Cerveja chegou com os imigrantes alemães ao Paraná

Mariana Ohde


Você já parou para pensar como ela veio parar aqui? A cerveja, uma das bebidas mais populares no Brasil e que move a cultura da cevada no Paraná, está no Brasil faz tempo – há registros do consumo da bebida em terras brasileiras antes mesmo da chegada dos colonizadores.

“Pode-se considerar cerveja qualquer bebida feita a partir de cereais fermentados, incluindo milho, centeio, aveia, entre outros, não apenas cevada. Considerando isso, a gente tem uma série de bebidas indígenas, normalmente com milho ou mandioca, às quais eram adicionados gengibre, limão ou mel, dependendo das combinações, que já podem ser consideradas cervejas”, explica o historiador, doutor em história econômica pela USP e sommelier, Ricardo Rugai.

Na Europa, a cerveja começou a ser produzida por volta de 500 a.C., considerada a bebida dos “bárbaros”, já que os romanos preferiam o vinho. Ela foi ganhando adeptos por lá, mas não o suficiente para vir nas bagagens dos colonizadores. No século 16, os portugueses chegaram ao Brasil – sem ela. “Portugal não produzia cerveja, apenas vinho e bagaceira, um destilado da uva. Portugal não tinha essa tradição cervejeira e impediu que a cerveja chegasse ao Brasil justamente para não concorrer com o seu produto”, afirma Ricardo Rugai.

Estas bebidas, juntamente com a tradicional cachaça, ocuparam o espaço que seria da cerveja no país. Com apenas uma exceção: “Quando os Holandeses ocuparam o litoral nordestino – Pernambuco, Rio Grande do Norte, entre outras regiões – eles chegaram a instalar a primeira planta de fabricação de cerveja do Brasil. Logicamente, bem rústica, bem artesanal. Mas o Maurício de Nassau manda vir o equipamento da Holanda. Isso vai durar pouco tempo e não vai ter sequencia”. Maurício de Nassau governou a colônia holandesa no Nordeste do Brasil, com a capital em Recife, de 1637 a 1644.

Em um outro episódio, a bebida chegou a ser importada, durante a vinda da família real ao Brasil. “[A família] vem acompanhada e protegida pelos ingleses e traz barris de cervejas Ale inglesas, escuras, mais complexas”. Durante as primeiras décadas da permanência da família real no Brasil, a Inglaterra abasteceu o Brasil com as cervejas Ale, todas vindas de fora.

“As primeiras notícias que a gente tem que produção de cerveja no Brasil são da década de 1830, 1840, com colonos imigrantes europeus que vieram para a região Sul do Brasil: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná. Alguns deles trouxeram cevada para plantar. Mas as primeiras cervejas foram feitas com milho, com arroz, trigo. Algumas com cevada, mas nunca foi uma bebida pura com cevada”, conta Ricardo Rugai

As primeiras cervejas produzidas pelos colonos eram destinadas ao consumo próprio ou regional. A produção para o mercado consumidor, em escala, viria apenas na segunda metade do século 19. “Principalmente, final do século 19, na virada para o século 20. Em São Paulo e Rio de Janeiro vão se instalar algumas fábricas, que depois se tornam famosas: a Companhia Antártica, a Brahma, a fábrica que deu origem à Bohemia, em 1850”.

“Aí a gente pode dizer que começou uma produção para o mercado consumidor, com grande planta, grande número de trabalhadores”, finaliza Ricardo.

No Paraná

A história da cerveja no Paraná começa com os imigrantes alemães, como conta o pesquisador Ricardo Silva Telles. A colonização pelos imigrantes europeus se intensificou no século 19, como assentamentos de alemães em Rio Negro, franceses na colônia Tereza do Ivaí e suíços, franceses e alemães na Colônia Superagui, em Guaraqueçaba.

“A partir de 1867, os imigrantes alemães, que não se adaptaram as regiões a que foram destinados, fundaram 35 núcleos coloniais nas terras de mata em torno de Curitiba de modo que a cidade começou a passar por um novo surto de desenvolvimento. Foi exatamente com a vinda dos imigrantes alemães que trouxeram consigo o hábito de fabricar e beber sua própria cerveja que esta bebida passou a ser consumida pelos curitibanos até se tornar sua bebida favorita”, conta Ricardo.

Na época, as bebidas mais populares eram a aguardente, vinhos fabricados aqui mesmo, licores e até cervejas importadas da Europa. “Além disso, eles fabricavam algumas bebidas artesanais a base de fermentação de gengibre, milho e outros cereais, de fabricação caseira, vendida em canecas nos bares da cidade. A partir da segunda metade do século XIX, começaram a aparecer pequenas produções de cerveja elaboradas de forma artesanal e basicamente para seu próprio consumo”, explica o pesquisador.

Sobre as marcas de destaque no estado, o pesquisador lista: “Na fase inicial tiveram importância crucial pelo porte das instalações, volumes produzidos e, é claro, qualidade de suas cervejas as cervejarias Atlântica, Cruzeiro, Glória e Providência, todas em Curitiba bem como a Adriática em Ponta Grossa, fabricante da antológica cerveja Original”.

As cervejarias foram desaparecendo gradativamente ao longo dos anos 1940 e o estado ficou a todo tempo sendo abastecido pelas cervejarias Antarctica e Brahma com suas instalações locais.

A partir de 1980, foram criadas a Bavarium Park e a Alles Bier, que vieram sacudir um pouco o panorama local. “Finalmente, a partir de meados dos anos 2000, a versão brasileira da Revolução da Cerveja Artesanal, iniciada nos Estados Unidos a partir dos anos 1980, veio produzir uma enorme diversidade de estilos mudando definitivamente o padrão de consumo para os novos consumidores cada vez mais exigentes em termos sabor, aroma, etc”, afirma o especialista.

As microcervejarias curitibanas foram pioneiras na instalação de plantas modernas e eficientes e por terem se consolidado não apenas no mercado local, mas, também terem obtido uma excelente reputação no âmbito nacional, além de terem conquistado inúmeras premiações em concursos até internacionais, segundo Ricardo. “Isto em absoluto não deixa em segundo plano as microcervejarias dispersas pelo interior do estado que vieram somar suas excepcionais cervejas ao portfólio paranaense”.

A indústria cervejeira hoje

Hoje, a indústria cervejeira representa cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, segundo dados recentes de 2016. São cerca de R$ 130 bilhões de um total de R$ 6,3 trilhões. Cerca de 2,7 milhões de pessoas estão empregadas no setor, o que representa R$ 30 bilhões em renda. Em impostos, a indústria soma R$ 2,1 bilhões. No agronegócio, a indústria cervejeira emprega 11 mil famílias em sua cadeia produtiva, na produção de insumos.

Segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), até dezembro de 2016, 522 cervejarias tinham registro no Brasil – número que representa um crescimento de cerca de 39% no ano passado. A maior parte das empresas está no Sul e Sudeste do país, regiões que concentram 90% deste mercado. 

Quatro cervejarias brasileiras representam 98% do mercado: Heinekein e Ambev, ambas com unidades no Paraná, além do Grupo Petrópolis e Brasil Kirin. 

Em relação às pequenas cervejarias, estima-se que sua participação na produção nacional seja, atualmente, de 1%, segundo Patrick Silva. “Em marcados mais desenvolvidos, esse índice pode chegar a 20%. As chances de crescimento são altas. O Brasil é um país que aprecia cerveja e a margem de lucro é maior”.

Os dados sobre a quantidade de pequenas cervejarias no Paraná ainda não são claros. A Associação das Microcervejarias do Paraná (Procerva)  possui 45 associados, 15 delas com fábrica própria. Mas este número, provavelmente, é maior. Segundo um levantamento realizado por Ricardo Telles, entre microcervejarias e cervejeiros ciganos, existem 33 instaladas apenas na cidade de Curitiba, 17 nas cidades da Grande Curitiba (Pinhais, Campo Largo, Araucária, etc.) e 45 no interior do estado com maior concentração nas regiões norte (cerca de 25) e oeste (cerca de 11) e nos Campos Gerais (cerca de 11).

Em agosto, um estudo realizado pelo Sebrae/PR deve mostrar um panorama mais detalhado do mercado. Por enquanto, alguns nomes se destacam, segundo os especialistas.

UsinaMalte

Em Witmarsum, no Paraná, a UsinaMalte reúne a tradição alemã da colônia e as novidades do mercado. A produção de cerveja começou em dezembro de 2014 e a entrada no mercado veio em janeiro de 2017, com o registro da fábrica no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), como conta o sócio Ferdinando Schmeider.

Hoje, são cinco produtos fabricados por Ferdinando e seu sócio, Aldecir Isbrecht. “Uma pilsen que fornecemos exclusivamente para a Confeitaria Kliewer aqui de Witmarsum e que leva o nome de Kliewer. Uma Americam Pale Ale, uma Weiss, uma Oktoberfest e uma Imperial Stout”, lista.

UsinaMalte

“Sempre tivemos afinidade com a cerveja, principalmente as artesanais, e, há muito tempo, tínhamos vontade de fabricar”, conta Ferdinando. “Um dos fatores também nos incentivou foi o fato de estarmos em uma colônia alemã e de não termos uma cerveja produzida aqui”.

Segundo ele, apesar do começo recente, já é possível perceber o potencial do mercado. “Em 2017 fomos definitivamente para o mercado, onde, agora, estamos sentindo de fato o crescimento, que felizmente é muito rápido”.

“Hoje estamos com uma produção de 2.400 litros por mês, mas a fábrica tem capacidade de expansão para até 20.000 litros por mês”. Por enquanto, a cerveja é vendida, principalmente, na região de Witmarsum. A matéria prima – malte, lúpulos e fermentos – é adquirida na Cooperativa Agréria, que produz e importa os produtos. E tem um segredinho: “A água, que é a maravilhosa água da Colonia Witmarsum”, brinca Ferdinando.

A cerveja inventou a agricultura?

A humanidade deve muito à agricultura. Com a possibilidade de se estabelecer em um local, veio também a possibilidade de desenvolvimento. Hoje, a teoria mais aceita, é a de que a agricultura surgiu por uma necessidade alimentar; o ser humano vivia em escassez antes dela. Porém, pesquisadores começaram, de forma independente, a traçar outros caminhos.

A teoria de que a cerveja teria motivado o desenvolvimento da agricultura foi abordada em livros como Uncorking the Past: The Quest for Wine, Beer, and other Alcoholic Beverages (Tirando a rolha do passado: a jornada por vinho, cerveja e outras bebidas alcoólicas), de Patrick McGovern. Nele, o autor defende que, com base em descobertas arqueológicas recentes, pode-se afirmar que as bebidas alcoólicas fazem parte da história da humanidade e moldaram muitos de nossos costumes. Para Patrick, nossos ancestrais, que antecederam o Homo sapiens, já apreciavam o álcool proveniente de frutas em decomposição. Ainda segundo a obra, a primeira técnica de produção de bebidas alcoólicas foi a fermentação.

Foto: Divulgação Cooperativa Agrária Agroindustrial
Foto: Divulgação Cooperativa Agrária Agroindustrial

Já o livro “Por que os homens se tornaram sedentários“, do biólogo evolucionista J.H. Reichholf, aborda de forma direta a teoria de que a cerveja deu origem à agricultura. Para Reichholf, a abundância, e não a escassez, teria motivado a mudança da caça, como fonte principal de alimentos, para a agricultura.

A carne e a abundância de proteínas teriam causado um aumento na população e dado base a um sistema mais elaborado de sustento. Para Reichholf, inicialmente, a quantidade de grãos produzida não foi suficiente para substituir a carne – mas era possível produzir álcool a partir deles. A substância tinha várias funções, além da entorpecente; as enzimas produzidas durante o processo de fermentação facilitavam a digestão, liberando nutrientes adicionais. Ainda segundo o autor, foi a cevada o primeiro grão a ser cultivado e a produção de álcool teria, inclusive, motivado a descoberta de outros grãos, como o trigo.

“A tese de que a cerveja inventou a agricultura muda toda a perspectiva, porque ela diz que o homem se sedentarizou não por necessidade, mas para obter um produto que lhe desse satisfação; no caso, o álcool, os fermentados da cerveja”, explica Ricardo Rugai. “Não é a tese predominante ainda, mas ela abre um debate. Ela é respeitada, não é tida como loucura, devaneio, mas ainda está longe de ser a tese mais aceita”.

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Mariana Ohde
Repórter no Paraná Portal
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