Para confrontar delações, Lava Jato acumula 1,2 mil terabytes em dados

Polícia Federal
Foto: Marcello Casal Jr./ABr

Thaissa Martiniuk e Narley Resende

Cada etapa da maior investigação contra corrupção e lavagem de dinheiro no Brasil começa na sede da Policia Federal em Curitiba.

Lá começam as primeiras apurações da Lava Jato, com a tomada de depoimentos de investigados e análise de documentos. E nem só de delegados, procuradores e do juiz Sérgio Moro é que a Lava Jato sobrevive.

Por trás das 37 fases da operação nos últimos três anos, há uma equipe de peritos que trabalha para produzir provas que dão base a indiciamentos, denúncias e sentenças.

Atualmente, essa equipe é formada por 34 agentes públicos de diferentes áreas.

Eles se dividem para dar conta de centenas de laudos e perícias, que são produzidas todos os meses. Tudo é usado como meio de prova nos processos.

O chefe do Setor Técnico e Científico (Setec) da superintendência da Polícia Federal no Paraná, Fábio Salvador, diz que um dos pontos fundamentais do trabalho dos peritos é garantir a integridade das provas coletadas.

“Antes de a perícia produzir a prova técnica, tem uma etapa que é tão importante quanto que é garantir a cadeia de custódia da prova. Você tem que ter certeza. ‘Cadeia de custódia’ é nosso mantra aqui. Isso para a Justiça é muito importante porque você sabe que o que foi tirado da cena do crime está chegando íntegro para análise. Quando sai da gente nós entregamos em sacos lacrados. Isso transforma a prova em muito mais segura”, garante.

Documentos apreendidos na Operação Lava Jato em Brasília. Foto: (José Cruz/ Agência Brasil

Documentos apreendidos em etapa da Lava Jato em Brasília. Foto: José Cruz/ Agência Brasil

Em linha reta, papéis ligariam Curitiba a Moscou

Desde março de 2014, a operação acumula um milhão e duzentos mil gigabytes em documentos coletados.

Esse volume é o equivalente ao encontrado em 250 milhões de livros digitalizados. Se as folhas de papel fossem empilhadas, a pilha teria 12.500 quilômetros. Mais do que a distância de Curitiba a Moscou, na Rússia.

A maior parte desse material foi encontrado durante o cumprimento de 730 mandados de busca e apreensão pela Polícia Federal.

Para dar conta da análise do volume de informações, os peritos da Polícia Federal tiveram de criar novos métodos de trabalhos e desenvolver ferramentas.

Uma novidade é o IPED (Indexador e Processador de Evidencias Digitais).

De acordo com Fábio Salvador, é um programa de computador que acelera o processamento de dados apreendidos pela Polícia Federal, identifica arquivos criptografados e traz uma economia de tempo e dinheiro em relação aos softwares disponibilizados no mercado.

Google da PF

“Organização das informações. É possível elaborar relatórios, fazer pesquisas mais aprofundadas. Imagina mais ou menos como o Google faz, vai jogando mais palavras chaves para chegar às coisas. Só que você não pode usar o Google para fazer isso”.

Os peritos criminais também desenvolveram uma metodologia para analisar quadros apreendidos. Atualmente, a equipe faz a análise de mais de 250 obras de arte que podem esconder vestígios de crimes de lavagem de dinheiro.

Por meio de programas de computador, os peritos tentam comprovar a autenticidade das telas.

“Isso dá uma característica para a perícia, de isenção, diferente dos outros agentes policiais; do delegado, do agente, do escrivão, do Ministério Público. O Ministério Público acusa. Nós não acusamos, a perícia não acusa ninguém. A perícia faz prova. Só. Se a prova é a favor ou contra não nos interessa. Todo esse sistema criminalístico nosso é para garantir que a gente tenha confiança de que a prova técnica seja perene até o final do procedimento”, afirma.

“Os peritos são os olhos do juiz”

Em três anos de Lava jato, os peritos da Polícia Federal já produziram cerca de 1.200 laudos na área de informática. Os detalhes dos laudos são importantes para determinar a absolvição ou condenação de um investigado.

Juiz Sérgio Moro

“Os peritos são os olhos do juiz”, afirma Fábio Salvador. Foto: Rodolfo Buhrer / Paraná Portal

Para Fábio Salvador, o trabalho de perícia é crucial para evitar erros que afetem a confiança na operação Lava Jato e na própria instituição.

“A gente tem uma função difundida entre os peritos que é ‘o perito são os olhos do juiz’. A gente olha, observa, relata e entrega para o juiz. E ele decide. Mas a gente dá a prova para ele. Ele junta as provas. Pega o testemunho, pega delação, tudo ali. Mas se a prova técnica está dizendo que a delação está errada, para que lado ele vai? A pessoa que acredita na ciência vai para a prova técnica. A delação, amanhã, o cara pode mudar. Mas a prova técnica está ali. Meu laudo está lá”.

Perícia criminal dá segurança à sentença

“Estavam aparecendo muitos alvos e havia necessidade de muito exame pericial. Antes, eles estavam mandando mais os agentes e depois chamavam os peritos. Aí começaram a perceber que era mais produtivo mandar o perito direto para o local e o perito extrair os dados que precisava lá para orientar o delegado, orientar os agentes, já fazer uma triagem técnica nos locais”.

Delação da Odebrecht vai gerar muitos filhotes da Lava Jato, em outros estados 

A 24ª fase, a Aletheia, foi a que deu mais trabalho para os peritos. Não só pela condução coercitiva do ex-presidente Lula, mas porque esta etapa foi a que teve o maior número de alvos. Foram 56, entre pessoas físicas e jurídicas.

Normalmente os eletrônicos e os documentos são apreendidos e analisados na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.

Na Aletheia, os peritos tiveram que coletar e analisar as provas nos próprios locais de cumprimento. Fábio Salvador explica que essa medida foi tomada para facilitar e agilizar a análise do que foi apreendido.

“A previsão que a gente tem para este ano é que a gente deva receber muito mais material, oriundo das ramificações da operação. Pra mim, é a única maneira de a Lava Jato continuar evoluindo. Pelo que se ventilou até agora, acho que vamos assumir mais responsabilidades em 2017. A partir das delações da Odebrecht, você vai vai ter uma quantidade muito grande de filhotes. E esses filhotes podem estar em outros estados”, alerta.

Outras duas etapas, a 23ª e a 26ª também tiveram participação massiva da equipe de peritos da Policia Federal. Foram nessas duas fases que se descobriu o setor de operações estruturadas da Odebrecht.

O chefe do Setor Técnico e Científico da Polícia Federal diz que o prazo de encerramento da Lava Jato ainda é incerto, mas acredita que após a homologação das delações da empreiteira novas janelas de investigações vão surgir.

Sede da Polícia Federal em Curitiba

Sede da Polícia Federal em Curitiba, ‘QG’ da Lava Jato. Foto: André Richter / EBC

Obras de arte

“Nós, junto do Museu Oscar Niemeyer, para dizer se a obra é falsa, se a obra é verdadeira, para depois avaliar. Tem 273 obras de arte lá. E as obras de arte, vão dizer assim: ‘ah, isso não vale nada; isso vale muito’. Nós é que vamos dizer se vale ou não vale aqui. Primeiro, se é verdadeiro, ou não”.

Peritos

Durante toda a Lava Jato, os peritos já analisaram 1279 pen-drives, 805 celulares, 619 computadores e documentos da contabilidade das empresas e das contas bancárias dos investigados. Isso permitiu identificar o pagamento de propina no valor de seis bilhões e quatrocentos mil reais.

Polícia Federal entrega ao Museu Oscar Niemeyer obras apreendidas na operação Lava Jato

Polícia Federal entrega ao Museu Oscar Niemeyer obras apreendidas na operação Lava Jato. Foto: Kraw Penas / divulgação / SEEC