‘Minha atuação foi exclusivamente exercício puro de advocacia’, afirma Teixeira

O advogado Roberto Teixeira, amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, prestou depoimento por videoconferência, na condição de réu, na manhã desta terça-feira (19), ao juiz federal Sérgio Moro. Ele negou que tenha conversado com o Antonio Palocci e Marcelo Odebrecht sobre o imóvel para o novo Instituto Lula. Este é o último interrogatório antes de o processo chegar à fase final.

Teixeira é acusado pelo Ministério Público Federal (MPF) de ter ajudado a intermediar pagamento de propina da Odebrecht ao ex-presidente. O interrogatório de Teixeira foi adiado duas vezes. De acordo com os advogados, Teixeira foi internado no dia 5 de setembro devido a problemas no coração. Ele recebeu alta do hospital, mas necessitou de “repouso absoluto” no dia 13, para quando foi remarcado o depoimento, na mesma data em que Lula foi ouvido em Curitiba.

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No depoimento, Teixeira afirmou que teve conhecimento sobre o terreno em janeiro de 2010. Ele diz ter sido procurado pelo empresário José Carlos Bumlai, para quem já atuava como advogado, que dizia estar interessado em um imóvel para sediar uma montadora da China, a Cherry, e um outro imóvel para instalar um segundo empreendimento. Bumlai teria desistido do negócio e indicou o primo, Glaucos da Costamarques, como potencial comprador. O imóvel foi comprado por um valor muito abaixo do mercado e Costamarques queria um lucro de, no mínimo, R$ 1 milhão. Depois, o imóvel foi revendido para uma empresa ligada à Odebrecht.

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“Com todos esses entraves jurídicos, o imóvel estava a venda há mais de 20 anos. Na sequência, ele desistiu desse negócio e indicou como um possível comprador o primo, Glauco da Costamarques. Naquela época, ele [Costamarques] residia em São Paulo há algum tempo. Ele era um investidor, um pecuarista, um fazendeiro de grandes posses. Ele queria um investimento imobiliário. Em decorrência disso, nós fizemos uma série de documentações que favoreciam Glaucos”, disse o advogado. “Minha atuação foi unica e exclusivamente exercício puro de advocacia”, afirmou Teixeira.

Com relação aos supostos atrasos nos pagamentos do aluguel do apartamento vizinho à casa do ex-presidente, que teria sido alugado pela família de Lula de Costamarques, o advogado diz que não tem conhecimento sobre o assunto, mas que auxiliou a ex-primeira-dama Marisa Letícia com a declaração de Imposto de Renda. “Sou amigo, tão e somente amigo, mas minha amizade não se estende a essas outras informações todas. […] Se constou no imposto de renda é porque existe”, declarou.

Agora, Moro deve abrir prazos para que acusação e as defesas apresentem as alegações finais. Por fim, os autos voltam às mãos do juiz que analisa todas as provas e decide se absolve ou condena os envolvidos.

Depoimento de Glauco da Costamarques

Em interrogatório no último dia 6 ao juiz federal Sergio Moro, o empresário Glaucos da Costamarques afirmou que o advogado Roberto Teixeira pediu que ele pagasse R$ 800 mil, em espécie, ao Instituto Lula. Segundo Costamarques, Bumlai, que já foi condenado por Moro a nove anos e dez meses de prisão, disse a ele que Roberto Teixeira teria um “negócio bom”. No depoimento de hoje, Teixeira afirmou que nunca ocorreu pagamentos por fora.

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O advogado, então, teria falado a Costamarques sobre um terreno em São Paulo que, por causa de disputas judiciais entre membros de uma família e dívidas, poderia ser comprado a um preço interessante. “Você pode comprar ele barato e ainda vender barato, e ganhar dinheiro”, Teixeira teria falado ao empresário.

O advogado Cristiano Zanin Martins, que defende Lula, diz que “o Instituto Lula jamais recebeu qualquer valor do senhor Glaucos”.

Denúncia

De acordo com a denúncia do MPF, Lula teria recebido o terreno, avaliado em cerca de R$ 12,4 milhões, como vantagem indevida por contratos da empreiteira com a Petrobras. A obra nunca foi realizada. O negócio teria sido fechado com a intermediação do ex-ministro Antonio Palocci e de seu assessor, Branislav Kontic, também réus da ação penal.

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A denúncia também narra o fato de que Lula também teria recebido o apartamento vizinho ao que mora por meio de vantagens ilícitas. Nesse caso, o MPF aponta que foram usados mais de R$ 504 mil na compra do imóvel e que teria sido adquirido por Glaucos da Costamarques.