“Ganhei quatro crepes e um amigo” – Francielly Azevedo – a garota do crepe

Arquivo pessoal
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Especial para o Paraná Portal

E quando a repórter vira a notícia? Pois é, foi uma loucura acordar naquela sexta-feira e perceber que minha foto estampava os principais veículos do país – até alguns do mundo – e entender porque o telefone não parava de tocar.
Depois de descobrir que eu era garota propaganda de um carrinho de crepe a mais de três mil quilômetros da minha casa, publicar a história nas redes sociais e ter uns amigos com “faro” de notícia, a minha vida virou de ponta cabeça. Foram dias de entrevistas, propostas de negócios e até abordagens na rua para tirar foto, como se fosse uma pessoa famosa.
Quando fiz o post, a intenção era contar o fato inusitado apenas para os meus amigos mais próximos. Deu certo! Mas, ganhei também outros milhares de seguidores com palavras de afeto, agradecimentos (por algo que acredito nem precisar de elogio) e uma família amiga, a do Seu Batista.
Enquanto ainda estava em Natal, pude conhecer a simplicidade daquele homem que, na inocência, me escolheu como “modelo”. João Batista de Mendonça, 36 anos, assim como muitos brasileiros, saiu do interior para tentar a vida na capital. Serra Caiada, fica a quase 70 km de Natal e tem cerca de 10 mil habitantes.
Já na capital potiguar, por um período, Batista ajudou o irmão com a venda de crepes e com o tempo resolveu, ele mesmo, arriscar o próprio negócio. Casado com Rita, há 17 anos, eles têm um filho, de 11 anos, e moram de aluguel em uma casinha humilde. Acordam todos os dias às 6h e às 9h já estão na praia para iniciar as vendas. A compra dos produtos é feita na noite anterior, em um mercadinho próximo a residência.
A Rita me contou que na alta temporada eles vendem aproximadamente 50 crepes por dia. Só que no inverno a vida é difícil, tem época que não ultrapassam 10 crepes. Eles passam “aperto”, como ela mesmo me falou, mas não tiram o sorriso do rosto e sempre atendem o cliente da melhor maneira.
De tudo isso tirei uma lição: quando você faz o bem, coisas mágicas acontecem. E quando falo de “bem”, não estou me referindo a minha decisão de não “processar” o seu Batista, porque acredito sinceramente que não foi nada demais, foi normal. Quando falo de “bem” é sobre atitude do Batista, da Rita e da família em optarem por um trabalho digno enquanto a situação do país nos oferece motivos para desistir.
As vendas por lá aumentaram nesses dias e espero que continuem a todo vapor. Por aqui, fica o sentimento de gratidão e a certeza de que nada acontece por acaso.

  • Francielly Azevedo, é repórter da TV Assembleia e colaboradora do Paraná Portal. Em viagem a Natal, em suas férias, encontrou um carrinho de crepe que usava uma imagem sua, postada há três anos em uma rede social como identidade visual. Reagiu com muito bom humor e virou amiga pessoal do crepeiro João Batista de Mendonça. Sua história, publicada em primeira mão pelo Paraná Portal foi destaque em diversas publicações do Brasil e do exterior.