49 mil e-mails pedem que área de proteção no Paraná seja mantida

Foto: Prefeitura de Tibagi
Foto: Prefeitura de Tibagi

Com Thiago Machado, Metro Curitiba

Em 20 dias, os deputados estaduais do Paraná já receberam em suas caixas postais mais 49 mil e-mails contrários ao Projeto de Lei 527/2016, que pretende reduzir em cerca de 70% a Área de Proteção Ambiental (APA) da Escarpa Devoniana no Paraná.

O envio dos e-mails pela população faz parte de uma campanha que teve início com o lançamento do filme “Os Últimos Campos Gerais”, no último dia 27. O filme foi produzido pelo Observatório de Justiça e Conservação (OJC) e já foi assistido por mais de 107 mil pessoas. Os e-mails estão sendo enviados pelo site Os Últimos Campos Gerais.

Segundo o diretor-executivo da Sociedade de Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), Clóvis Borges, que apoia a causa, o alcance dessa mobilização é inédita no estado. “Nunca houve uma reação tão dura contra uma agressão ao meio ambiente no Paraná”, destaca.

De acordo com o advogado Aristides Athaide, vice-presidente do OJC, a mobilização das instituições e um novo ativismo de ambientalistas contribuem para enfraquecer o projeto de redução da Escarpa. “Percebemos que o projeto perde força. Conversamos com alguns deputados que garantiram que votariam contra por entender que mais do que o interesse de algumas entidades e proprietários rurais existe o interesse dos paranaenses”, afirma.

Tramitação

O projeto que reduz a área de proteção já completou seis meses na Comissão de Ecologia na Assembleia e pode ser votado ainda neste ano. O relator Rasca Rodrigues (PV), que é favorável ao arquivamento do texto, conta que depois do início da mobilização popular o tema virou tabu no plenário. “Foi muito forte, inclusive fez com que as discussões saíssem de plenário”.

Ele vem realizando consultas junto aos outros deputados e diz já ter contabilizado 22 votos contra a redução. “Agora, estamos em stand by, não temos segurança suficiente para garantir [que o texto seja recusado]”, diz. Há 54 deputados na Alep, com isso, para ser aprovado ou derrubado, o texto precisa de 28 votos.

Foto: Prefeitura de Tibagi

Foto: Prefeitura de Tibagi

O projeto foi apresentado em novembro do ano passado com a assinatura do presidente da Assembleia Ademar Traiano (PSDB), do primeiro secretário da Casa, Plauto Miró (DEM), e do líder do governo, Luiz Claudio Romanelli (PSB). Este último, no entanto, retirou o apoio dois meses atrás, afirmando “ter autocrítica”.

Os defensores da redução da escarpa dizem que as mudanças não afetariam as belezas naturais, que ficam fora das mudanças. A APA já conta com uma extensa produção agrícola, que é legalizada, e a modificação facilitaria a vida dos agricultores ao obterem financiamentos em bancos, por exemplo.

Os representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e do Ministério Público do Paraná (MP-PR) dos Campos Gerais já manifestaram posição contrária.

O governo do Paraná não confirma ser a favor do projeto.

A Escarpa

A Escarpa Devoniana é uma formação geológica que corta 12 municípios entre o primeiro e o segundo planaltos paranaenses. Com 400 milhões de anos, ela se formou no período Devoniano – que originou seu nome.

A APA da Escarpa Devoniana foi criada pelo Decreto Estadual nº 1.231, de 1992, com o objetivo de proteger a região, rica em água potável e em florestas de Araucária, além de espécies de animais em extinção, como a onça-parda e o tamanduá-bandeira.

Se o projeto for aprovado, a área de proteção passaria dos atuais 392 mil hectares para apenas 126 mil hectares.

O documentário

O documentário, com duração de 15 minutos, foi feito para as redes sociais e com financiamento do Observatório. “Todos os custos foram arcados pelo Observatório de Justiça & Conservação”, explica Aristides.

O vídeo tem narração do ator curitibano Luís Melo, que mantém, em São Luiz do Purunã, o Campo das Artes, um complexo cultural e de pesquisa artística, que também visa à preservação da região. “[A Escarpa Devoniana] uma causa extremamente justa, de preservação. É um patrimônio natural e um dos mais belos do país”, afirmou durante o lançamento. “Eu estou na região, é essa minha paisagem. Sendo curitibano, a minha paisagem é a do pinheiro, da Araucária, das Escarpas. A preservação é muito importante”.

Segundo Luís, muitos paranaenses não têm conhecimento das riquezas da região. “A população desconhece. A gente brinca que o curitibano desce a Serra, não sobe. É uma parte que precisa de atenção, as pessoas precisam conhecer, precisam usufruir e, para isso, a preservação”, ressalta.

Música

Depois de lançar o filme, o OJC prepara para a semana que vem o lançamento de um clipe para impulsionar a campanha contra a redução. Um grupo de artistas compôs voluntariamente a música.