Estudo financiado por sojicultores minimiza riscos do glifosato

Folhapress


Levantamento realizado por pesquisadores da Unicamp minimiza os riscos de contaminação e danos à saúde de quem atua diretamente com herbicidas que têm como princípio ativo o glifosato, atualmente com seu uso proibido por ordem da Justiça Federal.

O estudo, que envolveu a análise da urina de 30 trabalhadores rurais de uma das principais regiões produtoras de grãos de Mato Grosso, constatou traços do produto em apenas 11% das amostras e, ainda assim, em quantidades inferiores aos limites estabelecidos pela Anvisa. Todos tinham histórico de exposição ao pesticida por longos períodos.

Os resultados foram apresentados nesta sexta-feira (24) em Cuiabá, em coletiva de imprensa convocada para a sede da Aprosoja-MT (Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso), entidade que reúne os produtores do Estado e que financiou parte da pesquisa.

“A Aprosoja arcou com os custos de reagentes e materiais para analisar essas amostras. E o sindicato rural indicou os trabalhadores, segundo os nossos critérios de inclusão e exclusão”, relatou o professor Paulo Cesar Pires Rosa, químico industrial e farmacêutico que orientou o estudo.

Segundo ele, o levantamento é preliminar, por envolver um universo reduzido de trabalhadores, mas seus resultados permitem “desmistificar” os riscos relacionados ao uso do composto produzido pela Monsanto, comprada recentemente pela Bayer.

“O glifosato não é cumulativo. Depois de três horas da exposição, é praticamente todo eliminado do organismo. Os resultados mostraram isso de forma inequívoca”, afirmou.

A coleta das amostras ocorreu entre agosto e setembro de 2017 no município de Nova Mutum (245 km de Cuiabá), grande produtor de soja e milho do Estado. Foram selecionados e cadastrados voluntários, homens e mulheres de 20 a 50 anos, que tiveram exposição ao produto por períodos que variaram de 15 dias a até 10 anos -a média entre os participantes foi de 30 meses.

Cada um forneceu três amostras, que foram coletadas antes, durante e após a exposição ao glifosato. O material foi levado ao Laboratório de Análises Toxicológicas em Materiais Biológicos (Labtox), da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

Os resultados indicaram a presença de resíduos do glifosato em 11% das 90 amostras. Mas, segundo o estudo, “nenhum dos casos ultrapassou os valores permitidos, estabelecidos a níveis nacionais e internacionais”.

“De acordo com órgãos reguladores nos Estados Unidos, consideram como Ingestão Diária Aceitável (IDA) de glifosato 1,75mg/kg/dia. Na União Europeia esse limite é de 0,3mg/kg/dia. O maior valor encontrado nas amostras foi de 0,007mg/kg, enquanto que no Brasil, de acordo com a Anvisa foi estabelecida uma IDA de 0,042mg/kg (42ng/mL)”, diz um trecho do relatório.

Nas amostras positivas, outro ponto que chamou a atenção dos pesquisadores foi a inexistência de correlação entre o tempo de exposição e a proporção dos resíduos na urina dos trabalhadores.

“O nível mais alto encontrado foi obtido do candidato nº 19 (7,13ng/mL) com tempo de exposição de 1 ano e 9 meses, enquanto que o candidato de nº29, com um tempo de exposição de 10 anos, não obteve nenhum nível de resíduo quantificável”, diz outro trecho.
No início de agosto, a juíza federal substituta da 7ª vara do Distrito Federal, Luciana Raquel Tolentino de Moura, determinou que a União não conceda novos registros de produtos que contenham o glifosato como ingredientes ativo.
A decisão atendeu a um pedido do Ministério Público Federal, que defende uma reavaliação toxicológica desses produtos, considerando os riscos à saúde e ao meio ambiente.
Recentemente, a Monsanto foi condenada por um juri da Califórnia a indenizar em US$ 289 milhões (R$ 1,1 bilhão) um trabalhador rural que alega ter desenvolvido câncer em razão da exposição prolongada ao glifosato.
O vice-presidente da Aprosoja, Fernando Cadore, qualificou a decisão da Justiça brasileira como “totalmente equivocada do ponto de vista científico”.
“É baseada em questões ideológicas, sem nenhum embasamento técnico”, avaliou.
Segundo ele, a análise apresentada pela mostra a “realidade” sobre o produto e sua importância para a “agricultura sustentável”.
“O Brasil e o mundo não conseguem voltar à enxada. Se não for possível usar o glifosato, terão que entrar outros produtos, com misturas muito mais perigosas do ponto de vista toxicológico. Seria mais maléfico que benéfico”.
Presente ao evento, o procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho em Mato Grosso (MPT), Marcel Bianchini Trentin, disse que os resultados do estudo apresentado pela Unicamp têm que ser analisados com cautela.
“Temos outras pesquisas e resultados vinculando esses produtos a doenças e resíduos nos rios, nos peixes, na urina de crianças e no sangue de trabalhadores. É a primeira vez que vejo uma que fala que está tudo bem”, afirmou Trentin, que é coordenador do Fórum de Combate aos Efeitos dos Agrotóxicos em Mato Grosso.

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