Bendine diz ser “vítima de complô” e fica calado em frente a Moro

Aldemir Bendine. Reprodução / JF-PR
Aldemir Bendine. Reprodução / JF-PR

O ex-presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, ficou em silêncio durante interrogatório realizado nesta quarta-feira (22) na Justiça Federal do Paraná.

Bendine foi ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras nos governos Lula e Dilma Rousseff e é réu de ação penal decorrente da 42ª fase da operação Lava Jato, acusado de ter recebido três milhões de reais em propina da Odebrecht para facilitar a participação da empreiteira em contratos com a Petrobras.

Frente a frente com Moro, Bendine preferiu ficar calado e não se manifestar no processo.  Apenas fez um rápido desabafo.

” Eu estava ansioso depois desse pesadelo de 7 meses, de ter a oportunidade, pela primeira vez, de me manifestar. Entretanto eu estou percebendo que estou sendo vítima de um grande complô, uma série de mentiras de pessoas que criam mentiras para comprar liberdade e , diante desse fato, eu prefiro manter minha verdade e usar a lei do silêncio”, disse.

A defesa de Bendine tentou adiar o depoimento alegando que ainda não teve acesso à cópia de todos os equipamentos eletrônicos apreendidos. Moro negou o pedido, justificando que o material estava disponível para acesso desde o mês de julho, mas aumentou o prazo para as diligências complementares.

Operador entrega esquema

Além de Bendine, ainda foram ouvidos os irmãos e operadores financeiros André Gustavo e Antônio Carlos Vieira. André Gustavo Vieira da Silva confessou que recebeu R$ 3 milhões da Odebrecht. Desse total R$ 950 mil teriam sido repassados a Bendine.

André Gustavo afirmou ainda que a expectativa era de receber um total de R$ 17 milhões da Odebrecht, valor que acabou não sendo pago por conta das investigações da Lava Jato.

“O valor solicitado foi R$ 17 milhões, por Fernando Reis para mim. Eu acho que Fernando Reis cumpriu dois papéis diferentes. Com o Marcelo (Odebrecht) ele acertava que iria pagar só uma parte. Para mim ele dava a entender que devia os 17 (milhões)”, afirmou.

Réus na Lava Jato

Em agosto,  Moro aceitou a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra Bendine, o operador André Gustavo Vieira e outras quatro pessoas alvos da 42ª fase da Lava Jato, batizada de Operaçao Cobra. Este seria o codinome do ex-presidente da estatal nas planilhas do departamento de propina da construtora.

> Íntegra do despacho

Eles serão julgados pelos crimes de corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, organização criminosa e embaraço às investigações.

Denúncia

Nos emails analisados pelos procuradores existem provas de que Bendine e André Gustavo tentaram obstruir a Justiça com o pagamento de impostos e contrato de consultoria. Bendine também teria tentado convencer o motorista pessoal para não prestar depoimento ao MPF em uma investigação de 2014.

Moro bloqueia mais de R$ 3 milhões de Aldemir Bendine
Bendine recebeu propina da Odebrecht durante investigações da Lava Jato

Questionados se a Petrobras continuaria como vítima mesmo com a atuação de Bendine, que foi nomeado para acabar com a corrupção, o procurador Athayde Ribeiro da Costa declarou que as investigações se referem a Bendine e condutas isoladas dele como presidente da companhia. “Não há, entre 2015 e 2017, envolvimento de outros diretores em uma parceria de corrupção orgânica na Petrobras”, declarou.

Fluxograma da propina de acordo com o MPF

Fluxograma da propina de acordo com o MPF

Os procuradores destacaram a importância dos acordos de delação premiada e de leniência firmados com a Odebrecht para que a Lava Jato chegasse até o ex-presidente do BB. “Não fosse o acordo firmado com a Odebrecht, não feriamos conhecimento desse fato gravíssimo Presidente da Petrobras pedindo propina em pleno desenrolar da Lava Jato”, explicou a procuradora República Jerusa Burmann Viecili, membro da força-tarefa.

Operação Cobra

O ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras foi preso no dia 27 de julho suspeito de ter recebido R$ 3 milhões em propinas da Odebrecht. De acordo com a Polícia Federal, ele realizou pagamento de impostos sobre o valor da propina para dificultar as investigações.

Em fevereiro de 2015, na véspera de assumir a Petrobras, Bendine teria pedido os valores para não prejudicar a Odebrecht em contratos com a estatal e também para “amenizar” os efeitos da Lava Jato. Naquele momento, a operação estava prestes a completar um ano. O valor foi repassado em três entregas em espécie, de R$ 1 milhão cada, em um apartamento em São Paulo, alugado por Antônio Carlos São Paulo.

Um dos argumentos que levaram o MPF a pedir a prisão preventiva de Bendine foi a compra de uma passagem só de ida para Portugal por parte do investigado. À petição, os advogados do ex-presidente da Petrobras anexaram o bilhete de volta adquirido por Bendine, com data marcada para 19 de agosto pedindo a revogação da prisão.