Mel de abelhas sem ferrão pode ser vendido por preço quatro vezes maior

Mariana Ohde


O mel produzido por abelhas nativas do Paraná já pode ser vendido em todo o Brasil. A Associação de Meliponicultores de Mandirituba (Amamel), na Região Metropolitana de Curitiba, foi a primeira entidade paranaense a conseguir a certificação do Serviço de Inspeção Federal (SIF).

A abelha nativa do Paraná tem o diferencial de não ter ferrão e de produzir um mel mais fluido, porque em geral, possui menos açúcares. No Brasil, existem 300 espécies do inseto, sendo que 35 delas estão no estado. Sua criação – a meliponicultura – pode trazer vantagens para os produtores.

De acordo com o produtor e vice-presidente da Amamel, Benedito Uczai, as perspectivas da produção de mel nativo são positivas para este ano. “Vai ter uma grande produção de mel de abelhas nativas em todo o estado, no Sul e no Brasil inteiro, porque existe uma efervescência positiva de meliponicultores criando abelhas, universidades fazendo estudos de mestrado, doutorado, na linha das abelhas nativas. Isso é muito bom. O mel da abelha sem ferrão é um mel diferenciado em seu aroma, textura, sabor. É um mel único no mundo”, explica.

As abelhas nativas produzem pouco mel na comparação com as abelhas que possuem ferrão. Cada família de abelhas sem ferrão é composta, em média, por 300 indivíduos, que produzem 1,5 kg por ano. Uma família de abelhas comuns, formada por 80 mil insetos, fabrica de 40 kg a 50 kg de mel por ano, em média.

Por isso, enquanto o quilo do produto convencional é vendido por cerca de R$ 30, o quilo do mel das abelhas nativas pode ser vendido por R$ 120. Por causa da ausência do ferrão, o manejo também é mais simples, sem riscos de acidentes.

“O mel pode ser usado como produto medicinal. Os restaurantes também estão, agora, conhecendo este produto e o utilizando”. As abelhas sem ferrão costumam visitar diversos tipos de plantas. Algumas produzem mel mais amargo, ácidos ou até mesmo mais salgados.

Para os estabelecimentos comercializarem seus produtos em território municipal, eles precisam de autorização da Vigilância Sanitária. A venda dentro do Paraná deve ser autorizada pela Adapar. Já o direito de comercializar em esfera federal deve ser emitido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Mercado promissor

O crescimento da apicultura comercial fez com que a criação de abelhas nativas sem ferrão perdesse a força. E a representatividade no Paraná ainda é pouca: até o fim deste ano, a Amamel espera produzir 1.500 kg de mel de abelhas sem ferrão. O valor representa apenas 0,02% da produção do mel tradicional do Estado, que, em 2015, foi de 6,2 mil toneladas, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral).

Porém, este é um mercado com potencial. Isso porque a Resolução Federal nº 346 de 2004, que disciplina a utilização das abelhas nativas em território nacional, está sendo revista pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). O secretário-executivo da Câmara Técnica de Meliponicultores, Humberto Bernardes, acredita que isso deve impulsionar o setor.

“A previsão é a de que, a partir de agora, existem melhores condições para a criação dessas abelhas sem ferrão. Ela deve se desenvolver mais porque, agora, mais pessoas, entidades, e uma nova maneira que o pessoal está explorando essa cultura comercialmente, vão vir à tona. Uma nova resolução vai trazer todos esses benefícios”, afirma.

Além da resolução federal, há também o Projeto de Lei nº 225/2016, que dispõe sobre a criação, o manejo, o comércio e o transporte de abelhas sociais nativas no Paraná (abelhas sem ferrão), que deve ser aprovado ainda neste primeiro semestre.

No início deste ano, a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) também deu um grande passo na direção da expansão do mercado paranaense: a criação da portaria nº 63 de 2017, que regulamenta a identidade e os requisitos de qualidade que deve apresentar o mel de abelhas sem ferrão destinado ao consumo humano aqui no Paraná.

“A partir deste regulamente, ficará mais fácil para o produtor tentar um selo nacional para comercialização dos seus produtos”, conta o técnico Valcir Inácio Wilhelm, responsável pela área de meliponicultura e recursos naturais do Centro Paranaense de Referência em Agroecologia.

Meio Ambiente

Humberto destaca, ainda, que a produção de mel a partir de abelhas nativas é uma atividade sustentável e que auxilia no equilíbrio do ecossistema, pois elas possuem um papel primordial na polinização de diversas espécies de plantas. “O papel mais importante das abelhas nativas sem ferrão é a polinização”, explica.

Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado em 2016, alertou para o desaparecimento das abelhas do planeta. Os motivos são o uso excessivo de pesticidas e o desmatamento. Caso elas sumam do planeta, toda a atividade agrícola do mundo corre risco, pois as abelhas são responsáveis por polinizar 80% das plantas do mundo.

“As abelhas têm um papel silencioso e essencial para a manutenção e promoção da biodiversidade”, diz o técnico Valcir Inácio Wilhelm, responsável pela área de meliponicultura e recursos naturais do Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA), pertencente à Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento. “O mais importante, antes de qualquer coisa, é buscar informações sobre a área e se atualizar sempre”, diz ele.

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Mariana Ohde
Repórter no Paraná Portal