Justiça mantém prisão de casal de pastores por cárcere de crianças

Crianças ficavam em uma edícula com portas e janelas trancadas. | Foto: Divulgação / Polícia Civil
Crianças ficavam em uma edícula com portas e janelas trancadas. | Foto: Divulgação / Polícia Civil
Fernando Garcel e Narley Resende

Um casal de pastores evangélicos foi preso em flagrante por policiais civis de Imbituba, na região central do Paraná, por suspeita de manter duas crianças em cárcere privado. A situação foi denunciada há cinco anos e há pelo menos dois a situação era investigada pela polícia.

De acordo com os investigadores, os meninos, de nove e 12 anos, ficavam trancados em uma edícula nos fundos da casa em que moravam com o pai e a madrasta. No local, as crianças ficavam fechadas por grades na janela e também não tinham lâmpadas e ficavam no escuro durante a noite.

Segundo a delegada Emanuele Siqueira, responsável pelo caso, o caso chegou ao conhecimento da polícia por meio do Conselho Tutelar da cidade. “Pedimos um mandado de busca e cumprimos na tarde ontem [11]. Quando a gente chegou no local, constatou-se que realmente as crianças eram mantidas em cárcere”, declarou.

De acordo com a polícia, apesar de não ter marcas de violência física, as crianças eram mantidas em condições degradantes. “A família é bem de vida. Tem uma casa com comodidade. Quatro quartos, dois banheiros, móveis planejados, TVs em todos os ambientes… Uma casa bonita e bem organizada. As crianças eram mantidas em uma edícula ao lado com uma beliche, um guarda roupa e uma mesinha pra estudar”, destacou Emanuele.

Segundo a delegada, o banheiro que as crianças usavam teve o botão que regula a temperatura do chuveiro colado para que não tomassem banho quente. Enquanto não tinha ninguém em casa, eles eram mantidos presos na edícula. “A janela só podia ser aberta com autorização da madrasta e ainda tinha grade pelo lado de fora. Eles não tinham acesso ao quintal, não tinha acesso a casa principal, não tinham amigos, não tinham brinquedos”, conta a delegada.

De acordo com a investigação, as crianças eram alimentadas pelo pai mas não podiam repetir a refeição e até acesso a água era restrito. “[Eles] tomavam água da pia do banheiro no quartinho”, afirmou Emanuele.

O mandado de prisão contra o casal foi expedido pela Justiça na terça-feira. Depois do flagrante, a Justiça decidiu converter a prisão temporária em preventiva, sem prazo para terminar. Se confirmada a situação de cárcere privado, ambos podem ser condenados a uma pena de três a oito anos de prisão. Em depoimento, o casal nega a situação de cárcere e afirmam que era apenas a forma de educa-las para evitar o contato com a criminalidade. “Para eles, eles não estavam fazendo nada de errado. Era só uma criação mais rude”, destaca Emanuele.

Outro lado

O advogado Fernando Estevão Deneka, que representa o casal, afirmou que não existe a gravidade encontrada pela polícia. “Eles possuem um sistema de cuidado com eles praticamente normal. De levarem pra igreja, pra escola e de conviverem com eles na casa. Eventualmente, quando os pais saiam de casa, acabavam trancando a residencia para que eles não saíssem dela. [Eles] também tiveram problemas com um irmão desses meninos, que não mora com eles, e que teve envolvimento com drogas. Eles tinham muito medo que esses outros filhos se envolvessem com isso também”, declarou Deneka.