas é tudo bem amador e irregular”, confirma Joana.

No livro Prisioneiras, o médico Dráuzio Varella relata que até mesmo havaianas são usadas como material de improviso nas penitenciárias brasileiras.

Regiane tem quatro tatuagens espalhadas pelo corpo. Até então, nenhuma era “profissional”. Matheus costuma ajudar a repaginar todas que elas pedem, mas dá prioridade para as que foram feitas durante o cárcere. Ele faz, em média, 24 tatuagens por mês, duas dedicadas ao projeto.

Debruçado na maca, no habitat natural, conta: “Escolho técnicas de sombreamento, desenhos maiores. A ideia da tatuagem refeita é que ela possa parecer nova e que essa técnica de relevo tenha o seu destaque”.

Segundo ele, o projeto de tampar as feridas abertas é similar ao da tatuadora curitibana Flávia Carvalho, do projeto A Pele da Flor. Flavia Carvalho tinha 15 anos quando foi agredida pelo primeiro namorado. Mais de uma década depois, quando já era tatuadora profissional, se viu de novo diante de um caso de violência. Mas, dessa vez, a vítima não era ela, e sim uma cliente.

Uma jovem de 20 e poucos anos pediu à tatuadora que cobrisse uma cicatriz com um desenho. Foi esse caso que inspirou Flavia a ajudar mulheres vítimas de violência a recuperarem a autoestima por meio da tatuagem.

Há alguns meses, Matheus intermediou um encontro incomum nesse projeto. Uma amiga belga, que mora na Espanha, o visitou no Estúdio Teix e tomou conhecimento da parceria com o Escritório Social. Ela fez questão de fazer a mesma tatuagem de uma monitorada.

“Foi uma situação engraçada, porque a brasileira não falava inglês e a belga não entendia nada da nossa língua. Mas é uma questão que as uniu”, conta. “Falando em Europa, quem sabe um dia a gente possa fazer igual a Holanda, que está fechando as suas penitenciárias”.

Matheus Sari ainda conta com a parceria de uma amiga, a fotógrafa Jennyfer Loesch. Ele faz os desenhos e os aplica à pele e ela registra as artes. O tatuador também grava algumas conversas e escreve relatos da experiência, o que deve gerar uma exposição e um livro no futuro.

O nome virou flor

Antes

Depois

A fada virou flor

Antes

Depois

Conheça o Freedom Tattoos: