MPF usa “HD da propina” contra Lula

Reprodução / MPF
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Narley Resende

Dados identificados em um sistema da Odebrecht podem ser usados em uma das ações penais contra o ex-presidente Lula. O Ministério Público Federal informou nesta quarta-feira ao juiz Sérgio Moro ter encontrado no sistema Drousys, que era utilizado para controlar o pagamento de propinas da empreiteira, informações sobre o imóvel que teria sido comprado pela Odebrecht para instalação de uma sede do Instituto lula.

Os dados do sistema utilizado pelo Setor de Operações Estruturadas do Grupo Odebrecht, chamado de “setor de propinas“, foram incluídos no processo. Segundo o MPF, as informações são de interesse da ação penal em que Lula é acusado de ter sido beneficiado por um imóvel da Odebrecht para instalação de uma sede do Instituto Lula, que não chegou a ser concluída.

As informações foram analisadas e selecionadas pela Assessoria de Pesquisa e Análise do MPF. “Após intenso tratamento das informações contidas nos quatro discos rígidos fornecidos, foi possível indexar 1,49 terabytes de dados, num total de 1.754.269 arquivos os quais reúnem e-mails, planilhas e comprovantes de pagamento, entre outros documentos, do Setor de Operações Estruturadas do Grupo Odebrecht”, diz o documento do MPF.

Os procuradores da Força-Tarefa Lava Jato acreditam que itens citados no sistema são relacionados ao imóvel alvo de investigação na ação penal. “Foram realizadas consultas nos arquivos extraídos da cópia fornecida do sistema Drousys, com vistas a identificar respostas positivas para a expressão (3*1057)”, que consiste na primeira parte da expressão relacionada a célula correspondente ao número “12.422”, por sua vez referente ao registro “Prédio (IL)”, constante do arquivo eletrônico da “Planilha Italiano””, afirma o MPF.

Em junho de 2010, a construtora Odebrecht adquiriu um prédio de três andares na Vila Clementino, Zona Sul de São Paulo, e planejava instalar ali a sede do futuro Instituto Lula, de acordo com a força-tarefa da Operação Lava-Jato. A compra foi feita em nome da DAG Construtora, de Salvador, que pertence a Demerval Gusmão, amigo e parceiro de negócios de Marcelo Odebrecht, dono da empreiteira.

A Lava Jato identificou que pelo menos R$ 12,4 milhões, anotados com a rubrica “Prédio (IL)” em uma planilha, foram separados e utilizados na compra do imóvel.

“Os elementos ora anexados, examinados no relatório de análise igualmente anexado, demonstram que parte do valor despendido com a aquisição do imóvel localizado na Rua Doutor Haberbeck Brandão, 178, foi disponibilizado pelo Grupo Odebrecht com recursos de caixa dois, por meio do Setor de Operações Estruturadas, envolvendo, no que concerne aos pagamentos feitos no exterior às empresas offshores Constructora Internacional Del Sur S/A e Innovation Research Engineering and Development Ltd, ambas controladas por Olivio Rodrigues Júnior”, diz o documento.

Defesa

De acordo com a defesa de Lula, os imóveis apontados na ação nunca pertenceram a Lula. Segundo o advogado Cristiano Zanin Martins, os depoimentos prestados em junho ao juiz Sergio Moro pelos ex-executivos da Odebrecht e colaboradores do MPF, Hilberto Mascarenhas, Márcio Farias e Rogério Araújo, “provaram os argumentos da defesa do ex-presidente Lula no caso da rua Haberbeck Brandão”, de que “o Instituto Lula nunca teve a posse ou propriedade do imóvel”.

Sistema Drousys

O sistema chamado Drousys foi revelado pela delatora da Lava Jato Maria Lúcia Tavares, que era responsável dentro do Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht por gerenciar requerimentos de propina e repassá-los aos entregadores, que por sua vez fariam chegar os recursos aos destinatários finais.

As comunicações eram feitas justamente através do Drousys, um sistema de intranet ao qual funcionários da empreiteira tinham acesso.

O Drousys teria funcionado entre os anos de 2008 e 2014, em Estocolmo, na Suécia, para que os dados fossem preservados. O Ministério Público do país europeu bloqueou o servidor e repassou informações ao MPF brasileiro após acordo de cooperação internacional.

A Odebrecht entregou em março à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma versão do sistema Drousys, com dados incompletos, segundo os responsáveis pela análise do material. A falta de informações, úteis a novas apurações, foi comunicada à empresa, que buscou dados complementares em outras fontes.

Os dados foram entregues à força-tarefa da Lava-Jato em Curitiba em quatro HDs que totalizam 3,5 terabytes. Em seguida, foram encaminhados à Secretaria de Análise e Pesquisa da PGR, responsável por prepará-los para uso em investigações.