Ativista apoia presos da Lava Jato até contra tentativa de suicídio

Isabel Mendes. Foto: Conselho da Comunidade
Isabel Mendes. Foto: Conselho da Comunidade

Rafael Neves, Metro Jornal Curitiba

A advogada Isabel Kugler Mendes estranhou quando recebeu uma ligação pedindo para que fosse imediatamente ao CMP (Complexo Médico Penal), presídio em Pinhais, na região de Curitiba, que ganhou fama nacional há 2 anos e meio por abrigar presos da Operação Lava Jato.

Visitar o CMP é tarefa de Isabel à frente do Conselho da Comunidade de Curitiba, órgão que fiscaliza as 10 penitenciárias e 13 carceragens de delegacia da região. Mas ela tinha ido ao CMP dias antes e só voltaria dali a um mês. “O diretor do Complexo me falou: venha agora. É que um dos ‘Lavajatos’ tentou suicídio”, relembra Isabel.

“Fui, e quando eu cheguei ele já estava me esperando na biblioteca. Aí eu fui conversando com ele, e o que aconteceu? Nas duas primeiras semanas, eu voltava a cada dois, três dias. Ele era uma pessoa que já não era muito novo, tinha um pouco mais de idade, e ele estava desesperado, porque ele tinha conhecidos, os filhos sem ver ele… e como os outros ‘Lavajatos’ sabiam, isso foi me aproximando mais deles”. Desde então, Isabel encontra alguns dos maiores políticos e empreiteiros do país cerca de uma vez por mês.

‘O Complexo é complexo’

Os destinos da doutora Isabel e dos “Lavajatos” se cruzaram em 20 de março de 2015, quando o delegado da PF (Polícia Federal) Igor Romário de Paula mandou um ofício ao juiz Sérgio Moro. A Lava Jato já acumulava 10 fases e ficava difícil manter todos os presos nas duas celas da PF em Curitiba. Era preciso abrir espaço, e Moro autorizou que 12 presos fossem para o CMP.

O local é um antigo manicômio judiciário que hoje abriga um hospital e um presídio para 659 pessoas. Há quem diga que a construção, vista do alto, parece um fuzil.

Mais do que a estrutura, porém, chamam a atenção os contrastes humanos. Há uma ala feminina com grávidas e presas que passam por algum tratamento, além das integrantes do “seguro”: mulheres juradas de morte, retiradas da penitenciária feminina após uma rebelião em março deste ano. E há as seis galerias de presos comuns.

As galerias 1 e 2 abrigam detentos com transtornos mentais, que Isabel chama carinhosamente de “louquinhos”. É o espaço mais mal cuidado do presídio, já que os ocupantes não costumam primar pela higiene pessoal e muito menos pela limpeza das celas. “Eu não faço isso, mas muitos põem um lenço no rosto para não sentir o cheiro”, conta a advogada.

Nas galerias 3 e 4 estão os “meio-a-meio”, alguns com problemas psíquicos causados ou agravados pelo uso abusivo de drogas. A galeria 5 é reservada a “presos especiais”: ex-policiais condenados por crimes de toda sorte. E os Lavajatos foram alocados na galeria 6.

Nos primeiros meses, os tais presos especiais dividiam espaço com os da Lava Jato. Isabel conta, porém, que um dia se descobriu que alguns ex-policiais pretendiam tomar seus ilustres colegas de galeria como reféns e “virar” (fazer rebelião) o presídio. Descoberto o plano, os conspiradores foram removidos e deram lugar a presos idosos. A chegada dos velhinhos mostrou, segundo Isabel, o lado humano dos troféus mais valiosos da Lava Jato.

Solidariedade

Os idosos que hoje dividem a galeria com a Lava Jato chegam a ultrapassar 80 anos de idade. São, em geral, pobres e abandonados pela família. Mas tiraram a sorte grande. “Você chegava lá, de repente você via um velhinho com uma camisa daquele jacarezinho [da marca Lacoste]. Daí a pouco você via ele com um casaco especial. Os Lavajatos passaram a dividir as roupas deles. E eu passei a respeitá-los mais”, diz a advogada.

Ela lembra que os banheiros – cuja limpeza era confiada ao ex-deputado Luiz Argôlo – só tinham chuveiros frios, e nenhum réu de Sérgio Moro fez objeção. “Mas quando os velhinhos entraram, eles [os da Lava Jato] perguntaram: não tem como colocar chuveiro quente? Eles são tão velhinhos…”. O conselho, então, comprou oito duchas “de oitenta a cem reais” e doou à galeria 6, que desfruta de banhos quentes até hoje.

Chocolate belga

Foto: Metro Curitiba

Foto: Conselho da Comunidade

Quem escuta a descrição da rotina de Isabel não acredita que ela tem 80 anos. Ela mesma diz que costuma se sentir mais jovem, exceto quando visita os detentos em celas de polícia – no Paraná, um terço dos 30 mil presos está em delegacias, e não nas penitenciárias. Ver a massa carcerária nestes ambientes insalubres faz Isabel sair de lá “se sentindo com 200 anos”.

O Direito não foi sua primeira profissão: ela se formou beirando os 40 anos, com família feita. Era casada com um coronel da PM (Polícia Militar) que dirigia o antigo presídio do Ahú, que funcionou até 2006 no coração de um bairro de classe média-alta de Curitiba.

Os tempos eram outros, mas foi lá que Isabel começou a zelar pelos internos. “Eu doava sabão de coco para os presos, ia à cozinha e pedia um almoço melhor para eles”. Antes de criar o Conselho, há dois anos, a advogada foi vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-PR (Ordem dos Advogados do Brasil no Paraná), onde já monitorava o sistema penitenciário.

Da mesma forma que doa agasalhos aos “louquinhos”, dos quais a maioria esmagadora não recebe nenhuma ajuda de fora, Isabel luta pelos direitos dos alvos da Lava Jato. “Eu chego num dia lá e, conversando com eles, eles contam que não tinha entrado o chocolate, porque era chocolate belga. Eu desci e falei para o diretor: deixa eu ver a lista do que pode entrar. Quatro barras de chocolate. Onde é que está escrito aqui que tem que ser nacional?”, relembra.

Em alguns casos o atendimento era individualizado. O lobista Fernando Soares (conhecido como Fernando Baiano, alcunha que ele diz ser reservada aos amigos íntimos), por exemplo, tem restrições alimentares como doença celíaca, e contava com uma mãozinha de Isabel. “Eu pedia para o diretor: cuida para mim da comida do Fernando, o Fernando tem muito problema… deixa entrar mais uma lata, assim, de Sustagem, sei lá”, ri a doutora.

Na luta para aproximar a passagem pelo cárcere da vida normal, se destaca o empreiteiro Marcelo Odebrecht. Certa vez ele achou uma tábua e decidiu montar uma escrivaninha na cela, onde escreve cartas à mulher diariamente. Os carcereiros confiscaram a aquisição. “Acharam que aquilo poderia virar uma arma”, explica Isabel. A rotina espartana de Odebrecht na prisão, com exercícios físicos diários, impressiona a advogada: o executivo fez halteres com um cabo de vassoura, barbante e garrafas pet, e estes ele não perdeu.

A doutora diz ter tido pouco contato com familiares dos presos da Lava Jato, mas descreve o constrangimento generalizado de mães, esposas e filhas com as revistas íntimas, procedimento que a deixa revoltada. No final de agosto, o ex-deputado Luiz Argôlo recebeu a notícia de que a avó dele, que tinha ajudado a criá-lo, havia morrido.

Logo de cara, negaram que ele fosse ao funeral na cidade de Entre Rios, no interior da Bahia, mas Isabel e sua filha mexeram os pauzinhos e conseguiram uma liberação por três dias. “Nós nos viramos e conseguimos fazer ele ir. Porque tem que ver escolta, isso e aquilo. E a família veio depois para nos agradecer”.

Polenta, futebol, rodas de violão e muita fé

Embora vários presos da Lava Jato já tenham anunciado que pretendem escrever livros e tenham dado entrevistas, nenhum deles havia falado publicamente sobre sua experiência no cárcere.

Foi o que fez Otávio Azevedo, ex-presidente do grupo Andrade Gutierrez, que no mês passado encarou uma plateia de mais de 200 pessoas no MON (Museu Oscar Niemeyer), em Curitiba. O ex- -executivo recebeu o convite de Isabel em junho, e só a 10 dias do evento foi autorizado pela Justiça a comparecer.

Na palestra, Azevedo contou detalhes de sua rotina no CMP. Disse que era um dos poucos presos da Lava Jato a jogar futebol com os outros detentos, que gostava das rodas de violão em que um companheiro tocava músicas religiosas e que encarava a “quentinha” pura, apesar das queixas quase gerais sobre a qualidade das refeições.

A própria Isabel engrossa o coro contra a comida (“é horrível”), mas diz que a opinião não era unânime: o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu não reclamava.

“Um dia o José Dirceu virou para mim e falou assim: olha, doutora, eu quero dar meu testemunho, que eu não acho ruim. Eu quero lhe dizer que eu amo a polenta e o purê de batata. A-do-ro!”, narra a advogada. Dirceu era, segundo ela, o preso mais inteligente do CMP. “A biblioteca fica embaixo da escola, é um porão grandinho. Ele começou a trabalhar lá e deixou impecável”, conta.

Enquanto o ex-ministro petista se dedicava aos livros, outros têm trabalhos menos intelectuais. Há algum tempo, por exemplo, o ex-deputado André Vargas passou o bastão da entrega das quentinhas para o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha.

Ouvido por Sérgio Moro no início do ano, Cunha reclamou de gritos que ecoavam na madrugada, vindos das galerias dos doentes mentais. Questionado por um jornalista após o episódio, o diretor do Depen (Departamento Penitenciário) do Paraná, Luiz Alberto Cartaxo, foi pouco cerimonioso: “Você já viu louco quieto”?