Motorista, cozinheiro e cabeleireiro beneficiados por fraude na UFPR

Coletiva Operação Research

Mariana Ohde, Narley Resende e Jordana Martinez

Motorista, cozinheiro, cabeleireiro, artesão e taxista estão entre as profissões dos beneficiados pela fraude milionária na Universidade Federal do Paraná (UFPR), a mais antiga do Brasil.  O rombo nos cofres da instituição passa dos R$ 7,5 milhões.

Algumas bolsas desviadas passam de R$ 17 mil por pessoa, sendo que a média paga a professores com doutorado para coordenar pesquisas na universidade não chega aos R$ 5mil por mês. Segundo o  delegado da Polícia Federal (PF), Felipe Hayashi, por pelo menos três anos o esquema pagou bolsas a um grupo de cerca de 27 pessoas que não tinha ligação com a universidade. Algumas delas nem sequer tinham ensino superior. “A maior parte dos beneficiários é autônoma. Eles têm profissões como taxista, artesão, auxiliar administrativo, dono de salão de beleza, motorista de furgão, entre outros”, afirmou.

Um assistente administrativo, com aposentadoria por invalidez, chegou a receber R$ 739 mil, um cozinheiro de uma pizzaria levou R$ 318 mil ao todo, e um motorista de furgão ganhou R$ 515.450. Ainda segundo a PF, há relação de parentesco entre alguns dos investigados.

A Polícia Federal investiga agora se as pessoas sem vínculo com a universidade que recebiam dinheiro desviado eram ou não laranjas.

Todos os envolvidos devem responder por peculato e associação criminosa. Segundo a PF, conforme as investigações avancem, é possível que sejam descobertos mais envolvidos e desvios.

A fraude foi descoberta pela Polícia Federal na Operação Research, deflagrada nesta quarta-feira (14). O esquema era comandado pelas servidoras Tânia Maria Catapan, secretaria executiva da pró-reitoria de pesquisa e pós-graduação da UFPR, e Conceição Abadia de Abreu Mendonça, chefe do setor de orçamento e finanças. Ambas foram presas nesta manhã.

“Ao longo de, pelo menos, três anos, duas servidoras da UFPR atuaram direta e materialmente para autorizar pagamentos mensais a um grupo de, no mínimo, 27 pessoas que jamais tiveram qualquer vínculo com a Universidade. Os desembolsos contaram, durante todo esse tempo, com a chancela expressa de outras oito pessoas que detinham posição de relevância na estrutura da instituição de ensino”, diz o despacho que autorizou a prisão.

“Elas lançavam suas assinaturas nos singelos processos administrativos que lhes deveriam ser submetidos a análise e que sequer vinham instruídos com documentos que minimamente comprovassem a titulação dos beneficiários e os projetos de pesquisa em que estavam engajados, em absoluto desacordo com o padrão adotado em outros casos em que os pagamentos eram regularmente autorizados. Por sua vez, quem era responsável pelos controles internos da UFPR em momento algum exerceu sua obrigação de efetivamente auditar os procedimentos ora reputados irregulares com vistas a identificar a fraude e recomendar a suspensão dos repasses. O encarregado final pela gestão dos recursos públicos recebidos pela Universidade e que poderia, em última instância administrativa interna, evitar a repetida ocorrência dos fatos era o Reitor”, diz o despacho.

O documento também responsabiliza o reitor da UFPR. “Segundo entendimento da Autoridade Policial, secundado pelo MPF e agora reconhecido como válido por este Juízo, também teriam responsabilidade na fiscalização  da concessão das bolsas que resultaram nos pagamentos indevidos  Luciane Mialik Wagnitz Linczuk (enquanto chefe de auditoria) e Zaki Akel Sobrinho (Reitor da UFPR). Esses detinham a posição de garantes no sentido de que lhes incumbia evitar o resultado criminoso”. Veja o documento na íntegra.

“Os gestores, aqueles que tinham o poder de dirigência dentro da instituição e poderiam ter evitado esse prejuízo de quase R$ 8 milhões aos cofres da União, precisamos apurar para descobrir se essas pessoas agiram, se tomaram alguma providência, prevenção sobre algum tipo de negligência que permitiu esse desvio milionário. Não podemos descartar nenhuma hipótese, embora ainda seja precoce falarmos em um eventual envolvimento direto. No entanto há a possibilidade de responsabilização criminal por omissão nessa situação em que o gestor poderia e deveria agir”, explica o delegado responsável Felipe Hayashi.

“Na verdade, existe um órgão de controle dentro da própria universidade. O que a gente verificou é que esse controle não está funcionando como deveria. Como a fraude foi grosseira, era de se esperar que, de alguma forma, fosse descoberto”, disse João Manoel Dionísio, do Tribunal de Contas da União (TCU).

“Essas fraudes nos surpreenderam porque poderiam ter sido detectadas dentro da universidade se houvesse um procedimento interno e efetivo”, disse o delegado. “Quantas pessoas sérias, que estavam fazendo pesquisas, deixaram de receber recursos por causa desses desvios”.

A defesa dos investigados ainda não está constituida no processo.