“Palocci que me encaminhava quem ia me pagar o caixa 2” diz Mônica Moura, em depoimento

Foto: Paraná Portal

Em depoimento ao juiz federal Sérgio Moro, a empresária Mônica Moura, esposa e sócia do marqueteiro João Santana, responsável pelas campanhas eleitorais do PT desde 2006 disse que o ex-ministro Antônio Palocci era, até 2012, a pessoa com quem ela negociava os valores das campanhas, o percentual a ser pago oficialmente por caixa 2 e os contatos das pessoas responsáveis pelos pagamentos em caixa 2.

“Desde 2006, meu interlocutor para discutir valores e negociar campanha foi o ministro Palocci. Era com ele que eu negociava o valor da campanha, ele me indicava quanto ia ser pago pelo partido via despesa contabilizada e quanto seria pago por caixa 2. Me indicava o representante da Odebrecht para eu contatar e eu passava a tratar diretamente com a Odebrecht. Daí só procurávamos ele (Palocci) se o pagamento atrasasse”, disse.

Mônica Moura disse que ela e seu marido receberam pagamentos não contabilizados (caixa 2) em todas as campanhas políticas que fez. “Aliás, não existe marqueteiro no Brasil que não trabalhe com caixa 2”, ressaltou. Ela informou que recebia esses pagamentos de duas formas: em dinheiro vivo no Brasil, e utilizava os recursos para as despesas da campanha, como o pagamento a fornecedores, ou em uma conta na Suíça, que era o lucro da empresa. “Praticamente todas as campanhas que fizemos no Brasil, uma parte do pagamento era feito pela Odebrecht”, acrescentou.

Instada pelo juiz a explicar as referências a seu marido na planilha de pagamentos apreendidas na Odebrecht, a empresária revelou que um  recebimento de R$ 18 milhões em 2008 na Suiça era referente às campanhas de Marta Suplicy para a prefeitura de São Paulo e Gleisi Hoffmann para a prefeitura de Curitiba. Ela admitiu ter recebido da Odebrecht, em 2009, R$ 5,3 milhões para a campanha do presidente de El Salvador, Maurício Funes. “Foi um pedido do presidente Lula para que o João fizesse essa campanha para ajudar a eleger o primeiro presidente de esquerda de El Salvador”, disse. “Quando aceitamos, foi nos informado que o PT pagaria parte da campanha, mas quem pagou foi a Odebrecht”, apontou.

Em 2010, ela afirma ter recebido R$ 10 milhões da Odebrecht referentes à campanha da ex-presidente Dilma Rousseff e, em 2011 e 2012, US$ 10 milhões para campanhas de Fernando Haddad, em São Paulo, Patrus Ananias, em Belo Horizonte e para a eleição de Hugo Chavez, na Venezuela. “Todos os candidatos sabiam como que essas despesas estavam sendo pagas”, afirmou.

O ex-marqueteiro do PT João Santana e sua esposa, Mônica Moura, prestaram depoimento na condição de delatores ao juiz federal Sérgio Moro, na tarde desta terça-feira (18), em processo que tem como principal réu o ex-ministro Antonio Palocci e o ex-presidente do grupo Odebrecht, Marcelo Odebrecht. O casal de publicitários também é réu da ação penal referente a 35ª fase da Lava Jato, batizada de Operação Omertà.

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Esse é o primeiro depoimento do casal na condição de delatores da investigação ao juiz Sérgio Moro. O acordo de delação premiada foi homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no início deste mês. Ambos ficaram presos após a deflagração da 23ª fase da operação e deixaram a cadeia em agosto do ano passado. Condenados por crime de lavagem de dinheiro, o casal cumpre pena em regime domiciliar.

Operação Omertà

Segundo a denúncia do Ministério Público Federal (MPF), o ex-ministro Palocci estabeleceu uma ligação com altos executivos da Odebrecht com o objetivo de atender aos interesses do grupo diante do governo federal. Isso aconteceu entre 2006 e 2015. Nesse esquema, a interferência de Palocci teria se dado mediante o pagamento de R$ 128 milhões em propinas. Os recursos eram destinados principalmente ao Partido dos Trabalhadores (PT).

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Ainda de acordo com o MPF, o ex-ministro também teria participado de uma conversa sobre a compra de um terreno pra a sede do Instituto Lula, feita pela Odebrecht.

A ação penal decorrente da Operação Omertà tem 15 réus, entre eles Palocci e o herdeiro do Grupo Odebrecht, Marcelo Odebrecht.

Palocci está preso desde setembro de 2016, na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba e responde por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Próximos depoimentos

O ex-ministro Antônio Palocci e o ex-assessor dele Branislav Kontic devem ser ouvidos por Moro na quarta-feira (18).