Distribuição da safra no Brasil é especializada e concentrada

Mariana Ohde


Por Embrapa

O Brasil tem forte tendência à concentração da produção agrícola. Este é o resultado de um levantamento da distribuição espacial da safra de 125 produtos da agricultura brasileira, no período de 2006 a 2008, desenvolvido por pesquisadores da equipe de sócio economia da Secretaria de Gestão e Desenvolvimento Institucional da Embrapa, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A pesquisa mostra também que, à medida em que os sistemas de produção abandonam métodos tradicionais, os estados estão se especializando nos produtos para os quais têm maiores vantagens comparativas.

Segundo Fernando Luís Garagorry, líder do estudo, o caso mais notório é do arroz irrigado no Rio Grande do Sul que, aproveitando-se das terras baixas e alagadas com sistemas de produção cada vez mais eficientes, em 2006 já respondia por 60% da safra nacional e hoje concentra mais de 70% da produção de arroz agulhinha.

A eficiência produtiva do arroz irrigado gaúcho e a criação de cultivares de soja tropical contribuíram para desalojar do mercado a maior parte do arroz de sequeiro do centro-oeste, onde a cultura era utilizada para “domesticar” os solos de cerrado, antes da implantação das pastagens, função em que foi substituída pela soja.

O Rio Grande do Sul ainda se especializou e concentra a produção de lã (91%), de erva-mate (57%) e de frutas de clima temperado, como uva (52%), noz (51%), pera (49%), pêssego (49%), figo(42%), maçã (42%) e trigo (37,58%).

Uma especialização, por razões completamente inversas, é a do algodão arbóreo, conhecido como “mocó” e também “rasga-letra” que, na Paraíba e outros estados nordestinos, luta desesperadamente contra a extinção. Por sua persistência na seca, nos áureos tempos da cotonicultura nordestina, o algodão mocó era a garantia de que o produtor conseguiria rasgar as “letras”, ou seja, pagar as notas promissórias do crédito rural. O aparecimento do “bicudo” dizimou a lavoura no Nordeste.

A criação das cultivares de algodão arbóreo colorido, pela Embrapa, e o manejo de controle do bicudo lhe deu sobrevida. Em 2008, quando sua produção nacional totalizou exíguas 366 toneladas, a Paraíba respondeu por 60% disso. O Ceará produziu outros 20%.

Esses exemplos confirmam, como esperado, que condições ambientais e disponibilidade de conhecimentos específicos têm grande peso na definição das aptidões e escolhas agrícolas de cada região. No entanto, nos últimos anos, como o pesquisador Eliseu Alves tem alertado, tornou-se mais evidente a crescente importância de condicionantes de mercado, tais como preço da terra, preço de mão de obra e regulamentos ambientais no processo de especialização agrícola e de concentração da produção nos estados.

O estudo mostra que já em 2008, em São Paulo, cultivos e criações importantes como café, algodão, leite, carne, feijão, soja, e milho haviam sido desalojados, da maioria das grandes fazendas, pela cana de açúcar que, para responder a graves problemas ambientais e de mão de obra, sofrera intenso processo de modernização tecnológica e de mecanização e também se beneficiou da proximidade da indústria do açúcar e do álcool.

Como mostram os dados de 2008, São Paulo se especializou e se tornou maior produtor nacional de cana de açúcar (59% da safra) e de produtos de maior valor agregado tais como chá da índia (94%), laranja (79%), limão (78%), seringueira (55%), caqui (50%), abacate (47%), tangerina (42%), goiaba (32%), madeira para celulose (29%), ovos (27%) e galinhas (20,6%). Tornou-se também o segundo em batata-inglesa, tomate (20%), frangos (18%), banana (16,7%), manga (15%) e uva (14,5%).

Cultivos e criações cuja economicidade requerem maior escala, leia-se grandes fazendas, migraram para as terras relativamente mais baratas dos cerrados do sudeste, do centro-oeste, norte e nordeste. Minas Gerais se especializou em eucalipto para carvão (76%), café (49% da produção), leite (27,8%), feijão (15,3%), milho (11,6%) e bovinos de corte (11%). Mato Grosso concentrou algodão (52%), soja (28,4%), bovinos de corte (12,8%) e milho (11,8%).

Na Bahia floresceram o algodão (28%), o feijão (9,9%) e até mesmo o café (6,1%). Em Goiás, a soja (10,9%), o leite (10,3%), o boi (10,1%), o milho (8,2%), o feijão (7,4%) e o algodão (7,1%). O Mato Grosso do Sul se concentrou em boi (11%), soja (8%), milho (5,9%) e algodão (4,1%). O Pará também se especializou em bovinocultura de corte (8,1% da safra nacional).

Todas essas movimentações da safra foram viabilizadas pela disponibilidade de conhecimentos e tecnologias que estruturaram sistemas de produção mais eficientes e rentáveis e conduziram à concentração da produção. Em algumas situações, os fatores de mercado combinados com conhecimentos e tecnologias permitiram que os estados não só desenvolvessem suas aptidões agrícolas naturais e concentrassem a produção de bens históricos, bem como adotassem novas cultivos e criações típicos de outras regiões.

Em 2008, o Pará era o maior produtor de dendê (83%), de pimenta do reino (82%), de madeira em tora (54%), de búfalos (38%) e de mandioca (18%), e o segundo maior produtor de cultivos adaptados como o cacau (20,6%), o abacaxi (19%) e o côco-da-baía (12,7%). Mas era apenas o terceiro na produção de castanha-do-pará (21%), superado pelo Acre (35,7%) e Amazonas (30,1%).

A Bahia, além de já ser a terra do cacau (67%) e do côco da baía (30 %) e de adotar com sucesso a soja, o algodão e o café, se tornou o maior produtor de guaraná (57%), de mamão (48%), de manga (47,5%) e da banana (19%) e o segundo em dendê (17%) e seringueira plantada (13,8%).

Pernambuco se tornou o segundo produtor de goiaba (31,6%) e o terceiro de uva (12,1%). Ceará substituiu e concentrou a produção de castanha de caju plantada (48,6%) e a extração do pequi (48,8%), superando Minas Gerais e Goiás, e se tornou o segundo produtor de melão (38%), logo atrás do Rio Grande do Norte (43,2%).

A lista de produtos inclui itens desconhecidos pela maioria das pessoas tais como casca de angico e de barbatimão, palha de buriti, pó de palha de carnaúba, piaçava e nó de pinho, outros pouco conhecidos como triticale e tungue, e outros ainda, como o açaí, que se tornaram conhecidos fora de suas regiões.

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Repórter no Paraná Portal
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