Trechos de depoimento de Odebrecht vazam em tempo real no Twitter

Foto: Rodolfo Buhrer / Paraná Portal
Foto: Rodolfo Buhrer / Paraná Portal
Fernando Garcel com Andreza Rossini

O empresário Marcelo Odebrecht, um dos principais nomes da Operação Lava Jato, prestou seu primeiro depoimento como delator ao juiz federal Sérgio Moro na tarde desta segunda-feira (10). Ele foi interrogado como testemunha de acusação no processo que tem como réu o ex-ministro Antônio Palocci e outras 13 pessoas. Além do herdeiro da empreiteira Odebrecht, Moro também interroga o ex-executivo da construtora Rogério Santos Araújo.

A audiência foi marcada por vazamentos que foram confirmados pelo advogado de Odebrecht, Nabor Bulhões, que concedeu breve entrevista após mais de duas horas e meia de depoimento na Justiça Federal do Paraná. Segundo Bulhões, o juiz Sérgio Moro chegou a interromper a audiência para verificar sobre os vazamentos. “Houve notícia de que alguém teria quebrado o sigilo do interrogatório e o magistrado Moro ficou de investigar”, afirmou Bulhões.

Segundo os vazamentos publicados no Twitter, Marcelo Odebrecht descreveu ao magistrado como funcionava a planilha de pagamentos de propina operada pelo setor especializado na empreiteira. Além disso, ele teria informado que avisou a ex-presidente Dilma Rousseff sobre o risco das investigações da Lava Jato chegarem até a conta do ex-marqueteiro João Santana.

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“Tudo o que ocorreu no âmbito dessa audiência está sob sigilo. Oportunamente, o levantamento do sigilo depende apenas do Supremo Tribunal Federal (STF). Não depende do juiz Moro. A matéria sincera e no âmbito mais abrangente envolve o STF, responsável pela homologação [da delação]”, disse Bulhões.

Em entrevista a BBC, em Washington, nos Estados Unidos, Moro afirmou que investigar vazamentos de delações dos executivos da Odebrecht é como “uma caça a fantasmas“. Segundo o magistrado, investigar jornalistas e veículos que publicaram conteúdos vazados “seria contrário a proteção de fontes, à liberdade de imprensa”. “E isso nós não faríamos”, disse.

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Procurada, a assessoria de imprensa da Justiça Federal afirmou que não vai se pronunciar e que deve aguardar a consignação do juiz federal Sérgio Moro na ata da audiência. No termo de audiência divulgado na noite desta sexta-feira, o juiz federal registra a comprovação dos vazamentos e informa que promotores, policiais federais que faziam as escoltas dos presos e advogados apresentaram, voluntariamente, seus telefones celulares para comprovar que não estariam vazando o depoimento. Com a impossibilidade de comprovação do autor dos vazamentos, Sérgio Moro lamentou o fato e determinou que, se alguma parte quiser alguma providência sobre o caso, deverá peticionar em um prazo de três dias.

As oitivas com testemunhas continuam na semana que vem. Na próxima terça-feira (18), serão ouvidos o casal de publicitário João Santana e Mônica Moura. O ex-ministro Antônio Palocci e o ex-assessor dele Branislav Kontic são os últimos réus interrogados. As audiências deles estão marcadas para o dia 19 de abril.

Marcelo Odebrecht

Marcelo Odebrecht responde por corrupção ativa e lavagem de dinheiro. Ele já foi condenado a uma pena de cerca de 19 anos pelos dois crimes e por associação criminosa. O ex-presidente da empreiteira está preso há um ano e dez meses.

Operação Omertà

Palocci, que foi ministro da Casa Civil de Dilma Rousseff e ministro da Fazenda de Lula, esta preso na capital paranaense desde setembro de 2016 e responde por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Segundo a denúncia do Ministério Público Federal (MPF), o ex-ministro Palocci estabeleceu uma ligação com altos executivos da Odebrecht com o objetivo de atender aos interesses do grupo diante do governo federal, entre 2006 e 2013. A interferência de Palocci teria se dado mediante o pagamento de R$ 128 milhões em propinas. Os recursos eram destinados, principalmente, ao Partido dos Trabalhadores (PT).