Atraso de caminhões em áreas de fronteira ameaça preços de alimentos no Brasil

Leonardo Vieceli - Folhapress

Atraso de caminhões em áreas de fronteira ameaça preços de alimentos no Brasil

Uma alteração recente nas regras de inspeção de alimentos importados de origem animal retém caminhões em pontos de fronteira e atrasa o abastecimento de mercadorias no Brasil, dizem empresários.

Caso não haja uma melhora na situação, a perspectiva é de uma nova pressão sobre os preços, segundo eles. A importação de produtos mais perecíveis é a principal preocupação. Pescados congelados, como salmão e merluza, estão entre as cargas mais sensíveis.

A mudança nas regras em questão entrou em vigor no dia 18 de agosto. Com isso, equipes da Vigiagro (Vigilância Agropecuária Internacional), ligada ao Ministério da Agricultura, passaram a fazer tanto a fiscalização documental quanto a reinspeção das cargas de alimentos de origem animal nas áreas de fronteira.

Antes da alteração, o órgão realizava apenas a primeira etapa da fiscalização. Os procedimentos de reinspeção eram feitos pelo SIF (Serviço de Inspeção Federal), já nas fábricas.

Na época da mudança, o governo federal afirmou que a medida buscava desburocratizar e agilizar os processos de liberação das cargas de produtos de origem animal.

O problema, na visão de empresários, é o número insuficiente de fiscais para dar conta do trabalho. Assim, há relatos de caminhões que aguardam cerca de 30 dias para atravessar áreas de fronteira, indica Christiano Lobo, diretor-executivo da Abipesca (Associação Brasileira das Indústrias de Pescados).

Segundo ele, a situação mais preocupante no momento é a verificada nos municípios gaúchos de São Borja e Uruguaiana. Pela região, são transportadas mercadorias vindas de Argentina, Chile e Uruguai.

“O ministério [da Agricultura] visava um ganho de tempo ao transferir para as fronteiras todo o processo de reinspeção, mas hoje vemos caminhões retidos. Isso gera desabastecimento. Lutamos para que a proteína animal fique mais barata, e não mais cara”, afirma Lobo.

O dirigente ressalta que quase todo o salmão consumido pelo Brasil vem do Chile. Com a demora nas fronteiras, os custos de transporte ficam mais elevados para a indústria, pressionando os preços até o consumidor final, aponta Lobo.

“Tem caminhão com atraso de 30 dias. Todos estão ficando de cabelo em pé”, menciona o dirigente.

Thamires Quinhões, diretora-executiva da Abrapes (Associação Brasileira de Fomento ao Pescado), também aponta uma lentidão maior nos processos após agosto, além de uma ameaça para os preços.

“Passamos a ter mais relatos de lentidão, de um processo mais moroso para ser finalizado”, diz.

Em nota, o Ministério da Agricultura afirma que “alterou em agosto o processo de importação de produtos da área animal com o objetivo de reduzir o custo com deslocamento de servidores e agilizar a internalização de produtos, reduzindo assim o custo para o setor privado”.

“Após perceber atrasos nos processos por causa das mudanças, o Mapa [Ministério da Agricultura] acionou um plano de contingência, priorizando processos de animais vivos e pescados frescos. Também foi feita uma mudança no sistema, priorizando também o modal rodoviário, que estava sendo afetado”, diz.

A pasta indica que a demora de mais de dois dias em áreas de fronteira pode ocorrer por diferentes razões. Entre elas, estão “problemas na documentação” das cargas e “questões relacionadas à falta de pessoal suficiente para realizar a inspeção física e à retenção da mercadoria para aguardar análise laboratorial”.

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